quinta-feira, abril 08, 2010

CHOVENDO NO MOLHADO
NUM DIA EMPOLGAÇÃO, NO OUTRO DECEPÇÃO: BEM-VINDO AO TOUR, MEDINA

Chove canivetes em Aracaju desde ontem. A previsão é que chova forte em todo o estado até quarta-feira, dia 14. A Defesa Civil já declarou estado de alerta, principalmente p/ os bairros América, Cidade Nova, Coqueiral, Japãozinho e Santa Maria. No Rio de Janeiro, alagamentos, deslizamentos e 169 mortes contabilizadas até o fechamento deste texto.

Do outro lado do mundo, na Terra de Oz, a campanha arrasadora do garoto Gabriel Medina foi por água abaixo no encontro c/ o atual campeão da ASP, Mick Fanning. Depois das empolgantes vitórias contra a molecada internacional no Grom Search e contra o ex-campeão do mundo CJ na repescagem do WT em Bell’s, Medina perdeu na 3ª fase por 11.84 a 17.20.

Bicampeão do mundo (2007 e 2009), Mick liderou toda a bateria. Na metade do duelo, tirou uma nota 8,70 para deixar o brasileiro em combinação -a chamada 'goleada' no surfe. Medina esboçou uma reação a 10 minutos do fim [...]. Saiu da combinação, mas, para virar, ainda faltava um 9,93”, informou o site do Globo Esporte.

Medina contra Fanning foi uma lição, como surfar uma onda alinhada sem perder velocidade, moderno, confiante, impiedoso”, reportou Júlio Adler em seu Diário dos Sinos: “Se o jogo de Medina é aéreo, Fanning incorporou o espírito e deu o aéreo mais bem executado do evento até agora. [...] mostrou que sabe jogar esse jogo se necessário, mas com uma diferença sutil, maturidade.

Ok, eles estão lá, acompanhando a ação in loco, o máximo que eu tenho é a internet. Fanning, 28, pode ser um surfista fora-de-série e provavelmente dominou mesmo a disputa, mas onde ele estava aos 16? “Medina impressionou a todos aqui na Austrália e tudo aponta para um futuro brillhante”, diz Adler: “A Rip Curl inclusive já quer frear o ímpeto que arremessava o garoto para o WQS como se não houvesse tempo a perder. Percebendo que talvez seja cedo demais para jogá-lo no mundo competitivo, Gary Dunne quer que Medina viaje mais para surfar ondas perfeitas e escolha determinados eventos para competir.

Em sua melhor onda na bateria, Gabriel começa mandando um aéreo rodando de backside, voltando c/ a prancha em direção invertida e retomando a trajetória; emenda c/ um snap na crista, pega um chuveirinho no inside e finaliza c/ uma batida na fechadeira: 7.83 pontos. Na outra que entrou p/ a soma, uma batida, um floater e um reverse na junção, 4 pontos e pouco. O tal “aéreo mais bem executado” do Mick lhe valeu a melhor onda, 8.77; foi um aéreo alto e c/ projeção, mas reto, pra frente, e de cara pra onda [bem mais fácil que de costas], emendado c/ rasgada, batida e reverse.

O problema não foi o Medina perder, mas a diferença entre o julgamento nas ondas de ambos. A 2ª melhor onda do ‘Yellowman’ da Gold Coast lhe valeu 8.50. Três batidas seguidas e uma invertida no final valeram mais do que o aéreo 360, a rasgada e a batida do ‘Superboy’ de Maresias? “Quando surfo contra caras considerados normais, posso ganhar ou perder, mas sinto que o resultado é justo”, disse o francês Jeremy Flores [foto] ao ser eliminado numa decisão controversa que favoreceu o yankee Dane Reynolds na 1ª etapa do circuito: “Quando surfo contra os queridinhos do tour, sempre perco por uma diferença ridícula. Talvez o problema seja a minha origem. Quem sabe se eu mudasse minha nacionalidade p/ australiano ou americano eu ganharia notas mais altas?

Adriano de Souza, como bom Mineiro [na real ele é paulista], já percebeu isso e vem se adaptando às regras do jogo p/ ter alguma chance – mudou-se do Guarujá p/ a Califórnia e fala inglês até c/ os brasileiros. “Keep building, keep building”, disse ele a Jadson André [foto abaixo] após a vitória do amigo de Natal/RN sobre o veterano Taylor Knox. Jadson, 20 anos, é o único nordestino na elite. Mineirinho, 23, venceu o estreante Brett Simpson e o decadente Fred Pattacchia nas oitavas, e já está garantido nas quartas, quando enfrenta o líder do ranking Taj Burrow. Jadson ainda espera pela disputa contra Bobby Martinez, já que a competição foi adiada hoje.

O critério de julgamento da ASP p/ este ano é: “Comprometimento, inovação, variedade e fluidez”. Gabriel Medina, 16 anos, espinhas no rosto e aparelho nos dentes, é o cara mais inovador do surf atual – quase sempre começa suas ondas c/ aéreos absurdos, domina uma série de variações deles, e invariavelmente volta c/ a prancha sob controle em seus pés e sem perder o tempo da parede e do lip, emendando rasgadas, batidas, floaters, o escambau. Ainda é um piá, não tem quilometragem em ondas grandes nem a frieza e maturidade de um surfista como Fanning. Mas domina todos os fundamentos exigidos no livro de regras da ASP e é o surfista mais empolgante do momento.

O cérebro do adolescente é muito menos conectado do que o de um adulto”, explica a psiquiatra Nora Volkow: “Como resultado, os adolescentes não conseguem controlar e regular a intensidade de suas emoções e desejos da mesma forma que os mais velhos. Isso faz com que vivam de maneira mais vigorosa, mas ao mesmo tempo assumam riscos maiores.” Se o Brasil é “Um País do Futuro”, como preconizava o suíço Stefan Zweig, e se “O Futuro É Vórtex”, como cantavam Os Replicantes, Gabriel Medina é a tempestade extratropical que chegou p/ deixar os gringos zonzos.

Chove, chuva.

THE CRYING GAME

fotos: ripcurl.com

SUPER MEDINA FAZ ATÉ CHOVER...

...MAS MICK FANNING É FOGO

JADSON ANDRÉ TÁ NA BRIGA...

...E ENFRENTA BOBBY MARTINEZ

NECO PADARATZ PERDEU PRO PARKO

JORDY CADA VEZ MAIS ADAPTADO AO WT

KELLY SLATER DÁ SHOW ATÉ DE PÉ TORCIDO

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