segunda-feira, maio 10, 2010

QUEBRA GERAL

A maneira de se conseguir boa reputação reside no esforço de ser aquilo que se deseja parecer”, sofismava Sócrates, filósofo grego que viveu entre 384 e 322 antes de Cristo.

A Grécia é o berço da civilização ocidental. Uma das primeiras nações a se organizar em cidades e desenvolver uma frota naval c/ portos e comércio externo, foi a responsável pelo surgimento da democracia, da filosofia, da literatura, historiografia, teatro, Olimpíadas, ciências políticas e alguns dos mais importantes princípios matemáticos. A colonização do mar Mediterrâneo pelos gregos resultou no desenvolvimento de uma classe rica formada por mercadores e de uma grande classe média de trabalhadores assalariados”, ensina a Wikipédia: “O padrão de vida melhorou acentuadamente, a expectativa de vida aumentou em vários anos, a população aumentou de 600.000 no século VIII A.C. para em torno de 9 milhões no séc. IV A.C.

Atenas era a maior e mais rica cidade do mundo antigo. “Existem relatos que reportam um volume comercial externo (soma das importações e exportações das cidades do império ateniense) da ordem de 180 milhões de dracmas áticos, valor duas vezes superior ao orçamento do Império Persa na mesma época”, diz a Wiki. Hoje, a Grécia é o país mais falido da Comunidade Européia. “Não há nada errado com aqueles que não gostam de política, simplesmente serão governados por aqueles que gostam”, alertava Platão, discípulo de Sócrates.

JUNK LONDEm 20 de outubro de 2009, o Ministro das Finanças anunciou um déficit de 12,5% acima do PIB até o final do ano – o dobro do previsto. Agências avaliadoras de riscos, como a Fitch e a Moody’s, baixaram a classificação grega de "A" p/ "A-"... O Produto Interno Bruto corresponde a apenas 3% da União Européia, que corresponde às 16 nações que usam o Euro como moeda. Por estarem unidos monetariamente, países que ainda não haviam se recuperado da crise de 2008 foram arrastados pela correnteza: em 26 de janeiro Portugal anunciou déficit de 9,4% e três dias depois foi a vez da Espanha, 11,4%, o pior das últimas 3 décadas.

A dívida pública da Grécia fechou 2009 em 115% do PIB, e a previsão p/ este ano é que chegue a 123%. Semana passada, a agência Standard & Poor’s passou a classificar o país na categoria “Junk Lond”, um trocadilho c/ ‘lixo’ e ‘alto risco’. “A Grécia quebrou”, explica a jornalista Renata Betti: “Não possui mais dinheiro em caixa nem fontes de financiamento para honrar os compromissos de sua dívida externa, superior a 300 bilhões de dólares.” O francês Dominique Strauss-Kahn, CEO do FMI, calculou em 120 bilhões de euros o custo imediato p/ evitar uma tragédia. Mas este valor não cobre nem metade do rombo.

No domingo, 02/05, dia seguinte ao Internacional do Trabalho, o primeiro-ministro Giorgos Papandriou anunciou um acordo c/ o FMI e a União Européia p/ economizar 30 bilhões de euros e chegar a 2014 c/ o déficit em menos de 3%. O auxílio externo implica numa contrapartida da população local: congelamento de salários dos funcionários públicos, corte dos fundos de pensão, aumento no Imposto de Valor Agregado [de 2% p/ 23%] e na idade mínima p/ a aposentadoria [60]. Os aposentados também perderão o 13º e o 14º salários caso suas pensões sejam superiores a 2500 euros mensais. “Nosso país está à beira do abismo!”, falou o presidente Carolos Papoulias, conclamando a população a cooperar.

300O sábio fala porque tem alguma coisa a dizer, o tolo fala porque tem que dizer alguma coisa”, zoava Platão. O problema é que “quando você olha para o abismo ele também olha pra você”, como diria Nietzsche, filósofo que não era grego. A Confederação Geral dos Trabalhadores convocou uma das maiores greves gerais da história, em retaliação. A terceira desde fevereiro. Na quarta-feira, os serviços de transporte – urbano, ferroviário, marítimo, aéreo – foram paralisados, a maioria das escolas e administrações públicas foram fechadas, bancos e grandes empresas estatais funcionaram a meia carga, e os hospitais garantiram apenas os atendimentos de emergência. E foram muitos.

A greve geral parou o país. Em Atenas, 100 mil pessoas concentraram-se ao meio-dia em frente ao Parlamento, segurando cartazes e gritando palavras de ordem. Quando manifestantes tentaram ultrapassar a barreira policial, houve confronto: estudantes, sindicalistas e cidadãos comuns c/ paus, pedras e lixeiras em chamas contra a polícia de choque e seus escudos, cassetetes e bombas de gás lacrimogênio. Em Salônica, segunda maior cidade, o bicho também pegou.

Os protestos rumaram p/ o centro da capital. Aos gritos de “assassinos”, um grupo de anarquistas encapuzados quebrou uma vitrine do banco Marfin e jogou um coquetel molotov que incendiou a agência. Havia 20 pessoas dentro, e 3 funcionários – duas mulheres e um homem – morreram asfixiados no incêndio. O Sindicato dos Bancários convocou uma greve geral de 48 horas em memória às pessoas vitimadas “em conseqüência de medidas pouco populares que ainda estimulam a ira”. Mais quebra-quebra na noite de quinta e tudo parado até o fim da semana.

EFEITO DOMINÓA instabilidade na Grécia derrubou as ações em todo o globo. O Dow Jones, referência da bolsa de Nova York, caiu 5,7%, e o S&P 500 cedeu 6,4%. O índice de volatilidade da CBOE, o mais usado p/ calcular a apreensão do mercado, subiu 25%. O Euro atingiu a mais baixa cotação desde março de 2009, US$ 1,29. A bolsa de Paris recuou 1,44%; Londres, 1,28%; Frankfurt, 0,81%; Amsterdã, 1,51%; Lisboa, 1,52%; Madri, 2,27%; e a de Atenas, queda de 3,91%. O barril de petróleo foi negociado a menos de 80 dólares. A bolsa de Hong Kong ficou 2,10% no vermelho; Tóquio, 2%; Austrália, 1,17%; Seul, 0,89%; Xangai, 0,26%.

O comportamento é irracional. Basta dizerem que um país está mal pra que ele fique pior”, criticou o professor de economia Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES. A Bolsa de Valores de São Paulo foi a única que registrou alta semana passada: 0,7%. “Para nos mantermos bem é necessário comer pouco e trabalhar muito!” A máxima do filósofo Aristóteles, contemporâneo de Sócrates e Platão, é o que o governo da Grécia está pedindo ao povo. Os gregos terão que fazer um esforço homérico e entrar num regime espartano nos próximos 3 anos, quando vencem as contas.

Um passado de glória e um presente de grego. A civilização helênica deixou sua marca na educação, linguagem, ciência, esporte, política, tecnologia, arquitetura e arte. A civilização atual, ao que parece, vai deixar um rombo olímpico p/ as próximas gerações. No ranking de “credit default swaps[CDS] da consultoria CMA, a Grécia ocupa atualmente o 3º lugar entre os países c/ mais risco de darem calote na comunidade internacional, atrás apenas de Argentina e Venezuela. “Em caso de uma moratória da Grécia, existe um risco significativo para a estabilidade da união monetária e o sistema financeiro atual”, alertou Axel Weber, presidente do Bundesbank, o banco central alemão.

Hoje de madrugada foi aprovado um pacote de 750 bilhões de euros [equivalente a 1 TRILHÃO de dólares] p/ resgatar as ações dos membros em crise da União Européia. A idéia não é necessariamente salvar os países da ruína, mas garantir a estabilidade do Euro. “Fazer o pior parece ser a melhor decisão”, aconselharia Aristóteles. “A partir de um certo ponto, o dinheiro deixa de ser o objetivo. O interessante é o jogo”, falou outro Aristóteles, o Onassis, megamilionário grego das indústrias aérea e naval. Ele também dizia que “não ser descoberto numa mentira é o mesmo que dizer a verdade”.

MORA NA FILOSOFIA

Tente mover o mundo – o 1º passo será mover a si mesmo.Platão

A coragem é a 1ª das qualidades porque garante todas as outras.Aristóteles

A parte que ignoramos é muito maior que tudo quanto sabemos.Platão

A educação tem raízes amargas, mas seus frutos são doces.Aristóteles

São muitos os que usam a régua, mas poucos os inspirados.Platão

O convidado é melhor juiz de uma refeição que o cozinheiro.Aristóteles

Não espere por uma crise para descobrir o que é importante em sua vida.Platão

O menor desvio da verdade multiplica-se ao infinito enquanto avança.Aristóteles

O que faz andar o barco não é a vela, mas o vento que não se vê.Platão

A felicidade não se encontra nos bens exteriores.Aristóteles

Só os mortos conhecem o fim da guerra.Platão

2 comentários:

programa de rock disse...

Daqui a pouco tudo se acalma e continua como antes no "quartel de Abrantes". Afinal, o capitalismo venceu e decretou o "fim da história" - é o sistema perfeito, não há opção possível. Não é esta a mensagem que nos é passada todos os dias, pelos meios de comunicação de massa ?

Viva La Brasa disse...

...o bloco de países emergentes formado por Brasil, Rússia, Índia e China foi apelidado de BRIC.

...o bloco de países europeus em crise, formado por Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha, foi apelidado de PIIGS.

é sério.