quinta-feira, maio 27, 2010

ACONTECEU LÁ NO SERTÃO O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão!”, profetizava Antônio Conselheiro ao seu povo. De fato, Canudos, depois de destruída pelas tropas federais em 1897, foi inundada e virou um açude na Bahia. No interior de Sergipe, o sertão vira rock todo ano.
21/05. Sexta-feira, 20h30. Acompanhado de minha querida Gil, encarei os 135 km que separam Nossa Senhora da Glória da capital p/ conferir pela 1ª vez o Rock Sertão, em sua oitava edição. Fomos de carona no Peugeot 206 do meu amigo Adelvan ‘Kenobi’, apresentador do Programa de Rock [104.9 FM] que iria estrear na TV, convocado de última hora p/ ancorar a transmissão ao vivo. Completavam a barca um moleque que eu não conhecia mas mó gente fina – usava uma camisa do DFC – e Roberto Nunes, produtor da Sessão Notívagos, que há 2 semanas trouxe p/ Aracaju o Cidadão Instigado.
NOSSA SENHORA DO ROCK
O festival começou na quinta c/ Alex Sant’Anna e Banda dos Corações Partidos. Durante o dia estavam rolando oficinas, como a dos artistas do Campo do Crioulo, capitaneados pela banda Lacertae e os alunos da Casa de Cultura Zabumbambus; e palestras e mesas redondas c/ convidados ilustres, como o pernambucano Paulo André, organizador do Abril Pro Rock. Eu, que não fui convidado pra nada, fiquei no estúdio móvel dando uma força no início da exibição. Mas logo deixei Adelvan c/ os leões, e fui dar atenção à minha mulher e assistir alguns shows.
Abrindo a noite, Villa Carmen, som novo c/ levada caribenha. “Parece lambada!”, sentenciou minha garota. Em seguida, a banda dos donos da festa, Fator RH, do instigado vocalista Kleberson Santos. “Tocamos em Itabaiana, até em Aracaju e queríamos tocar na cidade, mas não conseguíamos.” Com os amigos Daniel de Matos [baixista da RH] e Jefeson 'Crivo', organizou um festival em 2001. “O primeiro foi bem pequeno, num palco tão estreito que mal cabiam 5 pessoas e as caixas de som.
Em seguida, o hard rock da Mamutes, uma espécie de ‘Matanza’ menos hardcore e mais anos 70. Além de tocar suas composições c/ alto teor de testosterona, fizeram uma homenagem a Ronnie James Dio, ex-vocal do Sabbath falecido no último dia 16. “O rock que fazemos é literalmente valvulado”, diz o vocalista Karl de Lyon: “À proporção que vai esquentando, vai ficando mais encorpado, e é aí que o pau quebra.” E foi c/ os amplificadores aquecidos que a Vendo 147 surgiu no palco alternativo p/ quebrar tudo c/ seu rock instrumental nervoso e indefinível.
Adelvan já tinha me avisado que o quinteto baiano fizera o melhor show do Abril Pro Rock, e em Glória não deu outra. Mix de surf music e heavy metal, c/ um baixista tão ‘virtuose’ que chega a ser firuleiro, e 2 bateristas que tocam sincronizados, de frente um pro outro, usando o mesmo bumbo. Influência do grupo suíço Monsters. O nome veio das páginas de classificados – o Fiat 147 é um dos carros mais vendidos nos jornais. Com dissidentes da Vinil 69 e The Honkers, a Vendo tem até um ex-Snooze na formação – o guitarrista Duardo Costa.
Mopho fechou a noite – pelo menos pra mim. A banda de Maceió faz rock psicodélico, tem um tecladista que usa timbres antigos e conta c/ fãs na platéia que sabem cantar suas músicas; mas tudo isso a gente já tem aqui c/ a Plástico Lunar, que só não tocou em Glória este ano porque estava no Bananada, em Goiânia [GO]. A Plástico é mais acelerada, chapada e lírica que seus vizinhos alagoanos, e na inevitável comparação a Mopho sai perdendo. Hora de pegar a estrada de volta pra casa.
WOODGLÓRIA
Em 1969, o empreendedorismo de um jovem que organizava um festivalzinho de música levou p/ sua cidade no interior dos EUA um festivalzão: Woodstock, que atraiu 500.000 pessoas p/ Bethel, no estado de Nova York. A história de Eliott Tiber está no filme recente do cineasta Ang Lee, Aconteceu em Woodstock. O evento, proibido de ser realizado na cidade original, foi viabilizado graças a Eliott, que alojou toda a produção no hotel da sua família e intermediou o aluguel do terreno. Foram vendidos 186.000 ingressos, mas a multidão que invadiu o lugar derrubou todas as barreiras.
O Rock Sertão, apesar de gratuito, não atraiu nem 3.000 pessoas a cada noite em 2010. Glória tem apenas 30.000 habitantes, mas isso não serve de desculpa. Woodstock aconteceu numa fazenda de 600 acres de terra na zona rural. Uma das hipóteses levantadas p/ o pouco público seria a ausência de uma grande atração nacional, como Zeca Baleiro há 2 anos, mas Luiz Oliva, que tocou lá c/ a Renegades of Punk em 2009, não crê nisso: “Ano passado não rolou apoio do governo e só teve banda daqui do estado, mas o público foi bem mais homogêneo.
Praticamente todas as grandes bandas de Aracaju já tocaram no festival, mas ainda estamos aprendendo bastante”, disse Kleberson da RH à repórter Aline Braga, do jornal Cinform: “Não temos a visão de ser um grande festival. Temos uma visão de contato com bandas amigas. Sempre tivemos essa idéia.
Rick Maia, guitarrista da Mamutes, também agita as coisas em Aracaju c/ seu coletivo Virote Cultural. “Hoje em dia, infelizmente, não dá pra ter uma banda e se preocupar somente com a música em si”, falou a Rian Santos, do Jornal do Dia: “Atualmente as gravadoras só trabalham com bandas já prontas pro mercado, com disco lançado, DVD e alguns anos de estrada. Acredito que quem irá se destacar será aquele que tiver um bom disco, uma boa apresentação ao vivo, conhecer melhor o seu nicho e o que melhor trabalhar nos bastidores, enfim, quem conseguir achar um meio termo entre a organização de uma empresa e a anarquia do rock’n’roll.
BLACK SÁBADO22/05. Vi os shows da última noite no conforto do meu lar. Não é todo dia que um festival de rock é transmitido num canal aberto de televisão, ainda mais no que eu trabalho. Quando o programa começou, às 22h, o trio Urublues, de Itabaiana [SE], já destilava sua malandragem em sons como ‘Migalhas’ e ‘Minha Sede’, boas letras e bons riffs de Ferdinando, vocal e guitarra: “Deveria ter um Rock Sertão em cada cidade! É importante pro músico, porque as chances de tocar no interior aumentam.” Maior município do interior, Itabaiana tem uma cena underground fervilhante, c/ bandas como Karranca e Thee Swamp Beat Brothers.
Lacertae vem da cidade vizinha. “Já tocamos em festivais em Salvador, Rio de Janeiro, ou mesmo no Abril Pro Rock, em Recife, mas a sensação de tocar na nossa terra é outra”, diz Deon Costa, que se apresentou acompanhado do irmão Costaeira, da Unicampestre, no baixo, e os primos Diel na bateria e Marcelo, da Zanimais, na percussão e instrumentos de sopro. “Somos Lacertae, somos mutantes, somos de Lagarto. E esse vento da brisa do sertão é maravilhoso.
Rosie And Me foram os únicos ‘gringos’ dessa noite. O grupo paranaense faz folk melódico cantado em inglês. “Acho que a gente apareceu pra quebrar essa tradição de rock mais pesado no evento”, falou a vocalista Rosie: “Trouxemos uma levada mais country, um som gostoso de ouvir e dançar.” Pra quem curte Belle & Sebastian, Malu Magalhães e Los Hermanos...
Ainda teve Naurêa e mais duas bandinhas escolhidas na internet, mas os poucos & bravos que resistiram na madrugada de sábado garantem que a Karne Krua fez o melhor show. “Quando cheguei e vi dois palcos, eu me assustei”, zoa Sílvio ‘Sartana’, vocalista da banda pioneira no punk rock sergipano. “Me lembro de um show em que anunciaram que nosso guitarrista ia tocar com uma Fender. Foi a grande sensação do evento. A guitarra apareceu mais do que a maioria das bandas. Talvez por isso a Karne Krua tenha se destacado.
Há 25 anos na ativa, Sílvio ainda mantém 2 projetos paralelos – Máquina Blues e Words Guerrilla – e uma loja de discos – Freedom – no centro de Aracaju. Após milhares de formações, Sartana mantém-se punk e anarquista, como deixa claro em ‘Terrorismo Séc.XXI’, novo hit da KxKx. “A persistência e o prazer de fazer música é o que mantém a Karne Krua tocando por tantos anos. E os novos músicos trazem novas energias para a banda.
IN ROCK WE TRUST
O interior de Sergipe já revelou grandes bandas, como as citadas Lacertae, Urublues e Fator RH; em São Cristóvão tem The Baggios, em Propriá tem a Anjos Inocentes, Simão Dias tinha a SD Punk... “A efervescência do Rock Sertão provocou o surgimento de três bandas em Glória: Barrones, Identidade C e Distúrbio Mental”, escreveu Aline Braga no Cinform, “todas já pisaram no palco Véio Artesão, personagem emblemático da cidade. Portanto, além de estimular a criação de bandas, o Rock Sertão possibilita que elas aprendam a lição de casa tocando para um público bem eclético.
Este ano rolou cachê p/ as bandas, divulgação na imprensa, e transmissão simultânea no rádio e TV. Além disso, os shows ocorreram numa praça central da cidade. De graça! Achei que encontraria um monte de adolescentes c/ sede de rock... Mas parece que a juventude sertaneja está mais interessada em assistir Calcinha Preta e Aviões do Forró nas vaquejadas. Questão de identificação ou cultura de massa? “O sertão é impregnado dessa música, a prefeitura disponibiliza não-sei-quantos mil reais para forró eletrônico”, protesta o Padre Márcio, entusiasta do festival.
Digamos que alguém dentro da máquina do estado tenha sensibilidade e reconheça a legitimidade do trabalho dessa galera e resolva investir – eu acho ótimo”, blogou Adelvan: “Ano passado o governo saiu fora, mas o festival, veja só, aconteceu. Este ano o estado voltou a dar suporte, mas eu não tenho dúvidas de que ele iria acontecer de novo, de qualquer jeito – sem a menor visibilidade, mas aconteceria.
Na matéria ‘Dá-lhe Rock no Sertão’, Aline aponta alguns fatos que confirmam a relevância de uma festa dessa p/ a economia local. “Em maio, durante o festival, algumas lojas de roupa preenchem suas vitrines de preto e, nas viagens de compra à São Paulo, garantem o All Star do pessoal do rock. Passaram a falar a mesma língua e apoiar o evento – tanto o ambulante que vende cachorro-quente quanto o vendedor de bebidas na Praça Antônio Alves de Oliveira, ou o proprietário de estabelecimentos comerciais.
Rock'n'roll também faz parte da indústria cultural. Importada, ainda por cima. Talvez eles não precisem mesmo desse barato. Roberto Chagas, da Livraria Nordeste, resume em poucas palavras o que o Rock Sertão representa p/ o cidadão comum gloriense: “Independente de gosto, acho importante porque culturalmente diversifica os conceitos do pessoal que só gosta de forró. Não gosto de rock, go$to do$ efeito$.
AGRADECIMENTOS: ALINE BRAGA [CINFORM], RIAN SANTOS [JORNAL DO DIA] E ADELVAN BARBOSA [PROGRAMA DE ROCK]
FOTOS: SNAPIC + MARCELINHO HORA

9 comentários:

programa de rock disse...

Adolfo, você é foda. Belo texto, como sempre. Já devidamente pirateado sem autorização - se achar ruim, foda - se, heheheheh. Mas uma correção: O guitarra/vocal da Urublues é Ferdinando, Fabio é o baixista.

é nóis.

programa de rock disse...

Outra coisa, só que no caso mais subjetiva, opinião minha: Não acho que ano passado tenha dado mais gente não. Só fui em um dia, no ano passado, e tava bem vazio. Esse ano, na outra noite em que vc não foi, deu mais gente. Mas realmente esperava mais. Dificil mesmo essa coisa de rock por aqui, heim ...

Bleffe disse...

Participe da campanha "Música em troca de Fraldas", que visa ajudar às crianças desabrigadas pelas chuvas no RJ:

Música em troca de Fraldas

Viva La Brasa disse...

ae adelvan massa hahah... já corrigi os erros, inclusive a declaração do luiz. vamos nessa @

J.André disse...

ótima resenha! fico pensando de como é interessante existir um festival desse porte numa cidade pequena do interior...
abs,
jesuino
@jesuinoandre
@meusons

programa de rock disse...

A declaração de Luiz eu não consideraria um erro, apenas eu tive uma percepção diferente.

Brasa disse...

no caso, o erro foi meu de transcrição, não dele.

* Cαмiℓα * disse...

mt bom esse post!! rock sertão foi de fuder... maior apoio pra essa garotada ae! :D

Rafael Jr disse...

Vida longa ao rock sertão!
Toquei lá 3 ou 4 vezes, com a Snooze e Maria Scombona, é massa!
Espero voltar.