sábado, fevereiro 27, 2010

K$10
RESPEITÁVEL PÚBLICO!..
O circo da ASP já está armado, e hoje rolou a 1ª fase da etapa de abertura do World Tour 2010, um ano que promete, c/ a volta de Andy Irons e Neco Padaratz ao circuito, as mudanças no formato de competição e na data de alguns eventos, a richa entre os 'Coolie Kids' Mick Fanning - atual campeão mundial - e Joel Parkinson - vice - , e o mítico 10º título mundial de Slater. Será?
Apenas uma semana antes, Taj Burrow venceu o Breaka Pro [WQS 4*] numa praia ali do lado, Burleigh Heads, que não recebia uma etapa do mundial há 10 anos. Burleigh é uma direita parecida c/ Snapper Rocks, picadeiro do Quik Pro. "O campeonato todo foi épico, altas ondas e o surf de mais alta performance que já vi", disse Taj, atual Pipe Master e eterno candidato ao título de campeão do mundo: "Foram tantos aéreos, todos os competidores voando tão alto que já tava valendo apenas fazer parte daquilo". TB derrotou na final Josh Kerr, Owen Wright e Dusty Payne, só fera da nova geração.

Em Snapper, Taj deu mole e perdeu pro azarão Chris Davidson. Ele foi o único Top 5 a perder hoje. Fanning, "2X world champ" local do pico, representou marcando 17.23 pontos, 2ª melhor média do dia. "Estou tendo problemas c/ minhas pranchas. Durante as férias me fechei na oficina c/ meu shaper Darren Handley e ainda estamos trabalhando nos ajustes. Tive sorte dessa velha prancha mágica funcionar bem, vou mandar ele fazer umas réplicas delas", diz o homem-bala: "Você tem que fazer o que é preciso na água. Às vezes, o que parece ser uma boa onda se torna um blefe. Tô amarradão de ter passado essa!"

Joel Parkinson, trivice mundial [2002/04/09] e bicampeão desse evento, dominou o 'globo da morte' - aquele tubo que quebra em frente às pedras - e venceu seu 'heat'. O equilibrista Bede Durbidge, 3º do mundo, também segue na sua linha. E Adriano de Souza, brasileiro nº 5 da ASP, travou um duelo particular c/ o tahitiano Michel Bourez p/ levar pelo apertado placar de 13.90 x 13.47 [com 8.83 o novato Blake Thorton ficou lá atrás, em 3º na disputa]. "Hj deu classico snapper 4 pes perfeito amanha tem mais", tuitou Mineirinho.

Nosso caçula Jadson André, 20 anos e vindo de um decepcionante vicecampeonato no Mundial Pro-Jr pelo 2º ano consecutivo, liderou o ataque da nova escola marcando a maior média entre os estreantes, 14.90, p/ vencer os nativos Adam Melling e Dean Morrison - campeão da prova em 2003. Owen Wright, nova promessa aussie, marcou 14.10 e também passou direto p/ a 3ª fase. Mas legal mesmo foi ver os animais selvagens Brett Simpson e Dusty Payne devorarem os malabaristas Dane Reynolds e Jordy Smith, nºs 10 e 11 do ranking respectivamente.

O tricampeão mundial AI e o bicampeão do WQS Neco seguraram a lanterna em suas baterias e também vão p/ a repescagem, junto c/ mais um "brazzo" [como fomos apelidados na Austrália], Marco Polo, que perdeu p/ outro adepto da máquina zero - azar do Polo, foi cair logo c/ ele, o artista principal do maior espetáculo da Terra: aos 38 anos, Kelly Slater descabelou o palhaço e mostrou que continua O CARA a ser batido, 17.77 pontos em 20 possíveis, maior média do round 1. "Eu perdi uma onda muito boa no início", diz o anormal: "Vi rodar um tubo e foi frustrante, senti que tinha que ser mais paciente. Aí tirei um 8.5 numa onda que parecia que ia engordar, entrou meio devagar mas alinhou e foi boa. Ainda peguei outra melhor p/ tirar o 9.27 que me garantiu a vitória."

Slater vencerá e partirá c/ tudo p/ a disputa do título mundial? Mick e Parko vão deixar? E Andy, seu arqui-rival? E os brasileiros nessa história? "Por favor me falam o que vcs acham. Agradeço Mineiro", escreveu Adriano no Twitter.


FONTES: ASP World Tour, Los Angeles Times, Waves e Nas Ondas Com Banana

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

JUBA & LULA
No início do mês rolou o Project Cuba, 1º campeonato de surf na ilha dos irmãos Castro. Organizado pela Pan American Surf Association, o evento fez parte do plano de desenvolvimento do surf competição em países inéditos e coroou o 1º campeão cubano da história, o local de Havana UMBERT.

Alguns surfistas de países vizinhos foram convidados p/ uma prova de exibição: o jamaicano rasta Icah Wilmot [foto] venceu a 1ª competição internacional de Cuba, seguido por Junior Gomes da República Dominicana e pelo campeão cubano Umbert, 2º e 3º lugares respectivamente. Até uma garota e um bodyboarder participaram da bateria: Ametza Nichols ficou em 4º e Edwin Morales completou a confraternização.
Falando em confraternizar, o Presidente Lula esteve na ilha de Fidel & Raúl esta semana. Ele assinou uma linha de crédito de $500 milhões de dólares p/ compra de alimentos, produção de artigos farmacêuticos, reforma de estradas e hotéis, e projetos de mineração, no último esforço de auxílio econômico durante sua gestão. Foi a 4ª viagem de Lula a Cuba desde que assumiu a presidência do Brasil, em 2003.

De lá foi p/ o Haiti, onde assina hoje outra linha de crédito, de $100 milhões p/ as vítimas do terremoto que destruiu Porto Príncipe. Mas não adianta. Dinheiro nenhum vai trazer de volta a vida de Orlando Zapata Tamayo [foto], preso político cubano que morreu após 85 dias de greve de fome, na terça-feira, apenas 3 horas antes da chegada do nosso Presidente. Pegou mal.
Zapata, sobrenome de herói nacional mexicano, era um pedreiro de 42 anos que foi condenado a 30 anos de cadeia pelos crimes de “desacato à autoridade e desordem pública”. O jornal espanhol El País publicou: “Na agenda de Lula, velho aliado do regime, não há espaço para os dissidentes, que inclusive lhe enviaram uma carta pedindo ao presidente brasileiro que intercedesse por eles, em especial por Orlando Tamayo”. Lech Walesa, ex-presidente polonês e Nobel da Paz, pediu a todos os vencedores do prêmio que pressionem o governo cubano a libertar “aqueles que foram condenados a anos de prisão por causa de suas convicções”.
Raúl Castro eximiu-se de culpa e responsabilizou os EUA: “Eles financiam a oposição com $50 milhões de dólares anuais!”, declarou o irmão de Fidel, dando uma de Hugo Chávez. Nosso presidente foi outro a dar explicações: “Eu não recebi carta nenhuma! Lamento pela perda da vida de um ser humano, mas não posso concordar com greve de fome porque eu já fiz”... Lula, sempre se contradizendo. E o que dizer da ‘pérola’ do técnico brasileiro Marcos Conde, ao comemorar o sucesso do 1º campeonato de surf em Cuba: “Agora a PASA está planejando levar o mesmo projeto a OUTROS PAÍSES NÃO DESENVOLVIDOS, for the love of surf!

Oh yeah!

SURFISTA DE ESQUERDA Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é?”... É sim. É o Rob Machado no Brasil. O ‘cabeleira’ – um californiano nascido na Austrália e descendente de latinos, 12 vitórias no World Tour, vicecampeão mundial em ‘95 e Pipe Master no ano 2000 – chegou na terrinha em pleno carnaval p/ o lançamento do filme The Drifter, e pelo jeito não quer ir embora.
Alheio à política externa, Machado passou as últimas semanas arrepiando as marolas de Maresias [SP], Itajaí e Praia Mole [SC], a bordo de sua fish 5’3”. A repórter catarinense Lara Coutinho entrevistou a lenda viva do ‘cool surf’ na tarde de ontem, no hotel, enquanto caía uma chuva em Floripa.
O que Rob Machado tem a ver c/ Cuba & Lula? Quase nada, mas o cara também é chegado em ilhas perdidas no tempo e se amarra numa esquerda surfável...
LARA - Você queria ficar sozinho e se separar do mundo, mas ironicamente uma equipe seguiu você pela Indonésia p/ filmar. Você realmente se sentiu sozinho durante a viagem? ROB - Sim, haviam pessoas comigo. Mas durante o filme eu comprei uma moto, isso ajudou a me separar da equipe. Eu pilotava p/ todos os lugares e também estava acampado a maior parte do tempo. Os caras tinham que ficar em hotéis e eu podia dormir na praia, na minha barraca. Eles iam embora e eu ficava sozinho. Então, havia um filme sendo feito sim, mas durante o tempo no qual não era feito foi muito legal.
L - Por que a Indonésia?R - Por diferentes razões. Meu amigo Taylor Steele estava morando lá, eu fui visitá-lo e tivemos a idéia de fazer o filme. Tudo começou lá e nós chegamos à conclusão de que a Indonésia seria o melhor lugar, porque além de ter boas ondas é um lugar lindo. O povo de lá é incrível e tem uma cultura maravilhosa.
L - Você atua no filme? Você está interpretando em algum instante?
R - Interpretando a mim mesmo [risos]. Nós recriamos cenas porque perdemos algumas coisas quando não estávamos filmando. Quando alguma coisa acontecia e a equipe não estava por perto, eu contava pra eles e nós recriávamos a situação. É muito fácil interpretar você mesmo.
L - Você acha que algo mudou no seu jeito de ver o mundo depois dessa viagem?
R - Eu voltei c/ um julgamento diferente em relação às coisas. Hoje eu dou um passo atrás e observo as situações de ângulos diferentes. Quando você está cercado por pessoas que não tem muito e eles são felizes mesmo assim, você questiona os seus valores, o que você possui.
L - Você se envolveu em trabalhos voluntários nas comunidades locais?
R - Lá eles têm muitos problemas relacionados à água. As pessoas que vivem nas vilas precsiam caminhar 2 ou 3 quilômetros p/ conseguir água potável. Acabei colaborando em projetos que ajudam nesse sentido e também na prevenção da malária. Nós patrocinamos a construção de um poço, e eu ajudei o pessoal a cavar.
L - Como foi voltar pra casa depois de 6 meses na estrada?R - Foi bem difícil no início. Foi como me colocar de novo no caos total, sair do controle e cair novamente na velocidade. Mas depois de 1 mês eu entrei no ritmo novamente.
L - O que você gostaria de comunicar c/ o filme?
R - Gostaria talvez de inspirar as pessoas a sair e viajar. Tentar algo novo, diferente daquilo que você faz normalmente. Existe tanta coisa lá fora p/ ser vista. Descobri que mesmo isolado na esquina mais longínqua da Indonésia você continua a encontrar pessoas que te inspiram.
PROJETO CUBA

FINALISTAS DO 1º CAMPEONATO DA ILHA DE ...LOST

"QUER FALAR COM PAI VÉIO VENHA AGORA..."
EM CUBA, DERECHOS HUMANOS SÓ P/ "HUMANOS DERECHOS"

NO SURF, COMO NA VIDA, ÀS VEZES É PRECISO......VOLTAR ATRÁS PARA SEGUIR EM FRENTE...
...ENSINA O MESTRE ROB MACHADO

sábado, fevereiro 20, 2010

VENTO QUE VENTA LÁ...

Quinta-feira, 8 da noite: após um dia de muito calor e ressaca pós-carnavalesca, o tempo fecha de repente e o vento vai ficando cada vez mais forte. As rajadas se intensificam, apagando meu back e derrubando as roupas do varal. Uma nuvem de poeira chega e arrasta tudo pelo caminho, de caixas de papelão a cachorros chihuahua.

Lembrei do filme Mágico de Oz. Minha mulher chega em casa assustada: “- Amor, pensei que fosse morrer! Eu tava atravessando a ponte e uma ventania começou a me balançar de um lado pro outro, diminuí a velocidade [da moto] pra 20 km/h e mesmo assim achei que fosse cair lá embaixo...”, narra Gil, minha Dorothy. Ela teve sorte.

Logo ficamos sabendo que a coisa foi séria: em Aracaju, árvores caíram sobre a rede elétrica deixando 30 bairros sem energia; muros de uma faculdade e um campo de futebol foram derrubados; e a tradicional igreja São Pedro Pescador, no Bairro Industrial, foi destelhada, ferindo 4 pessoas. “Graças a Deus foram poucos e não graves os feridos”, diz o padre Aélio, responsável pela paróquia: “Digo que foi uma graça porque a igreja estava lotada, era missa de Renovação da Aliança”.

...VENTA CÁ

Chegou a se falar em ventos de 85 km/h. O Instituto Nacional de Meteorologia registrou intensidade de 67 km/h, e o aeroporto local marcou 65 km/h. “O vórtice ciclônico de alto nível se formou no oceano e apenas sua borda oeste passou pela costa sergipana”, explica o meteorologista Overland Amaral, expert no assunto: “O ciclone forma-se sugando o ar, o que provoca rajadas de ventos e o levantamento de poeira. A velocidade dos ventos chegou a 73 km/h, o que equivale a um peso de 35 a 40 quilos.

A passagem do redemoinho durou de 10 a 15 minutos. O Corpo de Bombeiros registrou 143 chamados nesse período. O SAMU resgatou estudantes atingidos por estilhaços de vidraças quebradas na faculdade onde o muro caiu. O galpão do MOTU [Movimento Organizado dos Trabalhadores Urbanos], onde famílias estão alojadas, foi destelhado igual à igreja. Assim como inúmeras casas e garagens, da mesma forma que placas e outdoors foram arrancados e retorcidos feito árvores velhas.

Minha garota só escapou de voar pro “mundo de Oz” porque pegou apenas a rebarba do tornado. O vórtice da tempestade estava em alto-mar. “Esse mesmo fenômeno é esperado entre os dias 21 e 23 deste mês”, avisa Overland. Aracaju agora tem sua história de ciclone p/ contar. Não chegou a ser um furacão como o Katrina, mas c/ um pouco de jazz e ruas alagadas, já nos sentiríamos em New Orleans.



GONE WITH THE WIND


quarta-feira, fevereiro 10, 2010

CARNAVAL ZUMBI
Carnaval vem sempre/ pra tremer a terra”, canta a Nação Zumbi no disco Fome de Tudo, de 2007. Oficialmente, carnaval só começa no sábado, mas vai dizer isso pro pessoal de Salvador, Recife, Olinda, Rio de Janeiro...

Aracaju é uma das cidades onde a gente mais tocou”, garante Jorge Du Peixe, vocalista da Nação: “É sempre muito bom tocar aqui. É pacata, praieira, e o sergipano acolhe a gente muito bem.”
É isso. Aracaju é pacata. Até os carnavais de Pirambu e Neópolis, cidadezinhas litorâneas do interior, bombam mais que o daqui. Pra quem gosta de gandaia, sobram o Pré-Caju – sucursal do carnaval baiano – em janeiro, que como o nome diz é uma prévia carnavalesca; e os festivais do governo e da prefeitura, respectivamente Verão Sergipe e Projeto Verão.
Ano passado Manu Chao passou por aqui. Este ano, entre nomes que iam de Jota Quest e Dudu Nobre [no festival do governo] a Belo e Farofa Carioca [no evento da prefeitura], a Nação Zumbi foi convocada de última hora p/ substituir Jorge Ben Jor, que preferiu tocar na Amazônia.
A Nação já tocou umas 5 ou 6 vezes nesses festivais, está aqui praticamente todo ano, se contarmos c/ os shows independentes realizados pelos produtores locais, como a Marginal em 1999 [estréia na cidade] e o Lacertae em 2003. Agora, imagina a banda dando a seguinte entrevista p/ a TV local:
[...]
REPÓRTER: - É a 1ª VEZ que vocês estão aqui no Verão Sergipe...
DU PEIXE: [em off] - Não é a 1ª vez não, véio!
REPÓRTER: - Ah, não é a 1ª vez não, né? Então, estando aqui no Verão Sergipe, esse clima...
[...]
Hahaha! Eu não ria tanto assistindo uma entrevista desde que o CQC saiu de férias. Pra começo de conversa, o nome do evento era Projeto Verão. De resto, não precisa nem falar. Veja você mesmo:
video
Bruahaha! Danilo Mecenas, o ‘repórter inexperiente’... Parabéns pro Jorge pelo profissionalismo e boa vontade. A reação dele à pergunta inicial, e Dengue tendo que explicar “o que é manguebeat”, realmente impagável.
O Danilo tem 19 anos, é estagiário de edição e não ganha nada p/ fazer essas reportagens. Há de ser perdoado. A Nação tem quase a mesma idade – em 2009 comemorou os 15 anos da estréia em vinil c/ Da Lama Ao Caos, “nos bons tempos de Chico Science & Nação Zumbi”, palavras do próprio Jorge. Já estão acostumados.
Começaram o show c/ “Fome de Tudo” e seguiram emendando várias do último disco c/ o homônimo de 2002, mais algumas do Rádio S.A.M.B.A., de ’99, e várias dos 2 álbuns c/ o Chico: “Praieira”, “A Cidade”, “Banditismo Por Uma Questão de Classe”, “Maracatu Atômico”, “Macô”, “Manguetown”... Os momentos mais doidos foram “Blunt of Judah” emendando c/ “Coco Dub” e a cover de “Umbabarauma”, do outro Jorge, o Ben. Fiquei esperando Los Sebosos Postizos encarnarem ali mas não rolou nenhum espiritismo, só gelo seco & jogo de luz, deixando o que já era chapado ainda mais psicodélico.
A estética muda a cada disco e as músicas vivem em evolução constante pros shows”, explica Du Peixe. Os caras estão c/ um novo site e um DVD inédito, gravado em Recife no mês de dezembro. Deve ser lançado ainda no 1º semestre.
Em 2008, eles tocaram na Rua da Cultura. A AP.TV esteve lá e fez uns takes rápidos do show. “Hoje, Amanhã e Depois” foi a única música gravada inteira. Na ocasião, eu estava dirigindo o Periferia – que irá estrear na TV Brasil rebatizado como É Tudo Nosso – e peguei essas imagens, usei fotos e um fundo caleidoscópico, sincronizei tudo c/ o áudio original e fiz um CLIP extra-oficial e ainda inédito na internet.
Nação Zumbi versão Viva La Brasa. “Isso não tem fim”...

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Nem no YouTube nem no Vimeo vocês encontram.
IMAGENS: entrevista – Eduardo Freire / clip – Carlos Bonfim / fotos – Sílvio Rocha
SÓ O PÓ If you wanna hang out, you’ve got to take her out: COCAINE/ If you wanna get down, down on the ground: COCAINE”...
Um pescador encontrou um pacote boiando no rio Vaza-Barris. Foi a deixa p/ a maior apreensão de cocaína na história de Sergipe: na última sexta-feira a Polícia Federal pôs as mãos em 77 ‘tijolos’ do mais puro pó da Bolívia, 120 Kg c/ valor bruto estimado em $4 milhões de dólares.
A ‘danada’ estava num barco que afundou nas proximidades da ponte Aracaju-Caueira. No fim de semana, uma operação conjunta das polícias Civil e Militar levou à prisão um advogado paulista e um carioca sem profissão definida, que há 6 meses morava na Atalaia. Os ‘hômi’ também confiscaram um passaporte, do boliviano Hardy Gomez Vaca – nome de personagem do Tarantino...
Propagada nacionalmente como “capital da qualidade de vida”, slogan amplamente aproveitado pela prefeitura, Aracaju tornou-se a nova pepita de ouro p/ o tráfico, e nossa cidade ganhou um upgrade no circuito: agora é entreposto do comércio internacional de pó. “A cocaína é de excelente qualidade, a embarcação possuía motor extremamente potente, além de equipamentos de navegação”, diz o delegado Marcos Custódio – nome apropriado p/ o chefe do Departamento Regional de Combate ao Crime Organizado.
Trabalhando no jornalismo da TV, calhou de eu editar as 2 matérias, da apreensão da droga na sexta e da prisão dos caras na segunda. O repórter é Thiago Barbosa, da nova geração, e os cinegrafistas, os veteranos Marcão e Zerinho. Conheço muita gente que vai chorar vendo estas imagens, mas p/ mim tá tranqüilo, tenho um desvio no septo nasal que sempre me impediu de cheirar...
If you got bad news, you wanna kick them blues: COCAINE/ When your day is done, you wanna run: COCAINE/ She don’t lie, she don’t lie, she don’t lie: COCAINE”...
NOTÍCIAS APERIPÊ 05/02/2010:
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NOTÍCIAS APERIPÊ 08/02/2010:
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Special thanks to ERIC CLAPTON

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

UMA AGULHA NO PALHEIRO May you have food and raiment, a soft pillow for your head.
May you be forty years in heaven before the devil knows you’re dead
.”

Sempre considerei J.D. Salinger um sujeito responsa. Escreveu um dos livros mais marginais e influentes do séc. XX, nunca fez concessões – às editoras, à imprensa, ao público – , e viveu de renda durante quase 50 anos.


O que faz com que um livro narrando acontecimentos quase banais, ocorridos c/ um adolescente que não tem nada de extraordinário, transforme-se na mais acurada e sensível crônica da juventude deste século?”, perguntou Marco Antônio Bart no site Scream & Yell em novembro de 1999: “Só os espertos que chegaram a ler O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO é que podem dizer com certeza.”

THE CATCHER IN THE RYE

“- Estou sempre dizendo: ‘muito prazer em conhecê-lo’, para alguém que não tenho nenhum prazer em conhecer. Mas a gente tem que fazer essas coisas pra seguir vivendo.

Holden Caulfield é o ‘apanhador’ do título, referência ao beisebol e a um dos delírios da personagem, um garoto-problema que volta pra casa ao levar bomba no colégio interno. Expulso por causa das péssimas notas, o herói da estória evita o confronto c/ os pais e fica de rolê em Nova York durante a véspera de natal: hospeda-se num hotel, vai a bares, museus, cinema, arruma confusão, procura algumas pessoas que considera importantes, como a irmã, um professor, uma ex-namorada...

Holden é ao mesmo tempo desequilibrado e bom”, analisa Bia Moreira no blog Letras Despidas: “Parece que ele tenta ser mais rebelde do que é, pela raiva que tem do mundo. Mas ele não consegue, porque está sozinho e carente. Parece que entende de cinema, mas odeia todos os filmes, odeia tudo, todos os lugares que ele vai são ruins, todas as pessoas são hipócritas. Ele não consegue achar o lugar certo ou a pessoa certa – tirando sua irmã, com quem se sente bem – mas o problema é que ele carrega todos esses sentimentos, não importa onde esteja ou com quem. Ele sempre terá as mesmas queixas.

Publicado originalmente em formato de novela de 1945 a ’46,
O Apanhador no Campo de Centeio tornou-se o mais improvável best-seller de todos os tempos ao ser compilado numa edição e lançado no início da década de 50. Sucesso imediato de público e crítica – que já havia saudado seu conto de estréia, Um Dia Perfeito Para o Peixe-Banana, em ’48 – o livro de Salinger já vendeu 35 milhões de cópias. Até hoje, vende uma media de 250 mil cópias por ano. Por que as pessoas se identificaram tanto c/ um fedelho rebelde que não faz nada demais?

Holden Caulfield é o herói e o vilão”, escreveu Nemo Nox, de Washington [EUA], p/ o Digestivo Cultural em 2002: “Vítima de si próprio e de sua sensibilidade ao que o cerca, divertidamente mentiroso, assumidamente covarde, parece buscar uma espécie de redenção ajudando desconhecidos e cultuando sua irmãzinha de 10 anos. Mas o que realmente o incomoda é o vazio e a falsidade das pessoas, que por mais promissoras que pareçam sempre acabarão por se revelar como mais uma decepção. Isto não faz de The Catcher In The Rye exatamente uma leitura animadora, mas ainda assim existe algum resquício de inocência e ingenuidade infantil, e também humor (negro, é claro), que não deixam o livro afundar num poço de pessimismo e depressão.

6 GRAUS DE INSPIRAÇÃO

Na manhã de 08 de dezembro de 1980, Mark Chapman, um pacato fã dos Beatles, pediu um autógrafo a John Lennon em frente ao prédio em que o cantor inglês morava em NY. Na tarde daquele mesmo dia, Chapman matou Lennon c/ 5 tiros. No interrogatório, justificou-se: “Leia O Apanhador no Campo de Centeio e descobrirá porque eu fiz isso.

Da mesma forma que
O Pequeno Príncipe de Saint-Exupery é paradigma de leitura pras misses, a obra-prima de Salinger serve de inspiração p/ todo tipo de lunático – de assassinos a artistas. O cara que atirou em Ronald Reagan no dia 30/04/81 usou o mesmo argumento de Mark Chapman p/ justificar o atentado. No filme Seis Graus de Separação, o michê que Will Smith interpreta expõe uma tese sobre a influência de J.D. e seu livro, que o maluco de Teoria da Conspiração interpretado por Mel Gibson coleciona sem nunca ter lido uma cópia. O publicitário Washington Olivetto também coleciona O Apanhador..., c/ o qual presenteia todos os convidados que visitam sua casa. Se ele leu, eu não sei.

Nos anos 50, Bill Halley and His Comets gravaram o single
Rocking Through the Rye. Em ’91 o Green Day incluiu a canção Who Wrote Holden Caulfield? no álbum Kerplunk, e desde então tem feito referências a Salinger em todos os seus discos. E que tal as bandas The Caulfields e Nine Stories, da cantora Lisa Loeb, batizada em homenagem a um dos seus romances? Ou a gravadora Caulfield Records [PO Box 84323 Lincoln, NE 68501 USA]?


O apelo adolescente, os conflitos típicos da idade, a ânsia por liberdade, a instabilidade emocional, a delinquência juvenil, a natureza falível do protagonista talvez expliquem tamanha empatia.
The Catcher In The Rye antecedeu On The Road de Jack Kerouac, Laranja Mecânica de Anthony Burgess e Mixto Quente de Charles Bukowski; inspirou a geração beat, James Dean, Norman Mailer, Bob Dylan, Beatles, Doors, Stones, Crumb; e mais que isso: criou o “jovem” como nós conhecemos. “E o talento sem tamanho de J.D. Salinger é um dos maiores responsáveis pelo status ‘cult’ do livro até hoje”, diz Nemo Nox:

Apesar de já ter passado da adolescência quando escreveu a obra (estava com 32 anos quando o livro saiu), o autor penetrou de forma admirável na maneira própria que os jovens têm para se expressar. O livro marcou época por seu uso ousado de gírias, e expressões e referências ‘chulas’, que andavam na boca da rapaziada. Salinger colocou em Holden Caulfield, de forma realista e convincente, tudo o que se passa na cabeça de um rapaz de 17 anos: as preocupações com o futuro, a incerteza dessa fase, as garotas (claro!)... Tudo de uma maneira que nunca havia sido visto antes, com estilo, inteligência e um raro sentimento de proximidade com o universo jovem.

DIA D

“- De qualquer maneira até que achei bom eles terem inventado a bomba atômica. Se houver outra guerra, vou sentar bem em cima da droga da bomba. Vou me apresentar como voluntário pra fazer isso, juro por Deus que vou.”

J.D. Salinger nunca quis ser ídolo da juventude. Reza a lenda que o ex-soldado Jerome David foi um herói de guerra que participou da invasão na costa da Normandia no Dia D, e só consentiu na publicação d’O Apanhador no Campo de Centeio depois de fazer o editor da The New Yorker prometer que as críticas da imprensa ao trabalho não chegariam aos seus ouvidos. Foi nessa revista que J.D. iniciou e terminou sua breve carreira literária. Além de lançar a novela de Holden Caulfield e o conto do Peixe-Banana nos anos 40, foi a última a publicar um trabalho seu, o conto Hapworth 16, 1924, no longínquo ano de 1965. Também escreveu p/ a Esquire, a Story e o Saturday Evening Post.

Seu 2º livro,
Nine Stories [Nove Histórias no Brasil, Nove Contos em Portugal – onde a tradução de The Catcher In The Rye é Uma Agulha no Palheiro], foi totalmente extraído da The New Yorker e lançado em ‘53. Quando O Apanhador... atingiu 15 milhões de cópias vendidas, Salinger mudou-se de NY p/ New Hampshire, tornando-se cada vez mais recluso. Em ’61 são lançados Franny & Zooey e Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira!, e em ’63 sai Seymour: Uma Introdução, fechando a trilogia da família Glass. Em ’65, desistiu na última hora de transformar Hapworth... em livro, e desde então não publicou mais nada.

Há uma paz maravilhosa em não publicar”, disse em ‘74, numa rara entrevista: “É pacífico. Publicar significa uma horrível invasão da minha privacidade. Gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo só pra mim e pro meu próprio prazer.”

2ª CATEGORIA

Semelhante a seu alter ego Holden, J.D. era um iconoclasta. Altamente influenciado por Ernest Hemingway e John Steinbeck, chamava-os de “escritores de 2ª categoria”, como se quisesse incluir seu nome no filão. Kafka, Flaubert e até James Joyce são outras influências perceptíveis em sua escrita:

O texto de Salinger”, explica Nemo, “segue a linha joyceana do fluxo de consciência, com as frases jorrando aos borbotões como se saídas diretamente da cabeça do narrador, saltando de um assunto para o outro sem grande cerimônia, parecendo obra do acaso. Na verdade, tudo isto é planejadíssimo, e existe até mesmo um capítulo no qual, sob uma sutil máscara, é discutido o papel das digressões na narrativa. Em The Catcher In The Rye o fluxo de consciência funciona particularmente bem, pois permite expressar a instabilidade emocional do protagonista não somente no conteúdo da narrativa mas também em sua forma.”

Só havia uma coisa que Salinger amava mais do que escrever: as mulheres. Em ’45, casou-se c/ Sylvia, uma médica francesa; em ’55 foi a vez de Claire Douglas, de quem também se divorciou; geralmente seus casamentos duravam 10 anos. Nos anos 80 namorou a atriz Elaine Joyce, e no fim da década casou c/ a enfermeira Colleen O’Neill, quase ½ século mais jovem – ela c/ 22, ele c/ 67 [bem antes da invenção do Viagra].

Segundo o livro
A Life Raised High, de Kenneth Slawenski, sua misantropia teria surgido a partir de uma desilusão amorosa. Seu primeiro amor, Oona, filha do escritor Eugene O’Neill, teria sido roubada dele por ninguém menos que Charles Chaplin. Lembram da musiquinha: “...e o palhaço o que é? Ladrão de mulher!...” A história envolvia até tráfico de escravas brancas p/ prostituição. “As capas de jornais estampavam fotos de Chaplin enquanto tiravam as impressões digitais dele em um caso de investigação de paternidade. Também publicaram artigos em que o ator era acusado de montar uma armadilha para a jovem e inocente filha do dramaturgo favorito da América”, escreveu Slawenski:

O episódio foi publicamente humilhante para Salinger. Todo mundo sabia quais eram seus sentimentos por Oona O’Neill. Os companheiros do Exército aos quais ele, orgulhoso, tinha mostrado fotos dela, agora se compadeciam. [...] Apesar de tudo, o orgulho e a tenacidade de Salinger o impediram de se lamentar em público. Pelo contrário, ou fez caso omisso do ocorrido ou fingiu uma indiferença impassível.

A PARTILHA

J.D. Salinger morreu na última quarta-feira, 27/01, de causas naturais aos 91 anos. Instantaneamente começaram as especulações sobre material inédito que possa ser lançado postumamente. Um de seus vizinhos, Jerry Burt, afirma que Salinger mantinha pelo menos 15 livros jamais publicados trancados no cofre de casa. Sua ex-amante Joyce Maynard declarou ter tido acesso a 2 romances escritos em páginas de diários. Sua filha Margareth confirma que p/ o pai “os mundos da ficção e da realidade eram muito misturados.”

Acho que podemos encontrar muita coisa ali, mas não estou certo de que seja necessariamente o que esperamos”, contrapõe Jay McInerney, autor de Bright Lights, Big City [inédito no Brasil]: “Hapworth 16, 1924 não era uma obra de ficção tradicional ou excepcionalmente satisfatória. Era um monólogo epistolar delirante praticamente sem forma. Tenho a sensação de que sua obra posterior está neste tom.”

Contrariando uma tendência de mercado, J.D. nunca deixou que suas iniciais se tornassem uma grife literária. Negou veementemente o assédio de Hollywood e até da Disney p/ adaptar
O Apanhador... p/ as telas, e só lançou a versão capa-dura de Hapworth... em 1997, depois de 32 anos de negociações. Ano passado, entrou c/ um processo contra a editora sueca Nicotext, que publicou um livro no qual um tal Mr.C sai de seu asilo aos 76 anos e perambula pelas ruas de Nova York. O título: 60 Years Later: Coming Through The Rye [algo como “60 Anos Depois: Atravessando o Campo de Centeio”].

Nós lemos livros, olhamos p/ árvores, pra uma mulher encostada numa parede”, diz J.D. California, o autor do infame livro: “A inspiração vem de tudo e, é claro, também de The Catcher... O que ocorre c/ os personagens quando o livro termina? Eles deixam de existir ou continuam a criar sua própria vida?”, pergunta o cara-de-pau. O velho Sal não gostou nada da brincadeira. “A seqüência não é uma paródia e não comenta ou critica o original. É roubo intelectual puro e simples”, contesta a ação registrada na Corte Distrital dos EUA.

NÃO ME MANDE FLORES

- Tomara que quando eu morrer de verdade alguém tenha a feliz idéia de me atirar num rio ou coisa parecida. Tudo, menos me enfiar numa porcaria de cemitério. Gente vindo todo domingo botar um ramo de flores em cima da barriga do infeliz, e toda essa baboseira. Quem é que quer flores depois de morto? Ninguém.”

Pela lei americana, uma seqüência precisa da autorização dos detentores dos direitos autorais. No Brasil, uma obra é considerada de domínio público a partir de 70 anos após a morte do autor. “
É chato não poder escrever sobre um personagem como Caulfield”, lamenta o brasileiro Joca Reiners Terron: “É uma questão editorial, não literária. Os escritores têm idéias libertárias, mas estão inseridos numa indústria, da qual são apenas um elo, uma peça. Ele tem todo o direito de restringir os personagens que criou, e é compreensível que um cara da idade dele agisse assim, mas um autor mais inserido no mundo contemporâneo não faria isso.”

Terron deve estar se referindo a um expediente que as editoras vêm empregando sem cerimônia: usar o nome de autores mortos em lançamentos caça-níqueis. Em 2004, a
Random House lançou A Volta do Poderoso Chefão, e 2 anos depois, A Vingança do Poderoso Chefão. Do mestre Mario Puzo ao medíocre Mark Winegardner... Em 2008, o centenário de Ian Fleming foi comemorado c/ o lançamento do novo 007 – A Essência do Mal, de Sebastian Faulks.

Curtis Sittenfeld, autora de
Prep [romance que também não saiu por aqui], já foi comparada a Salinger e aguarda ansiosa por um eventual lançamento de inéditos do seu escritor favorito: “Não vejo a hora de saber o que tem nesses manuscritos. Hoje em dia, com a publicidade descarada dos escritores, é extraordinário e quase inacreditável que alguém escreva a sério somente por escrever.”

J.D. era um cara das antigas. Foi pra guerra, gostava de mulher e nunca se prostituiu p/ a mídia, o mercado ou qualquer outra merda:

“-
Bom mesmo é o livro que, quando a gente acaba de ler, fica querendo ser um grande amigo do autor, para poder telefonar para ele toda vez que der vontade. Mas isso é raro de acontecer.”

J.D. SALINGER [+01/01/1919 - *27/01/2010]

And I find it kind of funny
I find it kind of sad
The dreams in which I'm dying
Are the best I've ever had
I find it hard to tell you
I find it hard to take
When people run in circles
It's a very very, mad world, mad world