quarta-feira, janeiro 27, 2010

É DOCE MORRER NO MAR? Semana passada 2 moleques ingleses da banda After Death morreram afogados no mar de Aracaju [SE]: o guitarrista Leon Villalba, 21, e o baixista Timothy Kennely, 18 anos. Hospedados na Atalaia, foram dar um mergulho na Praia dos Artistas, ‘Orlinha’ p/ os íntimos. O problema é que os gringos NÃO eram íntimos, e foram arrastados pela correnteza. Essa praia fica na boca do Rio Sergipe e tem 2 correntes: uma chamada “Barra” e outra, “Atalaia”, cada uma vai numa direção e em determinado ponto ambas se cruzam. Não à toa, é o lugar da cidade c/ as melhores condições p/ o SURF.

O acidente trágico aconteceu na quinta-feira, 21/01 [Dia do meu aniversário! Metaaal!..]. O corpo de Leon Villalba foi encontrado no final da tarde, mas Kennely só foi localizado no dia seguinte, na Praia de Aruana. Ken Do, o vocalista, foi reconhecer os corpos no IML, acompanhado por bombeiros. Agentes da PF e membros do Consulado Britânico estiveram por lá apurando o caso. Ken e os outros integrantes da banda, Barry O’Connor e Marc Vagas, prestaram depoimento na Delegacia de Homicídios.

Villalba será transladado p/ Manila, capital das Filipinas. A justiça ainda aguarda a autorização da família de Tim Kennely – que só morreu porque entrou na água p/ salvar o amigo. “Já recebemos a autorização por escrito da família de Leon e o processo de translado foi iniciado”, disse hoje Mercedes Aranda, da seguradora Princípios: “Estamos aguardando os trâmites legais. O processo ainda tem que passar pela Embaixada p/ a autorização das polícias civil e federal”.

DEPOIS DA MORTEAfter Death é um dos principais grupos de DEATH METAL da nova geração, e veio ao Brasil acompanhando os veteranos do Masters of Hate, dos EUA. A idéia era percorrer 23 cidades do país até dia 21 de fevereiro tocando muita desgraceira em alto volume. A tour brasileira começaria justamente aqui, num show underground marcado p/ acontecer dia 22 em um estacionamento da rua Santo Amaro, centro da cidade, c/ a Predator abrindo p/ as 2 bandas. A cena death local é bem forte: no início dos 90, a Anal Putrefaction era tão famosa que chegou a ser entrevistada no Programa Legal da Regina Casé.

Aracaju não costuma receber muitas atrações de rock – ou qualquer outro gênero – internacionais. Sente o naipe: em 1989, A-ha; em ’91, Information Society [foto]... Você iria a algum desses? Tenho um amigo que se orgulha de ter ido no A-ha: “Várias gatinhas!”, diz o psicopata. Longo hiato na década de 90, e no início dos 2000 tivemos Mark Ramones and The Intruders em ’01, um pacote c/ bandas australianas p/ surfistas coroas – Men At Work, Spy Vs. Spy, etc. – e Sepultura [banda gringa de Minas Gerais] em ’02.

No reggae a coisa é um pouco mais dinâmica: Pato Banton, Gregory Isaacs, Culture, Gladiators, Wailers e Dezarie [foto] já passaram por aqui, em intervalos regulares nas últimas 2 décadas. No rock, a não ser que você seja um grande fã do Iron Maiden e tenha ido ver Blaze Bailey, não rolava nada de interessante há uns 7 anos. Tudo bem, tivemos Nação Zumbi, RxDxPx, Mutantes, etc. Mas Red Hot, Alice In Chains, White Zombie, Smashing Pumpkins, Shelter, DFL, Asian Dub Foundation, Jon Spencer Blues Explosion, Mudhoney... eu sempre tive que viajar p/ outros estados p/ ver uns showzinhos importados. Até um certo pirata da França invadir nossa praia.

TOMBOLATOUR

Em 2009, Manu Chao esteve no Brasil p/ 7 shows durante o mês de fevereiro, na turnê do disco La Radiolina. Thomas Arthur Chao freqüenta a América Latina desde 1990. É tão local do Rio de Janeiro que se tornou amigo do Capitão Presença. Conhece tão bem o Nordeste que tem um filho de 9 anos em Fortaleza [CE]. Aracaju foi a 3ª etapa da “Tombolatour”, que também passou por Salvador [BA], Curitiba [PR], Camboriú [SC], Brasília [DF], Rio de Janeiro e São Paulo.

Aqui o show de Chao foi bancado pela Prefeitura e fez parte do Projeto Verão, um evento gratuito a céu aberto na praia de Atalaia – a mesma onde morreram os garotos do After Death. Manu, um francês que canta em espanhol, português e inglês, mostrou seu peculiar mix de rock, reggae, ska, afrobeat, música flamenca, caribenha, latina, samplers, o escambau, durante 3 horas intensas: tocou todos os hits – “Clandestino”, “Desaparecido”, “King of the Bongo”, “Bienvenido a Tijuana”, “La Primavera”, “Minha Galera”, “Me Gustas Tu” – , algumas do disco novo, e várias do Mano Negra, seu clássico grupo a la The Clash. Hoje quem o acompanha é a Radio Bemba Sound System, uma puta banda c/ guitarra, batera, teclado, trompete, percussão e o alucinado baixista Gambeat. Cena marcante: Manu Chao batendo o microfone no peito, compondo uma batida na cadência do coração. Lirismo, engajamento e diversão num cara só.

Como rock é coisa do demo & o show não pode parar, os organizadores dos shows anunciaram em seu blog [no mesmo dia da morte dos 2 After Death] que "a Masters of Hate Tour terá continuidade em respeito, principalmente, ao público, e em homenagem aos músicos”. Enquanto isso, Leon Villalba & Tim Kennely descansam nas gavetas do IML de Aracaju. Mas peraí: death metal é “metal da morte”, After Death significa “além túmulo”; integrantes afogados, delegacia de homicídios, cadáveres no necrotério... Os metaleiros que sobraram na banda londrina já têm material p/ 1 disco inteiro!




LA CUCARACHA ENTREVISTA MANU CHAO

Matias Maxx - Você acha que a arte tem que ter um compromisso c/ a política?

Manu Chao - Eu acho que a arte pertence a qualquer um, e que qualquer um faça sua arte como der vontade. Não se pode impor a um artista qualquer regra. Se algum quer fazer política c/ sua arte, como eu faço, tudo bem! Se alguém não necessita ou não quer fazer, ok, se respeita. Não se deve obrigar nada a ninguém na arte. A arte pertence a qualquer um.

MM - O álbum CLANDESTINO [Virgin, 1999] pertence ou trata de algum lugar em especial?

MC - Eu tinha acabado c/ minha carreira musical [no Mano Negra], era como um disco p/ relaxar um pouco, lançar músicas que eram bem pessoais e dizer “tchau, vou pra praia c/ minha mulher!”... Não tenho plano de carreira, não me importa, posso ser feliz de milhares de outras maneiras. Mas o que aconteceu? O disco gerou uma coisa tão bonita, que vale a pena seguir. Com ‘Clandestino’ eu tive uma resposta do público, das pessoas, que eu nunca tive na minha vida... Isso é algo muito forte, digamos que é ternura, a ternura não é isso? Então minha força é um pouco essa, que segue sendo essa força geral, fazendo um intercâmbio de esperança... Se segue assim é que vamos continuar, porque vale a pena.

MM - Você não teme se tornar um produto? Entrar na sociedade de consumo? “Compre Manu Chao porque ele diz coisas legais”...

MC - Isso é um grande perigo, creio que hoje mensagens de rebeldia e tudo mais são um marketing potentíssimo, e as gravadoras sabem muito bem. Rebeldia vende! A única maneira de combater isso é tratar você mesmo de sua maneira de trabalhar, creio que é a única possibilidade de você, ao acordar, não ter vergonha de si mesmo. O que você diz nas canções, tentar fazer... Digo “tentar”, porque nem sempre é fácil. “Entre lo dicho y lo echo el camino es derecho” é uma frase do Mano Negra. Creio que essa é a base.

Um comentário:

Adelvan k. disse...

Não deve ser nada doce morrer no mar, pelo contrario, deve ser bem agoniante e ... salgado. Belo post como sempre, Adolfo, sempre aproveitando ganchos. Valeu por lembrar a passagem de Mano Chao por Aracaju, showzão que eu, por pura preguiça, também deixei passar em branco na época e não resenhei. Mas há dois erros aí no inicio do post: MASTERS OF HATE é o nome da tour, não da banda principal. O nome da banda é MASTER, só. E Aracaju não foi o primeiro show da tour não, eles já tinham tocado em três cidades.

Um abraço,

A.