quarta-feira, fevereiro 03, 2010

UMA AGULHA NO PALHEIRO May you have food and raiment, a soft pillow for your head.
May you be forty years in heaven before the devil knows you’re dead
.”

Sempre considerei J.D. Salinger um sujeito responsa. Escreveu um dos livros mais marginais e influentes do séc. XX, nunca fez concessões – às editoras, à imprensa, ao público – , e viveu de renda durante quase 50 anos.

O que faz com que um livro narrando acontecimentos quase banais, ocorridos c/ um adolescente que não tem nada de extraordinário, transforme-se na mais acurada e sensível crônica da juventude deste século?”, perguntou Marco Antônio Bart no site Scream & Yell em novembro de 1999: “Só os espertos que chegaram a ler O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO é que podem dizer com certeza.”

THE CATCHER IN THE RYE

“- Estou sempre dizendo: ‘muito prazer em conhecê-lo’, para alguém que não tenho nenhum prazer em conhecer. Mas a gente tem que fazer essas coisas pra seguir vivendo.

Holden Caulfield é o ‘apanhador’ do título, referência ao beisebol e a um dos delírios da personagem, um garoto-problema que volta pra casa ao levar bomba no colégio interno. Expulso por causa das péssimas notas, o herói da estória evita o confronto c/ os pais e fica de rolê em Nova York durante a véspera de natal: hospeda-se num hotel, vai a bares, museus, cinema, arruma confusão, procura algumas pessoas que considera importantes, como a irmã, um professor, uma ex-namorada...

Holden é ao mesmo tempo desequilibrado e bom”, analisa Bia Moreira no blog Letras Despidas: “Parece que ele tenta ser mais rebelde do que é, pela raiva que tem do mundo. Mas ele não consegue, porque está sozinho e carente. Parece que entende de cinema, mas odeia todos os filmes, odeia tudo, todos os lugares que ele vai são ruins, todas as pessoas são hipócritas. Ele não consegue achar o lugar certo ou a pessoa certa – tirando sua irmã, com quem se sente bem – mas o problema é que ele carrega todos esses sentimentos, não importa onde esteja ou com quem. Ele sempre terá as mesmas queixas.

Publicado originalmente em formato de novela de 1945 a ’46,
O Apanhador no Campo de Centeio tornou-se o mais improvável best-seller de todos os tempos ao ser compilado numa edição e lançado no início da década de 50. Sucesso imediato de público e crítica – que já havia saudado seu conto de estréia, Um Dia Perfeito Para o Peixe-Banana, em ’48 – o livro de Salinger já vendeu 35 milhões de cópias. Até hoje, vende uma media de 250 mil cópias por ano. Por que as pessoas se identificaram tanto c/ um fedelho rebelde que não faz nada demais?

Holden Caulfield é o herói e o vilão”, escreveu Nemo Nox, de Washington [EUA], p/ o Digestivo Cultural em 2002: “Vítima de si próprio e de sua sensibilidade ao que o cerca, divertidamente mentiroso, assumidamente covarde, parece buscar uma espécie de redenção ajudando desconhecidos e cultuando sua irmãzinha de 10 anos. Mas o que realmente o incomoda é o vazio e a falsidade das pessoas, que por mais promissoras que pareçam sempre acabarão por se revelar como mais uma decepção. Isto não faz de The Catcher In The Rye exatamente uma leitura animadora, mas ainda assim existe algum resquício de inocência e ingenuidade infantil, e também humor (negro, é claro), que não deixam o livro afundar num poço de pessimismo e depressão.

6 GRAUS DE INSPIRAÇÃO

Na manhã de 08 de dezembro de 1980, Mark Chapman, um pacato fã dos Beatles, pediu um autógrafo a John Lennon em frente ao prédio em que o cantor inglês morava em NY. Na tarde daquele mesmo dia, Chapman matou Lennon c/ 5 tiros. No interrogatório, justificou-se: “Leia O Apanhador no Campo de Centeio e descobrirá porque eu fiz isso.

Da mesma forma que
O Pequeno Príncipe de Saint-Exupery é paradigma de leitura pras misses, a obra-prima de Salinger serve de inspiração p/ todo tipo de lunático – de assassinos a artistas. O cara que atirou em Ronald Reagan no dia 30/04/81 usou o mesmo argumento de Mark Chapman p/ justificar o atentado. No filme Seis Graus de Separação, o michê que Will Smith interpreta expõe uma tese sobre a influência de J.D. e seu livro, que o maluco de Teoria da Conspiração interpretado por Mel Gibson coleciona sem nunca ter lido uma cópia. O publicitário Washington Olivetto também coleciona O Apanhador..., c/ o qual presenteia todos os convidados que visitam sua casa. Se ele leu, eu não sei.

Nos anos 50, Bill Halley and His Comets gravaram o single
Rocking Through the Rye. Em ’91 o Green Day incluiu a canção Who Wrote Holden Caulfield? no álbum Kerplunk, e desde então tem feito referências a Salinger em todos os seus discos. E que tal as bandas The Caulfields e Nine Stories, da cantora Lisa Loeb, batizada em homenagem a um dos seus romances? Ou a gravadora Caulfield Records [PO Box 84323 Lincoln, NE 68501 USA]?

O apelo adolescente, os conflitos típicos da idade, a ânsia por liberdade, a instabilidade emocional, a delinquência juvenil, a natureza falível do protagonista talvez expliquem tamanha empatia.
The Catcher In The Rye antecedeu On The Road de Jack Kerouac, Laranja Mecânica de Anthony Burgess e Mixto Quente de Charles Bukowski; inspirou a geração beat, James Dean, Norman Mailer, Bob Dylan, Beatles, Doors, Stones, Crumb; e mais que isso: criou o “jovem” como nós conhecemos. “E o talento sem tamanho de J.D. Salinger é um dos maiores responsáveis pelo status ‘cult’ do livro até hoje”, diz Nemo Nox:

Apesar de já ter passado da adolescência quando escreveu a obra (estava com 32 anos quando o livro saiu), o autor penetrou de forma admirável na maneira própria que os jovens têm para se expressar. O livro marcou época por seu uso ousado de gírias, e expressões e referências ‘chulas’, que andavam na boca da rapaziada. Salinger colocou em Holden Caulfield, de forma realista e convincente, tudo o que se passa na cabeça de um rapaz de 17 anos: as preocupações com o futuro, a incerteza dessa fase, as garotas (claro!)... Tudo de uma maneira que nunca havia sido visto antes, com estilo, inteligência e um raro sentimento de proximidade com o universo jovem.

DIA D

“- De qualquer maneira até que achei bom eles terem inventado a bomba atômica. Se houver outra guerra, vou sentar bem em cima da droga da bomba. Vou me apresentar como voluntário pra fazer isso, juro por Deus que vou.”

J.D. Salinger nunca quis ser ídolo da juventude. Reza a lenda que o ex-soldado Jerome David foi um herói de guerra que participou da invasão na costa da Normandia no Dia D, e só consentiu na publicação d’O Apanhador no Campo de Centeio depois de fazer o editor da The New Yorker prometer que as críticas da imprensa ao trabalho não chegariam aos seus ouvidos. Foi nessa revista que J.D. iniciou e terminou sua breve carreira literária. Além de lançar a novela de Holden Caulfield e o conto do Peixe-Banana nos anos 40, foi a última a publicar um trabalho seu, o conto Hapworth 16, 1924, no longínquo ano de 1965. Também escreveu p/ a Esquire, a Story e o Saturday Evening Post.

Seu 2º livro,
Nine Stories [Nove Histórias no Brasil, Nove Contos em Portugal – onde a tradução de The Catcher In The Rye é Uma Agulha no Palheiro], foi totalmente extraído da The New Yorker e lançado em ‘53. Quando O Apanhador... atingiu 15 milhões de cópias vendidas, Salinger mudou-se de NY p/ New Hampshire, tornando-se cada vez mais recluso. Em ’61 são lançados Franny & Zooey e Carpinteiros, Levantem Bem Alto a Cumeeira!, e em ’63 sai Seymour: Uma Introdução, fechando a trilogia da família Glass. Em ’65, desistiu na última hora de transformar Hapworth... em livro, e desde então não publicou mais nada.

Há uma paz maravilhosa em não publicar”, disse em ‘74, numa rara entrevista: “É pacífico. Publicar significa uma horrível invasão da minha privacidade. Gosto de escrever. Amo escrever. Mas escrevo só pra mim e pro meu próprio prazer.”

2ª CATEGORIA

Semelhante a seu alter ego Holden, J.D. era um iconoclasta. Altamente influenciado por Ernest Hemingway e John Steinbeck, chamava-os de “escritores de 2ª categoria”, como se quisesse incluir seu nome no filão. Kafka, Flaubert e até James Joyce são outras influências perceptíveis em sua escrita:

O texto de Salinger”, explica Nemo, “segue a linha joyceana do fluxo de consciência, com as frases jorrando aos borbotões como se saídas diretamente da cabeça do narrador, saltando de um assunto para o outro sem grande cerimônia, parecendo obra do acaso. Na verdade, tudo isto é planejadíssimo, e existe até mesmo um capítulo no qual, sob uma sutil máscara, é discutido o papel das digressões na narrativa. Em The Catcher In The Rye o fluxo de consciência funciona particularmente bem, pois permite expressar a instabilidade emocional do protagonista não somente no conteúdo da narrativa mas também em sua forma.”

Só havia uma coisa que Salinger amava mais do que escrever: as mulheres. Em ’45, casou-se c/ Sylvia, uma médica francesa; em ’55 foi a vez de Claire Douglas, de quem também se divorciou; geralmente seus casamentos duravam 10 anos. Nos anos 80 namorou a atriz Elaine Joyce, e no fim da década casou c/ a enfermeira Colleen O’Neill, quase ½ século mais jovem – ela c/ 22, ele c/ 67 [bem antes da invenção do Viagra].

Segundo o livro
A Life Raised High, de Kenneth Slawenski, sua misantropia teria surgido a partir de uma desilusão amorosa. Seu primeiro amor, Oona, filha do escritor Eugene O’Neill, teria sido roubada dele por ninguém menos que Charles Chaplin. Lembram da musiquinha: “...e o palhaço o que é? Ladrão de mulher!...” A história envolvia até tráfico de escravas brancas p/ prostituição. “As capas de jornais estampavam fotos de Chaplin enquanto tiravam as impressões digitais dele em um caso de investigação de paternidade. Também publicaram artigos em que o ator era acusado de montar uma armadilha para a jovem e inocente filha do dramaturgo favorito da América”, escreveu Slawenski:

O episódio foi publicamente humilhante para Salinger. Todo mundo sabia quais eram seus sentimentos por Oona O’Neill. Os companheiros do Exército aos quais ele, orgulhoso, tinha mostrado fotos dela, agora se compadeciam. [...] Apesar de tudo, o orgulho e a tenacidade de Salinger o impediram de se lamentar em público. Pelo contrário, ou fez caso omisso do ocorrido ou fingiu uma indiferença impassível.

A PARTILHA

J.D. Salinger morreu na última quarta-feira, 27/01, de causas naturais aos 91 anos. Instantaneamente começaram as especulações sobre material inédito que possa ser lançado postumamente. Um de seus vizinhos, Jerry Burt, afirma que Salinger mantinha pelo menos 15 livros jamais publicados trancados no cofre de casa. Sua ex-amante Joyce Maynard declarou ter tido acesso a 2 romances escritos em páginas de diários. Sua filha Margareth confirma que p/ o pai “os mundos da ficção e da realidade eram muito misturados.”

Acho que podemos encontrar muita coisa ali, mas não estou certo de que seja necessariamente o que esperamos”, contrapõe Jay McInerney, autor de Bright Lights, Big City [inédito no Brasil]: “Hapworth 16, 1924 não era uma obra de ficção tradicional ou excepcionalmente satisfatória. Era um monólogo epistolar delirante praticamente sem forma. Tenho a sensação de que sua obra posterior está neste tom.”

Contrariando uma tendência de mercado, J.D. nunca deixou que suas iniciais se tornassem uma grife literária. Negou veementemente o assédio de Hollywood e até da Disney p/ adaptar
O Apanhador... p/ as telas, e só lançou a versão capa-dura de Hapworth... em 1997, depois de 32 anos de negociações. Ano passado, entrou c/ um processo contra a editora sueca Nicotext, que publicou um livro no qual um tal Mr.C sai de seu asilo aos 76 anos e perambula pelas ruas de Nova York. O título: 60 Years Later: Coming Through The Rye [algo como “60 Anos Depois: Atravessando o Campo de Centeio”].

Nós lemos livros, olhamos p/ árvores, pra uma mulher encostada numa parede”, diz J.D. California, o autor do infame livro: “A inspiração vem de tudo e, é claro, também de The Catcher... O que ocorre c/ os personagens quando o livro termina? Eles deixam de existir ou continuam a criar sua própria vida?”, pergunta o cara-de-pau. O velho Sal não gostou nada da brincadeira. “A seqüência não é uma paródia e não comenta ou critica o original. É roubo intelectual puro e simples”, contesta a ação registrada na Corte Distrital dos EUA.

NÃO ME MANDE FLORES

- Tomara que quando eu morrer de verdade alguém tenha a feliz idéia de me atirar num rio ou coisa parecida. Tudo, menos me enfiar numa porcaria de cemitério. Gente vindo todo domingo botar um ramo de flores em cima da barriga do infeliz, e toda essa baboseira. Quem é que quer flores depois de morto? Ninguém.”

Pela lei americana, uma seqüência precisa da autorização dos detentores dos direitos autorais. No Brasil, uma obra é considerada de domínio público a partir de 70 anos após a morte do autor. “
É chato não poder escrever sobre um personagem como Caulfield”, lamenta o brasileiro Joca Reiners Terron: “É uma questão editorial, não literária. Os escritores têm idéias libertárias, mas estão inseridos numa indústria, da qual são apenas um elo, uma peça. Ele tem todo o direito de restringir os personagens que criou, e é compreensível que um cara da idade dele agisse assim, mas um autor mais inserido no mundo contemporâneo não faria isso.”

Terron deve estar se referindo a um expediente que as editoras vêm empregando sem cerimônia: usar o nome de autores mortos em lançamentos caça-níqueis. Em 2004, a
Random House lançou A Volta do Poderoso Chefão, e 2 anos depois, A Vingança do Poderoso Chefão. Do mestre Mario Puzo ao medíocre Mark Winegardner... Em 2008, o centenário de Ian Fleming foi comemorado c/ o lançamento do novo 007 – A Essência do Mal, de Sebastian Faulks.

Curtis Sittenfeld, autora de
Prep [romance que também não saiu por aqui], já foi comparada a Salinger e aguarda ansiosa por um eventual lançamento de inéditos do seu escritor favorito: “Não vejo a hora de saber o que tem nesses manuscritos. Hoje em dia, com a publicidade descarada dos escritores, é extraordinário e quase inacreditável que alguém escreva a sério somente por escrever.”

J.D. era um cara das antigas. Foi pra guerra, gostava de mulher e nunca se prostituiu p/ a mídia, o mercado ou qualquer outra merda:

“-
Bom mesmo é o livro que, quando a gente acaba de ler, fica querendo ser um grande amigo do autor, para poder telefonar para ele toda vez que der vontade. Mas isso é raro de acontecer.”

J.D. SALINGER [+01/01/1919 - *27/01/2010]

And I find it kind of funny
I find it kind of sad
The dreams in which I'm dying
Are the best I've ever had
I find it hard to tell you
I find it hard to take
When people run in circles
It's a very very, mad world, mad world

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