segunda-feira, janeiro 18, 2010

A VOLTA DO BOÊMIO O melhor copo da cidade”. Assim Cleomar Brandi foi definido pelo jornalista Rian Santos, do blog Spleen & Charutos, na ocasião do lançamento de Os Segredos da Loba, 1º livro em 35 anos de jornalismo. Se ‘GONZO’ é a definição p/ o último homem de pé após uma bebedeira, CLEOMAR é o maior jornalista gonzo que eu já conheci. The last man standing.

Fazer jornalismo diário é profissão de fé”, diz o lobo velho, que já passou pelo jornal A Tarde [BA], Jornal de Sergipe e revista Veja, pela Rádio Educadora da Bahia e Delmar FM, pelas TVs Sergipe e Caju, etc. Nascido em 18 de janeiro de 1946, neto de italiano da Sicília que foi plantar café na cidade de Ipiaú, passou a infância em Rio de Contas, ambas no interior baiano:

Pescávamos belos piaus de cima do cais: plataforma exata para grandes mergulhos na água que nos acolhia. O grande abacateiro do quintal era a grande vigia de onde, lá de cima, me sentia Robinson Crusoé, os ‘babas’ [como são chamadas as ‘peladas’ de futebol na Bahia] com os irmãos, os filmes do Cine Theatro Éden, o cheiro do pão fresco saindo do grande forno da Padaria Minerva, a manteiga derretendo no milagre do pão quente e aberto, as histórias de assombração, as brincadeiras de guerra nas pilhas de cacau do grande armazém de Tio Coló, os bois soltos na ruas nos dias de matança, um corre-corre danado e a gente jogava sal no fogo pois diziam que deixava os animais mais brabos. Uma infância com cheiro de banhos de rio, rapé roubado do meu avô, visgo de cacau na boca e o coração na porta, batendo forte, esperando a chegada do meu pai que vinha da padaria, enquanto o serviço de auto-falante cantava a Ave Maria.

Aos 17 era recordista de nado livre e borboleta, mas um fato inesperado mudou sua vida p/ sempre. “Fui atingido por um voraz vírus que quase consome minha existência”, conta ele: “Daí em diante minha adolescência foi dura: 2 anos internado num hospital e mais 6 meses em cima de uma cama, às vezes quase morrendo, família reunida esperando o desfecho, febres diárias, eu apagava durante dias e sempre voltava, com um laivo de determinação nos olhos. É que meus olhos sempre foram temperados na forja da fé, e acreditava que a vida era muito bela para morrer adolescente.

LOBO DO ESTEPE

Não pude seguir o caminho normal de todos”. Cleomar tem um estilo poético de escrever e ao mesmo tempo um olhar pragmático sobre o cotidiano: “Entre febres, cirurgias, engessamentos, dezenas de escaras (medalhas amargas), consegui sobreviver e, 8 anos depois, busquei aproveitar os anos que passei deitado, mas sempre abraçado à melhor literatura mundial. Fiquei amigo de Tolstoi, de Stendhal, de Baudelaire, de Homero, de Goethe, de muitos escritores, bálsamos de palavras e estilos que me ajudavam mais que as pomadas, cirurgias e internamentos. Soube armazenar meu silo com uma vasta biblioteca e esse conhecimento mostrou-se mais tarde uma das grandes armas da minha sobrevivência profissional.

Quando eu conheci Cleomar, em 1994, ele era cadeirante. Depois, em conseqüência do vírus, teve as duas pernas amputadas. “Já numa cadeira de rodas, aprendi a me arrastar pelas escadas. Em junho, prestei o supletivo de 1º Grau. Em dezembro, fiz o supletivo de 2º Grau. Em janeiro, fiz vestibular na Universidade Federal da Bahia, no curso de Pedagogia, onde fundei o 1º diretório estudantil, com o slogan ‘Uma gota d’água nesse oceano de inércia’, o que rendeu muita confusão política, perseguições durante o curso. A pior delas foi a transferência da minha sala para o 4º andar, e eu tive que, durante 4 anos, arrastar-me degrau por degrau, todos os dias de aula, até o último andar, enquanto meus colegas levavam minha cadeira de rodas. Talvez por orgulho ou desafio, nunca permiti que me carregassem nos braços. Preferia desafiar a diretoria com o estandarte político de luta do meu cansaço.

Seu problema de saúde nunca o impediu de fazer sucesso c/ as mulheres, nem de praticar seu esporte preferido – não, NÃO é a natação... Namorador, nunca se casou: “Nada contra, mas prefiro conviver, sem maiores cerimônias”. Seu último relacionamento sério foi c/ Mariana Salermo, que o fez “tremer até os aros da cadeira de rodas” quando se conheceram: “Hoje, trago em mim a calma de perceber a mulher exata, quando chega, quase sorrateira, leve, brisa em fim de tarde. [...] Aquele amor que faz você se sentir um cavaleiro templário, guardião da menina amada, sabe?

SÍSTOLE E DIÁSTOLE

De tanto cantar as mulheres – em verso e prosa – Cleomar lançou em outubro uma coletânea c/ 71 crônicas, todas c/ seu peculiar estilo classudo e sacana: “A palavra é anzol, é oceano e isca. Ela é bambu, grama e jacarandá. A palavra é bolero, tango e frevo. Ela é camaleão esperto. A palavra é sístole e diástole. É sangue, nervo e músculo. Bússula e náufrago, alimento e veneno.

O título do livro foi extraído de uma crônica em especial, que “caiu no agrado do público leitor feminino e são elas que sempre determinaram alguns caminhos que percorri”. Ao ser indagado por uma repórter gatinha da filial da Globo sobre o que é preciso p/ desvendar os segredos da loba, ‘Créumar’ respondeu: “Muita pesquisa de campo e bom conhecimento da matilha!

Cleomar Brandi é um gozador. Vive pregando peças. A última que ele aprontou foi uma internação de mais de 1 mês na UTI p/ retirada de tumores no intestino. Mas, igual a Iggy Pop, Cleomar tem Lust for Life, ou 'fome de viver', como naquele filme de vampiros c/ a Catherine Deneuve... “Perguntei pra São Pedro se lá no céu tinha Domecq, ele disse que não, eu falei que voltava quando tivesse”, me contou, zoando.

Sobrevivi a vários chamados da soturna morte e estou aqui até hoje, sentindo o vento na pele e o cheiro do mar nas narinas”, diz Cleomar, que voltou à ativa há 15 dias, produzindo matérias p/ o Jornal da Cidade e a Aperipê TV, dirigindo seu próprio carro adaptado... e ainda imbatível após uma noite de porre & boemia. Até hoje, nada nem ninguém derrotou o lobo do estepe.

Tive uma vida comum, apenas foi mais difícil. Aprendi o sentido das dores diárias, o alcance, a extensão da crueza que é ter beijado a face enrugada da morte e ter voltado, algumas vezes. Estou no mundo e quero cumprir o que determina meu coração, minha vida e minha fé. Gosto de perceber o mistério das palavras quando escrevo, quando ouço um blues. Continuarei amando as madrugadas e buscando compreender a humanidade. Sou o que faço. Nada mais.

OS SEGREDOS DA LOBA

‘Estou na fase da loba, me sinto plena de mim’. Como um cochicho, a frase chegou aos meus ouvidos, quase um sussurro entre um uísque e outro, na festa de aniversário de um amigo, numa dessas noites. Conversávamos, algumas pessoas na mesa e a noite ia adiantada. Na hora em que a frase visitou a esquina da minha orelha foi como o estalo de um chicote determinado, um certo calor na voz mas, em seu bojo, havia a segurança de uma mulher que sentia a necessidade de falar aquela frase, como um anúncio de que havia perigo no ar, que o frisson que visitara meu cangote era gerado de uma fonte onde havia turbilhões de energia vulcânica em suspensão, lavas magmáticas de paixões incandescentes que podiam aflorar num piscar de olhos. Com um giro lento de cabeça, ousei encarar a face da loba que resolvera chegar ao começo da madrugada uivando baixo e trazendo-me uma certa perplexidade gerada por aquela voz quente, rasgo de noturno verão, cheiro de doce perigo no ar.

A mulher, quando é resolvida, fruta maturada, sabe ter a esperteza da loba e sabe sobreviver sem matilha. Amiga da lua, prima do sol, conhece cada segredo dos lugares por onde anda; deixa seu cheiro, seu almíscar em cada pele visitada, como antiga tatuagem ou cicatriz de velhas batalhas. A idade da loba dá, à mulher, a certeza da aura que clareia os caminhos eleitos por ela, apenas por ela. Aos machos mais frágeis, desacostumados a enfrentar a altivez sensual da mulher-loba, resta o medo, a fuga, como acontece com muitos, ainda não temperados nos mistérios dos sortilégios que envolvem essa raça de pêlo brilhante, farto, eriçado ao mínimo toque na hora do encontro selvagem.

A mulher-loba conhece o poder de suas garras, o laivo de sangue dos seus olhos determinados. Para ela, não há mistérios no amor nem discussões existenciais no silêncio morno do quarto amanhecido com jeito de ter enfrentado o fragor de um doce embate. Ela sabe os caminhos traçados em sua bússola.

A mulher-loba guarda seus uivos para os momentos mais profanos, quando eriça o pêlo e se encharca de vinho, te olha e ensaia um tango, com um jeito de quem conhece velhos segredos de bandoneons platinos. Segura de si, é capaz de eleger em seu guarda-roupa um vestido vermelho quando o tom da moda é a cor clara e sair por aí, requebrando as ancas fartas apenas para provocar um frevo doido nos olhos dos homens que passam. A mulher-loba é colombina, cigana e tem nos ombros a pele trigueira das mulheres da Andaluzia.

A mulher-loba sabe delimitar como ninguém os espaços da sua área de caça. Ela é a guerreira, a que atiça a caça e conhece como ninguém os perigosos caminhos da jugular.

Como uma fruta madura, a mulher-loba conhece o momento da plenitude da sua estação. Mas a colheita, é ela quem determina, guardiã zelosa da seiva que escorre das suas raízes.

por Cleomar Brandi [em 27/03/2007]

4 comentários:

Anônimo disse...

Bela homenagem ao nosso bom e velho Cléo!O snhor das palavras e do bom papo regado a muita bebida! Mas até hoje ele me deve uma crônica sobre mim! 'O jornalista que bebe Fanta'! Talvez ele a publique em Os Segredos da Loba Vol. II Feliz niver mestre e muitos anos de vida!

Thiago Barbosa!

Anderson Ribeiro disse...

Dizer que seu texto é excelente já é redundante. Mas é bom enfatizar que ele sempre tem a rapa de todos os tachos, que pega bem no fundo as informações, que aprofunda o assunto dissertado. Quanto a Cleomar, esse lobo das palavras, não tenho mais a dizer. Você foi certeiro com são certeiros os comentários do próprio Cleomar.

Celi disse...

Simplesmente Cleomar!

Álvaro Müller disse...

Se tem uma coisa que faz-me sentir privilegiado nesta vida é ser parceiro de boemia e jornalismo do Cleomar. Madrugadas e violões. O amigo exato.