terça-feira, abril 06, 2010

POR QUEM OS SINOS DOBRAM

o paulista GABRIEL MEDINA: campeão na Nova Zelândia e na Austrália em 2010
Está rolando na Austrália o Rip Curl Eastern Classic, 2ª etapa do World Tour 2010 e simplesmente o campeonato de surf profissional mais antigo do mundo – acontece desde 1968, enquanto o circuito mundial só seria criado em 76... Todos os grandes nomes já o venceram: Michael Peterson, Wayne Rabbitt e Mark Richards nos anos 70, Carroll, Curren e Pottz nos 80, Occy, Matt Hoy e Kelly Slater nos 90, Sunny Garcia, Andy Irons e de novo KS nesta década.
Em 1987, o local Nicky Wood venceu os melhores surfistas da época c/ apenas 16 anos. Nick era um dos surfistas mais modernos que já haviam aparecido, seu ataque quebrado e elástico, c/ rabetadas nas junções e costas deitadas na água, influenciaram diretamente a geração ON A MISSION: Slater, Dorian, Machado, Knox, Beschen, etc. Em 90, Wood venceu o campeonato mais rico até então, o Billabong Pro em Sunset/HWI, que valia um cheque de U$ 50.000, e também levou por 2 anos consecutivos o Hang Loose Pro Contest no Brasil. Bêbado, boêmio & fumante, Nicky Wood nunca chegou a disputar um título mundial, mas sua vitória em Bell’s Beach ainda lhe vale o título de surfista mais jovem a vencer uma etapa do circuito mundial.
23 anos depois, outro fenômeno de 16 anos vence em Bell’s. Tudo bem, não foi o evento principal, que ainda nem terminou, mas o 1º lugar de Gabriel Medina no Rip Curl Grom Search foi a 4ª vitória internacional do garoto-prodígio do Brasil em menos de 1 ano: aos 15, tornou-se o mais jovem a vencer uma etapa do mundial [de acesso, por isso o recorde ainda é de Nicky], batendo Neco Padaratz na final do WQS 6 estrelas em SC; depois venceu o mundial sub-16 na França fazendo 2 notas 10 na final contra Caio Ibelli, tornando-se o único surfista a fazer a perfeita média de 20 pontos em TODAS as competições sancionadas pela ASP em 2009; em janeiro, campeão mundial sub-18 pela ISA na Nova Zelândia c/ outra média absurda de 19.90, e de quebra o 3º lugar no mundial sub-20 na Austrália em fevereiro.
Vou correr as etapas do WQS. Também vou viajar no meio do ano em algumas barcas de free surf, mas quero mesmo entrar no World Tour este ano”, falou à revista Hardcore. No domingo de páscoa, Medina aprontou mais uma das suas. O Grom Search em Bell’s é a final internacional dos campeonatos sub-20 da Rip Curl na Austrália, NZ, EUA, Europa, Indonésia, África do Sul e Brasil. Em ondas pequenas [sua especialidade], Gabriel abusou do seu ‘skate-surf’, mesclando seus já temidos aéreos de frontside c/ rabetadas e reverses de back p/ marcar um 8.17 e um 8.40 e ainda se dar ao luxo de descartar duas ondas c/ as quais também venceria seus adversários – no caso, o aussie Creed MacTagart, o americano Kolohe Andino e o indonésio Koman Herman.
Entro pra surfar, uso a tática do aéreo, que também faço durante o free surf. Gosto muito desta manobra, fora que os juízes gostam também”, disse ele à HC. Segundo o catarinense Ícaro Cavalheiro, ex-surfista profissional e juiz do World Tour, o atual critério de julgamento da ASP é: “Comprometimento, inovação, variedade, velocidade e fluidez”. A 1ª etapa na Gold Coast foi vencida por Taj Burrow c/ Jordy Smith em 2º - dois ícones do surf inovador. Dane Reynolds [foto], o discípulo de Slater, é cotado p/ um futuro título graças ao seu ataque extra-moderno e conectado. “Segundo Ícaro, Dane é o cara que melhor surfa nos novos critérios de julgamento”, escreveu Júlio Adler, outro ex-campeão de surf.
Adler está na Austrália fazendo a cobertura do circuito mundial. Em seu blog Goiabada, tem atualizado diariamente as notícias do campeonato na praia dos sinos. A competição está a todo vapor. Nosso pretendente ao título, Adriano ‘Mineirinho’ de Souza, 23 anos e Top 5 mundial, fez a 2ª melhor média do round 1, 15.07, e foi o único brasileiro a avançar direto p/ a 3ª fase. Mineiro foi nosso 1º fenômeno da década: em 2004 venceu o Billabong Pro-Jr., válido pelo mundial sub-20, quando tinha 16 anos – idade atual do Medina – e depois venceu o WQS aos 18 e entrou p/ o WT aos 19. I feel great”, disse De Souza aos repórteres gringos. Traduzindo: “Tô amarradão de vencer logo a 1ª bateria, porque eu cheguei 2 semanas antes do início do evento pra me preparar. As condições não estão as melhores, mas eu to orgulhoso do meu surf e minhas pranchas estão funcionando bem, então vou seguir nessa pra tentar melhorar minha posição no ranking.
Smashing a series of powerful turns and progressive aerials”, foi como o site da ASP se referiu à vitória de Adriano sobre Blake Thorthon e Kekoa Bacalso. Puxando a moral da raça lá pra cima, Mineirinho deu novo ânimo pros brasileiros derrotados na 1ª fase reverterem o jogo na repescagem: dos que compõem os Tops, Neco e Jadson André [foto] venceram Damien Hobgood e Luke Munro, respectivamente, e somente Marco Polo perdeu [p/ Jordy]. Enquanto isso, correndo por fora, sem nada a perder e c/ toda insolência correspondente à idade, nosso ‘personal freak’ Medina chutava o traseiro do campeão mundial 2001, CJ Hobgood, o irmão gêmeo do Damien. Dia ruim pros Hobgoods na mão dos brasileiros, logo eles que roubaram a nossa festa em casa no WT em 2004 – quando Damien venceu Victor Ribas – e no WQS de Fernando de Noronha este ano – vitória de CJ sobre Raoni Monteiro. Vingança é um prato que se come frio, e a água de Bell’s é gelada.
I’m very happy right now!”, disse o guri à incrédula mídia estrangeira: “Eu ganhei confiança depois da vitória no domingo e as condições hoje encaixaram no meu surf. CJ é um surfista incrível e esta é a maior vitória de minha carreira.” Precoce é pouco p/ definir esse moleque.
Durante a 1ª etapa do WT eu escrevi uma verdadeira ‘trilogia’ sobre o Quiksilver Pro, disponível aqui no blog. Mas pra que ficar gastando meu verbo se eu tenho um amigo que está lá, entende tudo de surf e é o melhor em atividade neste ramo? C/ vocês, o encontro do campeão carioca de 1990 c/ o campeão mundial de 1989, ambos assistindo a uma bateria do Gabriel:
MEDALHA, MEDALHA, MEDALHA...
Hoje (ontem) foi mesmo um dia interessante, resolvi assistir a final do Grom Search internacional em pé lá em cima da área reservada aos jornalistas.
Percebi que alguém se aproximava, nem precisei me virar, Martin Potter postou-se logo a minha frente e perguntou, Já começou ?
Sim, Medina tá na frente.
Por 30 minutos ficamos lá, em pé, numa esquina vagabunda do palanque do Easter Classic, eu e Pottz.
Lembro vivamente sua final contra Slater aqui, provoquei.
É, aquela foi uma boa bateria...
Tem algum surfista predileto hoje no tour ?
Gosto do Parko, Slater, Taj, Fanning...Dane & Jordy também.
E eu pensando que ele mencionaria Dane & Jordy primeiro.
Quem vai levar essa ?
Kolohe é muito bom mas esse Medina é um freak. Se o circuito fosse em esquerdas, ele ganhava.
Nesse ínterim, Medina pega uma esquerda (!!!!!) e manda um aéreo tão limpo e perfeito que Pottz faz um daqueles barulhinhos
OOoooooohhh!
Quantos anos voce tinha quando esteve no Brasil pela primeira vez ?
15 anos em 1981 pro Waimea 5000 naquela esquerda lá do Rio...
Arpoador, adiantei.
Vai fazer todo tour comentando ?
Não, quero ficar em casa com minha mulher e meus filhos. Já fiquei muito tempo viajando com o circuito. Farei os da Rip Curl, da Quiksilver e alguns da O'neill.
Claw Warbrick, dono da Rip Curl, sai apressado duma sala embaixo, Pottz grita
Hey, o moleque tá ganhando pegando esquerdas - em Bells!
Claw balança a cabeça concordando e abre os braços numa indagação silenciosa.
Prazer, Pottz, me chamo Julio."


***
Ainda que não houvesse um Gabriel Medina ou um Nicky Wood, a clássica direita de Bell's faria parte da História de um jeito ou de outro. Desde os embates entre o mestre Michael Peterson e o aprendiz Rabbit nos literalmente psicodélicos 70’s – “Você é um merda, Bugs!”, disse MP a Wayne antes de enlouquecer de vez – até a literal REINVENÇÃO do surf c/ Simon Anderson no Eastern Classic de 81, usando as inéditas 3 QUILHAS p/ dominar um swell grande demais p/ as biquilhas e manobrável demais p/ as mono – “O pessoal olhou pra mim e riu, perguntando quem era aquele idiota”, diz Simon sobre o momento em que apareceu na praia c/ uma quilha extra na prancha. Até hoje, 29 anos depois, nada tão revolucionário foi inventado.
Foi lá que, em 2001, o atual bicampeão mundial Mick Fanning obteve sua 1ª vitória no World Tour, competindo como convidado. Bell’s é generosa c/ os azarões. Ano passado o 'wild card' Adam Robertson chegou à final perdendo só pro vicecampeão mundial Parko. Em 1996, Chris Davidson quase estragou o ano do 4º título de Slater ao derrota-lo duas vezes seguidas no mesmo evento. Davo [foto] teve uma carreira irregular e nunca chegou aos Top 16, mas ano passado fez a final em Mundaka contra Mineirinho e ontem marcou a maior média do 2º round numa grande disputa contra Jay ‘Bottle’ Thompson – 16.13 x 16.10. “O mar estava bombando e é uma pena que o ‘Garrafa’ tenha perdido”, lamentou pelo amigo após o heat: “Ele teria vencido qualquer outra bateria dessa fase, mas é assim, às vezes você tem essas baterias.
São as que valem a pena. Outra que o ‘Marreco’ viu de camarote e que vale um aparte foi o novo encontro entre os mitos Tom Curren [campeão mundial 1985/86/90] e Mark Occhilupo [campeão do mundo em 99], the best regular” contra “the best goofy” dos anos 80, protagonistas de alguns dos maiores duelos no surf em todos os tempos, incluindo um nesta mesma Bell’s em 86, quando se encontraram na semifinal que foi considerada depois ‘O Combate do Séc.XX’. Curren venceu daquela vez e repetiu o feito neste domingo, 25 anos depois, em condições bem aquém daquelas em que os 2 atacaram os lips de 2 metros c/ verticalidade, pressão, fluidez e controle que lhes renderiam vitórias até nos dias de hoje. Occy, 43, Curren, 45, ainda põem muito garoto no bolso. Se o quesito for força & estilo, até o Medina perde.
CLASH OF THE TITANS
Já tinha visto Curren duas vezes antes aqui no estacionamento, as duas com seu filho que, dizem as boas línguas, surfa bem pacas – e é, vejam a gigantesca ironia, Goofy.
Agora, ver Curren vestido com sua roupa de borracha indo para bateria é uma outra sensação.
No estacionamento ele parecia um senhor serio do alto dos seus quase 50 anos, enquanto o Curren de camisa de lycra é quase uma assombração dos anos 80 que voltou para fazer justiça nesse mundo espoleta do surfe moderno de fundo.
Arrependei-vos pois nunca usaram a borda, miseráveis! Diria uma voz gutural vindo dos céus.
Porra, nunca tinha visto o Curren se alongando antes duma bateria, comenta um cara ao lado antes dos dois descerem a rampa que leva até a praia.
Naquele mesmo mar que todo round 2 foi relegado, Occy e Curren foram jogados aos leões.
Desci até a praia para poder ver a reação do publico que nessa altura lotava as areias de Bells.
Os locutores despejavam quilos e mais quilos de merda nos alto-falantes na esperança de entreter a corja.
Ainda hoje, 25 anos depois da primeira vitoria do Curren em Bells, a magia permanece.
Intacta.
Oooos e Aaaahs por todo lado e segundo consta, entre alguns dos 45 presentes.
A posição dos braços, as pernas dobradas como quem senta na cadeira de diretor dum filme do Kurosawa, a prancha saindo da inércia para mais completa curva como uma faca afiada cortando um belo pedaço de carne, firme, segura, precisa.
Estava tudo ali: Michael Peterson, Phil Edwards, Dora, Nat, Rabbit.
Um movimento que não respeita tempo nem época, Timeless, escreveria um petit pede aussie.
Em seguida entram duzentos surfistas para a expression session.
Das 4.985 ondas surfadas, apenas duas ficariam na memória de alguém com menos de 30 anos.

3 comentários:

Espedito disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Espedito disse...

bela reportagem,valeu as dicas do campeonato,do blog do julio alder e do garotão voador...
nem lembro a ultima vez q. fui a praia mas continuo surfando na internet...
abraço EXP.

Viva La Brasa disse...

o Marreco comanda, amigão.
dá um saque no link abaixo:
http://www.datasurfe.com.br/2010/04/relator-critico-do-tour.html