quarta-feira, março 03, 2010

EVOLUÇÃO É UMA COISA É sem escândalo, relâmpago, bandido age rápido/ Mas se arrasta a vítima será o sequestrador/ Muitos se ferem porque querem ser o herói/ E morrer bom é como o defensor”...
No último inverno havaiano, Adriano de Souza foi direto do aeroporto pro apartamento onde ficaria hospedado por 3 dias sem surfar. De lá, só saiu p/ sua bateria no Pipeline Masters, acompanhado por um policial à paisana – não é de admirar que tenha perdido de cara pro local Flynn Novak. Oahu, no Havaí, é terra de ninguém. Os campeões de surf de lá costumam passar férias forçadas na cadeia. E os caras não gostam de brasileiros.
Nos anos 80, Picuruta Salazar teve que sair da ilha escoltado numa viatura. Nesta década, Sunny Garcia voou no pescoço do Neco Padaratz durante uma disputa de onda e Makua Rothman estapeou a cara de Paulo Moura – que não revidou – após uma interferência do pernambucano. Sem falar na sova que Kala Alexander deu no gaúcho Rafael Azevedo. No caso do Mineirinho, a treta foi c/ o marrentinho Dustin Barca no Tahiti, no início do ano, por causa de um lance nada a ver c/ o Occy.
Não gosto de apanhar sem ter feito nada”, disse o Mineiro à revista Fluir: “O Barca é metido a lutador e tem dito por aí que vai largar o surf p/ virar profissional. Se fosse lutador deveria bater num lutador, não num surfista profissional.
Hoje em dia, já não somos mais considerados curiosidade. Somos, quando muito, aberrações”, escreveu Júlio Adler em sua coluna na Hardcore: “E a culpa não é exclusiva nossa, como querem nos fazer crer. O nível médio intelectual [...] dos surfistas vem caindo vertiginosamente e, se não tivessem que passar por aqui no circuito mundial (e mesmo passando!), a grande maioria não seria capaz de apontar no mapa onde fica o Brasil.
Até artigo já valeu nas duas principais revistas australianas, Australian Surfing Life e Tracks – e os artigos não eram de todo afetuosos conosco”, enfatiza Adler: “[...] nesse mundinho pequenino do surfe, onde latino-americano é tudo farinha do mesmo saco, loiro ou moreno, até japonês, não adianta, somos todos crioulos, com toda afronta que a palavra pode causar.
Tomemos como exemplo o “latinoBobby Martinez. Mesmo sendo norte-americano, bicampeão em Teahupoo, bicampeão em Mundaka e atual nº 8 do mundo, o descendente de mexicanos passou todo o ano de 2009 sem patrocínio e agora fechou c/ a O’neill, tradicional marca de roupas de borracha tão californiana quanto ele, por menos da metade do valor do salário de seu companheiro de equipe Jordy Smith, surfista branco da África do Sul que terminou 3 posições atrás no ranking e nunca venceu no World Tour, mas é o principal investimento da marca.
Há quase 3 anos, a O’neill venceu um ‘leilão’ não-oficial pelo ‘passe’ do jovem sulafricano – então c/ 19 anos – apontado como futuro campeão mundial e cortejado por marcas como Quiksilver e Nike, que enviaram respectivamente Kelly Slater e Tiger Woods p/ persuadi-lo. Mas Jordy assinou um contrato milionário c/ a O’neill, menor das 3 empresas, pela chance de ser o astro do time.
No Quiksilver Pro 2010, Smith foi escovado pelo novato Dusty Payne na 1ª fase.
...“Se a câmera dedurou, o noticiário detonou/ O efeito do controle remoto arrebatador/ Sensacionalismo no gueto a muitos enganou/ Uma fábrica de robô no televisor devastador”...
Você sempre quer tentar impressionar o crowd e quem estiver assistindo, mas tem que desacelerar às vezes e somente tentar tirar as notas”, disse Jordy Smith, após fazer a média mais alta da 2ª fase na Gold Coast – e do evento até agora: 17,86 pontos. Um tubão lhe valeu nota 10 em 3 juízes e 9.93 de média nos 5. “Eu acho que tive sorte naquela onda e tenho certeza que qualquer um poderia ter tido uma boa pontuação nela. Quando a parede rodou eu só aproveitei a chance.”
Quem também desencantou foi Dane Reynolds, a grande esperança yankee: 17.33 pontos. Fiquei feliz por competir mais tarde hoje”, disse o ‘young gun’ da Quiksilver. “No sábado, entrei pela manhã meio que sacrificado pela maré, minha bateria rolou numa hora ruim do mar. Mas hoje [segunda-feira] foi muito divertido lá fora e consegui achar boas ondas. Eu estava realmente muito nervoso antes de surfar, porque fui ouvindo um monte de conselhos que me deixaram confuso.
Desde adolescente Reynolds ouve – de técnicos, patrocinadores, jornalistas, amigos, adversários, fãs, bajuladores – que ele é o nome mais quente do surf americano desde o Advento Slater e que ‘ser campeão do mundo’ é algo que acontecerá naturalmente, diante o nível extraordinário de suas performances. “Se Dane não for campeão mundial nos próximos 10 anos, é porque há algo de errado c/ o surf competição”, sentenciou K9, um competidor bom pra cachorro.
Jordy é considerado o novo Shaun Tomson – campeão do mundo em ’77 – e qualquer vitória dele ou do Dane numa mísera bateria de repescagem é saudada como um título mundial. “Mega talents Smith and Reynolds find form at Quiksilver Pro round 2”, anunciava a manchete no site da ASP nesta segunda. Ambos classificaram-se juntos p/ o World Tour em 2008: JS campeão do WQS e DR vice. Esperava-se que disputassem a liderança do ranking logo na 1ª temporada, mas passados 2 anos, o máximo que conseguiram foi o Top 16.
...“Represento o outro itinerário, em outra da nossa laia/ União pros favelados, união foge da raia/ Se for verdadeiro na quebrada, tem o sol na praia”...
Adriano Mineirinho é da mesma geração de ambos: 23 anos em 2010, contra 24 de Dane e 22 de Jordy. Mas, enquanto o sulafricano foi campeão mundial jr. aos 19, Mineiro venceu o Pro Jr. aos 16; está há 2 anos entre os Top 8 – 7º em 2008, 5º 2009 – patamar ainda não alcançado por nenhum dos gringos; e já acumula 1 vitória no World Tour em 3 finais, enquanto DR chegou à sua 1ª decisão ano passado e JS nem isso.
Mineirinho também foi campeão do WQS, onde acumula 6 vitórias, contra 2 de Jordy e nenhuma de Dane. “Dêem a Adriano e seu surf o respeito que ambos merecem ou vocês acenderão ainda mais as luzes: campeão em 3 anos”, disse Ian Cairns do Power Rankings, pondo a mão no fogo... Top da ASP nos anos ’70 e ex-presidente da associação, Cairns aposta no título de Adriano entre 2010 e 2012 – antes do fim do mundo portanto.
Enquanto seus contemporâneos estrangeiros eram celebrados pela mídia anglo-saxã antes mesmo de completarem a maioridade, o Mineiro comia quieto e construía sua reputação c/ resultados sólidos. Em Snapper, onde foi finalista ano passado, Adriano estreou c/ vitória na 1ª bateria da temporada, guardando energia p/ as próximas fases e vendo seus ‘coleguinhas’ ficarem de recuperação.
A estratégia é tudo. Hoje em dia, 70% da bateria é definida na tática”, diz De Souza: “Cada um tem a sua e joga do jeito que for necessário. Deixei a galera brigando atrás da pedra e consegui minha nota boa c/ uma onda um pouco mais embaixo. Ela veio na hora certa e consegui puxar a nota logo na 1ª manobra.
Outro menino mimado pelo mídia é o Andy Irons – 3 títulos mundiais, 2 vices e 15 vitórias; surf de gente grande, ego de criança. “Definitivamente fico muito nervoso de estar rodeado pela mídia em todos os lugares, não é normal!”, reclamou ao se ver cercado de repórteres após ser derrotado na estréia. Marrento na pior tradição havaiana, Andy abandonou o tour por 1 ano p/ se desintoxicar de seus maus hábitos, e anunciou seu retorno c/ a habitual impáfia: “Tô de volta! Não sou um desses caras que dizem ‘talvez eu volte’”, falou ao Surfline, aproveitando a deixa p/ alfinetar Slater, que sempre faz suspense antes de confirmar a participação em cada etapa.
A diferença é que Slater atropela, enquanto Irons pela saco. Depois de vencer Roy Powers ontem e permanecer na disputa, seu humor mudou da água pro vinho: “Tô amarradão de estar de volta! O público tem sido legal e me dado muito suporte. Assim vale a pena voltar, os fãs significam muito pra mim. Eles me incentivam a querer mandar bem. Se quiser voltar ao grupo dos 5 preciso subir de produção nas baterias, isto não aconteceu ainda mas espero que role nos próximos dias. Já tô me readaptando”, diz o gabola.
Ainda ‘tou tentando sentir meu equipamento, só agora consegui surfar em Snapper sem 1000 pessoas na água”, diz AI referindo-se a ao crowd monstro da Gold Coast: “Hoje as ondas estavam muito lentas e inconsistentes, então usei uma prancha maior. Normalmente uso uma 5’11” mas hoje usei uma 6’1” na bateria. Snapper é uma onda perfeita, mas é realmente difícil de ser surfada, não sei por quê.Mick Fanning já havia comentado a dificuldade em encontrar pranchas que se adaptem às ‘pegadinhas’ de S-Rocks. Dane Reynolds confirma: “Aqui é bem diferente, c/ um banco de areia raso, então você realmente precisa de outro tipo de prancha p/ trabalhar nessa onda.
Neco Padaratz é mais um personagem polêmico de volta à cena. Na sua derrota p/ Damien Hobgood, gesticulou p/ o palanque reclamando das notas e ganhou destaque até no site da revista Surfer, dos EUA: “Hoje Neco entubou e fez curvas tão críticas, agressivas e poderosas que quase tem uma crise de hérnia. Hoje assistimos Neco surfar o seu melhor em anos e basicamente os juízes lhe disseram: - Nós não queremos você aqui!”. Fim de jogo p/ ele e o azarado Marco Polo, que pegou de novo o maior pontuador do round [Jordy]. Mas o Brasil continua na briga, c/ Silvana Lima no feminino e Adriano versus Jadson André na fase 3.
...“Na chuva ou na garoa/ Não pode andar de ré, se tem furo na canoa/ Resolva/ Pois quem não é, cabelo avoa”...
Engraçado como Reynolds usa o termo ‘trabalhar’. Surf competição é a profissão desses caras, e consiste em evoluir sobre as ondas: aquele que percorrer a face da onda de modo mais bonito, expressivo e inteligente ganha. Assim sendo, o experimentalismo de Dane e a naturalidade de Jordy são complementares à competitividade e vontade de Adriano. O futuro é deles, e de Jeremy, Owen, Dusty, Jadson... e Gabriel Medina, um moleque de 16 anos que vem deixando a todos perplexos.
Perplexidade é mesmo a palavra certa p/ descrever aquilo que o surf de Gabriel Medina suscita”, saudou a revista Surf Portugal após a fantástica vitória do brasileiro no mundial sub-16 realizado na França, ano passado: “Foram duas ondas surfadas de forma sublime. Primeiro, porque é raro notarmos esforço no seu surf, depois porque as rasgadas são quase tão boas como os aéreos; finalmente, porque os dois reverses executados foram perfeitos.
Medina surgiu pro mundo ali, mais jovem do que Reynolds, Smith e até Mineirinho quando apareceram. Mas ele já havia arrombado as portas da ASP meses antes, ao vencer o Maresia WQS 6* em Santa Catarina – contra o veterano e ídolo local Neco. Aos 15 anos! O mais jovem da história a vencer um campeonato profissional internacional. Em janeiro deste ano, faturou o Mundial Sub-18 da ISA e ficou em 3º no Billabong Pro-Jr. na Austrália.
Se for necessário explicar aos atletas do World Tour os novos critérios de pontuação p/ 2010, sugerimos à ASP que grave as duas melhores ondas da final [do King of Groms] e as mostre em câmara lenta, explicando ponto por ponto como, em determinadas condições de mar, apenas uma determinada combinação de linha, power e, agora não menos importante, radicalidade, os poderá fazer chegar longe – e mesmo assim muitos deles não chegarão aos calcanhares de Gabriel Medina”, rendeu-se a Surf Portugal.
Evolução é uma coisa”, definem Sandrão & Helião, da banda de rap RZO: “Respeito é outra!

2 comentários:

Viva La Brasa disse...

3ª fase na Gold Coast, Mineiro goes on:

http://waves.terra.com.br/surf/noticia/competicao/world-tour/quiksilver-pro-australia/2010/mineiro-e-o-brasil-em-snapper/40508

FUN disse...

Dale evolução!!!!
Vou te falar que vi a bateria do Neco e ele foi garfado feio, chogou a ser ridiculo!!!