quarta-feira, abril 28, 2010

DA LAMA AO CROSS

"LIKE A TRUE NATURE'S CHILD / WE WERE BORN, BORN TO BE WILD..."
Tenzin Gyatso era uma criança quando foi encontrado por monges e considerado a reencarnação do Bodhisattva da Compaixão, tornando-se então o 14º Dalai Lama, líder religioso do budismo e político do Tibet. Fugindo da invasão chinesa em 1959, governa o país do exílio, até hoje.
Rodrigo de Andrade Santos começou a andar de moto aos 3 anos de idade, e aos 13 já competia contra adultos. Aos 16, Rodrigo Lama sagrou-se CAMPEÃO BRASILEIRO DE MOTOCROSS.O apelido é porque treinava muito na chuva, me sujava de lama e meus amigos começaram a me chamar de 'Laminha'. Pegou e ficou até hoje.
Nunca um piloto sergipano foi tão longe. Rodrigo venceu o Campeonato Brasileiro no ano de estréia da categoria 85cc – 2008 – c/ uma etapa de antecipação e 2 vitórias: Arena Cross no Paraná e a 7ª etapa no Espírito Santo. O 1º a ser patrocinado pela Honda, onde passou 3 anos. Maior recordista dos campeonatos locais – Lama é octacampeão estadual – e o mais jovem também. Faz 18 em maio. Nem tirou habilitação ainda.
No final do ano passado, sofreu um acidente durante a Copa Brasil Nordeste, inédita competição nacional realizada no estado. Embicou na volta de um vôo e quebrou o pulso, ficando um tempo em recuperação e perdendo o patrô da Honda na sequência. Ele era o vice-líder do ranking nas categorias MX1 e MX2, atrás apenas de Thales Villardi. “Sempre vou à casa dele e ele vem para a minha”, fala o novo campeão brasileiro sobre a rivalidade dos dois: “Não existe clima ruim. É só alegria.
No último fim-de-semana foi inaugurada a nova pista de MotoCross de Aracaju, na orla de Atalaia, c/ a 1ª etapa do sergipano de MX 2010, e adivinha quem ganhou? “Sonhava com essa vitória”, diz o predestinado, “ainda não fechei com nenhum patrocínio, então vou treinar mais para ganhar mais.” Vitória após gesso, fisioterapia e quase 6 meses sem competir.
DAVI TELES SHOW
Paralelo ao campeonato de cross, rolou a poucos metros dali, na Praia do Meio, o Cyclone Open, 1ª etapa do circuito sergipano de surf 2010. Com presença maciça de surfistas de estados vizinhos e boas ondas no domingo, dia das finais, o campeonato foi “show de surf”, nas palavras do videomaker e presidente da FSS Leonardo Menezes:
Na categoria Open Davi Teles venceu e a galera gritou ‘aleluia’, o motivo explico: Davi é um excelente surfista e está sendo um dos principais destaques do surf sergipano, mas no circuito ele constantemente batia na trave”, diz Léo. Outros destaques foram os baianos Ian Costa, campeão mirim, e Vinicius Witchcestink na júnior, além das barbadas locais: Carine Góis na feminino, Robson Fraga no longboard e Edson Jr., o Papagaio, imbatível na master.
Davi Teles tem 21 anos e é local de Pirambu, cidadezinha do litoral norte de SE. Volta e meia ele embolsa uma expression session ou faz a melhor média de um evento, mas quase nunca vence. Desta vez Davi usou sua prancha como uma pedra numa funda, e acertou 2 aéreos na final p/ largar na pole da corrida ao título da temporada. O campeão da última etapa de 2009, Bruno Marujinho, ficou em 2º.
Davi e Marujinho, dois amigos de origens similares e bases distintas, deixaram um alagoano em 3º e um baiano em 4º. Esta foi a 2ª vitória de Teles no estadual: em 2008 ele venceu o Natural Art Open também na Praia do Meio, derrotando na ocasião um baiano, um potiguar e o local Pedro José, outro da mesma geração. "Comecei a pegar onda com uma tábua."
Na Open há Davi, Marujo, Pedro, Izidório Filho, Kauan Barbosa, Bruno Cainã e Daniel Silva [atual campeão SE] fazendo uma frente. Temos alguns profissionais – Romeu, Valmir Neto, Rafael Melo – e um do mesmo nível no estrangeiro – Diogo Lemos, radicado na Nova Zelândia. Mas nas categorias de base não está rolando renovação, e eu já cantei essa bola antes. Na júnior e na mirim, não emplacamos NENHUM sergipano nas finais.
Faço pranchas a preço de custo pra estimular mais gente a praticar o surf”, incentiva Marujinho: “É importante que gente nova se interesse, pra que possamos ter um maior nível de profissionalização.
EASY RIDER
Falta apoio, investimento, patrocínio. Basta ver a situação de atletas de ponta como Rodrigo Lama, Davi Teles e Bruno Marujinho aqui no estado p/ perceber que ainda há um longo caminho a ser trilhado. O caminho do meio, talvez?
"Muita gente ainda acha que surfista é vagabundo, não vê o esporte como uma profissão. Mas a realidade é outra, o surf é vida e também trabalho, foi esse esporte que eu escolhi para meu futuro", diz Teles.
Determinação, coragem e autoconfiança são fatores decisivos para o sucesso”, ensina o veterano Tenzin Gyatso, o Dalai: “Se estamos possuídos por uma inabalável determinação conseguiremos superar os problemas, independentemente das circunstâncias.
No início de 2009, o Periferia – programa de TV que eu dirigia e editava – exibiu uma matéria c/ Rodrigo, o jovem Lama, poucos meses após a conquista do título brasileiro. A reportagem é do apresentador Ganso e seus amigos franceses, a dupla de rappers Les Frangins. As imagens foram feitas c/ uma miniDV amadora e uma câmera de celular.
Usei "Born To Be Wild" do Steppenwolf p/ a trilha de abertura, um recurso manjadíssimo em reportagens sobre moto na TV. Na verdade, só um truque p/ engatar a 4ª e acelerar tudo c/ a versão final do SLAYER. Nascido p/ ser selvagem...
video

segunda-feira, abril 26, 2010

GALHARDIA Falando em arte gonzo e revista de mulher nua, dei de cara c/ este cartum publicado na Folha de S.Paulo, ilustração de uma matéria “sobre projeto de um deputado que quer criar uma espécie de Las Vegas em Garanhuns”, diz Caco Galhardo, autor da charge – “uma versão Hunter Thompson do agreste”.
Caco é conhecido pela série Os Pescoçudos, publicada há mais de 10 anos na Folha. A sessão de tiras da Folha é o ‘horário nobre’ do cartum nacional – não há vitrine nem emprego melhor nesse ramo. Dela fazem parte Angeli, Laerte, Adão, Allan Sieber, Fernando Gonsales e até pouco tempo Glauco.
Galhardo tem sua galeria de personagens, como Chico Bacon, Lili Ex e Julio & Gina, que se alternam no jornal; foi redator da Mtv e do Casseta & Planeta; e já publicou alguns livros: Crésh!, Diga-Me Com Que Carro Andas e Eu Te Direi Quem És, You Have Been Disconnected... Suas publicações mais conhecidas são a versão em quadrinhos de Dom Quixote e O Banquete - As Gostosas de Caco Galhardo, parceria c/ o escritor Marcelo Mirisola c/ 33 ilustrações de mulheres.
São negras, orientais, morenas, brancas como a neve - em pleno calor -, ruivas, loiras, curvilíneas e algumas com linhas menos acintosas. Têm cabelos crespos, lisos, ondulados, curtos, longos, e usam ou não usam maquiagem e essa diferença, sem que possamos explicar, as melhora. Estão sempre sozinhas (exceção para uma dupla, numa praia), a maioria cruelmente distraída”, dizia a crítica apaixonada do Jornal do Brasil.
Caco Galhardo entende do riscado. Seu traçado das formas femininas lhe valeu a 'Tríplice Coroa do Cartum': além de ter livros publicados e fazer parte do cast da Folha, ele também é colaborador da Sexy. Revistas masculinas são outro ápice p/ um cartunista – que o diga meu amigo Allan, que entrou na seleção internacional do livro O Humor da Playboy – e a Sexy é uma das mais generosas nesse sentido. Por ela já passaram Adão, Zé Dassilva, Arnaldo Branco, Leonardo, e até uma garota, a Chiquinha...
Em fevereiro, Caco estreou uma nova série na Sexy, c/ o singelo título “Eu Moro em Uma Xana Peluda – a Saga de Um Homem em Uma Terra de Bravos”, um western vaginal. Reproduzo aqui os 2 primeiros episódios [clique nas HQs p/ lê-las ampliadas]. O 3º capítulo da série está nas bancas, na edição que traz na capa Dieine Eider, dona de um belo sorriso. “Cada capítulo é uma página, que vou desenhando a cada mês”, diz Galhardo: “E quem não curte quadrinhos, ainda pode se contentar com o resto da revista.

sábado, abril 24, 2010

CACAU, CERVEJA E UM CACHORRO QUE VOA De todas, Stella é a minha preferida. Ela é loira, baixinha, gostosa de pegar e mais ainda de provar. Uma delícia.
Sou um homem de muitos vícios. Álcool é um deles, em especial, cerveja. Das disponíveis no mercado nacional, a belga Stella Artois é a que mais gosto. “Em 1926, a Cervejaria Artois produziu uma cerveja para comemorar o Natal”, explica o rótulo: “Esta cerveja, de excepcional qualidade, foi chamada de ‘Stella’, estrela em latim. A cerveja Stella Artois foi tão apreciada que passou a ser produzida o ano inteiro.” Com baixa fermentação e 5,2% de teor alcoólico, essa belezinha européia é produzida por uma marca c/ mais de 600 anos de experiência – a Artois foi fundada em 1366.


Está chegando ao Brasil a marca Flying Dog, cervejaria de Maryland, EUA. São 10 sabores característicos das cervejas norte-americanas, c/ muito lúpulo e muito álcool. Traduzindo: são amargas e fortes. Por enquanto, só podem ser encontradas em algumas choperias selecionadas, como a Bier Garten, que cobra de $18 a $25 reais, ou na padaria paulista Villa Grano, onde pode ser encontrada a preços um pouco melhores – R$ 13,80 a linha regular e R$ 17,80 a Canis Major.
A Flying Dog começou como um brewpub, bar que vende suas próprias cervejas, em 1990, tocada pelos sócios George Stranaham e Richard McIntyre”, diz o jornalista Roberto Fonseca: “Reza a lenda que o nome surgiu quando George, após uma expedição atrapalhada para tentar escalar a montanha K2 no Himalaia, parou para beber em um bar do Paquistão e viu ali o desenho de um cachorro voador feito por um artista local, que virou uma espécie de ‘mote’ da expedição e depois da cervejaria.


Em termos de sabor, a Flying Dog não difere muito de outras marcas gringas, como a Anderson Valley, que também estreou no Brasil este ano. “Depois de degustar os 16 rótulos – evidentemente, em sessões diferentes – a conclusão inevitável é de que as melhores cervejas norte-americanas por aqui, até agora, são as mais ‘extremas’: a IPA da Anderson Valley e a Gonzo Imperial Porter e a Double Pale Ale da Flying Dog”, Roberto dá seu veredito.
Outras cervejas yankees chegam ao mercado brasileiro ainda em 2010: a mesma Tarantino que importou a F.D. trará a Rogue, e a Brazil Ways, a Brooklyn, do mestre-cervejeiro Garrett Oliver, o rei da harmonização entre bebida e pratos, autor da máxima: “Qualquer um pode jogar lúpulo numa panela de cerveja, mas quem é capaz de torná-la maravilhosa?
ÁGUA NA BOCA
Não se julga um livro pela capa, mas o grande diferencial da Flying Dog é seu rótulo. Ralph Steadman, ilustrador oficial das obras de Hunter S.Thompson, assina o logotipo e todas as embalagens da marca. São dele os desenhos do clássico livro Medo e Delírio em Las Vegas, e é o retrato do jornalista que aparece no selo da GONZO Imperial Porter, uma cerveja “profunda e complexa, a começar pelo rótulo, retrato pós-morte de Thompson. Versão turbinada da Road Dog Porter, ela é escura, encorpada, maltada, com toques torrados, de café, e um surpreendente e original pontapé de lúpulo”, descreve Fonseca.

Nascido no País de Gales em 1936, Steadman é um expressionista que trabalhou nos melhores jornais e revistas da Grã-Bretanha e EUA, como Punch, Daily Telegraph, The Independent, New York Times e Rolling Stone, e ilustrou obras como Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll, A Revolução dos Bichos de George Orwell, Farenheit 451 de Ray Bradbury e O Dicionário do Diabo de Ambrose Bierce, além das biografias de Leonardo Da Vinci e Sigmund Freud. Mas foi nas reportagens caóticas de Hunter que Ralph encontrou a melhor tradução p/ seu estilo de pintura borrado, distorcido e vibrante.


Utilizando técnicas mistas que iam de gravuras e colagens até esculturas e monolitos, “Steadman definiu a Gonzo Art ao acompanhar algumas aventuras jornalísticas, ilustrando fatos em apoio ao que se era relatado por escrito”, define Ibaldo do blog Mindblower: “Esta química originou uma amizade de mais de trinta anos, até a morte do autor em 2005. Segundo Thompson, Steadman é o único ilustrador que realmente entendeu o conceito Gonzo.


Ralph Steadman também escreveu suas próprias histórias, como No Room to Swing a Cat e Cherrywood Cannon, livro infantis c/ desenhos “sinistros e carregados”, segundo a definição de Ibaldo. Também lançou The Big I Am, “uma história sobre Deus”. No Brasil, a editora Globo lançou Pequeno.com, no qual Stead emprega suas garatujas p/ imaginar o que acontece c/ o pequeno ponto dos endereços dos sites depois que desligamos o computador.


O homem é a soma dos seus vícios”, sentenciou Nelson Rodrigues. A parceria c/ a Flying Dog só confirma o estilo Gonzo de Steadman, que também lançou 2 livros sobre vinho e uísque baseado em suas pesquisas de campo. A dica da cerveja foi do degustador Jardel Sebba, em sua coluna Happy Hour na Playboy, que traz na capa deste mês a inebriante Cláudia Colucci, a ‘Cacau’ do último BBB.


Já falei que eu sou chocólatra?

domingo, abril 18, 2010

DADAÍSMO
O PUNK ROCK NÃO MORREU
 
O ano era 1985, o lugar, a boate Metrópolis, zona sul do Rio de Janeiro. O evento, Staff Poll, eleição que premiava os 10 surfistas mais populares do país. “Todo mundo do surf do Rio lá: e além da cariocada, alguns paulistas, caiçaras, santistas e catarinenses”, relata o jornalista Dadá Borgerth: “Quando Kadu Moliterno, apresentador e locutor da festa anunciou a quarta colocação, viu-se um vulto escalando a cena pelo lado errado e, em seguida, se encaminhando totalmente 'over control' até o centro do tablado. 

O vulto era Dadá Figueiredo. Kadu, que interpretava o surfista Juba na série Armação Ilimitada, entregou o troféu e perguntou se ele tinha alguma coisa a dizer. Dadá cuspiu cerveja na platéia e gritou:

Morte aos parasitas! Filhos da PUTAAAAAAAA!

A aparelhagem da casa quase foi para o espaço juntamente com os ouvidos presentes”, lembra o xará Borgerth: “'Garoto de coragem', comentou Kadu um tanto relutante diante da cena, e anunciou o terceiro colocado”...

Aos 21 anos, Dadá já era uma lenda, adorado por muitos por seu surf ultra-moderno e odiado por outros por sua inédita atitude punk. Eram os anos 80, tempo de new wave, cabelos mullet, camisas de ombreira e bermudinhas fluorescentes. “Por que é que eu tenho que andar igual a esses caras aí, porra?”, perguntava o irreverente surfista ao repórter da recém-criada revista Trip. “Não fico colado com a galera do surf por que sei que, se andar com os caras, não vai dar muito certo.

OVELHA NEGRA

Dadá foi o entrevistado de estréia das Páginas Negras, na Trip nº 1. Àquela altura, suas rabetadas, 360s e laybacks já haviam lhe rendido bons resultados em competições, como o 5º lugar no Festival Olympikus em Floripa/SC e o 3º lugar no Summertime Sul em Matinhos/PR. Mas o que começava a chamar a atenção da mídia mesmo era seu estilo de vida.

Diferente: esta é a melhor definição para Dadá”, escreveu Borgerth: A visão do fusca azul escuro (idos anos 70) semi-podre, parado no acostamento da Avenida Sernambetiba 3100, foi a certeza que me faltava quanto às minhas suspeitas de que aquela seria sem dúvida uma entrevista fora dos padrões que estava acostumado a fazer. O fato de estar guiando no propósito de evitar complicações com a polícia (Dadá não portava um documento sequer) não me privou de apreciar o vistoso crucifixo pendurado por uma corrente no retrovisor interno, bem como perceber os inúmeros stickers fixados nas laterais das portas, painel e vidros, além de um chumaço de notas pequenas misturado com as inúmeras fitas em anarquia, dentro do porta-luvas escancarado. No rack, duas pranchas modelos star-fin borda preta com vários colantes, além dos habituais dos patrocinadores também de bandas punk e suas simbologias, esforçavam-se para nos acompanhar rumo ao surf, com a vital ajuda de apenas um extensor...

Acompanhar Dadá naqueles tempos era uma experiência extrema. “Gosto de punk... da música punk... da atitude punk; pro surf eu sou um punk!” P/ a sessão de fotos, vestiram no Dadá uma camiseta preta c/ seu nome abaixo da logomarca do Exploited, grupo inglês pioneiro no hardcore. “Gosto mesmo é do Olho Seco, Garotos Podres, Inocentes.

ANTI-MODA

 
Em 1987 foi criado o Circuito Brasileiro de Surf Profissional e Dadá fechou entre os Top 16, em 14º lugar. Em 88 perdeu p/ Picuruta Salazar uma polêmica final na etapa do Guarujá e deu W.O. na hora da premiação. Finalizou a temporada em 7º no ranking nacional.Também foi vice nas triagens do Hang Loose Pro, etapa do mundial no Brasil. 

A essa altura, seu cabelo que um dia fora moicano havia crescido e se tornado dreadlock; suas roupas ficavam cada vez mais pretas e rasgadas; e as tatuagens começaram a tomar conta do braço. Dadá saiu da casa da mãe na Tijuca, bairro suburbano da zona norte carioca, e montou sua fábrica de pranchas no morro. A Anti-Fashion era uma parceria c/ o amigo Eduardo Crivella. Desfez a sociedade porque o negócio estava ficando popular demais p/ os padrões ‘dadaístas’.  

Criou uma nova marca ainda mais underground, Necrose Social. Antes disso, me aventurava na fabricação de pranchas para meu uso e de alguns amigos. Eu shapeava e um outro amigo laminava, mas a bagunça era tanta que minha mãe proibiu que a oficina continuasse funcionando”, falou à Trip: “Era a maior zona, eu não sabia fazer porra nenhuma direito, cagava tudo que estava por perto.

Dadá foi das equipes Cristal Graffiti [de 82 a 84], Company/Cyclone [de 85 a 89] e Redley [de 90 a 94]. Em 89 venceu o circuito carioca c/ 2 vitórias consecutivas nas etapas de abertura e
ficou em 5º lugar no Gotcha Pro, no Havaí – seu melhor resultado internacional.Competia na África do Sul, nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil. Em 1990 me tornei o surfista mais bem pago do país”, relatou recentemente num testemunho de fé reproduzido em vários blogs. 

Contava com o dinheiro dos patrocínios e também da premiação. Tinha uma grife, e minha condição de vida já era boa. Quanto às viagens, os patrocínios bancavam tudo; todo mês eu estava viajando. Quando saía da água a mídia já vinha em cima de mim: Dadá! Dadá!..

NECROSE PESSOAL


Ganhando em dólar, ídolo das multidões, estrela de capas de revistas e jornais como O Globo. “A minha marca Necrose Social já estava sendo imitada em Santos e no Nordeste”, lembra o revolucionário. “Dadá: o mais radical, punk, irreverente, jovem, rebelde, contestador, que adotava diversos sinais exteriores de provocações, por completo desprezo aos valores estabelecidos pela sociedade. Na verdade, aonde eu fosse tinha em meu encalço uma legião de seguidores para o mal... Muitos queriam tirar fotos comigo. Sabendo que eu bebia, iam se chegando, me chamando pra beber. Às vezes acontecia de me ver rodeado de muita gente maluca...

Como seu estilo extravagante fazia sucesso, os patrocinadores o deixavam solto para agir do jeito que quisesse. Aparentemente, tudo ia bem pro astro do surf hardcore. Mas quem sentiu na pele o peso dos excessos foi o homem de carne e osso. “Era uma pessoa muito visada, pois estava sempre envolvido com muita bagunça”, diz Dadá: “Fui preso uma vez em Florianópolis. Logo no dia seguinte, chegando no campeonato às sete horas da manhã, voltando da delegacia, lá estava eu no jornal...

Em parceria com o skatista Lúcio Flávio montou a banda Os Nor+, cujo maior hit foi a provocativa 'Bodyboard e Jet-ski Fora Daqui'. Quando não procurava confusão, a encrenca ia até ele. “Em 1990 eu, que ia sempre a shows punk, levei 12 facadas! Andava no meio dessas gangues. Até hoje não sei como eu não morri... Foi incrível... Passei então a cheirar cocaína junto com álcool. Depois usei também ácido e outros tipos de droga.” Magro, de cabeça raspada e todo remendado, apareceu na última etapa do Brasileiro apenas p/ pegar a grana da premiação de pré-classificado e os pontos que o garantiriam no Top 16 pro ano seguinte. Nem entrou na água.

Passou o ano de 91 se recuperando e em 92 veio com tudo. Eleito “O Surfista Mais Hardcore do Brasil” por uma revista especializada, obteve o 3º lugar no Tabletes Valda surfando em casa, na Barra da Tijuca, e venceu o Sea Club em Ubatuba/SP, derrotando o bicampeão brasileiro Jojó de Olivença numa final que ficou conhecida como “Deus X Diabo”. Jojó é um dos pioneiros dos Surfistas de Cristo, mas o endiabrado Dadá levou a melhor. “Muitas vezes eles oravam por mim e tentavam me levar para a igreja, mas eu sempre resisti.

Foi sua melhor temporada no circuito brasileiro, Top 5. Mas o lado negro da Força já havia dominado nosso amigo: “Naquela época, os campeonatos duravam de quatro a cinco dias e eu nunca agüentava ficar mais de três dias sem beber. Quando chegava na sexta-feira, momento das baterias decisivas, eu acabava caindo na noite. Virava a noite anterior a uma bateria cheirando e bebendo. Na hora da disputa, eu havia dormido um punhado de horas, e obviamente acabava perdendo.

LUZ NO FIM DO TUBO
 
 
De 1992 a 1997 foi só vício. Foi quando tive que vender dois terrenos para poder continuar cheirando cocaína. A loja fechou e fui vendendo tudo que tinha, a fim de comprar a droga maldita. As coisas foram acabando, porque não entrava dinheiro. E fiquei realmente na pior... A fama? O dinheiro? A galera? Fiquei sozinho, meu camarada!

A despeito de sua condição deplorável, Dadá ainda venceria a última etapa do circuito carioca de 1993, terminando aquele ano como vice-campeão estadual. Foi seu último lampejo de brilhantismo antes de sumir do mapa. “Dali a pouco estava surtando. Não tinha jeito mesmo! Estava louco varrido! Quebrava coisas dentro de casa, pichava paredes com coisas horríveis, desenhos espantosos, coisas esquisitas, uma doideira!

Foi nessa fase que conheceu Renata, sua esposa. “Ela participou dos piores anos da minha vida, eu estava usando cocaína direto. Acabei internado 2 meses e 3 semanas. Fiquei mais de um ano fazendo terapia, indo a grupos de AA (Alcoólicos Anônimos) e NA (Narcóticos Anônimos). E vivia triste, porque no fundo já não queria usar drogas. Só que não conseguia evitar. De 2 em 2 meses voltava a usar. A terapia não funcionou. E eu começara a voltar aos campeonatos... Estava mesmo precisando mudar.

Em um campeonato no Sul, Dadá reencontrou o surfista catarinense Bita, amigo e adversário nos anos 80. Ele estava numa onda diferente da minha... Era um lance legal, doido também, mas onde não rolava droga, bebida, vício, tristeza, ódio, doideira, nada disso. Ele falava de Jesus.

PATROCÍNIO DE CRISTO


Tudo na vida é causa e efeito. “Quando adolescente via meu pai brigando com a minha mãe. Ele era alcoólatra. Um vez saiu à noite e chegou no outro dia, batendo então demais nela. Cansado de suportar tantas brigas do meu pai passei a gostar muito de ir para a rua, e ao fazer isso comecei a cheirar cola de sapateiro, cloreto de metileno, éter, benzina, etc. Tinha muitas alucinações, resultado de assistir a tantos problemas na família e ansiar fugir deles.

Dadá se converteu à religião evangélica em 1997, mas a redenção não viria sem sacrifício: “O cara perguntou quem gostaria de aceitar Jesus, e eu aceitei. Queria mudar de vida, topava qualquer parada. E foi o que fiz. Saí daquela reunião e usei droga de novo. No entanto, três dias depois experimentei uma sensação de arrependimento como jamais experimentei em toda a minha vida! Era algo diferente, mas eu não conseguia entender o quê. Voltei pra cara e quase me internei de novo.

Acompanhando a esposa aos cultos da Sara Nossa Terra [mesma igreja onde Rodolfo ex-Raimundos se converteu], passou a levar o negócio a sério. Milagre ou recompensa, os resultados voltaram a aparecer: em 98, aos 34 anos, voltou aos Top 16 do circuito profissional do RJ; em 99, sagrou-se campeão carioca master. Mas já estava numa idade limite para as competições e tinha filho para sustentar. “Ele encontrava-se no típico dilema dos atletas em fim de carreira na busca de um futuro melhor”, escreveu o jornalista Fernando Gaspar em 2003: “Dadá precisava se estabilizar, encontrar uma garantia de vida maior do que a premiação de circuitos Master de surfe, mas ele não possuía capital, apenas a reputação de ter sido um dos melhores surfistas que o Brasil conheceu.

Dadá já freqüentava a igreja há 2 anos, quando recebeu um presente que mudou sua vida. “O bispo Francisco me deu 5 pranchas e uma placa”, recorda nosso herói. Era para ele montar uma escolinha de surf. “Decidimos ajudar o Dadá Figueiredo porque percebemos nele uma visível melhoria de comportamento. Percebemos que sua atitude havia melhorado a olhos vistos, não só como pessoa, mas também com relação às outras pessoas”, diz o bispo: “O contato com o mar e com as ondas faz do surfista uma pessoa especial. Porém, o surfista vive pela onda, mas esquece do criador da onda. Quando estiver conectado com Deus, terá uma onda além da onda.

ESPINHA DE PEIXE

Hoje Dadá tem 46 anos e continua quebrando as ondas como um garoto. Batidas verticais, rasgadas invertendo a direção e 360s de front e de back ainda fazem parte do seu repertório. Está casado há mais de 10 anos com a Renata e continua freqüentando a Igreja. Formou-se em Educação Física e é shaper, dono de uma marca de pranchas que leva seu nome. Sua escolinha emprega 12 professores e possui 300 alunos, entre eles seu filho mais velho, Dávio, que em 2008 venceu o circuito carioca para surfistas abaixo dos 12 anos.

Gosto do surf pelo visual, pela emoção. Tem ao mesmo tempo paz e adrenalina, a gente sente uma liberdade grande. Meu sonho é um dia ser campeão mundial, de preferência em casa, numa etapa aqui na Barra, com toda a torcida me apoiando”, empolga-se o guri: “As pessoas não imaginam que um surfista campeão pode ganhar mais do que um médico ou advogado. Fazendo o que eu gosto, vou ser feliz, isso é o que importa.” A filha Samara também está aprendendo a surfar. Filho de peixe peixinho é?

Todo mundo sabe que não é bem assim. Filhos de gênios quase nunca são geniais. Mostrando que os tempos de porra-louca passaram de vez, Dávio-pai pondera: “Eu tento mostrar que tem que saber escolher as coisas certas na vida pra não se decepcionar mais tarde. Desde cedo tem que ter um objetivo e nunca desistir.” Gato escaldado que já gastou algumas de suas 7 vidas, ele analisa o contexto atual: “Está cada vez mais difícil. O surf não é valorizado, não está nas Olimpíadas e é muito ruim para arrumar patrocínio. A prioridade do Dávio tem que ser os estudos, com o esporte em segundo plano. Chega numa idade que se não tiver estudo fica difícil, não consegue nada. A vida é muito diferente das que levam os atletas do futebol.

Dadá tem uma nova banda de rock, Aliança Incorruptível, e sua influência está mais viva que nunca no mundo do surf. “Manobras que só apareceriam no circuito mundial três ou quatro anos mais tarde com o gênio Martin Potter e o semideus Kelly Slater eram executadas por Dadá com uma plasticidade incrível”, escreveu outro jornalista, Fabrício Fernandes, em 2005: “Foi um dos ícones do surf nacional, marcando a década de oitenta como o exército de um homem só. Revolucionou todos os conceitos do surf, redesenhando suas linhas de forma magistral, sempre se vestindo largado, irreverente, batendo de frente com a cultura mauricinha. O power surf de caras como Neco, Léo Neves, Binho Nunes e Raoni levam a assinatura de Dadá Figueiredo, que ouvindo sons como Olho Seco e Bad Religion, transformava as praias em ginásios lotados para assistir suas mágicas performances.

READY-MADE

O ano era 1916, o lugar, Cabaret Voltaire, na zona boêmia de Zurique, na Alemanha. Um grupo de escritores e artistas plásticos, dois deles desertores do exército, criam um movimento de oposição a qualquer tipo de equilíbrio e lógica. Ceticismo absoluto e improvisação, com ênfase no absurdo para protestar contra a loucura da 1ª Guerra Mundial. A idéia era denunciar valores podres e escandalizar a sociedade. O movimento foi batizado de Dadá, numa alusão à brincadeira de criança com cavalos de pau [dada em francês].

Eu redijo um manifesto e não quero nada, eu digo, portanto certas coisas e sou por princípios contra manifestos”, escreveu o poeta Tristan Tzara no Manifesto Dadaísta: “Eu redijo este manifesto para mostrar que é possível fazer as ações opostas simultaneamente, numa única fresca respiração; sou contra a ação pela contínua contradição, pela afirmação também, eu não sou nem pró nem contra e não explico porque odeio o bom senso.” Tzara foi um dos maiores expoentes do movimento, junto a Marcel Duchamp, criador dos Ready-Mades.

Dadá Figueiredo nasceu pronto e se reinventou tantas vezes que é impossível não lembrar dele ao ver a nova geração de aerialistas tatuados, como o cearense Pablo Paulino e os paulistas Wellington Gringo e Etham Paese, ou as roupas da marca Weird. Basta assistir suas manobras nos vídeos que ele vem postando no Youtube ou reler sua histórica entrevista na Trip, pra ficar claro que o surfista punk que chocou o mainstream nos anos 80 continua mais atual que nunca, 25 anos depois.

De política Dadá não gosta e nem procura entender”, escreveu Borgerth em 1986. “São todos uns corruptos. Parasitas corruptos... vivem só roubando, roubando, roubando e prometendo”, bradava Dadá, herói do surf suburbano: “Não gosto de panelinha; panelinha é foda... Enquanto existir no homem este instinto de querer ser e se sentir superior ao seu semelhante, ele pastará.



quinta-feira, abril 15, 2010

SHA-LA-LA Esta semana perdi um amigo do mesmo jeito que perdi um irmão há 2 anos: infarte fulminante. Nando, meu irmão, tinha 29 anos quando morreu. Daniel Garcia estava c/ 34. Aconteceu na noite de segunda, 12/04, durante um jogo de futebol em SP. Daniel foi meu colega de sala no Colégio de Aplicação durante o 2º grau. Filho da professora de literatura, ‘Sha-La-La’ era um cabra namorador. Só lá na escola beijou a Danielle, a Gabriela, a Isabela, todas elas... Seus olhos verdes e estatura de modelo faziam sucesso c/ a mulherada.
O gosto pelo rock logo nos uniu. Todos nós éramos cabeludos naquele tempo, ouvíamos Sepultura e Nirvana. O apelido dele vem de um refrão dos Ramones, da música ‘Howling at the Moon’ do disco TOO TOUGH TO DIE: “Winter turns to summer/ Sadness turns to fun/ Keep the faith baby/ You broke the rules and won/ Sha-la-la-la/ Sha-la-la-la-la”... Foi a 2ª música que aprendeu a tocar. A 1ª foi ‘Terezinha de Jesus’, hahaha... Ensaiávamos em garagens só de chinfra, e logo ele estava tocando na Outshine, banda que daria origem a uma outra que está aí até hoje: Daniel foi o 1º guitarrista da Snooze. São dele os riffs e solos do disco de estréia, WAKING UP... WAKING DOWN, de 1997.
Sem firulas ou exibicionismo, Daniel deixava que a música falasse mais alto. E ela falava. Suas guitarras ora limpas, ora no limite da distorção, estão eternizadas no primeiro álbum da banda. Tenho orgulho de ter lançado este disco”, diz Marcelo Viegas da Short Records, gravadora independente que lançou 2 discos da Snooze. “Autor de vários hits da primeira demo e do primeiro CD, ainda chegou a colaborar um pouco nos CDs LET MY HEAD BLOW UP (2002) e SNOOZE (2006)”, lembra Rafael Jr., baterista da banda, irmão do vocalista Fabinho e amigo em comum. O trio que Sha-La-La formava c/ os irmãos ‘Snoozers’ tinha influências de Pixies, Sonic Youth e Hüsker Dü.
Eu e Rafael fizemos muitas sessões de surf no início dos anos 90, e juntos editamos o fanzine Cabrunco de 95 a 97. Daniel ‘Sha-La-La’ foi o diagramador das 4 primeiras edições do zine – até eu ganhar meu 1º micro. Ele me ensinou a usar o Corel-Draw. Inteligente e filho de um intelectual de esquerda, sempre teve contato c/ computadores e ganhou grana c/ isso. Aracaju ficou pequena demais. “Morava em Campinas há cerca de 10 anos e trabalhava na área de informática, campo que desde cedo mostrou dominar muito bem”, escreveu Rafael na nota de falecimento. “Estamos arrasados, era uma pessoa querida e especial.
Daniel era um cara saudável, não bebia, não fumava, não cheirava; gostava de jogar bola, tocar guitarra e namorar. “A cada férias que ele vinha passar aqui, trazia uma mulher diferente. Ano passado foi uma loira, a atual é morena...”, analisa Rafael: “Acho que depois de 1 ano ele enjoava e trocava!” Haha!.. Grande figura, amigo firmeza. Espero que seus pais e irmãos segurem a onda – seu Roberto, dona Leônia, Beatriz, Marieze e meu mano Cláudio ‘Salsicha’ [sósia do Shaggy do Scooby-Doo]...
Conheço o sentimento de perder um ente querido sem mais nem menos. Mas a dor passa, os momentos compartilhados ficam guardados na lembrança. Pra sempre. “O primeiro show do Snooze em SP, no extinto Planeta Rock em SBC, aconteceu numa fria noite de outubro de 1998. Era o lançamento do ‘Waking Up... Waking Down’ no Sul maravilha”, escreveu Viegas no blog Zinismo: “Acostumado com o calor de Sergipe, Daniel cometeu o erro de vir à Sampa sem uma blusa na mala. Batendo os dentes, me pediu uma emprestada. É com essa blusa que ele aparece nas fotos p&b desse show, feitas pelo então principiante Marcelo Ribeiro. Algum tempo depois, Daniel mudou para Campinas (SP) para estudar e, assim, encerrou sua história como guitarrista da Snooze. Mas sua voz, guitarra e letras estão lá, nos primeiros registros da banda, ad infinitum.
Valeu, Sha-La-La. EMPTINESS [Daniel Garcia/ Fabinho Snoozer/ Rafael Jr./ Guilherme Rebouças]
I’m empty now, don’t tell me anything/ Don’t listen to what I will say/ I’m crying now, don’t look at my face/ Don’t drink my tears, ‘cause they are bitter/ I’m dancing now, don’t try to understand/ Don’t ask me why I’ve got a smile in my mouth/ Don’t switch on the lights, don’t diminish the sound/ Leave me alone because now I’ve just known the emptiness/ I’m empty now, don’t tell me nothing/ Don’t listen to what I will say/ I’m crying now, don’t look at my face/ Don’t drink my blood ‘cause it’s too hard
SNOOZE no festival SONORAMA em Aracaju, 29/09/07; a música, 'Kissing Goodbye', é da fase do DANIEL e está no 1º álbum, WAKING UP... WAKING DOWN

terça-feira, abril 13, 2010

ACORDA NATUREZA EV Lacertae é uma estrela bem menor que o Sol, fotografada pela 1ª vez pelo satélite americano Swift em 25 de abril de 2008. “Há muitos anos a ciência sabe que na superfície solar ocorrem explosões c/ muitas vezes mais energia que a de bombas atômicas”, explica a Wikipedia gringa: “Mas quando astrônomos compararam as labaredas solares c/ as de outras estrelas, as do Sol saíram perdendo.” De todas as estrelas da Via-Láctea, Lacertae tem a chama de brilho mais intenso.
Em outras palavras, uma minúscula, insignificante estrela capaz de um soco poderoso”, resume Casey Reed, cientista da NASA. O poder de fogo de EV Lacertae está em sua juventude. “Enquanto o Sol é uma estrela de meia-idade, EV é uma adolescente”, diz Reed, “e está girando rapidamente. O giro rápido somado ao interior agitado desprende gases que formam um campo magnético bem mais poderoso que o do Sol.
Lacertae é o nome de uma banda de Lagarto, Sergipe, cidade cujo nome em latim significa ‘lacertae’. Rock rural experimental, já ouviu falar? No último sábado rolou show dos caras aqui na cidade, depois de uma ausência de quase 5 anos. Foi no Capitão Cook, um bar onde, sempre que eu vou, chove. Foi assim no Retrofoguetes ano passado, e na Plástico Lunar & Corações Partidos há duas semanas. Mas desta vez foi diferente.
CÉU D’ÁGUA
Já estava chovendo antes de eu sair de casa. Desde quinta-feira, e continua a chover. Até o momento, 64 casas destruídas, 1375 danificadas, 2690 pessoas desabrigadas, 16 municípios afetados – entre eles cidades históricas como São Cristóvão e Laranjeiras e a capital, Aracaju. Segundo dados do INMET, nos primeiros 11 dias de abril foram registrados 78% da média de chuva p/ todo o mês.
O Lacertae nunca foi sucesso de público, mas sempre teve moral c/ quem curte SOM. 1ª banda sergipana a tocar no Abril Pro Rock, em 1996, no mesmo evento em que Chico Science fez uma de suas mais clássicas apresentações e que [vejam só] ficou marcado pela enxurrada que atingiu Recife. 1ª banda de rock de SE a participar de uma coletânea nacional, a BRASIL COMPACTO, do selo Rock It! de Dado Villa-Lobos, junto c/ Eddie, Living in the Shit, e umas bandas do Sul e Sudeste. Capa da Ilustrada na Folha de S.Paulo em 98 e novamente destaque em 2001.
2 discos lançados BERIMBAU DE CIPÓ IMBÉ, de 2000, e A VOLTA QUE O MUNDO DEU, 2005 – pelo próprio selo, Zabumbambus, que também é uma Casa de Cultura no Campo do Crioulo, onde se ensina música, literatura, folclore e artes plásticas de modo informal p/ a criançada local. “O nosso projeto já foi aprovado pelo Ministério da Cultura, mas até hoje o dinheiro não foi liberado”, diz Deon Costa, vocal e guitarra do duo composto por ele e seu primo Aldemir Tacer, o 1º baterista do mundo a usar berimbau c/ bateria, uma adaptação melódica à ausência do baixo.
ARREPIA A SAPUCAIA O Lacertae faz música espontânea”, disse Tacer ao apresentador Fábio Massari p/ o programa Lado B na Mtv durante o festival Rock-SE em 98. “Eu trabalho com agricultura, planto feijão, abóbora, planto milho, tal, mas agora eu tô plantando música”, Deon falou ao Jornal Hoje numa reportagem especial. “É uma banda da qual não se pode definir um estilo ao certo”, escreveu a jornalista Maíra Ezequiel no site Overmundo: Sua origem por si só é impressionante: eles são do Campo do Crioulo, que é um vilarejo de uma rua próximo à cidade de Lagarto, no interior do estado. Começaram como um trio, lançaram uma demo que fez um sucesso impressionante, e quase estouraram junto com o movimento Mangue Bit: estavam pra fechar contrato com a falecida Rock It! quando o vocalista pirou (de verdade!) no melhor estilo Pink Floyd e Syd Barrett. Mais impressionante é que a banda continuou e reinventou o som como um duo.
Maíra definiu bem: foi preciso REINVENTAR um som que por si só já era original. O Lacertae surgiu no início dos anos 90 influenciado pelo movimento grunge e rock industrial – o tal vocalista que “pirou”, o Paulo Henrique, toca instrumentos que ele mesmo inventa, como a percussão feita c/ escapamentos de carros e o inédito ‘cabaçofone’, que remete a um didjeridoo aborígene. Bom, o Paulo em pessoa parece um aborígene. No início de 97 ele foi internado pela família na clínica São Marcelo, famosa por causar mais danos que curas, mas superou essa fase e hoje tem um novo projeto musical, Cinemerne.
Na verdade Paulinho não pirou, ele viajou desta dimensão p/ outra e só agora está retornando”, diz Gildécio Costaeira, outro primo-lagarto, responsável por toda a arte da Lacertae. A fita-demo de 95, intitulada 100 KM C/ 1 SAPATO, foi eleita um dos 25 melhores DISCOS independentes do rock brasileiro de todos os tempos pelo jornalista Alexandre Matias, do coletivo O Esquema. Top 13, à frente de BALADAS SANGRENTAS de Wander Wildner, MENORME do Zumbi do Mato, A SÉTIMA EFERVESCÊNCIA do Júpiter Maçã, CHORA do Los Hermanos, DE LUXE 2000 do Thee Butchers Orchestra e MANIFESTO DA ARTE PERIFÉRICA de Wado: “[...] a fita de estréia do Lacertae é o elo perdido entre o pop dos anos 90 e o experimentalismo dos dias do Vzyadoq Moe.
ELETRICULTURA
BERIMBAU DE CIPÓ IMBÉ é o álbum de uma banda jovem em plena ebulição, c/ rocks nervosos tipo ‘Líquido’ – “O homem pensa que está pensando/ mas nem sempre o homem pensa/ como os frutos os homens também despencam [...] eis aí, belas donzelas líquido adentro, orgasmo, paixão e dor/ líquido motor acabou o líquido acabou o amor...” – e baladas sensíveis como ‘Coração’ – “...correndo como água/ voando como o vento/ e acendendo chamas de força no pensamento...”. Psicodelia sertaneja c/ belos fraseados de guitarra e andamento fluido jazzístico, c/ a participação de João Bole Bico na toada e Daniel Maximiliano no piano na surreal ‘Sergipe’, uma faixa instrumental sem guitarra.
O disco seguinte, A VOLTA QUE O MUNDO DEU, foi pouco divulgado e até subestimado, mas surpreende a cada nova audição. Produzido no Estúdio 3, em Aracaju, e mixado no Mundo Novo em São Paulo por Buguinha, técnico de som da Nação Zumbi, o álbum tem elementos eletrônicos e um climão DUB, c/ algumas canções que grudam no ouvido – como ‘O Danado’ e ‘Eu Não Posso Ficar Parado’ – entre uma viagem e outra. “Em méis e méis a lua vinga/ Em seis e seis doze, só pares sem ímpares/ Aí o jogo começa assim é a vida”, dizem em ‘Pra Que Pressa’, num dialeto próprio. Em ‘Entrada e Saída’ cantam: “...meu coração é de pinho, meu pensamento é carinho/ A minha voz é o contato entre a matéria e o vazio...”. Deon toca violão, rabeca e conga além das suas Fender, e Tacer, “berimbateria, 'beck' vocal, conga, flauta, zabumba". Ambos criaram os efeitos. A faixa ‘Amiga Folhagem’ tem a participação de Lira Paes do Cordel do Fogo Encantado e é uma fábula de Sílvio Romero, intelectual e político de projeção nacional nascido em Lagarto no Séc.XIX.
Sílvio Romero é p/ a Lacertae quase o que Selassié era p/ Bob Marley. Há fotos do tiozinho no encarte do disco de estréia, e em 2008 Aldemir Tacer lançou um trabalho solo chamado ELETRICULTURA, totalmente baseado nas histórias de Romero. Calango fez um sobrado/ de 25 janelas/ Pra botar moças brancas/ mulatas cor de canela”, Tacer canta e toca em sua pequena obra-prima low-fi, um álbum despretensioso mezzo eletro meio matuto, a tirar pelos títulos das músicas: ‘O Calango’, ‘O Jenipapo’, ‘Lá Vem a Lua Saindo’, ‘A Mutuca’, ‘A Cachaça’, ‘Baile da Lavadeira’, ‘Veja Com Quem Quer Ficar’, ‘Cajueiro Pequenino’, ‘Meu Coração Sabe Tudo’ e ‘O Sapo Cururu’. Teclados, guitarrinhas mangue, backing vocals femininos, bateria orgânica mesclada c/ programações...
Grande Tacer. Meu amigo. Já fumamos e rimos muito juntos. Faz uns 2 anos que não o vejo, faltei ao seu casamento, tava fora do ar nesse dia, mal aí véi! Lembro de uma vez que ele apareceu lá em casa de volta de uma temporada no eixo RJ-SP, e me contou de uma noite em que foi parar numa rave: “Eu tava c/ uma menina e não sei como a gente foi parar lá... Aí tinha um pessoal em volta duma turma que tava encenando uma peça, tipo teatro de rua só que na praia, eu já tava doido, espalhei a maquiagem da minha namorada na cara, entrei na roda e comecei a interagir c/ os atores, declamei um poema do Sylvio Romero, ninguém entendeu nada, mas o pessoal que tava assistindo começou a aplaudir”... Hahaha! Grande Tacer.
A VOLTA QUE O MUNDO DEU
Deon Costa também está casado, tem duas filhas, e nos últimos anos criou um projeto paralelo, o Caneco D’água, que ele apresentou neste sábado p/ a meia-dúzia de gatos pingados que não teve medo da chuva. Comemorando os 20 anos da Lacertae, Deon tocou várias clássicas, como ‘Casulo’, ‘Abra a Porta’, ‘Viagem no Pensamento’ e ‘Caminho de Santiago': “Retorno, começo do passado/ A imaginação é a estradinha e o melhor caminho é o de Santiago”... Riffs a la Hendrix c/ solos de wah-wah e microfonia, mais a participação da nova geração do Crioulo, c/ 2, às vezes 3 caras na percussão – fazendo muito barulho – , e os primos Diel no lugar de Tacer na ‘berimbatera’ e Costaeira no baixo em algumas músicas.
A idéia do nome Caneco D’água inspira-se no gestual do homem trabalhador sedento por água fresca e do ato acolhedor de quem sacia essa sede”, traduz Deon, que lançou em 2009 um EP c/ sons como ‘Corpo Fechado’ e ‘Céu D’água’, que ele tocou no Capitão Cook. E Lacertae, Deon? “Pode significar tanto os répteis multicoloridos como a cidade onde nascemos. A música preserva de maneira natural a liberdade rítmica e poética: um berimbau acoplado à bateria, guitarra e poesias, criando uma massa sonora. Só ouvindo pra entender”, ele avisa.
Costaeira também tem sua banda, Uni Campestre, cujo CD saiu pela Zabumbambus: ‘Florestal’, c/ 10 sons, como ‘Manga Rosa’, ‘Surf Rural’ e ‘Estrela Miudinha’. Deve ser alguma coisa na água de Lagarto. Depois de Deon apresentar seu Caneco D’água, veio a Zanimais, banda nova c/ um vocalista/guitarrista de qualidade e referências explícitas à Lacertae e ao manguebeat. Deon sabe da sua influência e da qualidade de sua música, por isso nem mesmo a ausência da audiência tirava seu sorriso ao final da noite. Quando fui me despedir e falei ao Costaeira que iria comprar um de seus quadros p/ pôr na minha sala ele disse: “Você tem que ir lá em casa, seu danado!
Durante 2 anos minha esposa Gil manteve uma loja em Lagarto, mas desde que ela fechou não faço uma visita aos meus amigos. Estou devendo essa. Tenho uma relação fraternal c/ a Lacertae de longa data. Em 96, mesmo ano do show no Abril Pro Rock – e na Expo Alternative no RJ – , eu fui convidado por Rodrigo Lariú, do selo Midsummer Madness, a escrever algo sobre os caras p/ um zine que acompanharia a coletânea BRASIL COMPACTO. Mandei um conto, ao invés de um release, escrito em cima do deadline. O mundo deu muita volta depois disso, mas a Lacertae continua brilhando e explodindo em chamas.
CIRCUS ORCHESTRA PRIMITIVA
Pegue uma garrafa de álcool etílico. Misture com mel. Beba. Você terá a noção exata do que é o Lacertae. Ao primeiro gole a receita parecerá intragável, forte demais para seu paladar acostumado a amenidades. Mas não se amedronte.
Tome outro gole. O álcool ainda desce queimando sua garganta, mas você já estará sabendo como tudo começou. O período jurássico encerrou-se com o choque de um meteoro. Anônimo, O Assassino. Restaram apenas três lagartos. Não trocaram palavra, não precisavam. Os olhos vermelhos se cruzaram e no mesmo momento souberam que só sobreviveriam se permanecessem reunidos. O Terceiro balançou sua cauda sobre o terreno arenoso e os outros dois concordaram com a cabeça. O terceiro gole. O Terceiro já não mais o é. Chame-o de Tacer, por favor. E aos outros, de Paulo e Deon. Suas línguas serpenteadas já proferem palavras. Suas barrigas já não se arrastam mais pelo chão. Muito tempo se passou, eles andaram 100 Km c/ 1 Sapato e outros tantos descalços, e suas patas tornaram-se pés e mãos. A despeito do que viram e aprenderam, sempre voltam para o buraco de onde saíram. A essa altura, vê-se alguns cactos ao redor.
Enquanto os três conversam em latim, sua mão empurra a garrafa para a boca. O bom senso manda que você pare de beber, mas seu corpo já não lhe presta mais contas. Fiat Voluntas Tua, é o que você diz, e dá mais um gole. Paulo é o primeiro a notar sua presença. Você mal tem tempo de ver uma barba rala crescendo sobre a pele escamosa quando ele mata a pauladas A Galinha que passava por ali.
Com o susto, você verte mais um pouco do álcool que ainda resta. Paulo, a esta altura, espanca a lataria banhada de sangue e grita frases ininteligíveis para você, mas que parecem fazer algum sentido para o povo queimado de sol que assiste ao espetáculo primitivo na planície que os três lagartos insistem em chamar de cratera. Eles dizem que ali caiu um meteoro, e aquele é o lar deles.
Você não quer acreditar, mas começa a gostar daquilo que está ouvindo. Talvez seja a flauta de Paulo que lhe tenha hipnotizado, ou os riffs da guitarra de Deon, ou a bateria tribal de Tacer. Não importa a causa. Você nem quer mais saber. As últimas gotas de álcool escoam por sua garganta, e você quer mais. Ainda há mel depositado no fundo da garrafa. Você enfia a língua e assusta-se ao vê-la dividida em duas extremidades. Aterrorizado, você percebe que sua pele tornou-se dura e quebradiça e seus olhos dilatados, e que sua barriga agora toca o solo árido. Como não consegue falar, olha para os répteis barulhentos e um deles lhe diz: ‘Calma, irmão. Agora você entende o que é o uga-uga core.’
- Eu devo estar bêbado - é o seu último pensamento. No instante seguinte, crava os dentes no rato que será seu almoço. O sangue do bicho tem gosto de álcool, embora você não perceba.