quinta-feira, março 25, 2010

CARANGUEJOS C/ CERVEJA
Conheço Fábio Trummer desde 1996. Nessa época eu fazia o Cabrunco e tive um rolo c/ uma zineira de Maceió/AL, que me chamou pra passar um fim de semana na casa dela. Um show de rock estava incluso no pacote: a grande Living In The Shit, banda mutante ao estilo Defalla que na época era a representante alagoana do manguebeat – havia lançado o disco Chá Magiológico em ’95, mesmo ano do Usuário do Planet Hemp, 1 após o Samba Esquema Noise da Mundo Livre S/A e 2 após Da Lama Ao Caos, de Chico & Nação. Abrindo a noite, uma banda de Olinda que ainda não tinha gravado nenhum disco: EDDIE.

A embriaguez é um estado pessoal!”, mandou o baixista Rogerman no bar, de madrugada, na balada pós-show. Trummer baixou a cabeça na mesa e riu. Foi engraçado mesmo. Rogério ‘Rogerman’ mandava várias dessa. Adelvan K. recorda de um episódio na 1ª vez que os 2 vieram tocar aqui, nesse longínquo e emblemático ano de ’96. A Eddie veio p/ um show no fantasmagórico Espaço 799, um lugar “entocado em uma ruazinha cercada de gigantescas poças de lama por todos os lados”, como escrevi no nº 7 do meu zine, em junho daquele ano. Eu segui assim: “Os heróis que, como eu, conseguiram chegar na ‘ilha’ não se arrependeram, apesar das desastrosas bandas de abertura. Mad House, a primeira a tocar, é muito ruim, e só estava participando porque eram eles que estavam organizando a coisa. [...] Para minha sorte, tive que sair no meio para pegar o pessoal do Eddie na rodoviária. [...] O Eddie, de Olinda (PE), tocou para meia dúzia de pessoas. Uma pena. Eu, que os tinha visto dois dias antes em Maceió, percebi que eles sentiram um pouco a ausência do público, mas isso não impediu que fizessem um show ótimo. Hits certeiros como ‘Buraco de Bala’ e ‘Eu Só Poderia Crer Num Deus Que Fodesse’ dão-me a certeza de que essa banda ainda vai fazer o sucesso que merece. Eddie é punk rock suingado, um pé no asfalto e outro na praia.

Voltando a Adelvan sobre Rogerman [foto]: “Lembro que o Eddie estava totalmente deslocado neste evento, cheio de moleques com camisetas pretas sedentos por rock pesado e satânico, e então o baixista Rogerman ficou indignado com o descaso da galera, que começava a ir embora, e deu uma pagação geral no microfone, num discurso meio sem noção interrompido pelo sempre desencanado e boa-praça Fabio Trummer, que pediu pra ele parar de viajar na maionese pra eles poderem continuar o show.

Eddie, igual a seus parceiros da Living nos 90, é uma banda mutante. Por ela passaram o já citado Rogerman, que toca seu próprio projeto Bonsucesso Samba Clube; Erasto Vasconcelos, irmão do internacional percussionista Naná; e Karina Buhr, baiana/pernambucana radicada em SP de pele branca e olhos castanho-esverdeados que hoje emplaca uma bela carreira solo – seu disco de estréia, Eu Menti Pra Você, vem sendo muito bem recebido pela crítica. Uma turma da pesada. O próprio Trummer tocou um bom tempo na Orquestra Santa Massa do DJ Dolores.

Quando conheci a Eddie, o grupo do Bairro Novo era conhecido como a melhor banda underground da nova cena pernambucana, e se destacava pela produtividade: canções inéditas eram gravadas em sucessivas demotapes, todas c/ capas bem trabalhadas. Também faziam coleções de camisetas temáticas [maior hit: EDDIE na embalagem de Colomy]. Gravaram o disco de estréia, Sonic Mambo, na gringa em ’98, pela multi Roadrunner, e no mesmo ano eu & o pessoal da Marginal Produções trouxemos os caras pela 2ª vez a Aracaju, no 1º Festival ROCK-SE, quando abriram p/ Marcelo D2. Em 2000, o último show por la calle – neste eu não fui.

Estamos em 2010 e agora a história é outra: após um hiato de 10 anos, a Eddie volta a tocar em Aracaju reformulada – um trompetista/tecladista adicionado à formação – e c/ mais 3 – excelentes – discos na bagagem. Ao invés de um pico inóspito e meia dúzia de roqueiros fedorentos, a apresentação foi na Notívagos, classuda sessão de cinema que ocorre em madrugadas de sábado nas quais bandas tocam num luxuoso saguão após a exibição de um filme, que não raro trata-se de coisa fina. A obra-prima da vez [exibida em PELÍCULA, vale frisar] foi A FITA BRANCA, filme alemão vencedor da Palma de Ouro em Cannes, do mesmo diretor de Violência Gratuita. Tão bom que evitarei comentar, melhor assisti-lo.

O ingresso custava R$ 20,00 e dava direito a um puta filme, um puta show e 3 Heineken, ótima relação custo-benefício. A noite estava florida & perfumada, mas em respeito à minha senhora evitarei entrar em detalhes. Até porque nem tenho condições de lembrar de DETALHES depois dessa balada. Façam as contas: 3 cervas do meu ticket + 3 de Gil + 2 que apareceram na minha mão, vixe!.. Passei boa parte da ‘gig’ encostado no balcão, posição estratégica de bebum. Bom p/ encher a cara e filmar todo o movimento.

Desta vez rolou banda de abertura, Cabedal, meio rock meio MPB, fizeram um cover de Tim Maia Racional, 1 ano de formada, vamos ver onde vai essa molecada. A Eddie entrou c/ o jogo ganho e só administrou, tocaram várias das minhas favoritas tipo ‘Maranguape[composição do Erasto], ‘As Flores e as Cores[do tempo da Karina], ‘Futebol e Mulher’, ‘Ontem Eu Sambei’, ‘Bairro Novo/ Casa Caiada’, ‘Probabilidade’, ‘Desequilíbrio’ e ‘Lealdade[de Wilson Baptista e Jorge de Castro], uma bela canção de amor e também o maior kaô, principalmente se tratando de Fábio Trummer: “Serei, serei leal contigo/ quando eu me cansar dos teus beijos te digo”...

Trummer fica tão doido quando vê mulher que nem me reconheceu quando fui cumprimentá-lo enquanto ele dava autógrafos p/ um punhado de ninfetas. Como diria o Júlio Baggio, “não tiro sua razão”. Comprei uma cópia do Metropolitano e uma do Carnaval no Inferno [R$ 10,00 cada] na mão do rasta Alexandre Urêia, e na saída fui abordado pela garota que me passou o MP3 do Original Olinda Style:

- Adolfo, vem cá, me abraça!

Eu dei um abraço amigo e tentei fazê-la entender que minha esposa se encontrava no recinto, mas ela insistia:

- Me abraaaçaa!!!

Show da Eddie é a maior curtição.

***

NÓS SOMOS EDDIE por Adelvan Kenobi

Pois bem, eis o Eddie entre nós pela quarta vez, lançando numa só noite seus três últimos discos, ORIGINAL OLINDA STYLE, METROPOLITANO e CARNAVAL NO INFERNO. Até mesmo eu, que costumo viajar para ver shows e não perco uma edição do Abril Pro Rock, nunca os tinha visto ao vivo depois do ORIGINAL..., uma obra-prima que representou uma virada na carreira da banda, quando eles abandonaram um pouco suas características mais garageiras para fazer um som absolutamente suingado e... original. Um rock legítima & genuinamente brasileiro.

O show? Foi uma festa, apesar do som falhando e, do meio para o final da apresentação, saturado – especialmente o dos microfones. Fabio Trummer é um misto de showman inspirado e ao mesmo tempo acanhado. Se comunica com o público o tempo inteiro, mas de forma espontânea e contida, sem nenhum arroubo de rockstar alucinado e embriagado pelo ‘sucesso’. E as músicas vão se sucedendo, quase todas cantadas em uníssono pela platéia, animada e participativa. Os destaques vão para as ótimas ‘Me Diga O Que Não Foi Legal’, ‘Lealdade’, ‘Sentado na Beira do Rio’ e o hit ‘Quando a Maré Encher’, esta ainda da fase mais pesada e guitarreira. Em ‘Guia de Olinda’, Trummer e Urêa, vocalista e percussionista, improvisam um diálogo hilário, como se estivessem ensinando a um sergipano o que ver na Marim dos Caetés. Já em ‘Vida Boa’ eles incentivam todos a ‘frevar’. Até eu, que não danço, em hipótese alguma, ensaiei uns passinhos à La Escola Coisinha de Jesus.

A destacar também a atitude desencanada dos caras com relação ao download de suas músicas na internet – avisaram que tinham cópias de seus dois últimos discos para vender mas que quem não quisesse comprar poderia baixar facilmente na net, algo que a banda incentiva, chegando ao requinte de dar uma dica de um site (cujo nome eu não me lembro) onde toda a sua discografia está disponível. Eu particularmente já me considero curado deste antigo vício de comprar discos, mas me empolguei ao ponto de fazer uma exceção e gastei vinte mirréis para completar minha coleção. Aliás, um fato curioso: os discos tinham toda a pinta de ‘oficiais’, lacradinhos e com encarte e frente do CD impressos, mas me chamou a atenção o fato de não terem numeração, apesar de estar lá o indefectível selinho de ‘Produzido no Pólo Industrial de Manaus – Conheça a Amazônia’. Só que não dizia quem produziu, e a parte ‘queimada’ tem aquela característica cor azulada dos CD-Rs. Estaria o Eddie pirateando seu próprio catálogo? Sinal dos tempos...

É brincadeira, claro, afinal se o disco é deles, não há pirataria.

LEIA NA ÍNTEGRA NO BLOG DO PROGRAMA DE ROCK

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SESSÃO NOTÍVAGOS 20/03/10 - FOTOS: SNAPIC

EDDIE: "Me dê uma cachaça/ que eu tô amargo demais/ pra beber cerveja..."

CABEDAL: noite florida e molecada animada, uh uh uh que beleza!..

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VIDA BOA

video
VIDEOCLIPE DA 4ª ETAPA DO CIRCUITO NORDESTINO 2009, O MARESIA SURF PRO, NA PRAIA DE ATALAIA, AJU/SE, C/ IMAGENS DE LEONARDO MENEZES E TRILHA SONORA DE EDDIE: 'VIDA BOA'. EDIÇÃO: VIVA LA BRASA

3 comentários:

programa de rock disse...

Porra, um trecho de uma das resenhas antológicas do Cabrunco ! Devia ter postado completa - preguiça de digitar, né ? entendo, hehehe - Mas hey, não foi por causa dessa resenha que um maluco lá da banda que você falou mal saiu no pau contigo ? Ah, essas impagáveis historias do underground ...

rafa disse...

Descobrir a Eddie a pouco tempo, alguns meses antes deles virem pra cá e realmente é som muito bom. Não deu pra ir nesse show, mas espero que eles demorem menos pra voltarem as terras sergipanas. E Viva La Brasa!!!

alysson.ma :-@ disse...

bora adolfo, tudo certinho?
nem acredito ainda que perdi essa edição da notívagos, tava doido pra ver a eddie, que já escuto há muito tempo, mas nunca fui a show algum, boa oportunidade também pra a gente trocar umas idéias. mas fica pra próxima.