domingo, janeiro 24, 2010

FILMES DO ANO [PASSADO] Que mané Avatar o quê! É no Distrito 9 que o bicho pega. Lua Nova? Aqui no VxLxBx lobisomem não se cria, muito menos vampiro emo... Os melhores filmes que assisti ano passado foram produções independentes ou azarões do mercado, todos feitos FORA de Hollywood, a maioria falada em outras línguas que não o inglês – sendo 2 documentários brasileiros – , a maior parte lançada em 2008 [o que enfatiza a minha defasagem no acesso à produção cultural mundial].

2009 foi, p/ mim, um ano de resgate do cinema & do rock’n’roll: no rock através do meu envolvimento espontâneo c/ a Plástico, e no cinema graças ao Cine Cult c/ suas sessões Notívagos & Virada Cinematográfica, excelentes pedidas p/ insones feito eu. A seguir, meu Top 5 dos filmes mais finos que vi na última temporada. A peneira foi tão fechada que nem Bastardos Inglórios entrou nesta lista:

1) VALSA COM BASHIR [dir. Ari Folman / Israel, 2008]
Desenho animado ao mesmo tempo psicodélico & ultra-realista no qual o diretor Ari Folman faz um acerto de contas c/ o seu próprio passado, através de consultas ao seu analista ou fumando maconha c/ ex-companheiros na Guerra do Líbano, ou Guerra Árabe-Israelense, ou Operação Paz na Galiléia, em 1982. Chame como quiser, foi um MASSACRE do exército judeu auxiliado por facções cristãs contra imigrantes palestinos no Líbano. Um episódio tão sangrento que Folman – na época um adolescente de 19 anos – durante muitos anos ‘apagou’ as lembranças de sua participação. A história vai se desvendando através de interpretações psicológicas p/ os sonhos – ou pesadelos – de Ari e seus amigos. O emprego de diferentes técnicas 2D e 3D torna tudo mais lisérgico. A cena de abertura, dos 26 cachorros, é inesquecível. Outros momentos memoráveis são a volta do recruta a Tel-Aviv, c/ "This Is Not a Love Song" do PIL rolando na boate, e o episódio que dá nome ao filme. Bashir é o presidente eleito cuja morte deflagra o uso de artilharia pesada contra o alvo palestino. Ao final, cenas reais do dia seguinte ao massacre no campo de refugiados, “p/ lembrar que o assunto é sério, que não fiz apenas um filme ‘cool’ sobre a guerra”, diz o diretor.
SAIBA MAIS: Valsa Com Bashir concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009, mas não levou porque o júri – composto por judeus, católicos e protestantes – não gostou da forma como israelitas e cristãos são retratados. Também foi a única animação a concorrer na mostra competitiva de Cannes, em 2008. Existe uma versão em quadrinhos, à venda nas livrarias.

2) GOMORRA [dir. Matteo Garrone / Itália, 2008]
Esqueça Marlon Brando em O Poderoso Chefão. Esqueça a classe e o humor de Família Soprano. Gomorra, título que faz referência à cidade italiana mergulhada em pecado & lava de vulcão, é um trocadilho c/ CAMORRA, máfia napolitana de corrente de ouro, chinelo nos pés e sujeira nas mãos. Distante dos códigos de honra sicilianos descritos por Mario Puzo, os mafiosos de Nápoles investem abertamente no tráfico de drogas e lavam dinheiro enterrando lixo tóxico, material radiativo e outras tranqueiras industriais em terrenos baldios e pedreiras abandonadas, num esquema denunciado pelo jornalista Roberto Saviano, autor do livro Gomorra - a História Real de um Jornalista Infiltrado na Violenta Máfia Italiana. Saviano [um cara mais jovem que eu] entrou nos clãs camorranos e expôs os tentáculos da organização: do mercado de produtos piratas vendidos em camelôs até os sofisticados circuitos da alta-costura e das obras de arte, c/ conexões nas principais cidades do mundo, dos EUA ao Leste Europeu, da China ao Brasil. SAIBA MAIS: Roberto Saviano é considerado um traidor pela Camorra e tem sua cabeça a prêmio. Ele é uma espécie de Salman Rushdie italiano: jurado de morte pela máfia, vive sob proteção da polícia. Seu livro foi lançado em 2006 e já vendeu mais de 1 milhão de cópias em 40 países. Gomorra, o filme, venceu o Grand Prix do Festival de Cannes em 2008.

3) DISTRITO 9 [dir. Neil Blomkamp / África do Sul+Nova Zelândia, 2009]
Eu pensava já ter visto tudo em matéria de ficção científica e filmes B, mas alienígenas ameaçadores reféns dos seres humanos num gueto da África do Sul realmente é uma idéia original, levada a cabo pelo novato Neil Blomkamp, co-roteirista ao lado de Terri Tatchell. Há 20 anos, um cargueiro interplanetário quebra sobre o céu de Joanesburgo. Uma empresa, a MNU, é contratada pelo governo p/ cuidar dos refugiados, acomodando-os em barracos de zinco, formando um favelão em constante conflito étnico entre os humanos e os “camarões”, como são apelidados os ETs – que mais parecem baratas. “O maior desafio era fazer o público sentir ojeriza pelos aliens, mas ao longo da história criar uma empatia por eles”, diz Neil. Filmado em Soweto, uma favela de verdade, Distrito 9 é uma metáfora sobre o apartheid: “Até 1994, Johannesburg era uma cidade militarizada, armas em todos os lugares e muita presença da polícia, como esses veículos brancos que fazem patrulha pelo Distrito 9”.SAIBA MAIS: Os US$30 milhões investidos se pagaram em 3 dias de exibição. A produção é de Peter Jackson, diretor da trilogia Senhor dos Anéis: seu estúdio foi o responsável pela impressionante animação dos ‘camarões’. O filme gerou conflito de verdade na África do Sul: os nigerianos são mostrados como canibais, e 50 imigrantes do Zimbabue foram assassinados numa noite em Soweto. “São negros pobres atacando negros pobres. Havia muita violência rolando quando começamos a filmar em 2008, mas não imaginava que as coisas poderiam ficar tão feias”, disse Blomkamp.

4) GUIDABLE [dir. Fernando Rick+Marcelo Appezzato / Brasil, 2008]
Guidable” é uma gíria criada pelos Ratos de Porão c/ múltiplos significados. Mas pode ser resumida como “foda-se!”. Que mais dizer sobre o documentário da 1ª banda punk/HC latinoamericana, há 30 anos na ativa sem tirar de dentro, sobrevivente a vícios, tretas, modas e ameaças? 121 minutos de depoimentos de caras como Rédson do Coléra, Clemente dos Inocentes, Andreas e Paulo do Sepultura, e mais todos os integrantes da banda, dos originais aos atuais. O longa segue de forma cronológica, esmiuçando álbuns clássicos como Crucificados Pelo Sistema, Cada Dia Mais Sujo e Agressivo, Brasil, Feijoada Acidente, Sistemados Pelo Crucifa, até os mais recentes, como Inconsciente Coletivo e Homem Inimigo do Homem. Além de pioneiro no movimento punk, no hardcore e no crossover, o RxDXPx também trouxe de suas tours em squats europeus o know-how p/ a fabricação de crack. “É um documentário independente, sobre uma banda e um movimento que sempre andaram c/ as próprias pernas. Não tem o que esconder. Histórias de brigas e drogas são de praxe”, diz Fernando Rick, um dos diretores. “A gente acabou entrando no clima ‘droguístico’ da banda, mas foi só durante a finalização. Hoje somos uns santos!”, jura o outro diretor, Marcelo Apezzatto. SAIBA MAIS: Guidable traz imagens históricas do festival Começo do Fim do Mundo, em 1982. Destaque também p/ o show no Hangar 110 [SP] em 2007, quando Gordo, Jão, Jabá & Spaghetti reencontram-se p/ uma foto no camarim. Em Aracaju, a banda Karne Krua fez um autêntico show de punk rock no saguão do cinema, após a exibição do filme.

5) LOKI
[dir. Paulo Henrique Fontenelle / Brasil, 2008]
Quando assisti o documentário sobre Arnaldo Dias Baptista, o gênio por trás da melhor banda brasileira de rock em todos os tempos, o pianista-baixista-dos-Mutantes que lançou algumas das obras-primas da música nacional ao longo de toda sua carreira, e que depois se lançou de um prédio fugindo de uma sanidade imposta à base de sedativos e choques elétricos, e que sobreviveu a tudo isso – rompimentos, decepções, depressões, internações, traumatismo craniano e coma – , rendi minha homenagem em um extenso post: O Homem que Caiu na Terra. Produzido pelo Canal Brasil, o longa de Paulo Fontenelle levou os prêmios do júri no Festival do Rio e na Mostra de Cinema de São Paulo em 2008, apesar de algumas falhas graves do ponto de vista técnico [erros de foco, por exemplo]. Seu grande mérito é resgatar imagens perdidas no tempo, tipo um especial da Patrulha do Espaço p/ a TV no fim dos anos 70. A cena final, onde Arnaldo expõe seu quadro e sai brincando como se o filme estivesse em reverso, redime o diretor, cuja intenção era “fazer justiça a El Justiciero”. Conseguiu.
SAIBA MAIS: Arnaldo mora c/ a 3ª esposa num sítio em Minas Gerais e é artista plástico diletante. Em 2004, lançou o álbum Let It Bed, em que toca todos os instrumentos. Inspirada pelo Loki, a Plástico Lunar fez uma de suas melhores apresentações na sessão Notívagos – banda no auge, noite florida, todo mundo chapado & feliz: “Se eu fizer uma ligação/ Sua química e a minha/ Vamos longe/ Talvez longe até demais/ Só não vale voltar atrás/ Se decida/ Na hora de juntar as peças/ às vezes é melhor errar/ Assim uma nova idéia/ terá espaço pra entrar”...

video

2 comentários:

rafa disse...

Repassa esses filmes aí!hehehe!! Ainda não assisti nenhum.

E o blog continua muito bom!!

Riot disse...

NICE LIST, GREAT BAND ;p