sábado, janeiro 17, 2009

DISCO DO ANO [1968]

1968 foi um ano louco. Flower Power, Verão do Amor, Guerra do Vietnã, Paris em chamas, assassinato de Martin Luther King, fim da Primavera de Praga. Por aqui, passeata dos 100 mil e instituição do AI-5. Enquanto bombas de Napalm explodiam na antiga Indochina e o Brasil era censurado e torturado pela Ditadura, a música vivia o auge do Psicodelismo. O mítico Sgt. Pepper Lonely Hearts Club Band fora lançado no ano anterior, e nós tínhamos Os Mutantes. Se os Beatles eram mais conhecidos que Jesus Cristo, Timothy Leary era o Papa dos baby boomers, a geração nascida após a 2ª Guerra Mundial, que se amarrava em fumar maconha e tomar ácido. Bandas c/ nomes chapados pipocavam, tipo Traffic, Fever Tree, The Red Krayola, The Moving Sidewalks, Strawberry Alarm Clock, Ant Trip Ceremony, Wozard of Iz, Creation of Sunlight, Plastic Cloud, The Seeds.

David Peel perguntava na capa de seu disco: “Have a Marijuana”? John e sua turma lançaram o White Album. Rolling Stones, Beggar’s Banket. The Doors, Waiting for the Sun. Velvet Underground, White Light/ White Heat. The Byrds, Kinks, Animals, Beach Boys, Free, Small Faces, Nico, Aretha Franklin, James Brown, Ottis Redding, todos eles lançaram álbuns em ‘68.E a nova geração. Jimi Hendrix lançava seu 3º álbum c/ o Experience, Electric Ladyland, c/ músicas de protesto à guerra e mulheres nuas em capa dupla. Cheap Thrills, de Janis Joplin e sua Big Brother & the Holding Company, teve a arte desenhada por Robert Crumb, que vinha arrebentando c/ a revista Zap Comix junto ao surfista Rick Griffin, autor de capas de discos do Greatful Dead. No Brasil, Os Brasas estreavam. Na Inglaterra, o Cream lançava Wheels of Fire e Jeff Beck, ex-Yardbirds, engrenava a carreira solo c/ Truth. O Pink Floyd estreou c/ Syd Barrett nos vocais em The Piper at the Gates of Dawn, e ainda teve tempo de lançar mais um, A Saucerful of Secrets, sem Syd. Nos EUA, Blue Cheer e Iron Butterfly antecipavam o metal c/ Vincebus Eruptum e In-a-Gadda-da-Vida, e Frank Zappa zoava os Beatles c/ We’re Only in It for the Money. Ainda tinha MC5, Steppenwolf, Creedence Clearwater Revival e Tyrannossaurus Rex [que faria sucesso nos anos 70 como T-Rex]. Isso sem falar de Rhynoceros, The Zombies, The Deviants...

Mas o verdadeiro desviante, o zumbi, o rinoceronte de 1968 foi Johnny Cash. Cascudo, indigesto e fora-da-lei, ele foi o 1º artista a lançar um disco gravado dentro de um X: Johnny Cash at Folsom Prison, registro de um show histórico num presídio da Califórnia, em 13 de janeiro daquele ano.

ERA UMA VEZ NO OESTE

John R. Cash nasceu no Arkansas em 1932, filho de um fazendeiro falido e alcoólatra. Começou a trabalhar na lavoura aos 5 anos, e tomou muita porrada do pai durante toda a infância. Mas foram os campos de algodão que moldaram seu destino – a família costumava cantar enquanto cultivava. Quando tinha 12, seu irmão mais velho Jack foi partido ao meio por uma serra de mesa enquanto trabalhava no moinho. O garoto demorou uma semana p/ morrer. Johnny carregaria pelo resto da vida o sentimento de culpa pela perda do irmão, alimentado pelas acusações do pai: ele tinha ido pescar no dia do acidente. Em seu leito de morte, Jack teve visões de anjos celestiais.

Depois de lutar na Guerra da Coréia servindo à Força Aérea Americana, casou-se c/ Vivian Liberto em ’54 e mudou-se p/ Memphis, Tennessee. Lá ficava o estúdio da Sun Records, gravadora que descobriu Elvis Presley. Elvis era apenas um caminhoneiro quando gravou um compacto [pago do próprio bolso] p/ dar de presente p/ a mãe. O resto é história. Johnny Cash também era um ilustre desconhecido – vendia ferramentas e não era muito bom nisso – quando foi bater na porta de Sam Phillips, o dono da Sun, indicado por Cowboy Jack Clement. Conseguiu um teste, onde cantou algumas músicas gospel acompanhado pelo guitarrista Luther Perkins e o baixista Marshall Grant. Reza a lenda que Sam ouviu e disse:

- Volte pra casa e peque, depois volte c/ uma música que eu possa vender!

Antes que Phillips chutasse seu rabo dali pra fora, Johnny sacou algumas composições que tinha no gatilho: “Hey Porter” e “Cry Cry Cry” eram tão boas que se tornaram seu 1º compacto e entraram nas paradas de sucesso country. As canções de Cash eram o oposto das baladas religiosas – letras nervosas e ritmo de trem. “Folsom Prison Blues” é assim: composta quando estava no serviço militar, é um rock narrado do ponto de vista de um preso que vê um trem passar c/ gente rica fumando charutos enquanto ele nem lembra da última vez que viu a luz do sol. Top 5 nas rádios em ’56. Tipo “Diário de um Detento”, dos Racionais MCs, só que 40 anos antes. “I Walk the Line”, o compacto seguinte, emplaca o 1º lugar. Em ’57, torna-se o 1º artista da Sun a gravar um álbum completo, Johnny Cash and His Hot & Blue Guitar [Elvis abandonou o selo ainda no início da carreira].

Embora fosse o cantor mais prolífico e mais lucrativo da gravadora na época, Cash começou a se sentir limitado por seu contrato”, relata a página dedicada a ele na Wikipedia. Em ’58, troca a Sun pela Columbia “depois de uma lucrativa proposta”. O compacto “Don’t Take Your Guns to Town” embala nas paradas e naquele mesmo ano é lançado Johnny Cash Sings the Songs That Made Him Famous, seu 2º álbum. Além de um contrato melhor, a Columbia também lhe deu a liberdade p/ gravar uma série de discos gospel que começou c/ Hymns by Johnny Cash em ’59 e durou até os anos 70.

ORANGE BLOSSOM SPECIALJohnny nunca passou mais de 2 anos sem lançar um disco – 143 ao todo [incluindo as coletâneas oficiais], em quase 5 décadas nos trilhos. O cara era uma locomotiva. Só em ’59, foram 3 c/ inéditas e 1 coletânea. Nesse ritmo frenético de produção e apresentações, Cash passou a apelar p/ os mesmos recursos dos motoristas de caminhão: os rebites. No início dos anos 60, já estava viciado em anfetas e barbitúricos. Seu comportamento ficou mais agressivo, e em ’65 foi preso em El Paso, Texas, na fronteira c/ o México, semelhante à letra de “Cocaine Blues”. A operação foi efetuada pelo esquadrão anti-narcóticos, que mirou na onça p/ acertar o coelho – à procura de heroína, encontraram remedinhos mocozados no case do violão. No ano seguinte, foi preso novamente em Starkville, Mississipi, após invadir uma propriedade p/ roubar flores.

Mesmo se metendo em uma encrenca atrás da outra, continuou a freqüentar as paradas de sucesso. “Ring of Fire”, de ’63, foi sua 2º música a chegar ao topo nas estações country, e a 1ª a entrar no Top 20 pop. A essa altura, Johnny já era o cantor favorito da escória dos EUA. Em sua casa, recebia várias cartas de bandidos encarcerados que diziam se emocionar c/ o relato da vida marginal em suas canções. Os personagens de suas letras eram quase sempre fracassados, perdedores e vagabundos, que cometiam crimes e eram pegos, ou bodes-espiatórios acusados injustamente. Bêbados e deserdados do sonho americano se identificavam total.

A partir de ’64, passou a gravar álbuns conceituais: Bitter Tears, Orange Blossom Special, Ballads of the True West, Mean as Hell... Em ’66, separa-se de Vivi, muda-se p/ Nashville e apresenta à gravadora o projeto de um show c/ sua banda no presídio de Folsom, inspiração da sua 1ª composição e um dos lugares onde tinha mais fãs. A Columbia recusou. Os executivos acharam arriscada demais a idéia de gravar a apresentação de um artista do seu cast p/ uma platéia formada por ladrões, assassinos, estupradores... Um mau exemplo p/ a sociedade. Passaram-se 2 anos de negociações e mais 5 discos, até que, no início de ’68, Cash cruza os muros da cadeia p/ gravar o registro mais emblemático de sua carreira.

NA PRISÃO
parte 1 – dei 1 tiro num cara lá em Reno
- Hello, I’m Johnny Cash!

Gritos, palmas e assobios. Assim começa At Folsom Prison, o 1º disco do mundo gravado num presídio. Johnny engata a 1ª c/ seu “boom chicka boom”, como era chamado seu jeito de tocar, um estilo acelerado demais p/ o country e faroeste demais p/ o rock, e manda logo de cara o som que todos ali queriam ouvir: “I hear the train comin’/ it’s rollin’ round the bend/ and I don’t see the sunshine/ since I don’t know when/ I’m stucked in Folsom Prison/ and time keeps draggin’ on....

O álbum foi lançado em 25 de maio e entrou direto p/ os Hot 100 da revista Billboard. Em 5 de junho, após o assassinato do senador Bob Kennedy, “Folsom Prison Blues” pára de ser tocada nas rádios por causa da semelhança dos versos c/ o ocorrido: “...when I was Just a baby/ my momma told me: son/ always be a good boy/ don’t ever play with guns/ but I shot a man in Reno/ just watch him die.... Nem precisa dizer que neste trecho a rapaziada de Folsom vai à loucura – ouve-se vários “wow!” e “yeah!”... Essa passagem também influenciou um conto do Bukowski chamado, vejam só, “Dei um Tiro num Cara Lá em Reno”:

(...)
dei um tiro num cara lá em Reno só pra ver como é que ele ia morrer.

tenho a impressão que Johnny é meio chegado a uma onda, assim como desconfio que Bob Hope faz o mesmo com a rapaziada do Vietnã durante o Natal, mas vai ver que sou desconfiado por natureza. Os presos urram, estão fora das celas, mas a sensação é de que atiram apenas ossos, e não biscoitos, pros famintos e encurralados. não sinto porra nenhuma de nada de sagrado ou corajoso no lance. só há um troço a fazer em favor de quem está na cadeia: soltar todo mundo. só há um troço a fazer por quem está na guerra: acabar com ela.
(...)”

NA PRISÃO
parte 2 – o 1º gangsta

O velho Buk estava errado quanto à autenticidade do bagulho, mas acertou quando disse que Cash atirava ossos, e não biscoitos, aos presos. O “homem de preto” não alisava. Igual ao J.C. da Galiléia, ele veio trazer a espada, não a paz. Se fizermos um paralelo entre discos e livros, Johnny Cash está mais p/ Edward Bunker que p/ Bukowski. “Folsom Prison Blues” foi a 1ª canção composta por ele, e a apresentação naquele lugar fechava o círculo de fogo. A empatia de Johnny c/ a malandragem local é notável a cada faixa.

As 3 músicas seguintes são baladas: “Busted” – literalmente “fudido” em bom português – , “Dark as the Dungeon”, sobre mineiros – “...danger is double/ pleasures are few/ where the rain never falls/ the Sun never shines/ it’s dark as the dungeon/ we’re down in the mines” – , e “I Still Miss Someone”.

Quando a banda acelera a batida e Johnny começa a cantar “Cocaine Blues – “early one mornin' while makin' the rounds/ I took a shot of cocaine and I shot my woman down...” – a casa cai! “Um monte de assassinos deve ter dito: ‘caralho, essa é minha história!’ Hahahaha!”, desopila Morhamed, do blog Rollin’ and Tumblin’: “O legal desse disco é que não há disfarces, a gravação é crua, com pigarros, tossidas e algumas desafinadas. Sem frescuras.

Cash age como se aquela panela de pressão no meio do deserto fosse um parque de diversões. Ri c/ as letras que canta, e mina o sistema c/ suas piadas: - I wanna tell you that this show´s been recorded for an album released on Columbia Records, so we can’t say ‘hell’, or ‘shit’, or anything like that!

Gargalhada geral. Ao longo de todo o show, a marginália racha o bico.

NA PRISÃO
parte 3 – baladas sangrentas
Volta e meia, um agente penitenciário subia ao palco p/ anunciar ao microfone visitas p/ um e outro preso: - Sandoval, S-A-N-D-O-V-A-L, you have reception!..

Em nenhum momento dá p/ esquecer que o lugar é uma prisão. “25 Minutes to Go” segue a trilha contando minuto a minuto os últimos lances de um condenado no corredor da morte. O couro continua comendo em “Orange Blossom Special”. “The Long Black Veil” conta a história de outro enforcado, que escolhe morrer a entregar o ouro – “...the judge said: son/ what’s your alibi/ if you we’re with someone else/ than you won’t have to die/ I’ve spoke not a word/ but ment my life/I’ve been in the arms/ of my best friend’s wife...”.

Johnny pede um copo d’água, pergunta ao agente se aquilo é mesmo água, dá um gole e engasga: - Gasp! That’s water!

Geral cai no riso, e ele emenda 2 baladas sangrentas: “Send a Picture of Mother” e “The Wall”. Quando anuncia que vai cantar algumas românticas na seqüência, manda “Dirty Old Egg-Suckin’ Dog” e “Flushed from the Bathroom of Your Heart”, fazendo todo mundo rir de novo. Essas 2 eram composições de Cowboy Jack Clement, seu padrinho na Sun. Na verdade, das 19 canções que tocou em Folsom, apenas 6 eram dele. Igual a outros cantores malandros, como Cab Calloway nos EUA, e Kid Morengueira e Bezerra da Silva no Brasil, Cash não compôs todas as músicas que gravou, mas só cantava as que se encaixavam em seu repertório como um Colt nas mãos de um pistoleiro.

Em “Jackson” e “Give My Love to Rose”, ele ganha o reforço da cantora June Carter, grande amor da sua vida. Os 2 se conheceram quando excursionavam junto c/ Jerry Lee Lewis pelos estados do sul e do oeste nos anos ’50, fazendo até 300 apresentações por ano, às vezes mais de uma por dia. June foi a responsável pela desintoxicação de Johnny em ‘66, a co-autora de sucessos como “Rosanna’s Going Wild” em ‘68 e, desde que ele a pediu em casamento durante um show naquele mesmo ano, a 2ª & definitiva esposa de Mr.Cash.

I Got Stripes” é o ápice do lado B, mais uma na trilha de crime & castigo – “...I got stripes/ stripes around my sholders/ I got chains/ chains around my feet...” – , uma referência ao uniforme dos presos, que urram e assobiam... A conta é fechada c/ “The Legend of John Henry’s Hammer”, “Green Green Grass of Home”, “Greystone Chapel”, e uma instrumental quase surf music, estratégica saideira. Ao final, ouve-se os aplausos p/ Johnny Cash e as vaias ao diretor e os agentes da prisão, quando sobem ao palco p/ ordenar que os detentos voltem às suas celas.

Gangsta até o fim.

HOMEM DE PRETODono de um vozeirão incrível, Cash canta de uma maneira agressiva e empolgante”, diz Wilsão Campos, do blog Rock na Vitrola: “Ele faz um som sujo, falando sobre morte, drogas, solidão e todas as experiências ruins que teve na vida, e tem uma sonoridade muito mais voltada p/ o blues e o folk. Não sou um grande fã da country music, muito menos ainda do seu ‘equivalente’ brasileiro. Mesmo assim sou um grande fã de Johnny Cash.

Em agosto, seu amigo Luther Perkins, guitarrista do Tennessee Three, que o acompanhou por toda a carreira, morre em um incêndio. Mesmo assim, Cash grava outro álbum num presídio – San Quentin, 1969. Em seguida, recebe o convite da rede de TV ABC p/ estrelar seu próprio programa, The Johnny Cash TV Show, que usou p/ alavancar novos cantores como Bob Dylan e Kris Kristofferson. Johnny era um cara que comprava a briga se acreditasse na causa. Apoiou o trabalho de Dylan desde o início, e em retribuição, Bob convidou-o p/ um dueto no disco Nashville Skyline. No caso de Kristofferson, peitou a direção da ABC e veiculou na íntegra, em rede nacional, “Sunday Morning Comin’ Down”, som que trazia referências explícitas à maconha: “...on the sunday morning sidewalks / wishin', Lord, that I was stoned...”. Sem cortes.

Johnny sempre foi ele mesmo. No início da carreira, enquanto todos os artistas country vestiam-se de cowboy, do modo mais espalhafatoso possível, ele usava roupas sóbrias e discretas, ternos bem cortados e topete à base de gel. Parecia mais um mafioso que um redneck. Ao longo dos anos, desenvolveu o visual que o fez ficar conhecido como “Man in Black”: roupas pretas e botas de cano longo, como um rabecão – ou um matador.

Em ’71, compôs a música que traduz seu estilo – “...I wear Black for the poor and the beaten down/ livin’ in the hopeless hungry side of town/ I wear it for the prisoner who has long paid for his crime/ but is there because he’s a victim of times...”. Este ano também fica marcado por seu engajamento na luta pelos direitos dos índios. E pelo cancelamento de seu programa na ABC. Mas a concorrente CBS lhe oferece um especial de Natal que duraria toda a década.

Entre ’73 e ‘74 produz a trilogia The Ballads of the American Indian, Ragged Old Flag e Five Feet High and Rising. Em ’75 são lançados o filme The Gospel Road, sobre a vida de Jesus, escrito e narrado por Cash, e sua autobiografia, Man In Black, que vende mais de 1 milhão de cópias.

ENCORE

Em 1980, Johnny Cash torna-se o mais jovem artista a ganhar uma estrela no Country Hall of Fame, embora não fosse mais um garoto – tinha 48 anos. “A simples existência de um artista como Cash, no topo das paradas por tanto tempo, viabilizou o surgimento de uma indústria de música country, mercado que até então não era considerado rentável devido ao público extremamente conservador”, escreveu Carlos Eduardo Lima, da Rock Press, em 2006. Mas o crescente ativismo político de Johnny o torna persona non grata em seu próprio meio: “(...) não havia mais tanto espaço para alguém tão politizado e anti-stabilishment como Cash que, aos poucos, se retirou do cenário.

Mesmo exilado das rádios, J.C. continua excursionando durante a década de 80, c/ Kris Kristofferson, Waylon Jennings e Willie Nelson. Atuou em 2 filmes p/ a TV, The Pride of Jesse Hallam [1981] e Murder in Coweta County [‘83]. Após um acidente doméstico, volta a se viciar em remédios, a princípio p/ aliviar as dores de estômago. Em ’86, fica amigo de Ozzy Osbourne durante uma “rehab – ambos estavam internados na mesma clínica. Foi uma fase difícil, marcada pelo fim de sua longa parceria c/ a Columbia Recs., e uma cirurgia cardíaca preventiva. Sob efeito de anestesia, teve visões celestiais tão belas que, quando acordou, ficou puto por ainda estar vivo.

A amizade c/ Ozzy o leva a conhecer Rick Rubin, produtor de discos sucesso da nova geração do rap e hard rock, como License to Ill, dos Beastie Boys, e Blood Sugar Sex Magik, do Red Hot Chili Peppers. Cash fecha c/ Rick, e em ’94 é lançado American Recordigs, gravado na sala da casa de Johnny, cantando acompanhado apenas por seu violão. O disco trazia versões p/ músicas de caras tão díspares quanto Danzig e Tom Waits, por exemplo, e obteve êxito de público e crítica.

Os anos 90 trouxeram um novo sopro de vida p/ nosso anti-herói. Em Unchained, de ’96, seu 2º álbum c/ Rubin, Cash contou c/ o reforço do baixista Flea, do Red Hot, e da banda de Tom Petty, The Heartbreakers. O esquema era parecido c/ o anterior: canções de própria lavra mescladas a versões da nova geração, tipo “Rowboat”, de Beck, e “Rusty Cage”, do Soundgarden. Grammy inédito p/ Cash. Ele compra um anúncio de página inteira na Billboard e veicula um sarcástico agradecimento à indústria de música country “por seu apoio irrestrito”, c/ uma foto sua de dedo médio em riste.

LOVE, GOLD, MURDER

Em ’97, é diagnosticado c/ Síndrome de Shy-Drager, doença neurodegenerativa – “diagnóstico que mais tarde seria alterado para problemas no sistema nervoso associados à diabetes”, segundo a Wikipedia. Em ’98, é hospitalizado por causa de uma forte pneumonia. Duro na queda, lança em 2000 American III: Solitary Man, c/ versões de “One”, do U2, e “I Won’t Back Down”, de Tom Petty. Em 2002, American IV: The Man Comes Around. O clipe de “Hurt”, do Nine Inch Nails, é indicado p/ 7 categorias no Video Music Awards da Mtv, vencendo a de “melhor fotografia”. Leva também o Grammy de “melhor videoclipe”.

Em maio de 2003, sua esposa June Carter falece após uma intervenção cardíaca, aos 73 anos. Menos de 4 meses depois, no dia 12 de setembro, Johnny desiste de lutar contra o diabetes no Baptist Hospital, Tennessee, aos 71. Morre de amor.

A partir daí, a lenda substituiria o homem. Em 2004 sai a caixa Unearthed, c/ 4 CDs de músicas inéditas produzidas por Rick Rubin e mais 1, American V: Best of Cash on American, c/ versões p/ Cat Stevens, Simon & Garfunkel e até Bob Marley. Em 2005 Hollywood lança o filme Walk The Line, cinebiografia que rendeu o Oscar de melhor atriz p/ Reese Witherspoon, no papel de June, e uma indicação de melhor ator p/ Joaquin Phoenix, na pele do Homem de Preto. Cash não viveu p/ ver o filme, mas Phoenix sempre foi seu favorito p/ interpretá-lo no cinema.

Em 2006, Walk The Line foi lançado no Brasil sob o título Johnny & June. Apesar de não ser muito conhecido por aqui, Cash é influência p/ muito roqueiro doido, como os cariocas do Matanza, que tocaram mês passado em Aracaju e em 2005 gravaram To Hell with Johnny Cash, um disco inteiro só c/ versões de hits do mestre.

Se Johnny Cash não tivesse existido, não haveria Matanza. Não resolvemos fazer esse tributo porque o cara morreu. Sempre sentimos a necessidade de mostrar o porquê dessa história de ‘countrycore’ da qual sempre falamos e achamos que a melhor forma de fazer isso seria gravando um disco só c/ músicas do Johnny Cash. Nossa intenção é mostrar que, em 1958, ele já fazia o countrycore”, diz Jimmy, vocalista da banda: “Nós desvirtuamos as músicas, mandamos a arte do cara pro inferno. Se eu entendi bem a personalidade do cara em tudo que eu li sobre ele, acho que ele iria rir muito, mas se ele não gostar, ‘tá aí um fantasma que eu não quero puxando meu pé de noite, então pedimos logo desculpas.

EPÍLOGO
2008 foi um ano louco. Guerras endêmicas, genocídios não-noticiados, crianças morrendo à toa e crack na cabeça – tanto dos noiados nas esquinas imundas quanto nas bolsas de valores de todo o mundo. Colapso do capitalismo selvagem. Fim de uma era? A eleição do 1º presidente negro dos EUA, um democrata, trouxe alguma esperança p/ um mundo combalido, mas nunca se sabe. Pra mim, até que não foi um ano ruim: em janeiro minha sobrinha Sophia nasceu, em fevereiro comecei a dirigir um programa de TV, e em novembro casei c/ Gil, a minha “June”. Passei 6 meses viajando toda noite p/ dar aulas em Itabaiana, cidade serrana do interior de Sergipe famosa por suas cebolas, seu comércio de ouro, e o alto índice de criminalidade. Foi nessas viagens que passei a ouvir sem parar Johnny Cash na prisão de Folsom. Numa cidade c/ clima de faroeste e num ano onde o lançamento mais aguardado foi Chinese Democracy, do Guns’n’Roses, não é de admirar que o som que eu mais escutei seja um disco gravado há 4 décadas por um caipira cantando em uma cadeia.

AT FOLSOM PRISON - set list

1. "Folsom Prison Blues" [J.R. Cash] - 2:42

2. "Busted" [Harlan Howard] - 1:25

3. "Dark as a Dungeon" [Merle Travis] - 3:04

4. "I Still Miss Someone" [J.R. Cash, Roy Cash Jr.] - 1:37

5. "Cocaine Blues" [T.J. Amall] - 3:01

6. "25 Minutes to Go" [Shel Silverstein]- 3:31

7. "Orange Blossom Special" [E.T. Rouse]- 3:00

8. "The Long Black Veil" [Marijohn Wilkin, Danny Dill] - 3:57

9. "Send A Picture of Mother" [J.R. Cash] - 2:10

10. "The Wall" [Harlan Howard] - 1:36

11. "Dirty Old Egg-Suckin' Dog" [Jack H.Clement] - 1:30

12. "Flushed From The Bathroom of Your Heart" [Jack H.Clement] - 2:17

13. "Joe Bean" [B. Freeman, L. Pober] - 3:05

14. "Jackson" [Billy Edd Wheeler, J. Lieber] - 3:12

15. "Give My Love to Rose" [J.R. Cash]- 2:40

16. "I Got Stripes" [J.R. Cash, Charlie Williams] - 1:57

17. "The Legend of John Henry’s Hammer" [J.R. Cash, June Carter] - 7:08

18. "Green, Green Grass of Home" [Curly Putman] - 2:29

19. "Greystone Chapel" [Glen Sherley] - 6:02

UM HOMEM CHAMADO CASH
Nos anos 50, Johnny Cash fazia parte do “million dollar quartet” da Sun Recs., como eram conhecidos os principais nomes do selo: Elvis Presley, Carl Perkins, Jerry Lee Lewis e ele.

Johnny sempre se manteve fiel à sua banda, The Tennessee Three, até a morte de Luther Perkins em ’68. Foi c/ o acompanhamento dela que ele tocou em Folsom.

Aqui diz que eu tenho que cantar uma determinada canção e seguir um roteiro, mas que se dane, eu não dou a mínima pra isso. Quero cantar a música que vocês escolherem. Qual vocês querem ouvir?” Este é o início de At San Quentin, 2º disco de Cash gravado em uma penitenciária. Os presos gritam “I Walk the Line” e o show começa.

Se suas músicas eram assinadas por J.R. Cash, o Coronel Phillips o rebatizou de Johnny, para ligá-lo ao público jovem, que queria ídolos rebeldes e rockers. Cash não gostou de parecer jovem, mas aceitou”, escreve C.E. Lima no artigo “Algumas coisas sobre Johnny Cash”.

CASH, por sinal, era seu nome REAL. Significa grana, dinheiro vivo.

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