quarta-feira, agosto 26, 2009

POLITITICA

Em 1989 a marca de pranchas e moda-surf Cristal Graffiti publicou um anúncio de página dupla na imprensa especializada c/ o campeão carioca Ricardo Tatuí mandando um BS floater c/ a seguinte frase grafitada sobre a foto: “O lance é praia. Praia e surf. Políti(ti)ca é pra quem não pega onda.

Os tempos ainda não eram politicamente corretos, mas as pessoas eram mais politizadas que hoje em dia – vínhamos de 20 anos de ditadura, era preciso posicionar-se explicitamente sobre suas preferências. Ou você era comunista, ligado a movimentos de esquerda, ou estava do lado do ‘inimigo’, normalmente associado à direita. Surfista era sinônimo de alienação, e o anúncio dava margens a interpretações que só contribuíam p/ o estigma. Cartas inundaram as redações das revistas de surf e a CG retirou a campanha de circulação.

Em ’89, o presidente do Brasil era José Sarney, vice de um morto [foto] e [ir]responsável pelos Planos Cruzados 1 e 2. Foi sucedido por Fernando Collor, 1º presidente eleito através do voto popular em quase 30 anos, após uma acirrada disputa c/ um deputado federal oriundo do movimento sindical, Luís Inácio ‘Lula’ da Silva. Ambos chamaram o presidente de “ladrão” durante suas respectivas campanhas, entre outros adjetivos pouco honrosos e menos objetivos. Collor fez ainda pior: confiscou a poupança dos brasileiros e foi expulso do cargo em menos de 3 anos, no único caso de impeachment p/ um presidente na história.

TENHA MEDO20 anos depois, a Cristal Graffiti mudou de dono, mas seu criador, o shaper Beto Santos, continua na ativa fabricando as pranchas EO. Lula é o presidente do Brasil, Sarney é o presidente do Senado, e Collor também é senador, em sua triunfal volta à cena política. Todos são amigos e se ajudam: o ex-metalúrgico, o imortal “ladrão” e o presidente deposto.

Saía fogo dos olhos dele”, disse o senador Pedro Simon [PMDB - RS] após a discussão c/ Collor [PTB - AL] e Renan Calheiros [PMDB - AL] no início de agosto. Em um mês que começou c/ a censura ao jornal O Estado de São Paulo e culminou c/ o arquivamento das 11 denúncias contra Sarney pela comissão de ética, o plenário do Senado virou um poema de Carlos Drummond às avessas: Heráclito brigou c/ Suplicy, que brigou c/ Sarney, que brigou c/ Tasso, que brigou c/ Renan, que brigou c/ Simon, que quase foi fulminado pelo olhar de Collor.

Pedro Simon lembrou do pai de Fernando, Arnon Afonso de Mello [foto], também senador, que deu 3 tiros no adversário político Silvestre Péricles e acertou – e matou – outro colega, José Kairala, nos anos ’60 em plena tribuna. Ao ser mencionado em um debate, Collor dirigiu-se ao veterano gaúcho e, dedo em riste e olhos injetados, mandou que ele engolisse suas palavras. Tudo porque Simon disse que Calheiros abandonou seu conterrâneo na crise do impeachment. Nada demais, mas a reação de Fernandinho fala por si.

Vossa excelência vai à tribuna falar em paz e é agredido. Não vi manifestação da presidência desta Casa p/ mandar retirar das notas taquigráficas um senador mandar outro engolir e digerir da maneira que achar conveniente as suas palavras. Esse é o retrato do Senado que encontramos hoje”, reagiu Jarbas Vasconcelos [PMDB - PE], um dos mais combativos representantes da 'exceção à regra', em apoio a Simon.

MEU DIÁRIOLina Vieira, a secretária da Receita Federal que afirma ter recebido um ‘pedido’ da ministra da Casa Civil p/ agilizar as investigações sobre Sarney, foi exonerada, demitida sem justa causa. A comissão responsável pelo caso da Petrobras é liderada por um 'senador-laranja', o suplente João Pedro [PT - AM], e tem como relator Romero Jucá [PMDB – RO], membro da tropa de elite do governo. A comissão que deveria investigar Sarney parou nas mãos de outro suplente, o inexpressivo Paulo Duque [PMDB - RJ].

Por trás de tudo isso está Lula, que acredita necessitar do apoio de Sarney [leia-se PMDB] p/ eleger Dilma Rousseff como sua sucessora, nas eleições do ano que vem. Mas tanto empenho tem custado caro p/ o próprio presidente e seu partido, cada dia mais desgastado – somente na semana passada, desvincularam-se do PT os senadores Flávio Arns e Marina Silva, petista histórica que deverá sair candidata pelo PV.

Ela dificilmente ganha a eleição, mas tem força p/ mudar o cenário político”, afirma Carlos Augusto Montenegro, do Ibope: “[...] o presidente se empenhou em criar um candidato, que é Dilma Rousseff. Mas isso ocorreu de maneira muito artificial. Ela nunca disputou uma eleição, não tem carisma, jogo de cintura nem simpatia. [...] ‘Mãe do PAC’, convenhamos, não é sequer uma boa sacada. As pessoas não entendem o que isso significa. Era melhor ter chamado a Dilma de ‘filha do Lula’.

O assunto dá muito pano p/ manga. Não vale a pena perder tempo dissecando todos os detalhes, portanto adotei outra estratégia: passei as últimas semanas monitorando as principais notícias do cenário político mundial, focando na América Latina e no Oriente Médio, duas regiões que pessoalmente me interessam, e globalmente afetam boa parte das decisões importantes. A crise do Senado Federal, o “socialismo” de Hugo Chávez, a saúde de Fidel Castro, o caos no Iraque, as eleições no Afeganistão, a treta entre Hamas e Al-Qaeda na Palestina... Reproduzo a seguir apenas as manchetes. No final das contas, parece tudo uma coisa só:

17/08/09 [segunda-feira]

SENADO ESTÁ ‘VIVENDO O INFERNO’, DIZ PEDRO SIMON

LULA DIZ QUE SEU APOIO É PARA O SENADO

CHÁVEZ PROMULGA POLÊMICA LEI DE EDUCAÇÃO E GARANTE QUE A FARÁ CUMPRIR

AFEGANISTÃO REALIZA 2ª ELEIÇÃO PRESIDENCIAL DESDE A QUEDA DOS TALIBÃS

GRUPOS PRÓ-AL-QAEDA DESAFIAM HAMAS NA FAIXA DE GAZA

18/08/09 [terça]

GOVERNO RECONTRATA DEMITIDOS POR COLLOR

PÁGINA DO SENADO PARA SARNEY REBATER IMPRENSA VAI AO AR

AFEGANISTÃO: ATENTADO SUICIDA FAZ PELO MENOS SETE MORTOS

INVESTIGAÇÃO IDENTIFICA PROVAS DE CORRUPÇÃO E FRAUDE EM ELEIÇÃO AFEGÃ

GOVERNO DO AFEGANISTÃO NÃO CONTROLA 30% DO PAÍS, DIZ PESQUISA DA BBC

19/08/09 [quarta]

PT EMITE NOTA OFICIAL E DECIDE ARQUIVAR DENÚNCIAS CONTRA SARNEY

APÓS ARQUIVAMENTOS, SARNEY DIZ QUE SENADO VAI NORMALIZAR

ARQUIVAMENTO DE ACUSAÇÕES CONTRA SARNEY ABRE CRISE NO PT

CADEIA DE ATENTADOS MATA PELO MENOS 95 NO IRAQUE

AFEGANISTÃO VIVE ONDA DE ATAQUES

20/08/09 [quinta]

MESA DO SENADO REJEITA RECURSO PARA INVESTIGAR SARNEY

DEPOIS DE MARINA SILVA, O SENADOR FLÁVIO ARNS ANUNCIA QUE TAMBÉM ESTÁ SAINDO DO PT

AGRESSÕES A JORNALISTAS AUMENTAM TENSÃO ENTRE GOVERNO DE CHÁVEZ E IMPRENSA

ATAQUES DEIXAM 8 MORTOS NO NORTE DO IRAQUE

21/08/09 [sexta]

CONSELHO DE ÉTICA É ‘TRIBUNAL PARTIDÁRIO’, DIZ SARNEY

CONSELHO DE ÉTICA É ‘ENTERRO DE QUINTA CATEGORIA’, DIZ JARBAS VASCONCELOS

VALIDAÇÃO DE 45 ATOS SECRETOS FAVORECE SOBRINHA DE SARNEY

AFEGANISTÃO PODE SER O IRAQUE DE OBAMA

22/08/09 [sábado]

POLÍCIA REPRIME OPOSITORES DURANTE MANIFESTAÇÃO NA VENEZUELA

AFEGANISTÃO: TALIBÃS CORTAM DEDOS DE ELEITORES DEPOIS DAS ELEIÇÕES

EUA TERÃO PLANO DE PAZ PARA O ORIENTE MÉDIO EM SETEMBRO

23/08/09 [domingo]

AFEGANISTÃO: MAIS DE 200 DENÚNCIAS DE IRREGULARIDADES ELEITORAIS

ELEIÇÕES NO AFEGANISTÃO FORAM JUSTAS, MAS NÃO LIVRES, DIZ UNIÃO EUROPÉIA

‘AS ELEIÇÕES FORAM UM SUCESSO’, DIZ PRESIDENTE DO AFEGANISTÃO

24/08/09 [segunda]

EXPLOSÕES NO SUL DO IRAQUE MATAM 20

PALESTINO MORRE EM GAZA E OUTRO FICA FERIDO EM ATAQUE ISRAELENSE

AFEGANISTÃO: MINISTRO DAS FINANÇAS DIZ QUE KARZAI GANHOU ELEIÇÕES

VENEZUELA ACUSA ‘WASHINGTON POST’ DE INTERVIR NOS ASSUNTOS DO PAÍS

SARNEY TENTA IGNORAR CRISE E DISCURSA SOBRE GETÚLIO VARGAS E EUCLIDES DA CUNHA

25/08/09 [terça]

BASE SE MOBILIZA PARA EVITAR CONVOCAÇÃO DE DILMA

SENADOR SUPLICY DÁ CARTÃO VERMELHO A SARNEY E ALIADO EM PLENÁRIO

GOVERNO CONFIRMA 43 MORTOS EM ATENTADO NO AFEGANISTÃO

IMPRENSA CUBANA DIVULGA FOTOS DE FIDEL COM BOA SAÚDE

26/08/09 [quarta]

IRAQUE: MORREU LÍDER XIITA

CUBA VOLTA A USAR GADO NA PRODUÇÃO AGRÍCOLA, DEVIDO A FALTA DE MÁQUINAS

HUGO CHÁVEZ CONSIDERA ACORDO ENTRE WASHINGTON E BOGOTÁ ‘DECLARAÇÃO DE GUERRA’

MERCADANTE USA TWITTER PARA CORRIGIR LULA

TURMA DA MÔNICA

Os personagens não mudam. Temos de parar de eleger quem desvia verbas e tem ficha criminal. C/ os personagens atuais, não tem como mudar.” A declaração é da jornalista Mônica Veloso. Ela sabe das coisas. Além de capa da Playboy, ela foi a amante que serviu de pivô p/ a queda de Renan Calheiros da presidência do Senado, há cerca de 2 anos. O “cangaceiro de 3ª categoria”, como foi chamado pelo senador Tasso Jereissatti [PSDB - CE], usava um lobbista p/ pagar a pensão da filha que tem c/ Mônica.

Renan, Collor, Sarney, esta é a trinca que lidera o Senado atualmente. Lula, Chávez, Fidel, a América Latina e sua tendência a ditadores, digo, presidentes fanfarrões, digo, revolucionários. Os EUA sempre se metendo nos assuntos do Oriente Médio, cada vez mais um campo minado onde as minas são homens-bomba. Iraque, Afeganistão, Israel, Palestina, países criados artificialmente na divisão do espólio dos impérios inglês, francês e alemão dos sécs.XIX e XX, na realidade territórios tribais extremamente hostis p/ as etnias minoritárias: curdos odeiam sunitas, que odeiam xiitas, que odeiam persas – e todos odeiam judeus.

Engraçado como o Irã sumiu da mídia, a não ser pela notícia da retirada do seu encarregado de negócios da Argentina. O novo ‘diplomata’ iraniano, Ahmad Vahidi, é procurado pela Interpol desde 2007 pelo suposto envolvimento no atentado a bomba à AMIA [Associação Mutual Israelense Argentina], que matou 8 em ’94. A retirada de um embaixador é um gesto de protesto na esfera diplomática, o que só acirrou a tensão entre as 2 nações. “A posição adotada pelos argentinos tem como objetivo evidente intrometer-se nos assuntos internos da República islâmica e condenamos firmemente estas ações ilegais”, declarou Hassan Ghashghavi, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã: “A postura argentina é resultado de pressões, subornos e propaganda do lobby sionista”.

Enquanto a merda voava pelo ventilador e o mundo explodia, no México era encerrado o Quiksilver Puerto Escondido Pro, etapa 3 estrelas do WQS. O que isso tem a ver c/ política?

UM PORTO P/ SE ESCONDERNum ano em que o eneacampeão Kelly Slater parece mais focado em criar um novo circuito, centralizado nos EUA, ainda mais elitizado c/ apenas 16 participantes e premiação milionária, cerca de 150 surfistas de diferentes partes do mundo compareceram à clássica praia de Zicatela, o beach break mais tubular do mundo, apenas pelo prazer de surfar ondas perfeitas c/ poucos caras na água e ainda ganhar alguns trocados.

O evento valia apenas $7 mil dólares p/ o campeão, que acabou sendo o yankee Clay Marzo, um dos “young guns” da Quiksilver, que aos 19 anos obtém sua 1ª vitória no Qualifying. O brasileiro Júnior Faria foi o vice e levou $3500. Competidor de formação e free surfer por opção, o guarujaense de 22 anos, que terminou à frente do mexicano Angelo Lozano e do americano Cory Arrambide na final, questionou no blog Goiabada as intenções do megastar c/ seu novo formato.

Semelhante à FIA, que cedeu à pressão das equipes de Fórmula 1, a ASP arregou p/ Slater, aceitando diminuir o número de competidores do WCT de 45 p/ 32 a parit de 2011. Vejam o que o Júnior acha disso:

32 no CT??? E o QS como fica?! A premiação do CT não vê um reajuste há pelo menos 10 anos. U$ 30 mil dólares p/ o campeão e U$ 15 mil p/ o segundo. Do quinto pra baixo nem se fala. [nota do editor: na real, são U$ 40 mil p/ o campeão de cada etapa] Nesse US Open em que Brett Simpson ganhou 100 mil pelo primeiro lugar, sabe quanto o segundo levou?! U$ 10 mil.

Mr. Kelly ao invés de ficar inventando circuito milionário p/ ele e mais 15 amigos, poderia muito bem fazer algo relevante para o SURFE e usar sua influência para a melhora de TODO o circuito, incluindo as divisões de acesso. A premiação não muda porque quem está à frente do ranking não se importa com 30 mil de prêmio, já que está fazendo mais de um milhão dos patrocinadores. Esses poucos atletas que estão entre os top 10 gastam a premiação toda na primeira noitada, já que a conta está bem forrada com salário de Billabong, Quik, Red Bull e cia.

Uma conta rápida:

Custo de um atleta p entrar no circuito mundial em relação a ASP (QS):

U$ 1600,00 - Seguro + Taxa de filiação ASP Full Membership (mundial)

U$ 200,00 - média de taxa de inscrição nos eventos.

O seguro é uma obrigação de todo atleta, mas a ASP não permite nenhuma outra companhia de seguro a não ser a que é conveniada a ela. Ou seja, se você já tiver um plano, vai ter que pagar o seguro da ASP de qualquer maneira. As taxas devem ser renovadas todo ano. E o seguro só pode ser acionado enquanto o atleta estiver COMPETINDO, treinou se fudeu, problema é seu! E se por acaso você se machucar competindo, o seguro pede pra que apresente todos os recibos para análise e posteriormente um reembolso. Ou seja, ‘paga aí que depois a gente vê se deposita pra você, tá bom?!’.

Só alegria, surfista profissional, a melhor profissão do mundo. Dream Tour... hmmmf.

MORAL DA HISTÓRIAQuero fazer justiça ao senador Collor, que tem dado sustentação ao trabalho do governo no Senado”, disse Lula ao visitar Alagoas, o estado c/ o pior Índice de Desenvolvimento Humano [IDH] do país, junto ao Maranhão, reduto da família Sarney.

Na verdade, esta história não tem muita moral. O Senado vive a maior crise ética de todos os tempos, nenhuma lei foi votada durante todo o mês de agosto, o que se viu foi manipulação nos bastidores e lavação de roupa suja em público. Ano que vem tem eleições p/ presidente e senador. 2/3 do quadro atual podem vir a ser mudados, só depende do eleitor. Até eu, que nego voto há 10 anos, vou votar. Tudo p/ tirar esses caras daí. Lembre-se: “cada povo tem o governo que merece”.

Enquanto isso, o lance é praia. Praia e surf. PolíTITICA é p/ quem não pega onda.

AGOSTO, MÊS DE DESGOSTO

Hamas X Al-Qaeda em Gaza: nem eles se entendem

Afeganistão: talibãs decepam dedos dos eleitores

Hugo Chávez, o proctologista da América Latina

Lula é diplomado: "Um sonho quase realizado"

Renan e Jucá articulam o arquivamento: "É pra salvar Sarney"

Sarney intima Suplicy: "O que é isso, companheiro?"

Clay Marzo: vitória sobre a Síndrome de Asperger

Júnior Faria, 22, mais consciente que muito senhor de 66

sábado, agosto 15, 2009

AMPLA, GERAL E IRRESTRITA

A Anistia completa 30 anos este mês. No dia 28/08/1979, o então presidente João Figueiredo, 5º general a comandar o país durante o regime militar que durou de 1964 a 1985, assinou a Lei nº 6.683, concedendo anistia política a homens e mulheres perseguidos pelo sistema vigente: estudantes, professores, jornalistas, artistas e demais militantes de esquerda – alguns deles integrantes armados do movimento revolucionário – que foram presos, exilados ou mortos após o Ato Institucional Nº5, que fechou o Congresso em ’68 e recrudesceu a repressão à oposição.

DANDO NO COURO

O sergipano João Bosco Rolemberg Côrtes passou quase 5 anos no Presídio Barreto Campelo, na Ilha de Itamaracá [PE], de 1974 a ’79. Artista plástico, foi confinado por seu envolvimento c/ o movimento estudantil nos anos ’60, quando cursava Ciências Sociais na UFS. Durante o tempo que passou na prisão, Bosco Rolemberg produziu telas de pirogravura, técnica de ilustração no couro ou madeira usando uma caneta c/ ponta de metal aquecida.

Aquilo, de dar no couro, era o que ele fazia durante os quatro anos e nove meses que passou na ‘Ilha’. E que continuou a fazer, depois que saiu de lá”, escreveu Joana Côrtes em O Parto - Parte 1. Filha do artista, passou os primeiros anos de vida como uma ilhéu, tão perto geograficamente quanto de fato longe do pai: “Eu, dedo na boca, não lembro como fui parar ali. Aquilo era coisa de muita foice, lenço de camponesa, camisa aberta no peito, Zé Meninos, mato, pilão, olho de peixe morto, bocas vivas. Dava medo. Couro fede. Descapelar memórias, também.

Conheci Joana na universidade, ambos cursando jornalismo no final dos anos ’90. Mas sabe como é, THC causa amnésia e outras coisas que não consigo lembrar agora... E isso me valeu uma gafe, ano passado: ela estagiava na redação da TV e eu dirigia o Periferia, quando me interessei por uma série de reportagens – AI-5, Quarenta Anos Depois – que corajosamente revirava os esqueletos escondidos no armário. Procurei um dos editores-chefes, meu amigo Álvaro ‘Caninha’ Müller, e perguntei: “Cara, quem é essa Joana Côrtes da série AI-5? Quero este material p/ o programa!”; ao que ela, ouvindo o pedido, me estendeu a mão e disse: “Muito prazer, Adolfo! Lembra de mim?”.

Lógico que lembrava, só não associei o nome à pessoa. Eu sou péssimo. Bom, mesmo depois da minha ‘ratada’, ela liberou o material. Gente fina essa menina.

AMNESTIA

Joana mudou p/ São Paulo no início do ano, fazer mestrado c/ foco em literatura infantil. De férias em Aracaju, voltou a aprontar das suas: “Foi coisa de história de verão. Rede, sol, mar, balancei a imaginação: ‘Pai, olha só que legal, a Anistia faz 30 anos este ano, por que não fazemos uma amostra dos quadros que você produziu na Ilha?’”, escreveu em O Parto - Parte 2: “‘Oh, que beleza, não tem uma coisa mais nova não?’. A piada virou provocação. O que é que pode ser acrescentado nessa história de exposição, que aglomera, que diga mais, do que é que eu realmente gosto, o que falta pra aquecer em Aracaju? A palavra. Juntar Artes Plásticas e Literatura. Agora era isso.

Em cartaz desde o dia 06 na galeria Álvaro Santos, na praça da Catedral, centro da cidade, a exposição ANISTIADOS – Couro Esquecido, reunindo 10 telas de Bosco do período da prisão. São pirogravuras que retratam os nativos e os prisioneiros de Itamaracá, acompanhadas por 8 textos de Carlos Cauê, Cleomar Brandi, Lara Aguiar, Maria Carolina Barcellos, Maruze Reis, Nina Sampaio, Ronaldson e Vladimir Oliveira, além da ambiência criada por Raphael Borges, o ‘Mingau’, outro grande amigo meu, que criou instalações e uma videoarte interativa. “Meu desejo é que os jovens compareçam em massa à exposição e façam suas próprias leituras sobre significado de anistia. Nessa instalação de Mingau, cada um pode deixar seu conceito registrado, ao mesmo tempo em que o visitante também pode levar pra casa, através de filipetas, os textos plotados na exposição”, explica a curadora da mostra.

‘Anistia’ vem do grego ‘amnestia’, esquecimento. “De tirar da memória, de perder a lembrança de alguém, falta de atenção ou de interesse, nem sei direito, deu branco, esquece”, brinca Joana, que nunca nos deixa esquecer esse período tenebroso do Brasil, seja através de suas reportagens investigativas ou pela exposição, que permanecerá até o dia 29 de agosto: “Essa vontade de tirar a palavra da ‘naftalina’, não era só mexer c/ as histórias que estavam guardadas e trazê-las à tona, mas também provocar naqueles mais jovens, que não vivenciaram a época, uma reflexão sobre o tema. Escolhi as telas de acordo c/ o perfil de cada um e o resultado final foi muito satisfatório. Alguns se expressaram através de crônicas, outros através de contos, cada um, seguindo o seu estilo, brincou c/ essa memória, esse passado tão presente”.

COURO ESQUECIDO

Bosco Rolemberg passou alguns anos trabalhando em fábricas do ABC paulista, antes de ser descoberto e levado p/ a cadeia. “Foram dez anos na clandestinidade. Eu sabia que ele tinha ficado preso na Ilha de Itamaracá, mas não sabia o que comia, o que ouvia... Sabia que os melhores amigos dele são de lá, mas ficou aquele vácuo. Daí, decidi remexer nesse assunto, unindo artes plásticas e literatura”, diz sua filha. “De lá, trouxe silêncio, violão, orvalho de suor. E um monte de tela. Couro esquecido.

Hoje secretário-chefe de gabinete da Prefeitura de Aracaju, Rolemberg ficou ‘amarradão’ c/ a iniciativa da filha. “Ele utilizou a arte como uma fuga e um apoio p/ poder aguentar toda aquela pressão”, diz Joana sobre os quadros expostos na mostra. Segundo suas próprias palavras, a proposta é o “desencouraçamento da memória” do povo.

Bosco e sua família sofreram muito, mas houve quem tivesse menos sorte. Os anistiados foram aqueles processados formalmente pela Ditadura, e os que tiveram seus nomes publicados em listas nos jornais. Milhares de pessoas presas, torturadas e desaparecidas não foram anistiadas pelo fato de suas prisões não terem sido registradas oficialmente pelos militares. “Essa exposição, além de resgatar esse período turbulento, serve p/ repensarmos sobre as 426 mortes que foram divulgadas à época, bem como p/ fazermos uma análise sobre as ‘verdades’ divulgadas sobre o regime e seus presos”, conclui Joana.

ANISTIADOS – Couro Esquecido

galeria Álvaro Santos, 06 a 29 de agosto

www.anistiados.blogspot.com

segunda-feira, agosto 10, 2009

O HOMEM QUE CAIU NA TERRA
Cê tá pensando que eu sou loki, bicho? / Sou malandro velho, não tenho nada c/ isso”...
Loki era o deus do fogo p/ os vikings, um gigante que se transmutava em diferentes formas. “Pode ser considerado como um símbolo da maldade, traiçoeiro, de pouca confiança; está entre as figuras mais complexas da mitologia nórdica”, informa a onisciente Wikipedia: “Sendo um misto de deus e gigante, sua relação c/ os outros deuses é conturbada. Entretanto, ele é respeitado por Odin, os dois mantém relações fraternas. Ele também ajuda Thor em algumas situações p/ recuperar seu martelo Mjölnir, roubado pelos gigantes.
No Brasil, ‘Loki’ é sinônimo de louco desde os anos ’70, graças a Arnaldo Dias Baptista, o genial líder da banda Os Mutantes. Garoto prodígio do rock brasileiro nos anos ’60, namorado da Rita Lee, artífice do movimento tropicalista, compositor de mão cheia, multiinstrumentista, visionário, precursor no uso de eletrônica nas gravações e ácido lisérgico na cabeça, lançou a gíria em 1974 ao batizar seu 1º álbum-solo e uma incrível bossa-nova c/ o epíteto acompanhado de uma interrogação:
LOKI?...“A gente andou / a gente queimou / muita coisa por aí”...
Ele é o músico mais importante do Brasil desde 1967”, sentencia o maestro Rogério Duprat no documentário LOKI – Arnaldo Baptista, 1º longa-metragem produzido pelo Canal Brasil, exibido na última sessão Notívagos, no 1º fim-de-semana de agosto, em Aracaju [SE].
Duprat foi o cara que lançou Os Mutantes na cena nacional, ao introduzi-los no circuito dos festivais, que bombavam na época: foram banda de apoio p/ Nana Caymmi em 'Bom Dia' e p/ Gilberto Gil em 'Domingo no Parque', canção vice-campeã do 3º Festival da Música Popular Brasileira, realizado pela TV Record. O maestro, falecido em 2006, também fez os arranjos do 1º álbum do grupo, de 1968, mesmo ano em que participaram do disco-manifesto Tropicália.
Arnaldo montou sua 1ª banda c/ o irmão mais velho Cláudio, em ’64, aos 16: The Wooden Faces, ‘os caras-de-pau’ numa tradução literal. Conheceram as Teenage Singers, um grupo vocal de garotas do qual fazia parte Rita Lee. Os 2 grupos se uniram num só, c/ o caçula Sérgio no lugar de Cláudio, e formaram O’Seis. O compacto que lançaram pela Continental em ’66 continha 2 músicas c/ títulos premonitórios: 'Suicida' & 'Apocalipse'.
A DIVINA COMÉDIAO single vendeu menos de 200 cópias e decretou o fim do grupo. Mas Arnaldo, Sérgio & Rita formaram um trio que batizaram de Os Mutantes – sugestão de Ronnie Von, leitor da ficção científica O Império dos Mutantes, de Stefan Wul. O resto é história: lançaram 5 discos clássicos c/ esta formaçãoOs Mutantes [‘68], Mutantes [‘69], A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado ['70], Jardim Elétrico ['71], Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets ['72] – , onde passearam pela música erudita, francesa, latina, caipira, MPB, psicodelia californiana, soul, e principalmente ROCK.
Arnaldo e Sérgio dominavam seus instrumentos, e foram pioneiros no uso de distorção, feedback e recursos de estúdio, muitas vezes inventando seus próprios pedais de fuzz e efeitos sonoros. Até mesmo Rita, que entrava mais c/ a voz, inovou ao adotar a harpa e o Theremin, um instrumento inventado pelos russos que funciona à base de ondas de rádio. “Se antes dos Mutantes o gênero no Brasil era basicamente imitativo, a partir do pioneirismo de Arnaldo, Sérgio e Rita, abriu-se o caminho do hibridismo”, diz a Wiki.
Outra marca da banda era a irreverência. Quase sempre se apresentavam fantasiados, e vários de seus hits como 'Top Top', 'Cantor de Mambo' e 'Meu Refrigerador Não Funciona', têm o efeito de uma boa piada. Concediam entrevistas engraçadas e divertiam-se juntos como crianças no parque. Eram tão unidos que a lua-de-mel de Arnaldo e Rita foi em um sítio – na companhia do resto do grupo, que já contava c/ o baixista Liminha e o baterista Dinho como integrantes efetivos.
Em ’69 tocaram na França, no Midem em Cannes e no Olympia de Paris. No ano seguinte, gravam no estúdio Des Dames a convite do produtor Carl Holmes, visando o mercado internacional. O disco trazia versões de músicas suas como 'Baby' e 'Ando Meio Desligado' p/ o inglês, mas o projeto foi abandonado pela Polydor após as gravações. Enquanto isso, Os Mutantes continuavam experimentando. Mas não exatamente música.
ANDO MEIO DESLIGADO...“Ficamos até mesmo todos juntos / Reunidos numa pessoa só”...
Foi Antonio Peticov, brasileiro radicado na Europa, quem apresentou LSD a Arnaldo, Sérgio & Rita. A experiência foi tão impactante que eles temeram enlouquecer logo naquela 1ª noite de ácido na Cidade-Luz. Sérgio passou o tempo todo tentando montar um circuito elétrico p/ não se desligar totalmente da realidade. “Aquele foi o início do fim”, constata Liminha no documentário.
LOKI, o filme, é a cinebiografia de Arnaldo, um talento precoce marcado pelo uso excessivo de alteradores de consciência, que perdeu a mulher que amava na juventude e a sanidade junto, um gênio taxado de louco e suicida que sobreviveu a um acidente quase fatal e hoje vive em seu auto-exílio num sítio do interior de Minas Gerais, ao lado da esposa Lucinha, pintando quadros, escrevendo, tocando e compondo.
O título do filme vem da estréia-solo de Arnaldo em 1974, o inspirado e atormentado Loki?, onde ele tenta exorcizar alguns fantasmas, como o traumático fim do relacionamento c/ Rita – “Ando me apegando ao passado / e em ter você ao meu lado”, canta ele em ‘Será que Eu Vou Virar Bolor?’. É um álbum que abrange vasta gama de estruturas melódicas, do samba ao jazz, c/ letras tão pessoais, ora divertidas ora depressivas, que é considerado unanimemente como um dos melhores discos já lançados no país, independente de época ou gênero. “É um álbum essencial p/ compreender a música brasileira”, afirma o crítico Nelson Motta.
VOU ME AFUNDAR NA LINGERIE
Loki? é um trabalho emblemático. E é uma gíria que ele criou e tem um significado na mitologia nórdica, de um deus nórdico, que tem a capacidade de se transformar. É um ser mutante e tem muito a ver c/ o Arnaldo Baptista, que assumiu várias formas durante sua carreira e vida. Tem essa relação da metamorfose c/ o Arnaldo", diz o diretor do filme, Paulo Fontenelle.
Após o rompimento c/ Rita Lee, Arnaldo passou pelo inferno em vida: foi internado 3X em hospícios, e na 4ª internação beijou a morte ao cair de uma janela do 4º andar da ala psiquiátrica do Hospital dos Servidores Públicos de São Paulo, em 1982, passando 4 meses em coma c/ uma fratura no crânio que deixou fortes seqüelas – mas não foi capaz de destruí-lo totalmente. Em ’73 gravou seu único disco pelos Mutantes sem Rita, o A e o Z [que só viria a ser lançado em 1992], antes de abandonar de vez o grupo.
Durante a década de ’70 Arnaldo alternou tentativas de seguir a carreira c/ surtos psicóticos. Aficionado por OVNIs, chegou a viajar p/ a Itália a fim de convidar o amigo Peticov [aquele do LSD] p/ ser o comandante da nave espacial que ele dizia estar construindo. Montou a banda Patrulha do Espaço em 1977: “Os Mutantes era uma coisa mais clássica, a Patrulha é mais funk, mais heavy”, definiu ele a uma repórter de TV da época, episódio retratado na película de Fontenelle, que também traz imagens esquecidas de apresentações deste grande grupo que permaneceu ativo no underground mesmo após a saída do gênio louco em ’78.
Arnaldo passou a colecionar sacos de lixo, falar num dialeto desconhecido, sofrer crises de choro, agir violentamente, abandonar shows e projetos. Sua obsessão pela qualidade de som chegou ao ponto de fazê-lo parar de tocar a cada música p/ descer do palco e ir à mesa de P.A. acertar o áudio, outro episódio citado por Peticov no filme, tornando impossível p/ o público acompanhar uma apresentação sua. “Uma vez ele abriu os braços e me falou que sentia o tempo todo pessoas entrando e saindo por seus poros”, revela emocionada a bailarina c/ quem trabalhou em uma peça antes da sua última internação.
LET IT BEDQuem é louco, nós ou Van Gogh?”, pergunta Sérgio Dias Baptista em Loki. Arnaldo ainda gravou mais um disco em 1980, o realmente deprê Singin’ Alone, lançado 2 anos depois na estréia do selo independente Baratos Afins. Passou a década recuperando-se do acidente que quase o matou, e em ’87 grava um disco caseiro em 2 canais entitulado Disco Voador.
A partir daí, o mundo redescobre Arnaldo. Em ‘88 é lançado Elo Perdido, álbum de estúdio c/ a Patrulha do Espaço gravado 10 anos antes e até então inédito, assim como Faremos Uma Noitada Excelente, registro ao vivo do mesmo período. No ano seguinte sai Sanguinho Novo – Arnaldo Baptista Revisitado, tributo produzido por Alex Antunes e Carlos Eduardo Miranda c/ várias bandas da nova geração tocando versões de suas músicas. Sepultura tocando 'A Hora e a Vez do Cabelo Nascer' e Ratos de Porão c/ 'Jardim Elétrico' comprovam o potencial destruidor das canções do Loki.
Mas o principal responsável pela redescoberta de Arnaldo e Mutantes foi ninguém menos que Kurt Cobain, que comprou os discos – que estavam sendo relançados em formato CD – quando veio tocar no Brasil em ‘93, no Hollywood Rock. Kurt deu entrevistas p/ a TV brasileira mostrando sua recém-adquirida coleção, exaltando a criatividade e vanguardismo da banda, e chegou a mandar uma carta p/ Arnaldo, saudando-o como um herói: "Cuidado c/ o sistema, eles te engolem e te cospem fora como sementes de cereja", escreveu. Todos quisemos conhecer melhor Os Mutantes depois disso.
Em ’96 a gravadora Virgin relançou Singin’ Alone e Arnaldo regravou a ‘Balada do Louco’, que entrou como faixa-bônus, e em ’99 finalmente é lançado Tecnicolor, o álbum d’Os Mutantes feito na França. A arte da capa é de Sean Lennon, apenas um dos muitos fãs gringos, como a banda Belle & Sebastian e o cantor Beck, que chegou a batizar um de seus discos de Mutations. Em 2004 Arnaldo mostra que está vivo e na ativa c/ Let It Bed, disco inédito de músicas novas, no qual ele toca TODOS os instrumentos. O álbum foi inteiramente gravado em sua casa em Juiz de Fora [MG], produzido por John, do Pato Fu, e lançado junto c/ a revista Outra Coisa, pertencente ao selo independente do cantor Lobão.
A.B. ROADEm 2006, Arnaldo volta a surpreender ao se reunir c/ o irmão Sérgio p/ o mítico retorno d’Os Mutantes numa formação clássica e quase perfeita – Liminha, que virou produtor de sucesso, no baixo e Dinho Leme, que não tocava profissionalmente há 30 anos, na bateria; apenas Rita não aceitou voltar, e foi substituída por Zélia Duncan. Foram homenageados no Barbican Hall de Londres durante a mostra Trópicália – a Revolution in Brazilian Culture. O show, realizado no mais tradicional centro cultural europeu, teve os ingressos esgotados antecipadamente.
Seguiram p/ uma turnê nos EUA, c/ os pernambucanos da Nação Zumbi e o texano Devendra Banhart como atrações de abertura. Tocaram no Webster Hall em N.Y., no Hollywood Bowl em L.A., no Fillmore em San Francisco, Moore Theatre em Seattle, Cervantes Masterpiece Ballroom em Denver, e no Pitchfork Music Festival em Chicago. A gravadora Universal aproveitou o momento p/ relançar todos os discos de 1968 a ’72, remasterizados a partir das fitas originais.
Em janeiro de 2007 apresentam-se pela 1ª vez no Brasil após quase 3 décadas de ausência, durante o aniversário de São Paulo, tocando p/ 50 mil pessoas em frente ao Museu do Ipirangac/ Sérgio vestido de D.Pedro I. Seguem numa breve tour nacional, até Arnaldo desligar-se de novo da banda, desta vez sem atritos, p/ cuidar de seus projetos pessoais: um livro de ficção – Rebelde Entre os Rebeldes – , o lançamento em CD dos 2 discos da Patrulha do Espaço, e exposições de suas pinturas e esculturas.
LOKI, o filme-homenagem, refaz essa trajetória enquanto ele mesmo conta sua história num quadro que vai sendo pintado ao longo das 2 horas de exibição. “Quem assistir ao filme vai ter uma idéia completa de quem é Arnaldo Baptista. Mas acho que não tem uma palavra p/ defini-lo: gênio, louco, engraçado, trágico, cômico. Pode ser tudo. Segundo ele, após ver o filme, ficou claro p/ o mundo que ele será sempre o rebelde entre os rebeldes", resume o diretor.
NOTÍVAGOSO documentário de Paulo Fontenelle levou os prêmios do júri no Festival do Rio e na Mostra de Cinema de São Paulo, entrou em cartaz nos cinemas no mês de junho e foi exibido em Aracaju através do esforço dos produtores da sessão Cine Cult, que correram atrás do Canal Brasil p/ conseguir a cópia digital.
O Cine Cult é um projeto que visa trazer [...] filmes alternativos, que fujam do lugar-comum”, escreveu Adelvan Kenobi no Jornal do Dia: “Começou há cerca de dois anos e, devido a seu sucesso, foi adotada pela rede Cinemark e hoje existe como sessão fixa em várias cidades do Brasil. Além de uma sessão regular e diária, à tarde, alguns eventos especiais acontecem esporadicamente. É o caso da Virada Cinematográfica e da Sessão Notívagos”.
Ambas sessões são espécies de happenings: na Virada, 3 filmes são intercalados ao longo da madrugada, c/ café-da-manhã no final; e a Notívagos exibe um filme à meia-noite seguido por um show de rock no saguão de entrada do cinema. Há até cerveja à venda – o que é permitido desde que todas as salas estejam fechadas. Surreal que uma cidade até poucos anos atrás tão provinciana hoje crie opções de diversão totalmente de vanguarda e destituídas de intenções comerciais [pelo menos por enquanto]. A molecada de hoje é privilegiada e não sabe.
A 1ª Notívagos aconteceu em janeiro, c/ Repulsa ao Sexo, clássico dos anos ‘60 do não menos clássico Roman Polanski – o cara que teve a namorada assassinada a facadas por Charles Manson e depois foi banido dos EUA acusado de pedofilia – , seguido da apresentação do duo The Baggio’s [foto], de São Cristóvão. A 2ª exibiu o filme nacional Fim da Picada e teve a banda Daysleepers. Desta vez, o show pós-filme ficou a cargo da Plástico Lunar, a melhor e mais chapada banda brasileira de rock surgida nos anos 2000.
FAREMOS UMA NOITADA EXCELENTEA Plástico existe há 9 anos e é formada por autênticos rockers, moleques da nova safra que sabem que o melhor de gênero foi feito nas décadas de ‘60/70, aliados a um batera veterano, chapado e sacado, o Marcos Odara, que fez parte da Crove Horrorshow nos anos ‘80/90. Todos cantam e compõem: Daniel Torres, vocal e guitarra, o baixista Bicho-Grilo, o tecladista Léo Airplane [sósia do Urso do Cabelo Duro, desenho animado das antigas] e o guitarrista solo Julico, que também é metade do dueto Baggio’s, além do insano Odara, amigo meu de antigas gigs.
Em 2001 a Baratos Afins lançou a Plástico Lunar na coletânea Brazilian Pebbles vol.2, projeto que reúne a nata do rock psicodélico brasileiro da atualidade, c/ a canção ‘Meu Jardim’. Depois disso vieram os discos The Plastic Rock Explosion e Coleção de Viagens Espaciais, todos lançados de forma totalmente independente.
Os caras tocam muito, esquema virtuose mesmo, mas suas músicas, mesmo quando flertam c/ o progressivo, são sempre ‘p/ frente’, diretas, sem firulas, cheias de riffs e refrões, c/ um pé na psicodelia e outro no hard rock, passeando pelas influências de Doors, Yardbirds, Pink Floyd, Led Zeppelin, Deep Purple, T-Rex, e como não poderia deixar de ser, Mutantes e Patrulha do Espaço. Na Notívagos, tocaram seus hits – ‘Formato Cereja’, ‘Sua Casa É o Seu Paletó’, etc. – e covers de ‘Light My Fire’, ‘Balada do Louco’ e ‘Será que Eu Vou Virar Bolor?’.
Grande noitada, terminada no apê do Adelvão junto c/ o pessoal das bandas Urublues e The Swamp Beat Brothers, de Itabaiana [SE], num fim de semana que começou na sexta-feira c/ a participação da Plástico e deste blogueiro no Programa de Rock, da Aperipê FM – 104,9 Mhz.
FAÇA VOCÊ MESMO
Fomos convidados p/ participar do projeto “Sergipanidade, criado p/ fomentar a cena local. Em alguns dias a cada mês, a rádio só toca música sergipana. Diante dessa exigência, meu chapa Kenobi, que além de apresentar o PDR mantém 2 blogs na ativa, resolveu radicalizar e só tocou pedrada: Karne Krua, Kerosenes, Cessar-Fogo, Gee-O-Die, Música das Cinzas e Misery Hi-Tech, algumas das bandas e projetos mais zoadentos que este estado já ouviu.
A Plástico passou por lá antes de partir p/ uma festa na Casa do Rock, na praia de Aruana, respondendo algumas perguntas dos ouvintes e fazendo um set acústico muito fino. A segunda metade do programa foi dedicada aos zineiros: Aquino do zine Guerrilha, o anarco-punk Nininho, da banda Logorréia e autor d’O Velho Zine, Cícero ‘Mago’, também da Logorréia e do zine Zoada, Fábio da Urublues e dos zines Rosebud e Vitrola de Papel, além de mim – surpreendentemente lembrado pelo trabalho que fiz c/ o Cabrunco entre ’95 e ’97 – , e o próprio Adelvan, influência p/ todos nós c/ seu zine Escarro Napalm.
Dias depois, encontrei o diretor da FM, Léo Levi, que também é DJ, e ele me disse que esse foi o programa de maior repercussão, bombando a semana toda nas listas de discussão da internet. É engraçado – e legal – que um veículo dado como morto – o fanzine – continue a encontrar público entre a gurizada. Eu mesmo fui considerado “acabado” nos anos ’90, tirado de “loki” por meu envolvimento c/ drogas, e caído no ostracismo no início desta década. Sem falar no grave acidente há 4 anos.
Arnaldo Baptista é comumente comparado a Syd Barrett, outro gênio, responsável por quase todas as músicas do disco de estréia do Floyd, The Piper at the Gates of Dawn, que também fritou o cérebro c/ ácido lisérgico. A diferença é que Arnaldo sempre foi mais músico e teve uma carreira muito mais produtiva, c/ 14 discos lançados [só c/ Os Mutantes foram 8, incluindo os gravados na França em ’70 e na Inglaterra em 2006, ao vivo no Barbican Theatre], a despeito de crises depressivas, internações psiquiátricas, e as conseqüências de sua quase morte – física e emocional.
PROBABILIDADECilibrina pra lá / Cilibrina pra cá / Eu sou velho mas gosto de viajar”...
Se de artista, médico e louco todo mundo tem um pouco, Arnaldo Dias Baptista é doutor honoris-causa. A questão é que o ser humano gosta de construir ídolos p/ em seguida destruí-los; rir daqueles que realizam algo grandioso e depois tropeçam nas suas próprias fraquezas. “Subestimar o fraco é só uma prova da sua incapacidade de adaptação / Por isso os mutantes triunfarão / Porque o futuro é uma probabilidade / e a única estabilidade é aceitar a incerteza”, canta Fábio Trummer, da banda Eddie, de Olinda [PE], em ‘Probabilidade’.
O mutante Arnaldo foi tratado como maluco pela sociedade e ridicularizado pela mídia no auge de sua vida. “Mas o que dizer dos 5 álbuns de sua carreira solo? E como chamar de loucura sua opção pela amplificação valvulada, agora que as novas gerações de valvulados demonstram, mais uma vez, a sua supremacia perante os leves e descartáveis transistores? Seria loucura também sua opção por guitarra Gibson em detrimento da Fender usada por seu irmão Sérgio? E seus 2 livros de ficção científica? E suas centenas de pinturas a óleo?”, pergunta o jornalista Marcelo Dolabela no artigo ‘Genialidade Valvulada’.
A verdade é que a genialidade de Arnaldo só poderia ser tratada, pela mentalidade mediocrizante brasileira, de uma forma: como loucura. Nem uma possível morte, várias vezes anunciada, seria adequada. A loucura. Assim teríamos nosso Syd Barrett, nosso Arthur Rimbaud, nosso Antonin Artaud”, diz Dolabela.
Como canta Trummer, “a única salvação é a transformação a cada segundo”. Semelhante ao Loki dos vikings, Arnaldo Baptista tem o poder de se transformar e, graças a ele, está mais vivo do que nunca, em cartaz nos cinemas c/ sua biografia, pintando e compondo em seu refúgio mineiro na companhia da sua mulher e anjo-da-guarda, longe dos homens, perto da natureza, 61 anos comemorados na última quinta-feira. E se alguém quiser entendê-lo, basta ouvir ‘A Balada do Louco’, sua canção-manifesto: “Dizem que sou louco / por eu ser assim / Se sou muito louco / por eu ser feliz / Mais louco é quem me diz / e não é feliz / Eu sou feliz”.
Eu juro que é melhor / não ser o normal”... Arnaldo 'Loki', misto de deus e gigante