segunda-feira, dezembro 14, 2009

EXPLOSÃO PLÁSTICA INEVITÁVEL
DANIEL, DA PLÁSTICO LUNAR...
...EM SEQÜÊNCIA DE MARCELINHO HORA
Segue bravamente o seu caminho/ Rumo ao desconhecido/ Enquanto houver brilho no olhar...” O refrão de ‘Gargantas do Deserto’ define bem o momento da Plástico Lunar, banda sergipana psicodélica que caiu na estrada em 2009. Foram 2 turnês por 6 estados – a mais recente delas, Nordeste Fora do Eixo, excursionando c/ Macaco Bong, Burro Morto e Porcas Borboletas, todas bandas de São Paulo e Mato Grosso. Depois de passar por Fortaleza [CE], Natal [RN], João Pessoa [PB], Campina Grande [PB] e Maceió [AL], o circo se monta hoje à noite a partir das 19H na Rua da Cultura, em Aracaju, e segue amanhã p/ a última etapa, em Salvador [BA].
A Plástico existe há mais de 10 anos, tem 2 EPs independentes – Plastic Rock Explosion e Próxima Parada – lançados em 2003 e 2005, e o 1º disco, Coleção de Viagens Espaciais, lançado este ano pela Baratos Afins, gravadora paulista nascida de uma loja de discos que estreou em 1980 c/ nada menos que Singin’ Alone, de Arnaldo Baptista. A parceria entre a Baratos e a Plástico é antiga. Em 2001 o selo lançou a coletânea Brazilian Peebles vol.2 c/ “a nata do rock psicodélico brasileiro do terceiro milênio”, dizia o release. Os sergipanos entraram c/ a canção ‘Meu Jardim’, e roubaram a cena em apresentações em SP e no RJ.
Coleção de Viagens Espaciais é um disco de rock da melhor qualidade, direto e bem-tocado, poético e nervoso, divertido e bem-resolvido, que levou 10 anos sendo gestado. Por que tanto tempo? “A gente não tinha nada na cabeça, só queria saber de tocar bêbado, de encher a cara até de manhã cedo”, disse o baixista Plástico Jr. ao jornalista Rian Santos, do Jornal do Dia, antes do show da banda no Festival DoSol, em Natal. “Se o Coleção [...] tivesse saído antes, a gente provavelmente não ia saber o que fazer com as respostas que conquistamos. Hoje, a gente pode lidar com isso um pouco melhor.
FORMATO CEREJAPlástico Lunar é um grupo que impressionou até Jorge Du Peixe, quando abriu p/ a Nação Zumbi há 2 anos, na mesma Rua da Cultura em que tocará hoje. “Muito boa, essa banda!”, disse o vocalista da Nação em cima do palco: “Vocês têm boas bandas aqui. Não conhecia a Plástico, gostei muito...” Produzido pelo tecladista black power Léo Airplane, Coleção de Viagens Espaciais poderia se chamar "Coleção de Hits Lisérgicos".
Trata-se de um disco que nasceu clássico, c/ potencial p/ tocar nas rádios pela facilidade das melodias e da poesia chapada dos caras. A música de abertura brinca c/ andamentos e ironiza as vítimas da moda: “Modernóide!”, grita o refrão. 'Formato Cereja' foi o 1º clip da banda, feito pelo Núcleo de Produções Audiovisuais aqui da cidade, ainda no tempo dos EPs. É um vídeo bem legal, c/ fotografia que remete ao manguebeat sem imitar ninguém, e a música funciona como um cartão de apresentações: “Minha paranóia está em cima da mesa/ Mergulhada em um copo com um formato cereja/ Dissolvendo-se em bolhas loucas e acesas/ Orientando as cores perdidas em minha cabeça”. É um rockão sessentista.
As décadas de 60 e 70 são a principal referência: The Doors, The Who, Kinks, Animals, Yardbirds, Bob Dylan, Roberto Carlos, Mutantes, Raul Seixas, Greatful Dead, Pink Floyd, Deep Purple, T-Rex, Patrulha do Espaço, sem falar Beatles e Stones, “o feijão com arroz”, segundo Jr. O som que sai daí é uma mistura de blues, mod, hard rock e progressivo, c/ forte acento psicodélico. Fazem parte da mesma escola que o Júpiter Maçã, apenas mais novos e mais pesados. “Ligo o carro/ Piso fundo/ Hoje eu quero ir/ Até o fim de tudo”, dizem em ‘Boca Aberta’. Em ‘Sua Casa É o Seu Paletó’, que virou o 2º clip c/ cenas de expressionismo alemão graças ao videomaker Alessandro Cabelo, o peso valvulado entra em cena p/ embalar uma viagem sobrenatural: “Ontem eu vi uma alma/ Sentada/ Em silêncio, solitária/ Na estrada do tempo”.
‘Quarto Azul’ é melancólica, marcada por um pianinho triste: “Ela não consegue dormir/ Ela está sozinha em casa/ Seu medo diminui se a porta está trancada”... As mulheres são uma fonte de inspiração recorrente, o que só soma pontos. Muitas vezes, as relações são discutidas nas letras: “Você quer falar e não quero ouvir/ Você quer falar e eu quero curtir/ Você quer um pouco disso e daquilo/ Você quer o inferno e eu o paraíso”, diz ‘Tudo do Seu Jeito’, uma das melhores, c/ clima de jovem guarda assegurado pelo timbrão de moog que o Léo baixa da internet p/ envenenar sua tecladêra.
COLEÇÃO DE HITS LISÉRGICOS
Se Belchior tinha medo de avião, Daniel Torres, vocalista e principal letrista, também tem lá suas nóias: “Um cara com um estranho chapéu disse que eu iria voar/ A aeromoça nem me falou quando o avião vai pousar/ Próxima parada eu desço/ Distante mas encontro um jeito”... Ele prefere viajar de trem, enquanto p/ Marcos Odara, a viagem é outra: “As folhas já estão tratadas/ Feche a porta e vamos curtir/ Guarde logo a sua parada/ Entoque, é melhor enrustir/ Porque senão, com os gafanhotos/ Não vai sobrar mais folhas aqui”.
Odara é o Keith do rock sergipano – toca bateria igual ao Keith Moon e é tão detonado quanto o Keith Richards. Mas quantos bateras você conhece que cantam enquanto tocam, que nem ele faz em ‘Banquete dos Gafanhotos’, uma das minhas preferidas entre tantas obras-primas deste disco? O tiozão é a encarnação da palavra ‘lenda-viva’. Tocou na Crove Horrorshow nos anos 80/90, dá aulas de História p/ pagar as contas, é casado e pai de uma filha. Sempre na atividade, influenciou os moleques de modo irreversível.
Existe A.O. e D.O. na história da banda – antes e depois de Odara. Foi dele a idéia de mudar o nome original de Plástico Solar p/ Lunar: “Plástico Solar era muito verão, a gente é da noite”, falou a voz da experiência. Voilá! “Antes, o nosso trabalho era muito ingênuo”, define Jr., que demonstra na entrevista reproduzida a seguir mais lucidez que muita gente careta por aí. Ele, que carrega a banda no nome, é o mano caçula do Daniel, e irá segurar os vocais junto c/ Júlio Andrade, guitarrista solo, agora que seu irmão deixou o grupo e mudou pro Rio. “Hoje eu acordo e me vejo/ No esquema, sorrindo/ Fingindo ser o amigo/ Mais fiel”, canta Jack Daniel’s em ‘Cínico Arrependido’, mais uma acústica.
Todos tocam muito, e em várias bandas diferentes: Júnior é baixista da Corações Partidos, Julico tem a The Baggios, Léo Airplane, além dos teclados da Plástico, toca adordeon na Naurea e na Orquestra Sanfônica. E o Daniel, lembro quando foi morar no mesmo condomínio que eu, o Jardim das Palmeiras – a gente nem se conhecia, mas volta e meia dava p/ ouvir um Led Zeppelin ou uns Byrds saindo pela janela do apê recém-alugado. Ele namorava uma guria tipo hippie universitária e eu pensava: “Esse fedelho tem futuro!
É um grupo de virtuoses sem estrelismo nem xaropagem. E Coleções de Viagens Espaciais, pra mim, é o melhor álbum de rock lançado no Brasil em 2009. Estréia perfeita de uma banda fantástica, repleto de músicas de qualidade e apelo radiofônico. Só num país como o nosso p/ um disco desse passar batido. Enquanto isso, NxZero, Fresno e outras bandas ‘emo’ dominam o mercado.
PRÓXIMA PARADAAssistir a um show da Plástico pode ser uma experiência difícil de ser esquecida”, reforça o coro Werden T., vocalista d’Os Verdes, outro da cena sergipana: “Melodias espaciais, arranjos complexos, timbres envenenados, letras filosóficas, climas que te levam pra longe. Tudo isso tocado por jovens que sabem o que fazem (músicos de mãos cheias) e amantes do bom e velho rock’n’roll. É uma verdadeira viagem de volta aos anos 60 (época de ouro do surrealismo musical), com direito a costeletas quilométricas, óculos escuros, terninhos, plumas e paetês. Tudo emoldurado por boa música e melodias carregadas de sentimento.
Esta semana a juventude roqueira & drogada de Aracaju vai ter muito o que comemorar. Além da passagem da tour Nordeste Fora do Eixo pela cidade hoje à noite, sábado tem mais uma Sessão Notívagos no Shopping Jardins, a partir das 23:59, c/ a exibição de Shine a Light, documentário do Martin Scorsese sobre os Rolling Stones, e a estréia do novo clip da Plástico Lunar, ‘Gargantas do Deserto’, c/ show da banda no saguão do Cinemark fechando a balada em alto estilo. Eles já tocaram lá, quando Lóki, a cinebio do Arnaldo, foi exibida em agosto.
‘Gargantas...’ é a 10ª faixa do disco, e a 1ª a ser transformada em vídeo desde o lançamento. A idéia partiu de Ricardo ‘Bebegás’, um velho conhecido das ruas que me chamou p/ co-dirigir e editar o projeto. Gravamos no estúdio da TV onde eu trabalho numa noite de sexta, em 4 takes. Ricardo criou os efeitos gráficos que servem de pano de fundo p/ a performance dos lunares. Eu mesmo fiz a iluminação, que funcionou melhor do que eu esperava p/ uma 1ª viagem, e contei c/ a ajuda dos cinegrafistas Junior Guedes e Manoel Gonçalves. Passei 2 meses editando o material nas minhas horas vagas, na companhia do lóki do Bebegás.
Mas cada tarde de sábado em frente ao Imac da TV terá valido a pena quando o clip estrear na madrugada de sábado numa tela de cinema, abrindo p/ um filme do Scorsese. “Espanei minha coleção de viagens espaciais/ Livre da inquisição, experimento um pouco mais/ Alcancei outra estação de universos fractais/ Estrelas em formação, poeiras espaciais”...
CAIA NA ESTRADA...... E perigas ver!” Entrevista realizada por Rian Santos, do blog Spleen & Charutos, c/ o baixista Plástico Jr. e o guitarrista Júlio Andrade, p/ o Jornal do Dia [edição de 29/10/2009]. A conversa em uma mesa de bar serviu p/ divulgar a festa Help!, organizada p/ angariar fundos p/ a banda viajar pro Festival DoSol, e foi regada a “algumas brejas”. Os 2 são os novos vocalistas da Plástico Lunar, agora que Daniel – o Syd Barrett da parada – está no Rio.
Rian - A Plástico tem quantos anos? Me lembro de assistir a Plástico, ainda moleque, na ATPN.
Plástico Jr - Esses caras precisam tomar vergonha!
R - Tenha calma que nós vamos chegar aí.
PJr - A Plástico Lunar, com a atual formação, nasceu em 2001, quando Odara entrou na banda. A gente começou tocando no Punka, num palco pequeno, com a Lili Junkie e outros nomes que batalhavam no underground da época.
R - Mas na verdade o núcleo da banda é bem mais antigo.
PJr - Como Plástico Solar, a banda existe desde dezembro de 1998. No ano seguinte, a Plástico tocou pra caralho, mas ainda não existia um circuito independente ou alternativo na cidade. A gente só conseguia se apresentar por que Tiaguinho, nosso baterista, fazia parte do meio pop rock. Nos apresentamos muito no Tequila [Café, bar temático mexicano que virou a boate Live], em uns lugares nada a ver. Tocamos com a Mosaico, a Sibbéria, uns nomes nada a ver.

R - Quando foi que isso mudou?
PJr - Quando Odara entrou na banda. Antes, o nosso trabalho era muito ingênuo. A transformação em Plástico Lunar foi uma tentativa de encarar o trabalho de maneira diferente, a gente precisava ficar mais malicioso.
R - Em que sentido? Às vezes eu tenho a impressão de que o trabalho da Plástico podia ganhar uma dimensão muito maior.
PJr - Nós ficamos muito tempo na garagem. A gente só tocava o que queria. Com o tempo, mesmo defendendo uma personalidade musical, acrescentamos muito à nossa visão inicial do que significa fazer música. A gente percebeu que uma banda não é só composição. Ter uma banda é mais do que fazer músicas boas, com arranjos legais e gravações cuidadosas. Depois de apanhar um bocado, finalmente aprendemos o significado da palavra produção. Hoje nós temos ciência de que fazer a produção da banda é tão importante quanto compor uma música.
R - Apesar disso, a Plástico tem apenas um CD lançado, depois de mais de dez anos de carreira.
PJr - Um jornalista de Brasília já cobrou isso da gente. Ele nos conheceu através de uma coletânea do selo Baratos Afins lançada em 2001, e esperava que o disco não tivesse demorado tanto pra sair. Ele nos perguntou se tinha valido a pena esperar tanto tempo pra lançar o disco. Eu já me martirizei muito tentando responder a esse pergunta, mas talvez tenha sido melhor assim. Se o Coleção de Viagens Espaciais tivesse saído antes, a gente provavelmente não ia saber o que fazer com as respostas que conquistamos. A gente não tinha nada na cabeça, só queria saber de tocar bêbado, de encher a cara até de manhã cedo. Hoje, a gente pode lidar com isso um pouco melhor.
R - Em que medida pegar a estrada é importante para o amadurecimento das bandas?
Julico - Viajar mudou minha cabeça pra caralho. Eu era um cara que reclamava muito. Hoje eu percebo que é preciso botar a cara, batalhar pro trabalho ganhar corpo, pra depois cobrar alguma coisa do governo ou de quem quer que seja. A viagem que faremos agora, por exemplo, será praticamente custeada por nossa conta. A gente podia ficar se lamentando, e desperdiçar a oportunidade de se apresentar em um dos maiores festivais do nordeste, mas preferimos organizar um show pra arrecadar a grana que falta. É preciso ter uma visão profissional da banda. Todo artista independente quer ocupar o palco desses festivais, mas isso não cai do céu. A gente só conseguiu cavar esses espaços por causa de um investimento pessoal, motivados pela fé que a gente leva no trabalho da banda.
PLASTIC ONE BAND
BANDA QUE TOCA CHAPADA FICA FELIZ & PERMANECE UNIDA
ODARA CANTA 'BANQUETE DOS GAFANHOTOS' NA 13 DE JULHO
ACIMA E ABAIXO, TOCANDO NA RUA DA CULTURA...
...NUMA APRESENTAÇÃO QUE IMPRESSIONOU ATÉ...
...OS CARAS DA NAÇÃO ZUMBI, QUE FECHARAM A NOITE
FORMATO CEREJA
DIREÇÃO: PEDRO SEVERIEN
SUA CASA É O SEU PALETÓ
DIREÇÃO: ALESSANDRO SANTANA - C/ CENAS DE VAMPYR [1932], DIR. CT DRYER

4 comentários:

Anderson Ribeiro disse...

O Daniel me deve um EP há anos. Bem que el podia pagar agora com o CD, né? Hehehehehehehe. Pra divulgar nesse Plano Alto Central.

Álvaro Müller disse...

Ainda não tive oportunidade de me debruçar sobre o som dos caras.. mas o pouco que ouvi me agradou demais. A primeira impressão é de que são os melhores neste cenário do rock sergipano... sei não. Preciso ouvir direito para afirmar.

Riot disse...

ROCK AND ROLL!!!!

Reginaldo de Oliveira disse...

A Plástico Lunar é o que melhor aconteceu para o rock brasileiro dos recentes anos.