quarta-feira, dezembro 09, 2009

ATIRE NO DRAMATURGO Entendam que é difícil pra mim. O telefone toca, mas eu não quero levantar. Deixei ‘Stranded’ do Van Morrison no repeat. Tem uma igreja medieval em cima da minha barriga e algumas orações que aprendi com meus avós na minha cabeça, mas parece que elas não me valem nada. Ainda sinto o gosto do ‘Passport pro inferno’. Preciso parar de ir pro Estrela da Roosevelt (o último refúgio que nem sempre nos recebe muito bem). Vou jantar com o Lobo e a Mariana. Bons presságios. Acho que vou ganhar um Jameson hoje. Um Green Label na minha casa e eu bebendo Passport pro inferno. [...]

UMA FÁBULA PODRE

Mário Bortolotto é um dramaturgo de Londrina [PR] radicado em São Paulo que dirige e atua nas próprias peças, que costumam ter nomes legais como O Natimorto, Transas Mil, Fica Frio, Fuck You Baby, À Meia Noite um Solo de Sax na Minha Cabeça, Deve Ser do Caralho o Carnaval em Bonifácio, Será que a Gente Influencia o Caetano, A Louca Balada de Lou Reed e Feliz Natal Charles Bukowski. Eu não gosto de teatro. Mas respeito qualquer fã de Bukoswki que escreva bem e leve um estilo de vida condizente. Eu tento. Bortolotto consegue.

Tô doente e meu humor não anda bom. Então, insone e rabugento, resolvo assistir ao Programa do Jô. É claro que meu humor não vai melhorar”, escreveu no Digestivo Cultural em novembro de 2004: “O Jô Soares entrevistou a Mel Lisboa. Pelo pouco que conheço, gosto dela. É uma garota tranqüila. Participou da montagem de um texto meu no Rio de Janeiro. Uma montagem feita na base da ‘brodagem’, sem grana, etc. [...] Mas voltando à entrevista da Mel, ela disse que suas fotos na Playboy foram inspiradas na interpretação que Ornella Mutti fez da personagem Cass no filme Crônica do Amor Louco, baseado na literatura de Charles Bukowski. [...] O que acontece é que aí o Jô colocou uma cena do filme no telão e demorou pra reconhecer o filme. Sei lá, acho que o ponto dele tava dormindo. O que eu acredito é que, quanto mais o sujeito ganha dinheiro, menos tempo ele vai tendo pra procurar se informar. Porra, o filme é um clássico. Pra mim, é a mesma coisa que passar uma cena de Gene Kelly dançando com o guarda-chuva e o figura não reconhecer de que filme se trata. Desculpa aí.

Boêmio, admirador da geração beat – seu 1º grupo, Cemitério de Automóveis, foi batizado em citação ao poema Obligatto do Bicho Louco, de Lawrence Ferlinghetti – , Mário é um dos responsáveis pela revitalização da Praça Roosevelt, através dos Satyros e dos Parlapatões, sua atual companhia teatral. Quase todas as suas peças foram publicadas por editoras pequenas, num total de 4 livros. Além dessas coletâneas, lançou os romances Mamãe Não Voltou do Supermercado [Atrito Art Editorial, 1996] e Bagana na Chuva [Ed. Ciência do Acidente, 2003]. Seguindo o trilho do Bukowski, também arriscou suas poesias no livro Para os Inocentes que Ficaram em Casa [Atrito Art, 2004].

OPALA x CHEVROLET

Bortolotto é um autor bêbado & punk. Adepto do estilo ‘faça-você-mesmo’, ele monta e dirige seus textos sempre no esquema independente. “O Mário Prata me chamou pra fazer a novela Bang-Bang”, disse à revista EleEla em novembro de 2008: “Aceitei porque sou amigo dele, mas quando soube que o Luís Fernando Carvalho tinha deixado a direção, resolvi desistir também. O Ricardo Waddington não conseguiu compreender como eu estava recusando algo na Globo. A Globo nunca foi importante pra mim.

É um escritor à margem do que se convencionou chamar ‘produto cultural’”, definiu a revista literária Etcetera: “Bortolotto não faz concessões ao seu trabalho, não se deixa envolver pela tal cultura da sobrevivência e é radical em sua forma de fazer teatro. Suas personagens, verdadeiros outsiders, possuem singularidade e autenticidade ímpares, o dramaturgo escreve com grande conhecimento de causa pois é com essas figuras que convive, muito embora negue a aura de maldito que lhe é atribuída. Seu texto é extremamente político, na melhor acepção da palavra, sem jamais ser panfletário. Crítico sarcástico e feroz de toda a hipocrisia da sociedade, parte do indivíduo para falar do coletivo.

No ano 2000, ganhou o Prêmio APCA pelo conjunto da obra. Em 2001, o Prêmio Shell de melhor autor por Nossa Vida Não Vale um Chevrolet, peça que foi adaptada p/ o cinema e virou o filme Nossa Vida Não Cabe num Opala, dirigido por Reinaldo Pinheiro e marcado por ser o último trabalho de Dercy Gonçalves. “Começou a acontecer isso agora, depois que eu montei meus próprios textos e coloquei na praça”, disse o autor: “Não foi nenhum diretor ou produtor famosos que vieram atrás de mim e falaram ‘olha, deixa eu montar o seu texto’.

Vale dizer que Mário não gostou da adaptação, apesar de ter feito uma ponta no filme: “Já cansei de falar que é um filme fraco a começar pelo roteiro e com pouca compreensão do universo abordado. Tudo o que o Bruno Bandido sacou da minha peça Uma Pilha de Pratos na Cozinha, por exemplo, é exatamente o contrário do que foi entendido pelas pessoas responsáveis pelo filme Nossa Vida Não Cabe num Opala, a começar pelo título, que originalmente é Nossa Vida Não Cabe num Chevrolet. Exatamente o contrário do que queria dizer.

BRUTALDesde outubro, Bortolotto estava em cartaz c/ a peça Brutal, c/ elenco eminentemente feminino e participação especial de Paulo César Pereio, o mais notório outsider da dramaturgia brasileira, montada no Espaço Parlapatões na praça Roosevelt, seu reduto. O mesmo lugar onde tomou 3 tiros na madrugada de sábado, 05/12, após reagir a uma tentativa de assalto. Ele e o músico Carlos Carcará, que também levou 1 tiro, foram internados no Hospital Sírio Libanês, onde foi submetido a cirurgias p/ retirar projéteis de seu abdômen e estancar uma hemorragia interna.

Tudo isso pros caras levarem um paletó e um molho de chaves. Como escreveu o próprio Mário: “Gente vazia pode ser muito perigosa”. Ele está agora internado na UTI da Santa Casa de Misericórdia, “consciente e c/ estado clínico estável”, segundo o boletim médico divulgado nesta manhã: “Foi retirada a sedação, mas o paciente ainda continua sob efeito de analgésicos e respira com suporte de aparelhos”.

Mário Bortolotto tem um blog, Atire no Dramaturgo, de onde extraí o texto que abre esta postagem. Na noite de quinta, 03/12, ele havia se apresentado c/ sua banda de blues Saco de Ratos. Formada em 2007, o grupo tem um disco lançado – Cachorros Gostam de Bourbon – e faz sucesso entre a mulherada, que costuma marcar presença florindo e perfumando seus shows. Na manhã de sexta, 1 dia antes de ser baleado, Bortolotto postou um texto intitulado A Dificuldade de Ir Até a Esquina e Esse Gosto de Passport pro Inferno:

[...] Eu voltei pro bar hoje. Eu sempre volto pro bar. Os amigos não acreditam quando me vêem entrando pela porta, de novo. Noite boa a de ontem. Grande show. Divertido pra caralho. Emocionante quando tinha que ser e divertido na hora certa. Os amigos se divertindo na platéia. E eu voltei pro bar. Quando ninguém mais acreditava que eu pudesse voltar, né? Mas eu sempre volto. Hoje recebo mensagens de outros amigos. Mas não quero levantar. Já ouviram ‘This Love of Mine’ do Van Morrison?

***

Eu andava nesse Opala 4 portas / Orgulhoso de minha velocidade / Cheirando gasolina e contrabandeando querosene / Sempre a um pneu do precipício

Eu andava com esse desejo envergonhado
De porrar alguém
Aí eu saí batendo
Um orelhão ameaçador
Uma caixa de correio homicida
Um hidrante cínico
Só pra ouvir o barulho de ovos se quebrando

Eu andava com essa arma na mão
E saía atirando só pra ouvir o estampido
Era um belo ruído
Minha audição treinada
Minhas fate pictures

Não há nada mais belo / que o barulho de um tiro / morte nenhuma me redime / viver tem sido meu único crime”

***

PARA ALGUNS A NOITE É AZUL

SEMPRE CERCADO DE BELAS MULHERES...

...E DOS MELHORES AMIGOS, COMO PEREIO

MONTAGEM DE BRUTAL: BOM GOSTO P/ ATRIZES

CANTANDO BLUES NA SACO DE RATOS...

...BANDA C/ A MELHOR PLATÉIA DO UNDERGROUND



Um comentário:

Álvaro Müller disse...

Por que ninguém atira no Arruda?
Alvilão Caninha.