quinta-feira, abril 15, 2010

SHA-LA-LA Esta semana perdi um amigo do mesmo jeito que perdi um irmão há 2 anos: infarte fulminante. Nando, meu irmão, tinha 29 anos quando morreu. Daniel Garcia estava c/ 34. Aconteceu na noite de segunda, 12/04, durante um jogo de futebol em SP. Daniel foi meu colega de sala no Colégio de Aplicação durante o 2º grau. Filho da professora de literatura, ‘Sha-La-La’ era um cabra namorador. Só lá na escola beijou a Danielle, a Gabriela, a Isabela, todas elas... Seus olhos verdes e estatura de modelo faziam sucesso c/ a mulherada.
O gosto pelo rock logo nos uniu. Todos nós éramos cabeludos naquele tempo, ouvíamos Sepultura e Nirvana. O apelido dele vem de um refrão dos Ramones, da música ‘Howling at the Moon’ do disco TOO TOUGH TO DIE: “Winter turns to summer/ Sadness turns to fun/ Keep the faith baby/ You broke the rules and won/ Sha-la-la-la/ Sha-la-la-la-la”... Foi a 2ª música que aprendeu a tocar. A 1ª foi ‘Terezinha de Jesus’, hahaha... Ensaiávamos em garagens só de chinfra, e logo ele estava tocando na Outshine, banda que daria origem a uma outra que está aí até hoje: Daniel foi o 1º guitarrista da Snooze. São dele os riffs e solos do disco de estréia, WAKING UP... WAKING DOWN, de 1997.
Sem firulas ou exibicionismo, Daniel deixava que a música falasse mais alto. E ela falava. Suas guitarras ora limpas, ora no limite da distorção, estão eternizadas no primeiro álbum da banda. Tenho orgulho de ter lançado este disco”, diz Marcelo Viegas da Short Records, gravadora independente que lançou 2 discos da Snooze. “Autor de vários hits da primeira demo e do primeiro CD, ainda chegou a colaborar um pouco nos CDs LET MY HEAD BLOW UP (2002) e SNOOZE (2006)”, lembra Rafael Jr., baterista da banda, irmão do vocalista Fabinho e amigo em comum. O trio que Sha-La-La formava c/ os irmãos ‘Snoozers’ tinha influências de Pixies, Sonic Youth e Hüsker Dü.
Eu e Rafael fizemos muitas sessões de surf no início dos anos 90, e juntos editamos o fanzine Cabrunco de 95 a 97. Daniel ‘Sha-La-La’ foi o diagramador das 4 primeiras edições do zine – até eu ganhar meu 1º micro. Ele me ensinou a usar o Corel-Draw. Inteligente e filho de um intelectual de esquerda, sempre teve contato c/ computadores e ganhou grana c/ isso. Aracaju ficou pequena demais. “Morava em Campinas há cerca de 10 anos e trabalhava na área de informática, campo que desde cedo mostrou dominar muito bem”, escreveu Rafael na nota de falecimento. “Estamos arrasados, era uma pessoa querida e especial.
Daniel era um cara saudável, não bebia, não fumava, não cheirava; gostava de jogar bola, tocar guitarra e namorar. “A cada férias que ele vinha passar aqui, trazia uma mulher diferente. Ano passado foi uma loira, a atual é morena...”, analisa Rafael: “Acho que depois de 1 ano ele enjoava e trocava!” Haha!.. Grande figura, amigo firmeza. Espero que seus pais e irmãos segurem a onda – seu Roberto, dona Leônia, Beatriz, Marieze e meu mano Cláudio ‘Salsicha’ [sósia do Shaggy do Scooby-Doo]...
Conheço o sentimento de perder um ente querido sem mais nem menos. Mas a dor passa, os momentos compartilhados ficam guardados na lembrança. Pra sempre. “O primeiro show do Snooze em SP, no extinto Planeta Rock em SBC, aconteceu numa fria noite de outubro de 1998. Era o lançamento do ‘Waking Up... Waking Down’ no Sul maravilha”, escreveu Viegas no blog Zinismo: “Acostumado com o calor de Sergipe, Daniel cometeu o erro de vir à Sampa sem uma blusa na mala. Batendo os dentes, me pediu uma emprestada. É com essa blusa que ele aparece nas fotos p&b desse show, feitas pelo então principiante Marcelo Ribeiro. Algum tempo depois, Daniel mudou para Campinas (SP) para estudar e, assim, encerrou sua história como guitarrista da Snooze. Mas sua voz, guitarra e letras estão lá, nos primeiros registros da banda, ad infinitum.
Valeu, Sha-La-La. EMPTINESS [Daniel Garcia/ Fabinho Snoozer/ Rafael Jr./ Guilherme Rebouças]
I’m empty now, don’t tell me anything/ Don’t listen to what I will say/ I’m crying now, don’t look at my face/ Don’t drink my tears, ‘cause they are bitter/ I’m dancing now, don’t try to understand/ Don’t ask me why I’ve got a smile in my mouth/ Don’t switch on the lights, don’t diminish the sound/ Leave me alone because now I’ve just known the emptiness/ I’m empty now, don’t tell me nothing/ Don’t listen to what I will say/ I’m crying now, don’t look at my face/ Don’t drink my blood ‘cause it’s too hard
SNOOZE no festival SONORAMA em Aracaju, 29/09/07; a música, 'Kissing Goodbye', é da fase do DANIEL e está no 1º álbum, WAKING UP... WAKING DOWN

12 comentários:

FabioSnoozer disse...

oi adolfo, dias tristes esses. ontem no enterro lembrei da estória de seu irmão... só faltou vc (e talvez leonardo, he) daquela turma do aplicação!!! fazendo uma correçãozinha, "kissing goodbye" é do segundo disco, e não ela mais "pathetic" (que abre o cd) chegou a ser trabalhada com Daniel na banda...

abçs

Rafael Jr disse...

É isso, entrei aqui pra corrigir a informação sobre "Kissing Goodbye", mas Fabinho já fez isso...
Texto phoda (como sempre), homenagem mais que merecida. E ainda li tudo do Lacertae, incluindo aquele velho texto irado da coletânea da Rock It!
Abração.

Asteroid disse...

Lindo este texto. Tomei a ousadia de divulga-lo agora no Twitter. via Asteroidbar e Wry.

beijo a todos.

FabioSnoozer disse...

acho que a informação de que ele não bebia tb não procede... enfim, não que ele era uma beberrão, mas o daniel que conheci não dispensava uma cervejinha no fim de semana!

Viva La Brasa disse...

salve snooze bros.
foi-se um bom amigo, esses dias dei muitas risadas sozinho lembrando das palhaçadas antigas...
só soube do enterro à noite, qdo liguei pro rafael, a informação que eu tinha é que seria ontem...
o hugo tá querendo marcar uma pizza, vamos nessa?
ah, sobre a breja de fim de semana do daniel, nem incluí pq uma cervejinha de vez em qdo não entope a veia de ninguém...
o que eu quis dizer é que ele tinha uma vida ok e a saúde 100%, o que torna mais inesperado ainda o fato.
força total, hermanos @

Viva La Brasa disse...

procurei feito um louco o clip de 'Life Is Good' na internet [vimeo, youtube, google videos etc.] e NADA!
pô, esse clip rodou algumas vezes na Mtv, esse sim é do tempo do daniel c/ certeza, tem umas imagens dele e tal...

Boogie Boy disse...

Adolfo Cabrunquento, blz meu véio?

Então, eu não conheçi o Daniel pessoalmente, mas lembro da DEMO TAPE [Fita K7] da Snooze, que tive acesso lá pelas bandas de 1998 ou 1999 quando a encontrei no meio de outras pérolas no barraco onde eu ensaiava com a Karranca.
Lembro que no encarte tinha uma fodo dos caras... heheh Pode parecer babaquice, mas quando eu ouvi MY GRAMOPHONE eu me arrepiei, e como sempre quis tocar guitarra eu me permitia imaginar tocando ela um dia, adoro aquele solo no final da música. Pra mim é um clássico do rock sergipano.
Quando consegui uma cópia que foi presente do saudoso Ademir Pinto, passei uns bons meses sem tirar o CD do player hehehe

Recordar é viver...

"I know I have a gun, it's my Gramophone / I know I'll do something with my Gramophone / I know I have a gun, it's my Gramophone / I know I'll listen to a rock'n'roll in my Gramophone"

Rafael Jr disse...

Rapaz, esse lance do clip de Life is Good é incrível mesmo, ninguém tem, é bizarro! Passou na MTV 3 vezes (Lado B, com Fábio Massari), e tb aqui na TV Cidade, até já tentei recuperar dos arquivos lá e não consegui... O lance é que a fita original (não lembro agora o formato) foi pro RJ via Panço pra uma mostra de clips e curtas a nível nacional, e eles "devolveriam", mas nunca chegou de volta por aqui...
Rafael Jr.

gabriela disse...

Adolfo, meu caro
lindo depoimento!
o beijo eu confirmo, a paixão por aquele menino era platônica, amigo de todas as horas...do surf, de muitos carnavais em Olinda, de estudos, de galera, trilha, de cachoeira, de viagens...Daniel era o cara! Vai ser muita saudade...
beijão pra ti, Gabriela.

Maíra disse...

fiz a minha homenagem tb. me fez bem compartilhar a minha historia com o Daniel.
tá aqui http://muitoma.blogspot.com/2010/04/minha-historia-com-daniel.html

Daniel disse...

Amigos,

Segue o texto que mandei pra família do Daniel Garcia:
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Pouca gente conhece esta história.

Em 1999 abrimos uma de nossas primeiras vagas para contratação na Kaizen. Era uma vaga de estágio.

Dois candidatos se inscreveram. Seriam entrevistados por mim e pelo Marcio.

O 1º candidato entrou. Era o Daniel Garcia. A entrevista durou uns 15 minutos.

Quando o Garcia saiu da sala, antes do 2º candidato entrar, o Marcio e eu dissemos um ao outro, quase ao mesmo tempo: “O próximo candidato terá que ser MUITO, MUITO, MUITO bom pra conseguir tirar a vaga do Daniel Garcia”.

Não era. Aliás, pouquíssimos são.

Esse foi o dia e a maneira como eu conheci o Daniel Garcia:
Numa entrevista de 15 minutos.

Daquele dia em diante, foram 11 anos que convivemos de perto, e eu pude perceber que era assim mesmo:

15 minutos eram mais do que suficientes para que qualquer pessoa pudesse perceber como o Daniel Garcia era: Um cara inteligente, capaz, dedicado, bem-humorado, leal, comprometido, estudioso, simpático, mas acima de tudo:

Bom. Uma pessoa boa. Uma pessoa do bem. Alguém que só fez amigos. Alguém que se tornou um dos pilares da Kaizen. Alguém que pra mim é um exemplo a ser seguido.
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O meu sócio (Marcio, atual Presidente da Kaizen) escreveu para a família do Daniel Garcia a seguinte mensagem (que segue logo abaixo no outro post):

Daniel disse...

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O Daniel Garcia foi um profissional fundamental na história de nossa empresa.

Participou de momentos decisivos, e eu o considero uma das pessoas mais brilhantes e inteligentes que já conheci. Sua capacidade de explicar coisas complicadas, e de enxergar além do muro, sempre me impressionaram.

Participou da criação de uma área que inicialmente chamamos de “Soluções de Negócios”, e foi peça chave pra transformar o que hoje é nossa linha de serviços mais lucrativa.

Recentemente ele estava alocado à área de consultoria, que é o nosso mais novo foco de desenvolvimento de negócios. Mais uma vez, colocávamos o seu filho na ponta de lança, pra participar de algo novo, que estávamos criando. Afinal, isso é o natural, não é? Colocarmos as pessoas de nossa mais alta confiança nas posições que precisamos delas. E seu filho nunca nos desapontou.

Poucas pessoas sintetizavam tão bem quanto ele o espírito de coleguismo, profissionalismo, dedicação, amizade e respeito que procuramos manter em nossa empresa.

Eu poderia escrever um livro sobre os feitos profissionais de seu filho nesses mais de 10 anos.

Mas isso seria apenas uma parte da história.

Garcia era um grande amigo. De todos.

A imagem que me vem à cabeça agora, quando me lembro dele, é sempre com um sorriso largo no rosto. Como eu gostava e admirava aquele sorriso... Como ele iluminava a todos que o cercavam...

Não tive a oportunidade de conhecê-los, mas quero que saibam que eu também os admiro. Uma pessoa como o Garcia, só pode ter sido educada de forma sólida, rica nos principais valores do ser humano, que nosso mundo tanto precisa.

Parabéns pelo filho que vocês criaram, tenham certeza que foi alguém que fez a diferença no mundo, e que deixou um legado por onde passou.

Abaixo texto que enviei para todos os funcionários da empresa:

“Staff
O dia mais triste da nossa história.

Ontem perdi um grande amigo, um colega de trabalho, um exemplo de profissional, a pessoa mais doce que já conheci. O sorriso mais fácil e largo, sempre disponível, à espera de qualquer coisa pra se mostrar e iluminar nosso dia

Queria poder escrever palavras reconfortantes e encorajadoras pra Família Kaizen, mas sinceramente não consigo agora. Sinto-me como o irmão mais velho que perdeu aquele caçula ilustre, o mais inteligente da família. Alguém que você tinha sonhado uma carreira e vida brilhantes, alguém com quem você sonhava passar o resto de sua vida junto. Só pra poder estar perto da energia daquele sorriso e desfrutar da sua companhia.
Pedi para prepararem uma caixa, onde colocaremos homenagens e lembranças, pra serem enviadas a família dele. Quem quiser preparar algo pra ser enviado junto, peço que levem ao velório.
Descanse em paz meu grande amigo, meu irmão. Que a gente consiga viver a vida dignos de sermos lembrados como sua família.”

É como eu me sinto, como o irmão mais velho que perdeu o caçula ilustre. Não me lembro de ter sentido tanto a perda de alguém como estou sentindo do Garcia.

Saibam que aqui ele também deixou uma família imensa em luto.
Sentiremos infinitas saudades de seu filho.

Que Deus abençoe a todos nós.
Marcio.
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Bem... Pra terminar, como escrevo num site de Heavy Metal, montei um texto que dediquei a todos que conheceram o Daniel Garcia.

Então, obviamente o texto é pra vocês também.

http://www.arenaheavy.com.br/index.php?pagina=771

Um grande abraço a todos vocês,
Daniel Dystyler.
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(comecei o texto com "Amigos" pois mesmo sem conhecer vocês, só pelo que escreveram sobre o Daniel Garcia, já dá pra considerar meu amigos)