quarta-feira, outubro 28, 2009

SACANAS SEM LEI

Seja marginal, seja herói.
A frase é do carioca Hélio Oiticica [1937 - 1980], um dos principais artistas plásticos do país nas décadas de 60/70, período em que ser marginal significava lutar contra o sistema. Eram os anos de Chumbo da Ditadura Militar no Brasil.
Oiticica foi um vanguardista especializado em instalações e intervenções. Suas obras mais famosas são a peça orgânica Tropicália, de ’67 – que deu nome a um movimento musical composto por Mutantes, Caetano, Gil e Tom Zé, entre outros – e as séries Cosmococas e Metaesquemas.
No última dia 16, milhares de quadros, esculturas, instalações e peças de todo tipo herdadas do acervo de Hélio queimaram em um incêndio na casa do seu irmão, o arquiteto César, incluindo os famosos “parangolés”, estandartes e bandeiras feitos p/ serem vestidos em performances. Ao todo, 1500 trabalhos do artista viraram cinzas.
ARTILHARIA PESADA
Em 2009 ser marginal está na moda.
Festa do FB é tipo Osama Bin Laden/ A PM aqui não entra/ Aqui só tem talibã/ Terrorista da Al Qaeda...”, canta MC Smith no funk proibidão em homenagem ao chefe do tráfico no complexo de favelas do Alemão, no Rio de Janeiro. O Complexo do Alemão, onde a polícia não entra desde que começaram as obras do PAC, há 1 ano. O Alemão, onde um helicóptero da PM foi abatido por tiros de fuzil, ao sobrevoar o Morro do Macaco.
A Al Qaeda está bombando nas últimas semanas. Na quarta 16, mesmo dia em que Oiticica queimava na zona sul carioca, 2 atentados suicidas simultâneos mataram 11 pessoas em Penshawar, Paquistão. Hoje, 28 de outubro, outro duplo atentado: uma bomba magnética explodiu num ônibus em Sadr City, bairro xiita de Bagdá, matando 3 mulheres, e uma explosão durante a passagem de uma patrulha do exército matou mais 3 pessoas em Mossul.
Bagdá e Mossul são cidades do Iraque, onde 155 pessoas morreram no último domingo em outro atentado suicida orquestrado: um caminhão e um micro-ônibus explodiram contra o Ministério da Justiça e a sede do governo da capital. E por falar em orquestração, hoje foi um dia de cão. Enquanto a antiga Babilônia ardia em [novas] chamas, um comando talibã atacou 2 pensões em Cabul, matando 6 afegãos e 6 funcionários da Unama, a missão de assistência da ONU no Afeganistão. E em Penshawar, uma nova investida deixou quase 100 mortos, durante visita da secretária de Estado americana, Hillary Clinton, ao Paquistão.
POLÍTICA TALIBÃTodos os atentados foram reinvidicados pela Al Qaeda.
"Os eventos mostram quão longe os extremistas estão dispostos a chegar e a ameaça que representam", declarou Robert Gibbs, secretário de imprensa da Casa Branca. A idéia dos terroristas é mostrar poder de fogo e desestabilizar os governos desses países, aliados aos interesses ocidentais.
No Afeganistão, o 2º turno das eleições presidenciais acontece no dia 07 de novembro. “Essa tentativa de impedir que os afegãos elejam seu próximo governo não terá sucesso”, diz o porta-voz dos EUA. No Iraque, está em andamento a reforma de lei que regulará as eleições de 16 de janeiro do ano que vem. No Paquistão, a Al Qaeda montou sua base após o 11 de setembro. No Rio de Janeiro, mais de 40 mortos nas últimas 2 semanas.
São uns anormais”, disse o presidente Lula, referindo-se aos traficantes cariocas, não aos terroristas talibãs. Em mais uma inauguração, desta vez da vila olímpica na Mangueira, ele disse hoje: “As pessoas que acham que seja fácil enfrentar uma quadrilha organizada, é ilusão, é difícil, é preciso investimento na inteligência”. Lula sente falta do “romantismo” da favela, acredita que a guerra entre quadrilhas passa ao mundo uma “idéia errada” sobre a cidade-sede das Olimpíadas 2016, e afirma que “a violência não é exclusividade do Rio, ela ocorre em todo o Brasil, a diferença é que no Rio a repercussão dos fatos é muito maior”.
BASTARDOSSacanas sem lei”, diriam em Portugal.
Foi assim que os gajos traduziram o novo filme de Quentin Tarantino, Bastardos Inglórios. A fantasia de guerra sobre um grupo de soldados judeus americanos que aterrorizam os nazistas durante a ocupação da França, arrancando-lhes os escalpos, já é o maior sucesso comercial do diretor de Pulp Fiction e Kill Bill. Lançado em julho, Bastardos... ultrapassou os US$ 100 milhões em bilheteria logo no 1º mês de exibição – quase toda a renda de Pulp Fiction nos EUA, e mais do que o 1º volume de Kill Bill.
Especula-se que o prejuízo material pela perda das obras de Hélio Oiticica no incêndio da semana passada seja da ordem de US$ 200 milhões. Inflacionado após uma mostra no MoMa de Nova York em ’97, Oiticica passou a valer mais morto do que vivo. Em ’80, ninguém pagava mais que $2000 num desenho seu; este ano, o Metaesquema 19 foi arrematado por US$ 186.500 no leilão da Christie´s, e a galeria Tate Modern pagou US$ 850.000 por Tropicália.
Quase todos os parangolés foram destruídos pelo fogo no Jardim Botânico. Só restaram as obras em museus, galerias e coleções particulares mundo afora: além de Tropicália, as séries Metaesquemas, Bólidos e Cosmococas, na Tate em Londres, no MoMa em NY, no museu Malba em Buenos Aires e no Instituto Inhotim, em Minas Gerais. Da série Bilaterais, só se salvaram as estruturas. “Ainda assim, preservamos esquemas digitalizados, e podemos reconstruir algumas obras p/ fins didáticos. Sei que ele deu um parangolé p/ o Guy Brett, outro p/ um amigo na Bélgica. Mas foram poucos”, lamenta-se o irmão vacilão.
MOD DEVELOPERTarantino, por sua vez, segue colhendo os louros por seu último filme.
Não bastasse o sucesso comercial, Bastardos Inglórios vem sendo saudado como seu trabalho mais maduro. “Nos videogames existem os chamados ‘mod developers’, sujeitos que pegam games existentes no mercado e interferem em seu funcionamento, dando aos jogos novas características, fundindo temas e franquias, mas quase sempre trabalhando dentro de uma estrutura funcional pré-estabelecida”, compara Érico Borgo, do site Omelete:De um clássico, portanto, pode surgir algo novo e que acaba tão – ou em alguns casos, mais – apreciado quanto o título original. Quando penso no cinema de Quentin Tarantino não consigo deixar de compará-lo a um mod developer – e um dos bons”.
O que ninguém diz [até agora o Binho Nunes foi o único a citar esse detalhe em seu blog] é que Bastardos... é a refilmagem de um filme trash dos anos 70. O obscuro Bo Svenson fazia o papel de líder da milícia, que coube a Brad Pitt. Havia um negão entre os Bastards, Fred Willianson [da série de TV Shaft], e as garotas, menos bonitas que Mélanie Laurent e Diane Kruger, pelo menos pagavam peitinho. Apesar da história se passar na 2ª Guerra Mundial, o clima da nova versão é de faroeste. A trilha de abertura é de Ennio Morricone. O personagem de Pitt é conhecido como ‘Apache’ por tirar o couro cabeludo das suas vítimas. Seu nome, Aldo Rayne, é uma homenagem aos atores Aldo Ray e John Wayne. As referências aos diretores Sergio Leone e John Ford são óbvias, mas também há citações ao expressionismo alemão e à nouvelle vague, movimentos artísticos do cinema europeu.
Os judeus perseguidos pelos alemães na França ocupada de Quentin Tarantino têm uma característica incomum p/ a raça: eles gostam de mostrar aos alemães a concretização da violência; gostam de expor a seus perseguidores sua astúcia; as crueldades de que são capazes; a frieza c/ que executam seus inimigos, fazem sofrer”, diz Luiz Biajoni, do blog Amálgama. A seguir, a entrevista que o “inglorious bastard” de Hollywood concedeu a Henri Sordeau, do site Rotten Tomatoes. Que maturidade, o quê! Em filme de Tarantino, a platéia quer é ver sangue.
Quando você escreveu o roteiro de Bastardos Inglórios?
Quentin Tarantino: Eu comecei em janeiro do ano passado e, literalmente, fui escrevendo até julho. Os dois primeiros capítulos do filme foram feitos a partir de um material mais antigo [o filme original, de 1978]. Eu reescrevi um pouco essa parte, mas é um material antigo. Mas tudo do capítulo 3 em diante eu escrevi naquele período do ano passado.
Há algum motivo especial para todos os títulos dos seus filmes terem duas palavras?
QT: [risos] Nunca tinha pensado nisso antes, mas acho que você tem razão. Suspeito que é porque sempre funcionou desse jeito. Para mim, o título é sempre muito orgânico: não é simplesmente “Ah, isso precisa ficar bonito no pôster”. Se, por alguma razão eu não pudesse usar Bastardos Inglórios, provavelmente iria chamá-lo Era Uma Vez Numa França Ocupada por Nazistas.
Como você descreveria a história? De alguma maneira, lembra bastante seus primeiros roteiros como Amor à Queima Roupa [1993] e Assassinos por Natureza ['94]
QT: P/ mim, não é como Pulp Fiction, é muito mais parecido c/ Amor à Queima Roupa e também como Cães de Aluguel [1992]. A cena de La Lousiane é como uma versão reduzida de Cães de Aluguel, mas c/ nazistas na Alemanha. É uma cena de 23 minutos, e ao invés de um galpão, temos um pequeno bar no subsolo. Mas p/ mim, também tem um certo aspecto de Pulp Fiction, quando você tem todas essas histórias diferentes que vão se dirigindo p/ o mesmo lugar. Nesse sentido, é mais Pulp Fiction. As histórias são ainda mais diversas, mas na verdade elas estão contando uma grande história, ao invés de ser um grande mosaico. Mas também me lembra bastante Amor à Queima Roupa, porque sempre tem um personagem novo que chega e rouba a cena, alguém que simplesmente pega o filme na mão e sai correndo c/ ele. A cada 20 minutos você se pergunta “Que porra de filme é esse?”
Muitas pessoas esperavam um filme tipo Os Doze Condenados [dirigido por Robert Aldrich em 1967], c/ homens cumprindo uma missão, mas Bastardos Inglórios não é bem assim...
QT: Bem, na verdade, foi Os Doze Condenados que me deu a idéia de fazer esse filme. Mas é sempre assim comigo: todas as coisas que me inspiram a sentar e escrever geralmente não são aquelas que eu termino fazendo. Porque, por mais que eu ame o gênero, e tente cumprir as expectativas, acabo pegando um outro caminho. Vou fazer algo propriamente meu. Quando sentei para escrever Cães de Aluguel, eu queria fazer um filme sobre um assalto. Bem, eu fiz [risos], mas você não viu o assalto!
Você tomou muita liberdade c/ o contexto histórico no filme. Essa sempre foi a sua intenção?
QT: Não foi onde eu comecei. Sem dúvida não foi assim que eu comecei. Não fazia idéia de que isso iria acontecer. Quando se começa a escrever, você tem seus personagens em uma estrada, e conforme eles andam por ela, todas essas outras estradas começam a surgir, tornando possível que eles sigam por elas. Muitos roteiristas bloqueiam essas outras estradas e não permitem que seus personagens sigam por elas. E sem razão nenhuma, geralmente por seguirem a convenção estabelecida. Bem, eu nunca coloquei bloqueio algum em nenhum desses caminhos. Meus personagens podem ir onde quiserem e eu irei segui-los.
Então o que aconteceu quando você os seguiu?
QT: Bem, nesse filme havia um grande bloqueio na estrada, e isso era a própria História. Eu esperava honrar aquele bloqueio. Mas uma hora, enquanto estava concentrado em escrever o roteiro, eu pensei: “espera aí, meus personagens não sabem que são partes da História. Eles estão no imediato, no aqui e agora, isso está acontecendo. A qualquer minuto eles podem estar mortos. E sabe de uma coisa? O que acontece nesse filme não aconteceu na vida real porque meus personagens não existiram. Mas se eles tivessem existido, talvez isso pudesse ter acontecido na vida real.” E daí p/ frente, isso apenas teve de ser plausível, e eu tive que me permitir seguir adiante c/ o roteiro.
O que você quer dizer c/ plausível?
QT: Meus personagens mudaram o curso da História. E quando digo isso, não estou falando apenas de Shosanna, Aldo ou os Bastardos. Estou falando de Fredrick Zoller. Se um soldado alemão tivesse feito o que ele fez naquele momento da guerra, tenho certeza de que Joseph Goebbels teria feito um filme sobre ele. Do mesmo jeito que Hollywood fez com Terrível como o Inferno [1955], com Audie Murphy. E se qualquer soldado fosse parecido com Daniel Bruhl, provavelmente também seria a estrela do filme. Mas não apenas isso, Goebbels fez um filme parecido c/ isso, chamado Kolberg, que basicamente dizia “Ok, sabemos que não podemos ganhar mais batalhas, mas podemos fazer essa produção gigantesca e épica, que servirá de propaganda como se tivéssemos ganhado a batalha”. Então, eu acho que Goebbels teria feito isso, e eles teriam tido uma noite de gala para a premiére, e um monte de pessoas estaria lá… e assim por diante. Basicamente é a ideia de que meus personagens mudaram o curso da História.
O filme tem muitas referências aos Westerns Spaghetti [faroeste produzidos na Itália nos anos 60 e 70], especialmente na música. O quanto esse filme é influenciado por Sergio Leone?
QT: Leone teve uma graaande influência sobre mim. Ele é o meu diretor favorito, e Três Homens em Conflito [1966] é o meu filme favorito. A estética dele e a minha são meio que entrelaçadas, porque eu realmente sou influenciado por ele, mas sempre tentei imprimir meu próprio estilo. Nunca fiz um western spaghetti. Não conseguiria fazer um western spaghetti [risos]. Não sou tão italiano assim! De qualquer maneira, no minuto em que você grava um filme desses, capturando o som durante as filmagens, torna-se um filme completamente diferente [os westerns spaghetti geralmente eram dublados depois em estúdio]. Mas pegar o estilo que ele desenvolveu e aplicar em outros gêneros é algo completamente diferente. Ele é uma grande influência.
Você tentou evitar deliberadamente as convenções dos filmes de guerra?
QT: Eu quis me manter longe daqueles clichês bobos de filmes de guerra, que eu nunca gostei. Sabe, aquele tipo de cena em que um bando de caras precisa derrubar alguém de guarda, e apenas estrangulam o cara levemente, como se isso fosse o suficiente [risos]. Eles matam um soldado alemão e repentinamente não há sangue algum em seu uniforme, ou mesmo um buraco de bala, e ainda por cima o uniforme serve perfeitamente quando eles o vestem! Esse tipo de coisa que tentei evitar. É, de certa forma, um filme de gênero diferente de tudo o que eu fiz antes, porque o final realmente segue o rumo que se espera dele. Há uma missão no final, e eles resolvem executá-la. Brinco um pouco c/ as expectativas dessa missão, mas basicamente é isso mesmo que se imagina.
Como foi sua abordagem sobre a violência nesse filme?
QT: Eu lembro de um crítico dizendo, algum tempo depois de Cães de Aluguel e Pulp Fiction, que eu era muito minucioso p/ me tornar um mestre do suspense. Então a técnica que eu tentei empregar no filme foi considerar o suspense como um elástico, que estivesse sendo esticado pouco a pouco a cada cena, se tornando cada vez mais apertado. A idéia, se bem sucedida, não é fazer cada cena cada vez menor por causa disso, mas sim ver até onde eu posso continuar esticando o elástico. As cenas deveriam demorar o máximo possível, o máximo que o elástico pudesse aguentar. Deveria levar a um limite, ao melhor momento. E então… Snap! E quando arrebentasse, acabaria em um segundo.
É por isso que há tão pouco sangue, especialmente na primeira cena do filme?
QT: É sim. Achei que seria muito mais assustador e realista se você não visse o sangue, só visse a serragem. Qualquer um pode simplesmente mostrar porrada. Mas tanto nessa sequência quanto em La Louisiane estava testando alguns modelos de suspense, de um jeito que nunca fiz antes.
Você se sentiu pressionado em terminar o filme p/ o Festival de Cannes?
QT: C/ certeza houve pressão! Depende de você dizer, mas não acho que tivemos alguma perda c/ isso, e não fizemos nada porcamente. Meu editor, Sally [Menke], e eu trabalhamos muito rápido [risos]. Acho que nunca vou querer trabalhar tão rápido assim de novo, mas sempre trabalhamos melhor quando temos um prazo a cumprir. Isso não é novo p/ nós. Foi novo no sentido do tamanho do filme e também no curto espaço de tempo que tínhamos p/ terminá-lo, mas também corremos c/ Cães de Aluguel para finalizá-lo a tempo, p/ o Festival de Sundance, e também fizemos a mesma coisa c/ Pulp Fiction p/ ficar pronto pra Cannes, e c/ Jackie Brown [1997] e sua data de estréia no natal. Já estamos acostumados c/ isso. E gostamos de viver nesse estado. Gostamos de não pensar duas vezes nas coisas. Você pode estragar um filme desse jeito. Gostamos de apressar as coisas, tipo “Vamos por esse caminho e pronto”, BAM!

sábado, outubro 24, 2009

FUNCIONÁRIO DO MÊS Eu tenho batalhado tanto por isso, desde que venci o Mundial Jr. e o WQS. P/ finalmente vencer aqui em Mundaka, onde a cultura é tão rica e as pessoas amam o surf, é incrível. É o dia mais especial da minha vida.” Adriano de Souza, surfista profissional campeão da 8ª etapa do circuito mundial de surf, o WCT.
WCT significa “world championship tour”, turnê do campeonato mundial. Adriano de Souza é o Mineirinho, paulista do Guarujá de 22 anos e uma trajetória precoce e vitoriosa. Venceu seu 1º campeonato profissional aos 14 anos, idade em que a maioria dos adolescentes ainda nem chegou ao ensino médio. Aos 15, foi campeão brasileiro da divisão de acesso ao Super Surf, o Brasil Tour, c/ 2 vitórias, uma delas sobre o ídolo Fábio Gouveia. Aos 16, CAMPEÃO PRO JR. na Austrália. Até hoje o mais jovem campeão mundial da ASP.
ASP é a sigla de “association of surfing professionals”, associação dos profissionais de surf. É a entidade que rege o surf mundial, estabelecendo parâmetros financeiros, competitivos e de performance, coroando campeões através de um circuito anual c/ etapas realizadas nas melhores ondas . É um formato legítimo e em constante aperfeiçoamento, que já premiou c/ o título de “melhor do mundo” lendas como Rabbit, Shaun Tomson, Mark Richards, Tom Carroll, Tom Curren, Mark Occhilupo, Sunny Garcia, Andy Irons e o mais vencedor de todos – Kelly Slater.
Os números falam por si: 9X campeão mundial, 41 vitórias no WCT, mais um título do WQS e outro do Eddie Aikau Memorial, quase US$ 2 milhões em ganhos acumulados na carreira – apenas na ASP, sem contar os patrocínios. E é aí que a porca torce o rabo.
REBEL TOURKS é patrocinado pela marca Quiksilver há quase 20 anos. Assinou em 1991 um contrato que lhe garantia $1 milhão de doletas por ano, antes mesmo do 1º título [que viria a galope em ’92]. Imagina seu salário atual. No início da temporada, ainda foi oferecido um ‘bicho’ de US$ 10.000.000,00 caso Slater vença o circuito pela 10ª vez. Mas o atual [enea]campeão mundial optou por testar formatos de prancha alternativos nas competições, surfando c/ quadriquilhas fish e perdendo de ‘prima’ nas primeiras etapas. “Não estou aqui p/ ser apenas um figurante”, disse após mais uma derrota: “Se não for p/ brigar pelo título, prefiro nem competir. E agora c/ três 17ºs seguidos, não sei se vou continuar.
Quando a Quiksilver renovou o contrato de Kelly por mais 5 anos, o chefe executivo da empresa, Bob Mcknight, divulgou na imprensa que “Slater tem algumas grandes idéias nas quais vamos trabalhar juntos p/ realçar o potencial de marketing do surf e levar as competições de surf a uma audiência mais ampla”. A idéia: um circuito centralizado nos EUA, c/ apenas 16 surfistas competindo em 8 eventos concentrados numa temporada de 5 meses, c/ premiação de US$ 1.500.000,00 por etapa e transmissão pela ESPN.
O WCT é bancado basicamente por 3 marcas especializadas em surf: Billabong, Rip Curl e Quiksilver, que, ao anunciar seu apoio à proposta de um novo circuito, pôs a ASP em polvorosa. A entidade está sem presidente desde que Wayne Rabbit, campeão mundial em ’78 e diretor da associação por mais de uma década, aposentou-se no início do ano. A debandada dos dólares gerados por uma eventual saída de Slater e seu patrocinador fez a ASP antecipar-se a anunciar a diminuição do número de competidores a partir de 2011 – de 44 p/ 32 – e aumento gradual de premiação nas próximas temporadas.
Os patrocinadores são donos de tudo atualmente. Isso precisa mudar”, disse o careca da Flórida à revista EXPN em maio. “A entidade reguladora do esporte deve deter os direitos e realizar os eventos, fazer a mídia, o marketing, trazer patrocinadores. No momento, a ASP não faz nada disso.
FUTURO DA NAÇÃOInfelizmente p/ a ESPN, eles não têm um comprador. Nunca tiveram. Na verdade, eles estão tentando vender o projeto à indústria do surf”, afirma o jornalista Nick Carroll [irmão do Tom, campeão mundial de 1983/84], revelando o blefe do campeão: “Eis porque a Quik está mais interessada que as outras; o novo ‘top star’ americano deles, Dane Reynolds, ainda não emplacou no WCT, e o ‘rei de todos os tempos’, Kelly Slater, está fora da corrida pelo 10º título em 2009. Se Dane sair e Kelly cansar, eles não terão nada.
Minha maior motivação é estabelecer um patamar superior p/ o surf profissional”, declarou Slater ao site SurfingLife: “Eu não quero sabotar ninguém. Se essa é a coisa certa, os outros surfistas serão peça-chave no sucesso do projeto.” A questão é: E se não for a coisa certa? “O surf, na minha opinião, por ser difícil praticá-lo e impossível de empacotá-lo p/ a TV, continuará a ser um esporte único, alternativo e muito especial”, rebate Álfio Lagnado, proprietário da marca brasileira Hang Loose, que promove a 4ª etapa do WCT – vencida este ano, vejam só, pelo Kelly.
Álfio foi o 1º patrocinador de Mineirinho, na época um piá de 10 anos. “Por que você não cresce e ganha o tão sonhado título mundial pro Brasil?”, apostou o empresário. “Desde garoto, a imprensa, esse animal irracional, cisma de jogar nas costas do Mineiro a responsabilidade de (como escreveu João Valente…) ‘carregar a expectativa de uma nação nos ombros’, uma maldade sem tamanho que fazem c/ ele desde que levantou seu primeiro caneco”, escreveu o blogueiro Júlio Adler na revista Hardcore: “Logo cedo, ao invés de ser abandonado como a maior parte das crianças pobres deste país, abandonou seu patrocinador de longa data, Hang Loose, e acertou um belo contrato c/ a gigante Oakley, um ato de coragem e, digamos, pouca afeição.
Todo mundo espera que seja campeão mundial, mas a maior pressão vem de mim – não dos outros”, disse Adriano ao jornalista Evan Slater, da revista americana Surfing.
CHANGESMudanças sempre assustam as pessoas”, insiste KS na entrevista p/ o jornalista Tim Baker, do SurfingLife: “Eu não estou mudando nada sozinho e sem apoio dos surfistas. Minha intenção é criar um ambiente competitive melhor p/ o surf. A atual estrutura está ultrapassada, e embora tenha servido a um propósito um dia, agora é a hora de mudar as coisas enquanto é possível ou continuar a permitir um modelo de negócio ultrapassado que atrasa a indústria e entrava o potencial do nosso tour. Se no fim os fãs e os surfistas tem uma plataforma melhor, por que alguém vai reclamar?
Observem os olhos de Kelly na foto ao lado. As órbitas das pupilas estão cada vez mais separadas, quase um camaleão. Mas, só p/ manter as metáforas no reino animal, “gato c/ 2 sentidos não pega rato”, já dizia minha mãe, dona Ana. Enquanto ele faz política e [mal] aparece num modesto 6º lugar no ranking 2009, c/ uma vitória, Mick Fanning [FOTO ACIMA], australiano campeão do mundo em 2007, faz uma corrida de recuperação e após vencer 2 etapas seguidas – EUA e França – roubou a liderança do amigo Joel Parkinson, que venceu 3 etapas no 1º semestre e depois não arrumou mais nada.
É a temporada mais disputada dos últimos anos. Menos de 50 pontos separam os 2 primeiros colocados, Mick e Parko, e um novo elemento apareceu na jogada, atropelando no final: Adriano de Souza, campeão em Mundaka, País Basco [oficialmente Espanha], no dia 13 de outubro. Igual aos Bastardos Inglórios, em um só dia Mineirinho arrancou os escalpos do australiano Chris Davidson na final e mais 3 americanos pelo caminho – entre eles Kelly Slater nas semis.
É meu 4º ano no tour. Eu competi muito contra Kelly, Andy, todos os grandes nomes, e perdi tantas vezes que aprendi algumas coisas no caminho. E agora tô começando a dar o troco. Toda vez que você perde, aprende algo”, filosofa Adriano, esbanjando humildade. Este ano só tenho em mente continuar evoluindo, continuar evoluindo... Competir c/ Joel e Kelly surfando no mesmo nível é demais, né?
QUERER É PODERTudo isso começou 5 anos atrás, c/ meu plano de treino, dieta, etc. No Brasil tenho um mÉdico que me acompanha. É difícil manter o programa na estrada, mas eu dou o meu melhor.” Mineirinho, que passou a usar o nome de batismo p/ não virar “Miney Rio” na pronúncia tosca dos gringos; que trocou o shaper que fazia suas pranchas desde a infância, Ricardo Martins, pela marca espanhola Pukas; hoje mora em San Clemente, Orange County. “A Califórnia tem boas ondas e bons surfistas. Eu sempre vejo alguns dos Top 44 surfando, o que é ótimo p/ me tornar um surfista melhor”, disse na entrevista a Evan Slater, intitulada The Education of Adriano de Souza: “Rincon, Jalama, alguns outros picos. Eu dirigi um monte pela costa. Sozinho. Foi incrível, cara!
Adriano divide o teto c/ Timmy Patterson, parceiro na equipe Red Bull. Oakley, Pukas, Red Bull, só patrocínio estrangeiro – Mineirinho é o surfista brasileiro mais internacional de todos os tempos. Aos 17 já era celebridade graças ao título mundial sub-20. Aos 18, campeão do WQS c/ vitórias no Brasil e na França. Classificado p/ o WCT aos 19, passou por maus bocados nos 2 primeiros anos: Quando vi Jeremy Flores sagrar-se Top 10, queria estar lá junto c/ ele”, disse à revista Hardcore, referindo-se a um dos principais rivais da sua geração. 2007 foi duro, e ano passado todos os caras novos estavam chegando – Jeremy evoluindo muito, Jordy e Dane estreando no tour… Eu tinha que dar um passo à frente, senão era melhor esquecer.
Quando Dane Reynolds e Jordy Smith chegaram ao WCT cheios de fogos de artifício, Mineiro já era quase um veterano”, comenta Júlio Adler no artigo Peter Pan Ao Contrário: “Jordy e Dane, que já chegam c/ um surfe maduro e pronto p/ o título mundial, pecam pelo que Adriano tem de sobra: garra. Peter Pan serve de metáfora pra todo tipo de fuga das responsabilidades. Mineiro enfrenta-as sem sequer piscar os olhos, ele escolheu isso e pronto.
TOUR DE FORCEMineirinho está em 3º no ranking, a duas etapas do fim. “Adriano vem da favela de Santos e é no mínimo tão esperto e talentoso quanto qualquer um no Tour”, analisa o australiano Ian Cairns, Top 16 nos anos 70 e ex-presidente da ASP. Na coluna Power Rankings do site Surfline, ele deu seu veredito após a vitória do brasileiro em Mundaka: “Minha estimada audiência tem me cobrado constantemente pela minha previsão de um título mundial p/ Adriano em 3 anos. E se for pra agora? Graças às suas origens, sua motivação p/ vencer é maior que a de qualquer um. Não se surpreendam se ele for o Campeão Mundial em 2009.
O moleque sempre foi decidido. Ainda menor de idade, conquistou a gata Cláudia Gonçalves, sua namorada até hoje. Modelo e surfista profissional, Claudinha é 2 anos mais velha que Mineiro e considerada a mulher mais bonita nas competições de surf. “Sempre dou entrevistas, mesmo que não chegue nas finais”, conta a beldade. Paulista criada na Praia do Francês [AL] e radicada em Florianópolis [SC], ela está entre as Top 8 do circuito brasileiro. Sua maior vitória aconteceu em 2006, num WQS 3* da Inglaterra c/ o sugestivo nome de Tampax Fresh Pro, categoria feminina do Rip Curl Board Masters. Mineirinho estava lá, garantindo a mulher e uns pontos.
Após 2 temporadas competindo como um Pro-Jr. no WCT, um garoto entre adultos, Adriano celebrou sua maioridade imprimindo um tour de force em 2008, obtendo bons resultados ao longo de todo o ano, evoluindo em esquerdas tubulares e pesadas, como Teahupoo [5º lugar], Cloudbreak [3º] e Pipeline [9º], terminando em 7º lugar, à frente de Jeremy Flores, Jordy Smith e Dane Reynolds – os adversários que interessavam, seus rivais na disputa dos títulos da próxima década.
Começou 2009 ficando em 2º lugar 1ª etapa na Austrália, e repetiu a campanha no Brasil. Perdeu essas finais p/ Joel Parkinson e Kelly Slater, respectivamente, mas na Espanha pegou um adversário mais fraco, Chris Davidson, e não deu mole pro azar: placar de 16,40 x 11,83. “Não achei as ondas na final, mas parabéns ao Adriano, é uma vitória merecida, de verdade”, disse Davo no pódio.
OUTUBRO ROSAAdriano de Souza é jovem, talentoso, bem-sucedido e, aos 22 anos, temido e respeitado pelos adversários. “Aproveitando a deixa do mestre Josué de Castro no livro Geografia da Fome, metade do circuito não dorme porque tem fome de vitória e a outra metade não dorme porque tem medo dos que sentem fome”, escreveu Adler em seu blog.
Dez surfistas têm chances matemáticas de vencer o WCT 2009. “Após a vitória de Adriano no Billabong Pro Mundaka, a corrida ao título mundial se tornou uma bola de boliche rolando p/ as últimas duas etapas: o Rip Curl Pro Portugal e o Billabong Pipeline Masters”, analisa Renato Hickel, tour manager da ASP. A penúltima etapa está na água, a 2ª fase acontece enquanto escrevo estas linhas, Heitor Alves e Bruno Santos já estão fora e ainda resta a bateria entre Mineiro e Jihad Kohdr. “Em Supertubes, ele será tratado como local e poderá amassar o lip, mandar aéreos ou entubar”, diz Ian Cairns, um fã da pesada.
Mineirinho vai perder de primeira e dar adeus ao título este ano? Ou vai atropelar os “coolie kids” Mick e Parko e trazer o caneco pro Brasa? “O Mineirinho é aquela torcida que temos”, admite seu ex-shaper Ricardo Martins: “Se não for campeão, não será demérito nenhum. Acho legal essa transformação: o surfista que era admirador desse circo passer a ser o protagonista. Principalmente quando o atleta transpose isso de forma limpa, só deixando mensagem positiva.” A ASP deve estar orgulhosa.
E Claudinha, a namorada que ficou no Brasil: vai posar p/ a Playboy? Na última terça, 20/10, foi lançada a campanha Outubro Rosa, de prevenção ao câncer de mama, e a loirinha paulista, em companhia de outras surfistas como a Top do WWT Jacqueline Silva, aparece seminua em fotos sensuais. A campanha está sendo promovida neste momento na Barra da Tijuca [RJ], onde acontece a última etapa do brasileiro feminino. A paraibana Diana Cristina, que não participou dos ensaios fotográficos, lidera o circuito c/ 2 vitórias.
Enquanto a lusitana roda, vocês ficam c/ as imagens da final na Espanha, uma galeria de fotos e a entrevista do nosso garoto prodígio ao site californiano First Stoke. Como falou o filósofo Henrique no blog Goiabada: “A necessidade faz o sapo pular. Pula, Mineiro!
FS: Que tal a mudança p/ Orange County?
AM: A Califórnia é um grande lugar p/ viver. Estou morando em San Clemente e surfo Trestles todo dia.
FS: Qual a maior diferença entre viver em Orange County e no Brasil?
AM: Morar na Califórnia é um sonho p/ mim. Aqui eu só penso em surf, no Brasil há um monte de coisas acontecendo… A Califórnia tem boas ondas e bons surfistas. Eu sempre vejo alguns surfistas do WCt surfando, o que é demais! Me instiga a ser um surfista melhor.
FS: Que parte do estilo de vida de um surfista profissional os garotos não imaginam encontrar quando estão tentando chegar aonde você está hoje?
AM: Eu ainda me sinto como um deles. Eu tenho apenas 22 e sei do que você está falando. Eu penso sobre minha carreira, e sempre acreditei que um dia estaria nos Top 44. Eu treinei muito p/ estar aqui. É doideira, eu mal posso acreditar que hoje sou um Top e viajo pelo mundo c/ os melhores surfistas. Eu amo o que faço e esse estilo de vida é o melhor que existe.
FS: Qual a maior diferença entre os surfistas do Brasil e do resto do mundo?
AM: Nós crescemos surfando em fundos de areia e o resto do mundo tem ótimas ondas por perto. Tipo, o Aritz tem Mudaka, Mick tem Snapper, etc.
FS: Como você recebeu o apelido ‘Mineirinho’?
AM: Quando eu estava crescendo c/ meus amigos, eles me deram esse apelido porque eu era o menor do grupo. Mineirinho é tipo “little boy”.
FS: O que você terá que fazer p/ alcançar seu objetivo de vencer o título mundial da ASP?
AM: Não colocar tanta pressão em mim mesmo. Vamos ver o que acontece…
MINEIRINHO ou "EU NÃO TENHO CULPA DE COMER QUIETINHO..."
CAMPEÃO EM MUNDAKA WCT 2009
LÁ VEM O BRASIL DESCENDO A LADEIRA

CLÁUDIA GONÇALVES...

AS MELHORES CURVAS DO SURF MUNDIAL

segunda-feira, outubro 19, 2009

A MATRIZ DA MATRIX

Acorde!
Olhe o mundo à sua volta. O que você está vendo não é real, o que te disseram até hoje – seus pais, os livros, a Igreja, os jornais, a TV – é mentira. A realidade, da forma como a conhecemos, é um simulacro. Uma simulação.

Mas você pode mudar isso. Fazemos parte de um grupo empenhado em libertar a humanidade. Estávamos de olho em você. Queremos que se junte a nós. Mas eles também estão na sua cola, e quando vierem atrás de você, é melhor correr. Quer saber quem são “eles”? Quer saber quem somos “nós”?
WAKE UP NEOVocê conhece essa história, ahn?
The Matrix é um dos filmes mais conhecidos e influentes dos nossos tempos. Neo, o hacker interpretado por Keanu Reeves, é convidado a ingressar numa organização paramilitar que o resgata da realidade virtual em que sempre viveu. O ano é 2199, e o mundo é controlado por máquinas, que mantém os seres humanos em casulos que funcionam como fonte de energia.
Neo acreditava estar em 1999, ano de lançamento do filme dos irmãos Wachowski. Foi um período de produções loucas, cerebrais e questionadoras em Hollywood, fin de siècle total: Clube da Luta, de David Fincher, e Quero Ser John Malkovich, de Spike Jonze, eram viagens ao centro da mente. E Matrix, um mix de ação c/ ficção científica, religião & filosofia c/ diálogos espertos, efeitos especiais inovadores, tensão sexual e um mundo p/ salvar. Você é meu Jesus Cristo, meu Salvador!”, diz um 'nóia' a Thomas Anderson, alter ego de Neo, ao comprar um programa pirateado.
A obra dos Wachowski está repleta de citações, algumas implícitas – de Sócrates, Platão e Descartes a Júlio Verne, Isaac Asimov e Phillip K.Dick –, a maioria escrachada: Neo esconde muamba no livro Simulacros & Simulação, de Jean Baudrillard, segue o Coelho branco igual a Alice no País das Maravilhas, e é libertado do sono por Morpheus, líder do bando cujo codinome remete ao deus grego dos sonhos. A vidente é xará do Oráculo de Delphos, que na mitologia passava as mensagens dos deuses p/ os homens em linguagem cifrada. E Neo, cuja sonoridade é de ‘novo’ em inglês, ao mesmo tempo em que é um anagrama de ‘One’, é o Ungido, o Escolhido, o Eleito, aquele que irá libertar a humanidade, segundo as profecias.
SANTÍSSIMA TRINDADEMatrix é um filme de luta que fala da dialética hegeliana, ao mesmo tempo que tem um homem que voa e pára balas de revolver.” Só nesta frase dos irmãos Andy & Larry, roteiristas e diretores da série, há referência a 2 filósofos alemães: Hegel e Nietzsche. E as citações bíblicas abundam: uma vez que Neo representa a volta de Jesus, Morpheus é o João Batista e a bela Trinity é a própria Trindade – através de seu amor o herói ressuscita. Que bonito.
A ênfase nas escolhas dadas ao personagem de Keanu Reeves acentua o caráter ético da sua trajetória”, explica a crítica de cinema Isabela Boscov: “Quando Morpheus diz a Neo frases como ‘não pense que você é, saiba que você é’ e ‘cedo ou tarde, você vai perceber que há uma grande diferença entre conhecer o caminho e trilhar o caminho’, elas traduzem sínteses do zen-budismo, no que diz respeito aos ensinamentos de autoconhecimento e iluminação.
Todas as idéias que um dia tivemos estão no filme”, disse Larry à época. Os irmãos Wachowski só esqueceram de citar, seja no filme, fosse em entrevistas, a verdadeira ‘trindade’ na qual Matrix se sustenta: um livro, um desenho animado e uma revista em quadrinhos. Neuromancer, romance cyberpunk de Willian Gibson, e o cartum japonês Ghost in the Shell já eram bastante conhecidos do público de ficção científica e sua influência é inegável, mas no caso de The Invisibles, gibi inglês do início dos anos ’90, as coincidências ultrapassam a tênue linha divisória entre inspiração e cópia.
DÉJÀ VUOs Invisíveis é a história de uma organização anarcopunk armada que tem como objetivo libertar o mundo do domínio de seres transdimensionais, os Arcontes, que influenciam o destino da humanidade através de agentes infiltrados em nossa realidade, aguardando apenas a hora certa p/ rasgar as paredes do real e dominar nosso universo. Essa ‘célula’ humana de resistência é composta por Ragged Robin, uma feiticeira ruiva sexy; Boy, ex-policial negra andrógina; Lord Fanny, xamã travesti carioca; e liderada por King Mob, um lutador careca de óculos escuros e trajes sadomasô, expert em ocultismo e controle da mente. Eles recrutam Dane McGowan, que precisa morrer p/ se tornar Jack Frost, entidade do folclore inglês que personifica o frio e o gelo do inverno.
Dane é um jovem hooligan de Liverpool, que aterroriza a escola c/ seus coquetéis Molotov e tem visões c/ John Lennon & Stu Sutcliff, o baterista que deixou os Beatles antes do 1º disco da banda [o cara mais azarado do rock]. Mas os Invisíveis vêem nesse delinquente menor de idade o novo Buda, e o resgatam da Casa Harmonia, instituto correcional que utiliza o método ‘experimental’ de extrair parte do cérebro dos detentos p/ torná-los seguros à sociedade. Em liberdade, Dane conhece o mendigo bruxo Tom O’Bedlam, que o leva ao topo do prédio mais alto, de onde pularão. “O velho Dane McGowan morreu naquela queda e você sabe disso”, diz Kin Mob na parte 3 de ‘Tão Fodido no Céu Quanto no Inferno’: “Pode sentar sobre o seu túmulo pelo resto da vida ou se juntar a nós e ser Jack Frost.
O pulo do prédio, o ritual de iniciação, a simulação da verdade, as forças ocultas, a resistência belicosa, o treinamento do escolhido... As semelhanças c/ Matrix não param aí. Se no filme o Neo escolhe a pílula vermelha, em Os Invisíveis é o mofo azul que faz despertar. Os rebeldes e os agentes deslocam-se em diferentes dimensões, e na ‘hora do vamos ver’, o kung fu comanda. “É muito melhor!”, diz Andy W.: “Você retrata claramente a geografia e o balé da luta.
Mitologia, filosofia, religião, metafísica, tecnologia, artes marciais, cultura pop, pessimismo quanto ao futuro, viagens no tempo e espaço – tudo isso já existia em The Invisibles, quadrinhos lançados em 1994 pela Vertigo, braço alternativo da editora DC Comics voltado p/ o público adulto.
REI URBE
The Invisibles é um thriller de espionagem místico de ficção científica”, define Grant Morrison. Se Morpheus é a cara do King Mob, Morrison é o próprio líder dos Invisíveis: "Ninguém acredita quando eu falo que as supostas coisas mais esquisitas da minha revista são de fato autobiográficas. E assim eu transformo as maiores viagens, resultado de químicas maravilhosas, em dinheiro p/ pagar as contas e a comida."
Natural da Escócia, contemporâneo de Alan Moore [Watchmen] e Neil Gaiman [Sandman], Grant, assim como Moore, é usuário de alteradores de consciência e começou por baixo, reformulando personagens de 2ª linha da DC – o cabeludo inglês recriou o Monstro do Pântano e o careca escocês ficou c/ o Homem-Animal. “Seus quadrinhos c/ temas como vegetarianismo, ecologia, drogas, psicodelia, abordados de maneira direta e utilizando de muita complexidade, foram os elementos que fizeram Morrison ser reconhecido”, diz o jornalista e fã Eduardo Féres.
Os irmãos Wachowski tiveram que escrever e dirigir Ligadas Pelo Desejo, seu filme de estréia em 1996, p/ convencer o produtor Dino de Laurentis a pôr dinheiro no projeto de Matrix. Grant Morrison, por sua vez, passou toda a década de 80 aceitando encomendas p/ roteirizar sucessos mainstream da HQ como Batman e Patrulha do Destino, até conseguir autonomia p/ apostar suas fichas no projeto The Invisibles.
A série, repleta de referências a paganismo asteca, sociedades templárias, libertinagem, maçonaria, Revolução Francesa, Teoria do Caos, LSD e Beatles, tornou-se o principal título da Vertigo nos anos 90, à frente dos hits Preacher, de Garth Ennis, e Hellblazer, clássico gibi fundador do selo. Lançada no Brasil pela editora Brainstore, não teve periodicidade definida nem boa distribuição por aqui, e acabou cancelada. Foi relançada ano passado pela Pixel, numa edição encadernada intitulada Revolução 1.
120 DIAS DE FODEU TUDO
É provável que suas memórias desta história sejam melhores do que ela própria”, disse o autor no lançamento de The Invisibles nos EUA. Morrison é maluco: criou a coluna Invisible Ink, encartada no final de cada edição, que servia como canal de comunicação entre ele e o seu público – uma espécie de ‘protoblog’. Através dela, conclamou os leitores a se masturbarem em dias e horas determinados, p/ que visualizassem o "símbolo mágico dos Invisíveis".
Grant foi além das meras referências, transformando figuras históricas em personagens de quadrinhos: John Lennon tornou-se uma divindade depois de morto, e o Marquês de Sade é peça-chave na salvação da humanidade, ao ser cooptado p/ o grupo durante uma viagem interdimensional que envolve Lord Byron, Mary Shelley e a cabeça de João Batista. “Olhe para eles! Fui mandado à maldita bastilha por fazer em casa o que esses filhos da puta fazem em público”, diz o Marquês a King Mob em uma casa noturna sadomasoquista do séc.XX.
A saga durou 59 edições, de 1994 a 2000. A nova edição nacional d’Os Invisíveis conta c/ um prefácio escrito por Peter Milligan, que já escreveu histórias de Shade, Elektra e Judge Dredd: “[...] na dúvida entre comprar ou não este livro, eu te imploro. Em nome da arte, em nome do sexo, em nome da liberdade, compre. Ou roube. [...] O que quer que você faça, leia-o.” E o jornalista Delfin encerra o álbum no posfácio Barbelith, Lennon e a Revolução c/ uma dica que nos leva de volta à Matrix:
Ao acompanhar as aventuras de Jack Frost, King Mob, Lord Fanny, Ragged Robin e Boy, tenha apenas três coisas em mente:
- o que você conhece é irreal;
- as barreiras não existem;
- o mundo está fadado a acabar.
INVISÍVEL MUNDO NOVO
O grande irmão te observa! Aprenda a ficar invisível.” As mesmas citações a 1984, de George Orwell, e Brave New World, de Aldous Huxley, que se encontra em Matrix estão escritas c/ todas as letras n’Os Invisíveis, seja no quadro negro da sala onde a granada grafitada c/ um ‘sorria’ explodirá os agentes enviados pelos Arcontes, ou nas palavras de Sade na boate SxMx: “Oh admirável mundo novo que abriga tais pessoas!
Fascinante é notar o quanto The Invisibles é semelhante à trilogia The Matrix”, escreveu Rodrigo Fernandes no site Universo HQ: “Das referências a uma realidade underground oculta sob o cotidiano comum às menções a forças transdimensionais (máquinas, no caso da obra dos filmes) que comandam o destino dos seres humanos. É de se pensar se os irmãos Wachowski, grandes fãs de HQs, não possuíam Os Invisíveis em suas coleções.
Tanto a separação dos 2 mundos – sensível e inteligível – quanto a idéia de simulacro/simulação aparecem de forma evidente e até literal no tal gibi”, analisa a blogueira Hellen Guareschi: “Morrison vai além, ao encaixar escritores, músicos e artistas em sua trama, seja pessoalmente ou incluindo personagens, letras de música ou referências diretas. A velha idéia de transformar marginalidade em heroísmo é genuinamente alçada à categoria de arte, em especial c/ a brincadeira do mendigo tutor aristotélico (quando Aristóteles foi ele próprio um preceptor) e a etapa divinatória do Pombo.
Grant Morrison entrou na justiça c/ uma acusação de plágio contra os irmãos Wachowski quando o filme foi lançado, em ’99. Mas Os Invisíveis foram publicados pela Vertigo, propriedade da editora DC, que por sua vez pertence à Warner, produtora de Matrix, e o processo foi encerrado c/ um acordo entre as partes. Na ponta do lápis, Morrison acha que a similaridade entre as duas obras inviabiliza a adaptação de seus quadrinhos p/ o cinema: “É um bando de carecas em roupas de fetiche lutando kung fu. Já vimos isso, então não quero seguir o mesmo caminho.
DESVIE DISSOO 1º Matrix custou $60 milhões de dólares, faturou $45.000.000,00 apenas no fim de semana de estréia, e levou 4 Oscar. Matrix Reloaded foi orçado em $127 milhões e sua bilheteria mundial bateu em $740.000.000,00. Revolutions, o último da trilogia, custou $110 mi e arrecadou $425... O sucesso rendeu o mangá Animatrix, o videogame Enter The Matrix, além de inúmeros produtos franqueados – de figurinhas autocolantes a parcerias c/ empresas de bebidas, carros e motos. Estima-se que a marca Matrix já tenha gerado lucros superiores a $2 bilhões de dólares.
Por outro lado, a influência do filme já pôde ser vista em 2 ataques terroristas isolados nas escolas dos EUA – em ambos os casos, garotos vestidos de Neo e armados até os dentes atiraram a esmo contra colegas adolescentes. E foi impossível não lembrar da cena do helicóptero no ataque das Torres Gêmeas no 11 de setembro, em 2001. O filósofo esloveno Slavoj Zizek explica que Matrix funciona como um Teste de Rorschach: “Cada um pode encontrar o seu ‘ismo’ preferido – existencialismo, marxismo, feminismo, budismo, niilismo, pós-modernismo”.
Andy & Larry W. criaram uma série influente, instigante e até perigosa, mas depois que se lê o gibi d’Os Invisíveis, lançado 5 anos antes, o aspecto revolucionário e inédito de sua obra fica apenas p/ os efeitos especiais e as cenas de ação que eles desenvolveram. O bullet-time permite tanto a visualização de elementos imperceptíveis, como o deslocamento no ar de balas voando, quanto a percepção tridimensional de um momento usando ângulos de câmera simultâneos, como nas coreografias do mestre Yuen Woo Ping, que trabalharia depois c/ Tarantino em Kill Bill.
Mesmo estabelecendo novos padrões p/ o cinema, os irmãos Wachowski basearam-se em velhos filmes de Sergio Leone, Sam Peckimpah e Bruce Lee na criação das cenas de combates. E, ao se afastar das premissas criadas por Grant Morrison p/ os quadrinhos, foram perdendo fôlego ao longo das sequências de Matrix. “O primeiro é sobre nascimento, o segundo sobre a vida, o terceiro sobre a morte”, diz Laurence Fishburne, ator que interpreta Morpheus, resvalando numa obviedade involuntária.
"Matrix faz uma leitura ingênua da relação entre ilusão e realidade", disse Baudrillard à revista Época, em 2004: "Os diretores se basearam em meu livro Simulacros e Simulação, mas não o entenderam. Prefiro Truman Show e Mulholland Drive, nos dois filmes minhas idéias estão mais bem aplicadas. Os Wachowski me chamaram p/ prestar uma assessoria filosófica p/ Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, mas não aceitei o convite. Como poderia? Não tenho nada a ver c/ kung fu. Meu trabalho é discutir idéias em ambientes apropriados p/ essa atividade."
Eles deveriam continuar a roubar minhas idéias, talvez assim teriam algo p/ se orgulhar de verdade”, ironiza o autor de The Invisibles: “Um filme que poderia mudar corações e mentes – e mundos.