segunda-feira, dezembro 28, 2009

A 8ª EFERVESCÊNCIA Plástico Lunar é de Aracaju, capital de Sergipe. Um Estado do Nordeste que não é muito comentado em termos de música. Se eu pedir pra você citar uma banda ou artista de lá não será muito fácil, não é?
A pergunta da jornalista Viviane Menezes está no ar há 4 anos, desde que ela postou no site Coquetel Molotov uma entrevista c/ Léo Airplane e Plástico Jr. [que na época assinava ‘Bicho-Grilo’]. Mas o menor estado da federação tem algumas bandas bem sacadas no cenário underground nacional:
Karne Krua, grupo punk do incansável Sílvio Sartana [foto], resiste desde a era do vinil e não dá sinais de extinção, como todos vimos após o Guidable. Lacertae, psicodelismo de Lagarto [sertão sergipano], e Snooze, ícone indie local, estão aí desde os anos ’90 – os lacertaes Deon & Tacer participaram da coletânea Brasil Compacto, da Rock It!, e lançaram Berimbau de Cipó Imbé em 1999, um ano após o 1º disco dos irmãos “snoozers” Fabinho & Rafael, Waking Up/ Waking Down, que já gravaram mais 3 desde então. O reggae-roots-favela da Reação despontou no início da década de 2000 c/ canções fortes emplacando nas rádios locais, como ‘Azul e Vermelho’, e está c/ seu CD independente na praça, Na Força da Fé. O duo The Baggios começa a ficar conhecido após uma pequena tour nordestina e show no Festival DoSol. Naurêa tem disco, DVD e já viajou 3X p/ a Europa. Alapada e Rockassetes mudaram-se p/ São Paulo mirando no mercado pop...
E tem a Plástico. “A Plástico Lunar é uma banda muito comentada por aqueles que entendem de psicodelia e rock tradicional em nosso país. O Senhor F, Fernando Rosa, Luis Calanca da Baratos Afins, são alguns entusiastas desse grupo”, escreveu Viviane em 12/10/05. Corta p/ 2009.
GARGANTAS DO DESERTOO clipe da faixa 10 do álbum Coleção de Viagens Espaciais é lançado na madruga de 20/12 durante a Sessão Notívagos, no Cinemark do Shopping Jardins. Uma estréia tumultuada, começando c/ uma pequena treta entre 2 dos produtores [não, eu não era um deles], passando pela exibição do vídeo na sala 7, c/ som ‘estalando’, ANTES do filme principal – Shine a Light – quando deveria ter sido exibido DEPOIS na sala 8 – o que acabou ocorrendo, porém sem a mesma ‘mágica’ de uma estréia perfeita, e c/ as luzes de apoio no corredor acesas. Fade a light, porra!..
‘Gargantas do Deserto’ é um videoclipe rodado c/ orçamento zero. O programador de sistemas Ricardo dos Santos, o Bebegás, surgiu c/ a idéia, o roteiro e uns efeitos gráficos produzidos numa câmera hi-8; a AP.TV entrou c/ a infra e cedeu os cinegrafistas Junior Guedes e Manoel Gonçalves; eu fiz a luz de estúdio, dirigi as cenas e montei os takes; André Franco, o Ruivão, equalizou as imagens no After Effects. E Roberto Nunes, do Cine Cult, viabilizou o lançamento na Notívagos. Tudo na base da ‘brodagem’. Assim como os figurões citados pela jornalista paulista, nós também somos muito fãs da Plástico.
Que está em nova fase, reestruturando-se após a saída do vocalista principal, Daniel ‘T-Rex’ [foto]. Plástico Jr. e Julico Andrade, baixo e guitarra, estão segurando a onda da banda, compondo novas canções e adaptando as antigas: ‘Gargantas...’, ‘Coleção...’, ‘Moderna’, ‘Banquete dos Gafanhotos’ e ‘Quarto Azul’ entraram no repertório que eles apresentaram no saguão de entrada do cinema, após o filme & o clipe. “Estamos trabalhando vocalizações e pondo todo mundo pra cantar”, disse o genial Jr. na entrevista p/ o Programa de Rock, no dia anterior. Sozinho, ele compôs 4 das 13 músicas do disco, e colaborou em outras 4.
A Plástico Lunar vai passar a virada de 2009/10 no festival Psicodália, em Santa Catarina, onde tocarão pelo 2º ano consecutivo. Não poderia haver réveillon melhor p/ esses caras. A seguir, a sensacional entrevista de Léo e Júnior p/ o Coquetel Molotov em 2005, na qual os 2 chapados estabelecem novos patamares p/ a psicodelia na Era de Aquário. De bônus, o vídeo de ‘Gargantas do Deserto’, 2009.
BOA VIAGEM [no tempo]

Viviane Menezes - De onde vem essa ligação da banda com o rock do final dos anos 60 e dos anos 70?
Plástico Jr. - Coisas da alma... Lá em casa sempre rolou muita Jovem Guarda, Os Pholhas, Raul e outras velharias. Existe uma identificação muito forte com a sonoridade daquela época, e mais, não só com o rock, mas com todo aquele momento! O período de 1966 a 1972 representou uma época sem paralelos em toda história da humanidade. O mundo ocidental presenciou uma série de movimentos simultaneamente. Uma verdadeira revolução de comportamento e na forma de pensar das pessoas acontecia. Uma revolução musical, social e ideológica. Houve a quebra de vários tabus e um novo conceito de comunidade foi erguido e o melhor foi que não ficou só no papel. As pessoas, de fato, praticavam a harmonia, a paz e o amor. Aconteceu na Inglaterra e se espalhou pela Europa... Paralelamente acontecia nos EUA o movimento Hippie, e da América para o resto do mundo! Foram anos mágicos. Pensadores da época chegaram a afirmar que uma nova ordem havia surgido e os hippies iriam dominar o mundo (apesar de não ser isso que se pretendia). Claro que não aconteceu! Mas os reflexos daquele movimento influenciam os jovens atuais e continuará por gerações e gerações. Também quero ver meu filho cantando ‘All You Need Is Love’.
VM - Qual o grande barato da Plástico Lunar? Fazer esse tipo de som que vocês fazem é mais que música, mas talvez uma filosofia de vida?
PJr - De fato, o rock não é apenas um tipo de música. É um estilo de vida... Mexer com psicodelia é ainda mais profundo. O rock psicodélico tende a afetar outros sentidos além da audição e convidar o público a uma visita no jardim do psíquico, seja com ruídos e microfonias, letras reflexivas ou com uma complexa combinação de acordes, porém não nos importamos muito se as pessoas conseguem ou não entender a viagem de nossas músicas. Não importa! Gostamos de estar na noite tocando e nos divertindo. A Plástico Lunar foi formada com o propósito inicial de diversão, queríamos apenas encher a cara em dias de shows e fazer rock’n’roll sincero, desapegado a modismos e tendências impostas pelas rádios. Hoje, já esperamos algumas coisas a mais de nossa arte. Afinal, tenho 23 anos [hoje, 27] e já percebi que não sirvo para trabalhar em um escritório, porém as pretensões não influenciam no som da banda. Gostamos de tocar e tocamos o que gostamos!
VM - Entendo. Mas é muito complicado fazer esse tipo de música no Brasil, onde muitas vezes o pop mais acessível é que tem vez na grande mídia...
PJr - No nordeste a complicação ainda é maior! Êta cultura de pandeiro que sufoca qualquer outra manifestação artística! Mas no Brasil como um todo, até que as coisas estão melhorando. Claro que existe a chamada “indústria da arte” que serve para vender produtos independentemente de sua qualidade. Mas isso não rola só no Brasil, é uma tendência global, faz parte do capitalismo. Porém existe a mídia alternativa (é aí que entra a Coquetel Molotov, por exemplo) que desempenha um papel importantíssimo na divulgação da arte com poucas máscaras. Hoje no Brasil, os selos independentes já são responsáveis por mais de 50% da produção fonográfica, a Internet está quebrando as grandes gravadoras. E Sandy & Júnior continuam no Faustão, que fiquem por lá mesmo!
VM - Você já falou um pouco do que te influenciou quando pequeno, mas você poderia citar mais alguma coisa?
PJr - Por opção própria de pegar uma fitinha do meu pai e colocar no som, eu escutava Beatles pra caralho. Perdi (ou ganhei) muito tempo da minha infância só escutando Beatles, depois vieram os Stones, Pink Floyd e Doors. Aí eu virei adolescente! Meu pai gostava muito de música, então eu cresci escutando, por tabela, Caetano, Novos Baianos, Chico Buarque, Zé Ramalho, Toquinho. Rolava também coisas, como ele mesmo dizia “da pesada”, tipo: Creedence Clearwater Revival e Chuck Berry...
VM - E o que você escuta hoje? Será que mudou?
PJr - Não mudou! Apenas se expandiu. Apesar de ter me afundado em bandas garageiras toscas dos anos 60 tipo Iron Butterfly e Love, eu atualmente tenho escutado mais "roque" do que "rock". Curto psicodelia nacional dos anos 70: O Som Nosso de Cada Dia, Casas das Máquinas, O Terço, Ave Sangria, A Barca do Sol, entre outras coisas desse tipo.
VM - Como são as gravações e o trabalho de divulgação de vocês?
PJr - As gravações são simples, nosso tecladista Léo Airplane tem um laboratório sonoro em casa. É lá que ficamos horas explorando ao máximo os ruídos de nossos equipamentos! A divulgação é feita na cidade por amigos e em shows da banda.
VM - E o que vocês podem me falar de Aracaju? Nunca estive aí...
Léo Airplane - O povo daqui tem o mau costume de nunca querer pagar pra ver artistas locais. Sempre reclamam que não rola nada aqui, mas quando a gente cobra míseros R$ 3,00 de ingresso fica todo mundo na porta da casa e não entra.
VM - Vamos falar de outras coisas... Alguma história engraçada ou interessante sobre os palcos?
PJr - Várias! Já entramos em tantas frias tocando...
LA - Mas por isso toda banda iniciante passa; tocar em som tosco, palco com goteira, bêbados que sobem no palco pra cantar com a gente... As histórias engraçadas são sempre protagonizadas por nosso baterista Marcos Odara. Às vezes ele inventava de fumar um cigarro durante uma música! Era cigarro numa mão e baqueta em outra, e leva assim a música. Ele também é mágico, no intervalo entre duas musicas, ele sempre materializa um copo de cerveja ou um cigarro aceso...
VM - E a inspiração para as roupas? Já copiaram algum modelito de algum artista daquela época?
PJr - Roupas? Sei lá... Jeans? Curto cores, de vez em quando rolam uns óculos psicodélicos ou um paletó colorido!
VM - O que inspira vocês na hora de compor?
PJr - Reflexões e experiências mentais, principalmente!
VM - Alguma outra vertente do rock ou fora dele que está no som da banda e ainda não foi percebido pelo público ou imprensa?
PJr - Dentro do rock, a Plástico passeia por várias vertentes: o progressivo, o hard rock, o mod, entre outras. Fora dele, mas não tão fora assim, tocamos jazz, blues e outros estilos mais exóticos. Eu, particularmente, gosto muito de ritmos circenses e de música celta. Também me amarro em rock rural mineiro com aquelas pegadas "güarânias"!
VM - Quais outras bandas semelhantes à de vocês estão fazendo um trabalho interessante?
PJr - Tem uma rapaziada aí no país fazendo "rock retrô". Criaturas (PR), o Júpiter Maçã (RS), Mordida (PR), a Laranja Freak (SC), Cachorro Grande (RS)... Estamos muito bem servidos de som!
LA - Tem também a Volver (PE) e Rockassetes (SE) que seguem uma linha retrô Jovem Guarda...
VM - Se você pudesse entrar em uma máquina do tempo, para qual época e qual momento você iria? Eu iria para Paris dos anos 60...
PJr - Que legal! Posso escolher o local! Então vamos lá! Uns 400 a.C. na Grécia Antiga, talvez! Tá bom! É mentira! Não queria ser condenado a tomar uma dose de cicuta por viajar demais. Eu iria mesmo era para o subúrbio de Londres em 1966, procurar alguma boate bem tosca ou, quem sabe, para São Francisco em agosto de 67, ficar fazendo bolhinhas de sabão durante todo aquele verão do amor!
VM - Poderia citar com comentários os cinco discos mais bacanas para você?
PJr - Putz! Que injusta essa pergunta! É difícil listar 5 discos sem sacrificar outros 100 clássicos indispensáveis pra mim, mas vamos lá:
Que tal começarmos pelo The Piper at the Gates of Down e toda aquela trip hipnótica "Syd Barrettiana"? Então, lançado em 1968, esse foi o primeiro disco do Pink Floyd e na minha opinião o melhor, o disco é cheio de climas mágicos, aborda temas mitológicos lisérgicos. É possível ir pra longe com esse disco, altamente chapado!
White Álbum: sendo Beatles não há muito que comentar, esse disco é lindo, profundo, melancólico e caótico!
Casa de Rock (Casa das Máquinas): disco clássico do rock nacional, há momentos de puro hard rock curto e grosso, e alguns momentos mais reflexivos e progressivos.
Their Satanic Majest Request (The Rolling Stones): o álbum mais psicodélico dos Stones, lançado em 1967, ele foi a resposta da banda para o Sgt. Peppers Lonely Heart Club Band.
Snegs (O Som Nosso de Cada Dia): um dos melhores discos de rock progressivo da história foi gravado por brasileiros. Apesar de ser pouco conhecida por aqui, essa banda é extremamente cultuada na Europa e demais centros “cult”. O ‘Snegs’ é um disco viajado, virtuoso, muito bem arranjado e executado. Nele, seus 3 integrantes passeiam por compassos complexos e climas reveladores.
FOTOS DAS BANDAS EM AÇÃO POR ARTHUR SOARES & VÍTOR BALDE [SNAPIC], DURANTE AS SESSÕES DOS FILMES LÓKI [AGOSTO] E GUIDABLE [OUTUBRO] – EXCEÇÃO DA QUE ABRE O ‘POST’, POR VIVA LA BRASA

Um comentário:

EXP. disse...

Belo clip,Brasa!