sábado, dezembro 12, 2009

EDDIE IRIA Eddie Aikau foi um dos maiores surfistas de todos os tempos. A foto acima é de meados dos anos 70. Não sei quem registrou o momento, mas o sujeito deveria ser reverenciado igual ao Korda, o fotógrafo que fez aquela do Che que está em todas as camisetas. Esta aqui também é clássica e emblemática: Eddie dropa Sunset atrás do pico, surfando c/ a borda, provavelmente numa monoquilha, a tanta velocidade que o cabelo está voando pra trás. Reparem no estilo “cool under pressure”, calmo sob pressão, como diz o ditado gringo. Agora reparem no pé de trás: sem cordinha.
Acho que o autor foi LeRoy Grannis, um dos primeiros a fotografar surf de dentro d’água. Clique na foto e observe em detalhes a clareza da imagem, o foco no surfista, o enquadramento perfeito, c/ o lip no canto superior esquerdo antecipando o que está por vir e a magnitude do mar abaixo [e do céu acima] dando a idéia do tamanho da onda. Mestre. Ninguém lembra do LeRoy. Mas do Eddie ninguém esquece.
Ele passava horas dentro d’água, todas as vezes se posicionando lá fora no outside, onde pegava as maiores da série e as melhores ondas do dia”, escreveu em seu blog Rico de Souza, o brasileiro c/ mais temporadas havaianas sob os pés, lenda viva e testemunha ocular da história: Foi em 1972, em Sunset Beach, que o conheci, quando ele já arrepiava nas ondas grandes. Ele estava sempre na água, tanto nos dias grandes quanto nos pequenos. Eddie conhecia Sunset como ninguém e não era de falar muito, mas era super gentil e cumprimentava todos com seu sorriso franco e simples, passando a impressão de ser um cara bem tranqüilo e humilde.
Em 1972, Aikau ganhou o Smirnoff Classic, a competição mais rica da época, realizada em condições épicas em Haleiwa. “[...] tive o privilégio de ver o campeonato”, segue Rico: “Na grande final, Eddie deu um show de surf, com manobras radicais e seu estilo clássico entrando e saindo dentro dos enormes tubos, fazendo a platéia se levantar na praia e ir ao delírio.
GO FOR IT
Numa época em que o surf profissional ainda engatinhava, Eddie ganhava a vida como salva-vidas no North Shore. “A expressão inglesa ‘Eddie would go’ – que pode ser traduzida como ‘Eddie iria’ – passou a ser utilizada em situações gerais onde as pessoas se recusam a ir a determinado local por este ser demasiadamente perigoso, ‘você tem medo de ir, mas Eddie iria’. Tal frase alude aos resgates realizados por Eddie Aikau, muitas vezes arriscados e perigosos”, escreve Stuart Holmes Coleman no livro Eddie Would Go - A História de Eddie Aikau, Herói Havaiano.
A expressão virou slogan do Quiksilver in Memory of Eddie Aikau, evento sancionado pela ASP que acontece na baía de Waimea apenas em condições especiais: vento terral e ondas acima de 20 pés, algo em torno de 7 metros – no mínimo! Reservado a 28 convidados, durante muito tempo foi o campeonato c/ o prêmio mais alto do surf: US$ 50.000. Na década de ’90 a Quiksilver criou um evento similar em Mavericks, sinistro pico da Califórnia. Mas não tem a mesma tradição, nem a mesma atmosfera.
A competição em Waimea é um tributo a um herói morto. Prematuramente. Independente das baterias rolarem ou não, anualmente é realizada uma cerimônia em homenagem a Eddie, na qual vários surfistas, de convidados e alternates a locais e salva-vidas, reúnem-se na areia e em seguida entram no mar. É um ritual que acontece em dias flat, porque a idéia é todos sentarem em suas pranchas p/ formar um círculo de orações e jogar seus colares de flores na água ao final.
Em ’78, Eddie e mais 27 tripulantes partiram a bordo de um barco polinésio numa travessia do Havaí ao Tahiti. Seria a 2ª expedição da Sociedade Viajante da Polinésia c/ esse roteiro, que remetia à cultura das viagens ancestrais desses 2 povos irmãos. Mas a embarcação naufragou em alto-mar. Aikau saiu remando em sua prancha atrás de resgate na ilha mais próxima, e nunca mais foi visto. Tinha 32 anos.
COPA DO MUNDO
O 1º campeão do memorial foi ninguém menos que Clyde, irmão do Eddie, em 1985. Há uma história mítica sobre essa vitória. Rico conta: “[...] a baía de Waimea estava enorme e Clyde queria muito ganhar a competição e já nos minutos finais de sua bateria, que não estava tão boa para ele, viu uma tartaruga lá fora no outside, onde não havia quebrado nenhuma onda da série e ninguém havia se posicionado. Clyde entendeu que aquela tartaruga era um sinal de Eddie para se posicionar lá onde ninguém imaginava ficar. Clyde remou pro local e, do nada, veio uma série justamente ali. Ele surfou uma bomba e ganhou o campeonato.
George Downing venceu no ano seguinte. Nos anos 90 foi a vez de outro local, Noah Johnson, e de Paul Paterson, da Austrália. No início desta década, outros aussies: Tony Ray e Ross Clarke-Jones. Placar das 6 primeiras edições: havaianos 3x3 australianos. Todos os campeões especialistas em morras. Pra variar, o monstro Slater quebrou mais essa escrita, vencendo em 2002 – o 1º campeão do mundo e surfista de marolas a levar o troféu e o checão. Dois anos depois, outro aerialista dropou mais que todos: Bruce Irons, do Kauai.
Após 5 anos sem ser realizado por falta de condições ideais, o Quik In Memory aconteceu esta semana e foi vencido por outro fera da nova geração, Greg Long, canadense radicado em San Clemente [EUA]. É um título tão importante que foi até notícia no Jornal da Globo de terça-feira, que deu ênfase às espetaculares vacas dos competidores e ao vicecampeonato do Slater.
Pela primeira vez, um brasileiro foi convidado: Carlos Burle [foto], campeão mundial em ondas grandes em ’98 e vencedor do XXL Awards em 2005. O pernambucano representou a raça, fazendo 202 pontos em 400 possíveis e finalizando na 16ª colocação.
Mas quem roubou a cena foi outro sulamericano, o chileno Ramon Navarro, que ganhou US$ 2.000 pelo 5º lugar e US$ 10.000 do Monster Drop Award, prêmio pelo drop mais monstruoso e impossível completado durante a competição. “É um sonho pra mim!”, falou Navarro, que entrou no campeonato por indicação do amigo local Kohl Christensen: “Ele e Dusty Middleton me ensinaram a surfar na baía.
RESPEITO É UMA COISA…Numa disputa entre campeões mundiais como Tom Carroll, Sunny Garcia e Andy Irons, e feras do big surf como Brock Little, Peter Mel, Shane Dorian e Flea Virotsko, o título ficou c/ um estreante de 26 anos. “Isso aqui é uma celebração às ondas e ao oceano. É o que a gente faz: vai lá fora e surfa ondas grandes. O respeito e a camaradagem no line-up você não encontra em muitos lugares do mundo, e este evento encapsula tudo o que é legal no surf: as amizades que você faz na água esperando a próxima onda.”
Apesar da pouca idade, Greg é o maior fenômeno das ondas grandes desta década. Aos 19, venceu o Red Bull Big Wave Africa e ano passado passou o rodo: levou o campeonato de Maverick's e o XXL Awards. Mas no Eddie foi sua 1ª participação. “Eu já tava feliz só de ter sido convidado pro maior evento de ondas grandes do mundo c/ todos os meus heróis!”, disse o novo campeão, US$ 55.000 na mão. Parece muito aqui pra gente, mas é pouco diante do risco – e do show. Slater levou US$ 10.000 pelo 2º lugar, Sunny e Bruce, completando a final, US$ 3.000 cada.
A Hurley pagou US$ 100.000 a Brett Simpson e US$ 105.000 a Mick Fanning este ano, por suas respectivas vitórias nos eventos da marca válidos pelo WQS e WCT, realizados em ondas boas mas inofensivas na Califórnia. Waimea pode matar. Só p/ dar uma noção, o big rider havaiano Titus Kinimaka quebrou o fêmur ao ser acertado em cheio pelo lip, em 1990.
Quanto Eddie Aikau ganhou por sua vitória no Smirnoff em ’72? US$ 5.000, se muito? Quanto ganhava como salva-vidas? Será que ele pensou em algum tipo de lucro quando saiu remando no oceano em busca de ajuda p/ seus amigos, em algum ponto entre 2 arquipélagos separados por centenas de quilômetros?
HOKULE’APegar ondas grandes na remada é a última escala no surf, algo como atingir a faixa-preta. Envolve extremo esforço físico e risco de vida, exige respeito ao mar e ao próximo, sugere introspecção e reflexão. Em tudo isso, Eddie foi faixa-preta. E, em respeito à sua memória e go-for-it, passo a palavra a Rico de Souza. Ninguém melhor do que alguém que conheceu o homem p/ contar o final desta história:
Em março de 1978, quando viajei para a Austrália para disputar o campeonato Stubbies, embarquei num vôo charter com os havaianos. [...] No segundo dia de competição em Burleigh Heads, o mar estava perfeito e Eddie me chamou num canto e me revelou que estava voltando pro Hawaii para integar uma tripulação da canoa Kokule’a que iria fazer a travessia Hawaii-Tahiti a remo e sem nenhum instrumento de navegação moderno, apenas usando as estrelas como base, como faziam os antigos navegantes.
Como eu me relacionava bem com todos os havaianos e tinha uma comunicação boa, Eddie me pediu que ficasse viajando com Clyde no tempo em que estivéssemos na Austrália, pois depois iríamos pro Bells e depois pro Coke em Sidney.

Quando o a primeira etapa terminou, fomos para Bells, alugamos uma casa e ficamos mais amigos ainda e todos os dias saíamos pra surfar. Numa noite fria, logo após o jantar, eu e Clyde fomos dormir cedo, pois tínhamos de competir na manhã seguinte. No meio da madrugada, por volta das duas horas da manhã, acordei assustado com alguém esmurrando a porta. Levantei e fui ver o que estava acontecendo. Do lado de fora havia um sujeito que nunca tinha visto na vida, que me informou que havia recebido um telefonema do Hawaii de um familiar do Eddie dizendo que ele estava desaparecido há 10 dias, em um acidente durante a travessia de canoa.

Segundo as primeiras informações, a canoa tinha virado e Eddie teria sumido no mar durante a noite com ondas enormes no canal de Molokai. O homem estava ali pra informar sobre o acidente e pedir que Clyde voltasse imediatamente para casa.

Fiquei chocado, pois no meio da noite teria de acordar o Clyde pra dar-lhe essa noticia terrível. Contei aos poucos o que tinha acontecido e passamos o resto da noite conversando. Nós nos agarrávamos à idéia de que a equipe de busca encontraria Eddie e os outros tripulantes.


De manhã cedo Clyde voltou ao Hawaii, onde tomou conhecimento da trágica realidade de que o seu irmão Eddie, após a canoa virar, remou com sua prancha em busca de ajuda e nunca mais foi visto. O resto da tripulação foi resgatado e todos foram salvos.


Depois desse trágico episódio, o tempo foi passando e a minha amizade com o Clyde foi se fortalecendo. Surfamos juntos no Hawaii diversas vezes e tive a oportunidade de conhecer a casa onde ele passou a sua juventude, que ficava dentro de um cemitério chinês.


Só fui comentar esta triste história publicamente em 2004, no prefácio do livro Eddie Would Go, publicado pela editora Gaia. Passaram-se 26 anos até então e escrevi esse texto no avião com destino ao Hawaii para o lançamento da biografia do Eddie.
Fico triste em lembrar o episódio, principalmente porque fiquei muito amigo da família Aikau, o que aumentou ainda mais a minha admiração por Eddie.
EU SOU EDDIE
COM ESTILO E SEM CORDINHA
ENCAIXANDO NO TRILHO DE BACKDOOR
DROPANDO WAIMEA, AINDA NA ERA DOS LONGBOARDS
TODAS AS CENAS DE EDDIE EM AÇÃO POR LEROY GRANNIS
IN MEMORIAN
CARLOS BURLE, O 1º BRASILEIRO A PARTICIPAR DO MEMORIAL
A FOTO É BONITA MAS A VACA É FEIA
OLHA O TAMANHO DA ESPUMA EXPLODINDO ATRÁS DO SLATER
GREG LONG FAZ JUS AO NOME E SÓ VAI NAS MAIORES

EDDIE WOULD GO

Um comentário:

FUN disse...

Irada a postagem, várias fotos do Eddie que eu nunca tinha visto!!!!! Esses dias quando o mar ficou grande e rolou evento do "Eddie would go" a galera falou sobre a passagem do livro que o Clyde fala o lance da tartaruga.
O clip do J. ben jor eu já havia visto!!!!


Aproveitar para agradecer mais uma vez sobre a matéria que vc fez comigo, a galera se amarrou!!!!!
muito obrigado!!!!
abraço
fun