terça-feira, setembro 29, 2009

LUA DE FELEu sou o demônio, e vim aqui fazer o trabalho do demônio! Susan Atkins, 09 de agosto de 1969.

Em uma noite de verão, um homem acompanhado por 3 garotas sobe em um poste e corta a linha de telefone do nº 1050 na Cielo Drive, Califórnia. Em seguida, invadem a propriedade e assassinam a golpes de faca todos que encontram por lá: o playboy Wojciech Frykowski, o cabeleireiro Jay Sebring, a socialite Abigail Folger e a atriz Sharon Tate, grávida de 8 meses e ½.

Tate era um dos símbolos sexuais dos anos 60, uma das mulheres mais bonitas do mundo, recém-casada c/ o cineasta Roman Polanski, c/ quem contracenou em Dança dos Vampiros, longa-metragem de ‘67. Nascido na Polônia em 1933, Polanski teve seus pais enviados p/ Auschwitz na 2ª Guerra Mundial, e sobreviveu refugiado em casas de famílias católicas nas zonas rurais da França.

ATÉ QUE A MORTE OS SEPAREO assassinato de Sharon Tate não teve motivações políticas ou sexuais. Ela morreu porque era a pessoa errada no lugar errado. Seus assassinos – Charles Watson, Susan Atkins, Linda Kasabian e Patricia Krenwinkel – estavam numa missão a serviço de um guru, Charles Manson: destruir a casa que pertenceu ao músico Terry Melcher e matar todos que lá estivessem.

A obsessão de Manson por Melcher começou um ano antes, quando ambos foram apresentados pelo Beach Boy Dennis Wilson. Na época, o serial killer era um compositor de rock iniciante que queria um contrato. Terry Melcher se recusou a fechar um negócio”, explicou a revista Rolling Stone em sua edição brasileira de agosto de 2008.

Em março de ’69, o casal Roman & Sharon alugou o rancho de Terry. 6 meses depois, na noite fatídica, Polanski estava na Inglaterra, filmando uma nova versão de Macbeth, peça shakespeariana c/ fama de maldita. Àquela altura, ele já era um dos principais diretores de cinema do planeta: seu 1º longa, o francês Faca na Água, foi premiado no Festival de Veneza e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro; Armadilhas do Destino e Repulsa ao Sexo, ambos rodados na Inglaterra, lhe renderam os Ursos de Prata e de Ouro no Festival de Berlim.

Foi em uma produção EUA/Inglaterra que Polanski conheceu Sharon Tate: ele escreveu, dirigiu e atuou em Dança dos Vampiros, estrelado pela beldade americana. Em ’68, estréia em Hollywood c/ O Bebê de Rosemary, sucesso de público e crítica, filme de terror sobre uma mulher grávida que carrega, sem saber, o Anti-Cristo em seu ventre.

Numa bizarra ironia, 1 ano depois sua esposa na vida real é assassinada c/ 16 facadas às vésperas de dar à luz. Watson, o executor, diria no julgamento que Sharon “implorava por misericórdia p/ ter seu filho”, até morrer sussurrando apenas a palavra “mãe...”. Susan Atkins, que descreveu-se como “o demônio” à 1ª vítima da noite [Frykowski], usou o sangue derramado da atriz p/ escrever a palavra “PIG” na porta da casa, antes de sair.

PUNIÇÃO, REDENÇÃO...A ‘Família Manson’, como ficaram conhecidos os assassinos de Sharon Tate, só foi presa em dezembro e julgada no ano seguinte, num processo que durou até 1971. Foram todos condenados à pena de morte, embora suas sentenças tenham sido reduzidas posteriormente p/ prisão perpétua. Apenas Linda Kasabian foi liberada, por ter atuado como testemunha de acusação. Polanski só retornou aos EUA em 1974, p/ dirigir Chinatown, suspense policial que se tornaria um clássico do cinema. Durante as filmagens, torna-se amigo do ator principal, Jack Nicholson. Uma parceria que não daria muito certo.

Em ’77, o cineasta franco-polonês realizou na casa de Nicholson uma sessão de fotos c/ uma modelo americana, Samantha Geimer, p/ a revista Vogue. “Tudo ia bem, até que ele me pediu p/ trocar de roupa na frente dele”, contou a menina no tribunal, meses depois. “Ele me fez beber champanhe e tomar Quaalude. E abusou de mim.” Como se a acusação de estupro não fosse o suficiente, ainda havia outro agravante: Roman tinha 43 anos; Samantha, 13.

Os pais da garota abriram um processo por violência sexual. A princípio, Polanski declarou-se inocente, mas 6 meses depois mudou de estratégia [orientado pela defesa] e declarou-se culpado por “corrupção de menor”. O juiz Lawrence Rittenband recomenda 3 meses de prisão p/ “exames mentais”, e Roman passa 47 dias no hospital-presídio de Chino, Califórnia. Liberto sob condicional em janeiro de ’78, foge p/ Paris ao saber da possibilidade de ser condenado à pena máxima, 50 anos.

Polanski nunca mais pisou nos EUA. Exilado na França, adaptou o romance Tess, de Thomas Hardy, em 1979, c/ a jovem Natassja Kinski, filme que lhe rendeu 3 prêmios César e uma indicação ao Globo de Ouro e Oscar. Confirmou o bom-gosto p/ mulheres casando-se c/ Emmanuelle Seigner, estrela de seus filmes nos anos 80/90, como Busca Frenética [c/ Harrison Ford] e Lua de Fel [c/ Peter Coyote e Kristin Scott Thomas].

No início dos anos 2000, voltou à cena c/ O Pianista, história passada nos anos 40 c/ toques autobiográficos. O filme lhe deu a Palma de Ouro em Cannes em 2002 e o Oscar de melhor diretor em 2003 – que não foi receber, por razões óbvias. “Usei minhas memórias e material da época, mas não é a minha biografia”, esclarece o polêmico cineasta.

... E PUNIÇÃO NOVAMENTE

Após quase 40 anos na cadeia, o hippie-satanista Charles Manson tornou-se um misto de ermitão e ícone pop, fazendo música em parceria c/ Axl Rose e inspirando até o batismo de um astro do rock, Marylin Manson. O assassino de Sharon Tate, Charles Watson, converteu-se ao cristianismo e poderá tentar a liberdade condicional em 2011, quando completará 65 anos. E Susan Atkins, a que dizia ser o demônio e escreveu “porco” c/ o sangue da atriz, morreu na última quinta-feira, 24, de câncer no cérebro.

Dois dias depois, Roman Polanski foi preso em Zurich, onde receberia um prêmio especial por sua obra, logo ao descer no aeroporto. A acusação é a mesma de 1977: drogar e estuprar Samantha Geimer, quando ela era menor de idade. Em 1994, Polanski pagou uma indenização de US$ 225.000 a Samantha, encerrando o processo civil. Mas o procurador Roger Gunson negou-se a absolvê-lo no expediente criminal, e fixou uma nova pena de 4 anos.

Aos 76 anos, o velho ‘Pola’ vive a real possibilidade de ser extraditado p/ os EUA e passar um bom tempo atrás das grades, por um crime cometido há 32 anos. Paralelamente, o Brasil se meteu em uma confusão diplomática inversamente parecida, ao abrigar o presidente deposto Manoel Zelaya em sua embaixada em Honduras, em meio a um governo militar golpista. Mas essa é outra história...

A prisão de Polanski é resultado da rejeição definitiva do pedido de suspensão das acusações pelos advogados de defesa, e de um acordo entre EUA e Suíça, avalista da milionária dívida do banco UBS, que quase foi à falência na crise de 2008, após gestões fraudulentas. “No filme O Terceiro Homem, de Orson Welles, a Suíça é tratada como fabricante de cucos, mas se poderia acrescentar alguma coisa mais grave que seus relógios, sua cumplicidade na 2ª Guerra, seu segredo bancário receptador das riquezas do 3º mundo e, agora acuada por Kadhafi e pelos EUA, [...] seus exercícios genuflexórios diante de um e do outro”, escreve Rui Martins direto da cidade suíça de Berna:

Pior, porém, que tudo isso, é a falta de uma consciência política e cultural, mesmo sendo um país rico, coisa que enfurecia o dramaturgo Durenmatt e o escritor Max Frisch, sem se esquecer os acessos de ira do sociólogo e escritor Jean Ziegler, todos os três suíços. A Suíça é rica, mas infelizmente inculta e sem visão.

ÚLTIMO ROMÂNTICO"Aos olhos de muitas pessoas, eu passo por uma espécie de gnomo e de depravado, mas meus amigos, e as mulheres de minha vida, sabem ao que se ater", escreveu Polanski em ‘84, na autobiografia Roman.

O estupro de Samantha Geimer está no filme Polanski, de Damian Chapa, lançado em 2005. A notícia da prisão do cineasta causou congestionamento em sua página na Wikipedia, que teve bloqueada a edição de conteúdo: “As discussões no fórum da enciclopédia livre indicam que houve discordância sobre se as acusações de exploração sexual contra Polanski deveriam receber mais destaque do que suas realizações enquanto cineasta”, informa o jornal Telegraph.

O ministro de Assuntos Exteriores da França, Bernard Kouchner, e seu colega polonês, Radoslaw Sikorski, enviaram um pedido de intervenção a favor da libertação do diretor p/ a secretária de Estado americana, Hillary Clinton. “Esta história é um pouco sinistra”, disse Kouchner, que não questiona a Justiça Internacional, mas “a forma como ela foi utilizada neste caso”. Sirkorski não descarta a possibilidade de fazer um pedido formal ao presidente Barack Obama.

Polanski formou-se em cinema em Lodz. Produziu vários curtas na universidade, quase todos experimentais. Em Vamos Arrombar a Festa, organizou um baile de alunos e, sem avisar a ninguém, chamou um bando de hooligans p/ invadir a festa. Em entrevista ao jornalista francês Paul Giannoli, foi bem honesto quanto à sua atração pelas ninfetas, as quais se refere como ‘frutos verdes’: “Eu amo as jovens, 1º porque elas são mais bonitas, é claro, mas principalmente porque elas satisfazem meu desejo de pureza e romantismo.

A própria Samantha, assediada pela mídia na ocasião do Oscar de 2003, absolveu o velho safado: “As pessoas querem que eu guarde mágoa dele. Honestamente, não me sinto assim. Acho ele um diretor realmente bom.

FACA NA ÁGUA

VIDA E OBRA DE ROMAN POLANSKI

Catherine Deneuve em Repulsa ao Sexo

C/ Sharon Tate em Dança dos Vampiros

Dirigindo Mia Farrow em O Bebê de Rosemary

Charles Manson preso pelo massacre na Cielo Drive

C/ Francesca Annis e John Finch, atores de Macbeth

Jack Nicholson e Faye Dunaway em Chinatown



quarta-feira, setembro 23, 2009

SUCK YOU DRY

Em 2008 o Mudhoney esteve no Brasil p/ sua 4ª turnê no país, passando por 6 cidades. Tocaram no Sudeste, no festival Demo Sul em Londrina [PR], na festa de 10 anos da Monstro Discos em Goiânia [GO], e fizeram 2 apresentações no Programa do Jô, divulgando The Lucky Ones, 8º álbum de estúdio da banda.

No dia 15 de outubro foi a vez de Salvador [BA] receber os caras que forjaram o som de Seattle nos anos 90, c/ seu rock garageiro e bêbado, influência total p/ Kurt Cobain e cia.. O show foi no festival Boombahia, no Pelourinho. Eles já haviam tocado em Recife [PE] há alguns anos, mas nunca tão perto da minha casa. Fui lá conferir e aproveitei p/ gravar umas imagens pro Periferia.

É difícil não cair no clichê, mas não tem muito pra onde fugir. O Mudhoney fez um show histórico e marcante”, definiu o blog baiano El Cabong: “Postura de palco simples e arrasadora, mas sem precisar de apelações. O som que a banda tira de seus instrumentos – e da garganta – é o que brilha. Formada há 20 anos e com seus membros passando dos 40, a banda mostrou como fazer um showzaço de rock.

Tocaram algumas músicas novas, mas o bicho pegou mesmo nos clássicos grunge. Vi neguinho ‘chorando’ c/ “Into the Drink”, “Hate the Police” e “Touch Me I’m Sick. Fiz um clipinho de “Suck You Dry”, hit do disco Piece of Cake, e usei num encerramento do Perifa’s – apenas 30s porque o tempo do programa estava estourado, pra variar.

1 DRINK NO INFERNO

Foi uma noite daquelas. Após o show, esticamos p/ uma boate na Barra chamada Groove, que tem uma foto gigante dos Ramones na entrada. Meu mano Marcos ‘Magajanes Muertos’, do estúdio Bola Preta, descolou convites p/ uma tal de “Festa Glam” e, pelo preço, resolvemos conferir: no inferninho, uma banda EMO chamada Nancy tocava um som influenciado por New Order.

Foi a coisa mais próxima de uma “despedida de solteiro” que tive, já que 1 mês depois eu estaria casando. Lá dentro, a rapa do rock baiano – integrantes de bandas de garagem como Sangria e Jupiter Scope, e até a megastar Pitty – e umas baianinhas bem gatas. Entre a ressaca e a dor na consciência, fiquei c/ a 1ª opção e enchi a cara c/ Skol. Não desceu redondo, e no fim de noite no Mercadinho do Peixe, acabei fazendo estrago no Celta 0km do meu amigo Marcos: “Você vomitou e dormiu, perdeu o sarapatel às 6 da matina, haha!”, me falou o ‘Bola’ no dia seguinte.

O esquema foi tão 666 que Ronaldo Chorão, da banda Gangrena Gasosa, voltou conosco p/ Aracaju no carro do Adelvan K., do Programa de Rock [104.9 FM]. Logo após a exibição do clip do Mudhoney no Periferia – que vocês acompanham a seguir – a fita c/ as imagens brutas sumiu. Rock é coisa do demo.

ENTREVISTA: MARK ARM [MUDHONEY] - por Bruno Dias

Qual a principal diferença em estar na banda agora e de quando vocês começaram?
Eu acho que quando se é mais novo você leva as coisas todas para o lado pessoal, e fica nervoso com qualquer coisa. E quando se é mais velho você é mais flexível. Eu acho que é mais difícil tocar ao vivo quando se é mais velho, muitos de nós já são casados, possuem filhos, empregos, é mais difícil largar tudo e sair em turnê.

O que mantém o Mudhoney junto por 20 anos?
Existem várias coisas que mantém a banda junta, as duas principais são: Todos amamos fazer música. E a outra, é que nós nunca tivemos expectativas muito altas com relação à banda, nunca ficamos desapontados. Nunca tivemos o pensamento de que seríamos a maior banda do mundo, que iríamos tomar conta da música pop. Apenas tocar nossa música e viver a vida como vivemos. Eu acho que nós somos muito sortudos por viver de música.


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segunda-feira, setembro 21, 2009

1 ANO NO AR
Durante 1 ano e meio eu dirigi, editei e co-produzi o Periferia, uma revista eletrônica semanal c/ esporte, música e ativismo social na pauta, apresentado por um rapper, o Ganso - vulgo "Hot Black" -, autor do projeto. O resto da crew é formado por um skatista profissional e um produtor musical: meus amigos Detefon e Marcão. Um time promissor, mas quem vive de promessa é político. Além das 3 funções oficiais, sobrava p/ mim roteirizar, e eventualmente atacar de cinegrafista, repórter e até auxiliar técnico, fazendo som direto nas externas & pedreiragens correlatas.

Este fim-de-semana o Periferia completou 1 ano no ar. Parabéns aos envolvidos, porém... Bancar a babá toda semana tem um preço, e o ritmo intenso do trampo aliado a desgastes de relacionamento me fizeram abandonar o barraco há pouco mais de 1 mês, às vésperas do programa ser cooptado pela TV Brasil [essa história é antiga]. P/ mim, um alívio. Tirando a experiência, o único bônus que eu ganhei foram cabelos brancos. Toquei o "foda-se", mas a AP TV manteve meu contrato, esperando a poeira baixar p/ tocarmos juntos novos projetos.

Pretendo 'loadear' aqui algumas das melhores matérias exibidas ao longo desse ano. P/ começar, um dos meus últimos trabalhos, a chamada institucional usando cenas e personagens emblemáticos. A arte em 3D é do André 'Ruivão', e o cenário grafitado é obra do genial Chagas. Eu montei o vídeo e o sound designer Pauly di Castro finalizou o áudio. Apesar da minha saída, este comercial continua a ser veiculado diariamente:

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sexta-feira, setembro 18, 2009

SÓ NO SAPATINHO - Este é seu beijo de despedida, cão!, gritou Muntadar Al-Zaidi ao atirar seu 2º sapato em George W.Bush, durante conferência de imprensa c/ o 1º Ministro iraquiano Nouri Al-Maliki, no final do ano passado. Antes ele bradou: “Este é um presente dos iraquianos!”, arremessando o 1º sapato no ex-presidente da Amérikkka.Isto é pelas viúvas, órfãos e todos que foram mortos!”, conseguiu dizer enquanto era derrubado por seguranças.

O ataque foi simbólico – a sola do sapato representa toda a sujeira, e xingar alguém de cachorro no Iraque é pior do que ‘filhodaputa’ no Brasil. Não oferecia risco de vida ao então presidente, que desviou-se dos 2 petardos, mas rendeu ao jornalista xiita a sentença de 3 anos de prisão. “A oportunidade apareceu e não a desperdicei. Atirei meus sapatos p/ exprimir a minha rejeição às mentiras e à ocupação do meu país”, falou Al-Zaidi nesta terça-feira, ao ser libertado após cumprir 9 meses no ‘xis’ – ¼ da pena.

JE NE REGRETTE RIEN

Muçulmano xiita praticante, eclético o suficiente p/ ter em seu quarto um pôster de Che Guevara, Muntadar al-Zaidi é hoje famoso como um herói, um precursor, até no mundo sunita. Do Egito à Palestina, passando pela Indonésia e pelo Paquistão, milhares de cidadãos se manifestaram em seu favor”, escreveu a francesa Patrice Claude no Le Monde em fevereiro.

Em janeiro, guardas levaram um bolo c/ velas à sua cela, na ocasião de seu aniversário de 29 anos. Pela beleza do arremesso”, parabenizaram-no. Maith Al-Amari, famoso escultor iraquiano, lhe dedicou uma obra: um sapato gigante feito de plástico e bronze, exposto numa praça de Tikrit [cidade de Saddam Hussein]. Poetas cantam sua glória. Xeques ofereceram suas filhas.

Mas Muntadar, que foi torturado c/ chicotadas, barras de ferro, choques eléctricos e afogamento, e perdeu um dente na cadeia, recusa a pecha de herói – ele só quer justiça. “No momento em que o primeiro-ministro Nuri Al Maliki afirmava às redes de televisão que não dormiria até que tivesse garantias de meu destino, eu era torturado da pior maneira, agredido com cabos elétricos e barras de ferro", declarou o repórter na coletiva de imprensa, realizada na sede da TV Al Baghdadia, na qual trabalha.

Ele afirmou que os maus-tratos começaram logo depois de ter sido preso na sala de conferências de imprensa onde estavam Al-Maliki e Bush, a quem, acrescentou, os jornalistas estavam proibidos de fazer perguntas. “Estou livre neste momento, mas o meu país ainda continua cativo. Não sou um herói, apenas tenho uma forma de ver as coisas e minha opinião.

Al-Zaidi deixou Bagdá num avião privado no mesmo dia em que foi libertado e está na Grécia recebendo tratamento médico, uma escala p/ o destino final – a Síria. “A embaixada não tem nenhum contato c/ ele, nem dispõe de detalhes sobre a estadia”, declarou uma fonte da AFP.

POWER SURF PANDA

Ofereço essa vitória ao meu pai, Divo. Hoje fazem 8 dias que ele faleceu e sei que ele está lá em cima olhando por mim”, declarou Willian Cardoso no pódio do Ferrolterra Movistar Pantin Classic. O catarinense de 23 anos, atual vicecampeão brasileiro pro, venceu pelo 2º ano consecutivo o WQS 5* da Espanha, na última semana:Toda hora que eu entrava na água, ele mandava as ondas e deu tudo certo. Você vai fazer muita falta aqui na Terra e eu te amo mais do que tudo”, disse o bicampeão em Pantin.

Assim como Al-Zaidi, Willian calça 42 e tem a patada mais poderosa do surf nacional, a ponto de ser reconhecido pela mídia gringa como um autêntico power surfer – uma raridade p/ brasileiros, geralmente vistos c/ preconceito: "Renowned for his powerful style and big-wave surfing skills", definiu o site oficial da ASP ao noticiar sua 2ª vitória na temporada.

Seu peso, de mais de 80 quilos, aliado à sua habilidade e agressividade nas ondas, já lhe valeram uma vitória no Super Surf, surfando em casa, na Joaquina, e nada menos que 3 vitórias no circuito mundial no espaço de 1 ano: a 1ª vez na Espanha, em 2008, o repeteco semana passada e o título inédito do Azores Islands Pro, WQS 6* em Portugal, há menos de 1 mês.

Além dos $36 mil dólares ganhos nas últimas 3 semanas, o porte animal do moleque também lhe valeu o apelido ‘Kung Fu Panda’: “Quando venci lá em Portugal o Jean [da Silva] e o Marco [Giorgi] não conseguiram me levantar, amarelaram. Aí falaram que se eu ganhasse de novo, eles iam me carregar até o pódio. Mas não quis matar eles e deixei que me levassem só um pouquinho. Tá show, bicampeão em Pantin, uuuhhhúúú!”, urrou o Urso ao receber mais um checão.

Quero agradecer também toda minha família pelo apoio, por me convencerem a ficar aqui [na Europa] fazendo o meu trabalho, em vez de voltar correndo pro Brasil”, disse, referindo-se novamente ao pai. “Sem eles eu não estaria aqui hoje.” Willian enfrentou amigos nas 2 finais da perna européia – em Pantin derrotou o veterano Rodrigo Dornelles, ex-WCT, e nos Açores foi a revelação Jadson André, vicelíder do ranking. O Panda ocupa a 13ª posição e é, até o momento, o único brasileiro além de Jadson a estar se classificando pela divisão de acesso p/ o WCT 2010.

BIGODE TERRORISTAMuntadar Al-Zaidi quer justiça & liberdade p/ o Iraque, Willian Cardoso quer apenas uma vaga na elite do surf profissional. Ambos estão deixando suas pegadas numa história que ainda está sendo escrita. Enquanto isso, o responsável pela invasão do Iraque – atrás de “armas de destruição em massa” que nunca existiram – escapa ileso, não só dos sapatos de Al-Zaidi, mas dos crimes de guerra que cometeu nos 8 anos de seu governo. Só posso dizer que era um tamanho 10”, zomba Bush, usando a medida americana.

Aqui no Brasil, outro presidente, o do Senado, também desvia ligeiro de toda e qualquer acusação que lhe façam, por mais certeiras e inevitáveis que sejam. Não satisfeito em se dizer vítima de uma “campanha difamatória nazista”, José Ribamar agora chama a mídia de “inimiga das instituições representativas”. Era o que pensava a Censura, na época da Ditadura.

A tecnologia hoje levou os instrumentos de comunicação a tal nível que a grande discussão que se trava é justamente esta: quem representa o povo? Diz a mídia: somos nós, e dizemos nós representantes do povo: somos nós. É dessa contradição que existe hoje, um contra o outro, que, de certo modo, a mídia passou a ser uma inimiga das instituições representativas", declarou o inacreditável Sarney em discurso no plenário.

Num país onde o Supremo Tribunal Federal decide que jornalismo não vale diploma, e já que as 11 denúncias contra o velho Sarna foram arquivadas pela Comissão que deveria investigá-las, não seria o caso de umas sapatadas?

FAÇA SUA PRÓPRIA REVOLUÇÃO

enquanto Muntadar Al-Zaidi fazia história...

...Nouri Al-Maliki tentava proteger o 'patrão'

protesto no Iraque: o que importa é passar a idéia

homenagens do grafiteiro inglês Banksy...

...e do cartunista brasileiro Latuff a Al-Zaidi

Willian Cardoso em sua blitzkrieg na Europa

na Grécia, estudantes enfrentaram a polícia em dezembro, após a morte de Alexandros Grigilopoulos, de 15 anos

domingo, setembro 13, 2009

ROCK ME BABY

13 de julho é o Dia do Rock. 13 de agosto morreu Les Paul. E amanhã, 14 de setembro, se completam 2 anos desde o fatídico dia da morte do meu irmão, Fernando Augusto.

Lester William Polfus foi O CARA: inventou a guitarra elétrica e o sistema de gravação em canais. Nascido no Wisconsin em 1915, ‘Les Paul’ começou a experimentar aos 13 anos, quando já tocava em bandas country profissionalmente – insatisfeito c/ as limitações do violão [‘guitar’, em inglês], implantou um receptor telefônico e, em seguida, uma agulha de fonógrafo sob as cordas, amplificando o som do instrumento.

Lançou seus primeiros discos em 1936, um tentativa frustrada usando o pseudônimo ‘Rhubard Red’ e outro como músico da banda de Georgia White [além de guitarra, tocava gaita e banjo]. Só quando se lançou como guitarrista de jazz usando seu apelido de infância, Les Paul engrenou. Criou seu protótipo de guitarra em ’41: um violão elétrico quadrado, de madeira maciça, apelidado de ‘O Tronco’: “Levei o instrumento a uma casa noturna e toquei. Todos me rotularam de maluco”.

Todos, incluindo a diretoria da fábrica Gibson, a qual Les apresentou o projeto [ao lado, o manuscrito original]. Foi ridicularizado e deixado de lado, até que em 1950 a concorrente Fender lançou o modelo Broadcaster, sucesso de vendas.A Broad, que na década seguinte mudou de nome p/ Telecaster e se eternizou nas mãos de Jimi Hendrix, tinha corpo sólido, cordas de aço e captadores elétricos – o mesmo princípio usado por Les Paul 9 anos antes.

GLPRestou à Gibson correr atrás do prejuízo. Procuraram o guitarrista do Wisconsin, que a essa altura já havia se firmado como astro do jazzao longo da carreira atingiu 11 vezes o nº1 das paradas e conquistou 36 discos de ouro, muitos em parceria c/ a cantora Mary Ford, sua esposa. Gibson/ Les Paul firmaram então a parceria que criou um dos maiores ícones da música: a guitarra de cintura fina e som encorpado.

Les Paul foi um exemplo brilhante de como a vida de uma pessoa pode ser intensa. Ele era tão brilhante e cheio de energia positiva. Estou honrado por ter tocado c/ ele algumas vezes nestes anos”, disse Slash em julho. O ex-guitarrista do Guns’n’Roses é só um dos muitos nomes de peso na lista dos fãs da Gibson Les Paul: George Harrison, Pete Townshend, Jeff Beck, Eric Clapton, Jimmy Page, Tony Iommi, Ace Frehley, Eddie Van Halen, Kirk Hammett, Zakk Wilde, Tom Morello, David Grohl... Só p/ citar os que eu curto. De John Frusciante e Buckethead a Lúcio Maia e Julico da The Baggios, todo mundo AMA a GLP.

Essa guitarra já foi motivo de briga entre os irmãos Baptista, dos MutantesSérgio usa Gibson mas também umas Fender, promiscuidade inaceitável p/ Arnaldo. Paul McCartney, de tão fissurado, pediu uma personalizada ao próprio mestre [que presenteou outros stars c/ séries especiais depois disso]. Les ingressou no Hall da Fama do Grammy em ’78 e no Rock’n’Roll Hall of Fame na década seguinte. Demorou.

FATHER OF INVENTION

You say you want a revolution”... [Lennon/McCartney]

A amplificação da guitarra ocorreria de um jeito ou de outro ao longo do séc.XX. Nas décadas de 40/50, Leo Fender e Adolph Rickenbacker faziam pesquisas paralelas e desenvolveram suas próprias técnicas. Contemporâneo dos dois, o criador do modelo mais clássico da Gibson já seria um mito, pelo pioneirismo e excelência. Mas a grande revolução de Les Paul foi a gravação multicanais.

Em 1948, Les gravou uma faixa p/ a Capitol Records na garagem de casa: “Lover (When You´re Near Me)”. O ‘Professor Pardal’ tocou 8 partes da música na guitarra, algumas gravadas a meia rotação, que pareciam ter o dobro da velocidade quando tocadas normalmente. P/ criar esse efeito ele usou discos de acetato ao invés da fita magnéticagravava uma trilha e depois a si mesmo tocando junto c/ o 1º disco, e assim sucessivamente.

Foram 500 discos de acetato até chegar num resultado satisfatório. A 1ª gravação multicanal foi, portanto, uma experiência de garagem. O sistema de gravação criado por Les Paul gerou a [milionária, ainda que quebrada] indústria musical que existe hoje – de cantoras pop a orquestras sinfônicas, música eletrônica, o escambau.

Les foi reconhecido em vida e morreu aos 94 anos de pneumonia. Sem drama. Um gênio. Passou os últimos anos tocando todas as segundas-feiras num clube de jazz de NY, o Iridium, sempre acompanhado de roqueiros como Mark Knopfler, Bruce Springsteen, Van Halen, Jimmy Page e seu chapa Slash. Velhinho envenenado esse Les Paul.

ECHOES

Hope I die before I get old[My Generation, The Who]

Les Paul foi genial, inventou o rock e a indústria musical – embora não tenha recebido nem 1/10 dos dividendos que merecia – e foi um bon vivant, curtindo sua passagem pela Terra numa longa viagem de quase 1 século. Menos sorte teve meu mano. Nando não teve chance. Infarte fulminante. Aos 29 anos.

Meu irmão não inventou nada, mas curtia o barulho possibilitado a partir do advento da guitarra elétrica. Começou curtindo Nirvana quando andava de skate, depois adotou o metal c/ tanta ênfase que tinha o logo do Mercyful Fate tatuado na perna. Era o maior fã do King Diamond que eu já vi.

Eu também curtia Nirvana, e Soundgarden, Mudhoney, Melvins, etc. Metal, p/ mim, era Blue Cheer, Sabbath, Led Zep e Deep Purple. E Pantera, Slayer e Sepultura [c/ o Max]. Sempre ouvi de tudo: Bad Brains, Black Flag, Sonic Youth, The Meters, Gladiatorspunk, HC, noise, funk, reggae... E samba de breque, partido alto, rap gringo: Moreira, Bezerra, Public Enemy, Cypress Hill, Beastie Boys. P/ dar uma idéia, caras tão diferentes quanto Cab Calloway, Serge Gainsbourg, Chico Science, Manu Chao estão entre os meus preferidos. P/ não falar em Bird, Miles, Mingus & Monk; Billie Holliday, Chet Baker, Art Blakey & John Coltrane. Jazz é o crime.

LOUDER THAN LOUDSó p/ não fugir do tema, faço minha homenagem a Nando & Les Paul disponibilizando a seguir uma série de vídeos extraídos do Alto-Falante, da Rede Minas de televisão. Criado em '97 pelo jornalista Terence Machado, o programa é uma revista eletrônica semanal de música. Ao lado da gatinha Luíza Damazio e do tiozinho Adriano Falabella, o careca Terence apresenta e recebe bandas p/ sessões nos estúdios da TV, que cobre todos os festivais underground que acontecem no Brasil e no mundo como o Goiânia Noise e o Reading Festival.

Os 1ºs vídeos fizeram parte do especial Dia do Rock, uma retrospectiva dos principais nomes e movimentos desde os anos 50/60 até o início dos 2000. Eu o dividi em 2 partes, cortando entrevistas de convidados e bandas que não fizeram parte da minha história. Deixei apenas as que eu ouvi muito e apareceram na reportagem. O 1º vídeo começa c/ Chuck Berry [ainda que eu prefira a “Johnny B.Good” do Peter Tosh],passa por Jerry Lee Lewis e seu misto de selvageria & estilo impecável, e daí p/ frente é só pedrada: Beatles, Yardbirds, Animals, Hendrix, Doors, Creedence, Steppenwolf, Sabbath, Zeppelin, Purple, Pink Floyd, Sex Pistols, Clash, Iggy Pop e Ramones ao vivo c/ "Psycho Therapy". Este vai p/ o Les Paul:

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O 2º bloco é p/ Nando o que representa os anos 90. Começa c/ Red Hot, vai p/ Nirvana e segue c/ Soundgarden, Jon Spencer, Asian Dub Foundation e Rage Against the Machine. Dessas, assisti Asian Dub e Blues Explosion em diferentes edições do Abril Pro Rock - 2 dos shows mais irados que já vi na vida. Falta muita gente nessa sequência: Pixies, Beck, Pavement, Portishead, Sublime, Ministry, FNM, White Zombie etc. Mas, pelo preço, não reclamem:

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MONDO ROCKER

Adriano Falabella apresenta a Enciclopédia do Rock no Alto-Falante. Os 3 vídeos a seguir foram extraídos desse quadro, que traz à tona raridades valiosas do 'mondo rocker'. O 1º clipe da trilogia que preparei traz os Rolling Stones em '66 tocando "Paint It Black" no Eddie Sullivan Show, o mesmo que lançou os Beatles nos EUA. Brian Jones ainda estava vivo e aparece tocando cítara. Mick Jagger ostenta um mullet 20 anos à frente da moda, e Keith Richards, a bordo de uma Les Paul, ainda parecia humano. Os Stones nunca foram muito bons compositores nem músicos, mas o charme está na vagabundagem. Como disse o crítico Bruno MacDonald, da revista Q, “sua arrogante vulgaridade provocou um abalo sísmico no pop polido de então - e continua a repercutir até hoje”:

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Raridade mesmo é este aqui: Deep Purple tocando no Playboy's Penthouse, o programa de TV que o Hugh Hefner tinha nos anos 60. A banda aparece em sua formação original, que não é a mais clássica [conhecida como 'Mark 2', c/ Ian Gillan no vocal], mas o registro é histórico e o som é “Hush”, o 1º hit do DP. A cena é lisérgica, os caras c/ roupas bufantes coloridas e as coelhinhas da época dançando muito. Tempos de revolução sexual e pílula anticoncepcional, AIDS não existia, imagina a sacanagem que rolava nessas festas. Como diria o cabeludo Falabella: “Gostas do delírio, baby?

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P/ terminar, os 4 cavaleiros do apocalipse: Black Sabbath circa 1970. O disco de estréia dos caras pode ser considerado o 1º álbum de metal do mundo o peso, a demência e as temáticas mórbidas e satânicas já estão lá. "O álbum parece grosseiro porque foi gravado em apenas 2 dias c/ um orçamento apertadíssimo - e mais, simulando uma gravação ao vivo, c/ picos de volume e tudo", explica o jornalista Tim Jones no livro 1001 Discos. "O guitarrista Tony Iommi, c/ seus dedos deformados por um acidente industrial, toca a guitarra meio tom abaixo do mi bemol, acentuando ainda mais o tom opressivo da música." Aqui eles aparecem tocando uma versão cheia de anfetamina de "Blue Suede Shoes", antecipando o hardcore [c/ uma Gibson]:

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IN MEMORIAN
Fernando Augusto de Sá Regis Fontoura - * 20/12/1977 + 14/09/2007
Lester Willian Polfus - * 09/06/1915 + 13/07/2009