terça-feira, julho 06, 2010

ALAGOU-AS 
Lula chorou quando chegou em União dos Palmares e viu in-loco o rastro de destruição da enchente iniciada dia 16 de junho. Marcos Mion chorou quando viu as imagens na ilha de edição, num estúdio da Record em São Paulo. 

As chuvas que deixaram 54 mortos, 135 desaparecidos e 155 mil desabrigados em 87 cidades nordestinas foram comparadas a “um filme de terror” por Eduardo Campos, governador de Pernambuco, e definidas como “uma tragédia que jamais se viu”, por Teotônio Vilela Filho, governador de Alagoas.

O rompimento de uma barragem no município de Canhotinho aumentou a vazão dos rios Canhoto e Mundaí, e cidades inteiras submergiram – além de Palmares, Branquinha e Rio Largo praticamente desapareceram do mapa, numa catástrofe comparável ao furacão Katrina em New Orleans e o tsunami que varreu a costa do Chile. 1450 km de estradas, 69 pontes e 30% da ferrovia Transnordestina foram danificados ou destruídos em 12 horas de fúria.

Me emocionei”, disse o Presidente. “Vi muitas fotos e filmes, mas nenhum mostra o que vimos aqui hoje.Luís Ignácio é um cara do povo. Não creio que suas lágrimas sejam ‘de crocodilo’, apesar dele ser um político. Lula nasceu na região, passou fome na infância, saiu de lá num pau-de-arara, e ao sobrevoar as ruínas da chuva, desceu do helicóptero, calçou botas sete-léguas e pisou na lama p/ um téte-a-téte c/ o eleitorado [“para desespero dos assessores”, pontuou a Agência Estado].

Vamos fazer o mesmo que fizemos para Santa Catarina e com a mesma rapidez, inclusive liberar o Fundo de Garantia p/ as vítimas”, falou o presidente, que mandou liberar R$ 300 milhões da União p/ as obras de reconstrução. “Lula não vai fazer conta para ajudar Pernambuco”, assegura Campos. Disso não há dúvida. Mas por quê só agora, que a vaca já foi pro brejo... e se afogou?!

GEOPOLÍTICA DA FOME
Ô Josué, eu nunca vi tamanha desgraça, quanto mais miséria tem mais urubu ameaça!

Chico Science refere-se ao sociólogo e político pernambucano Josué de Castro na letra de Da Lama ao Caos. Em meados do séc.XX, Josué foi um dos primeiros teóricos a estudar profundamente as causas da inanição e da miséria. “Existem duas maneiras de morrer de fome: não comer nada e definhar de maneira vertiginosa até o fim, ou comer de maneira inadequada e entrar em um regime de carências ou deficiências específicas, capaz de provocar um estado que pode também conduzir à morte”, escreveu em Geografia da Fome, livro de 1946.

"Estão comendo barro pra sobreviver!", aflige-se Maxwell Padilha, médico do SAMU. Quem sabe se, caso 57% dos R$ 71 milhões da verba de prevenção de catástrofes p/ 2010 não fossem destinados exclusivamente à Bahia, estado do ex-Ministro da Integração Nacional Geddel Vieira Lima, tal desastre não tivesse sequer ocorrido? Alagoas, estado dominado pelas famílias Collor & Calheiros, tem o 2º pior Índice de Desenvolvimento Humano do Brasil – só perde p/ o Maranhão dos Sarney – e a maior parte dos municípios não tem Defesa Civil.

Em Pernambuco, falta um sistema de radares meteorológicos e há o ‘fator alma-sebosa’. “Em Palmares e na vizinha Barreiros, ouvem-se queixas”, informa o blog O Cabaré do Fim do Mundo: “O galão de água chega a R$ 10,00 – antes era R$ 4,00. Ainda sem energia, uma vela simples é vendida em Barreiros por R$ 2, o preço de um pacote inteiro segundo o morador Itaci Saldanha. O pacote de macarrão custa R$ 4, o dobro do valor. Botas para enfrentar a lama chegam a R$ 50,00. Quem não pode pagar usa sacos plásticos nos pés.” O governo solicitou reforço do policiamento, temendo uma onda de saques nos alojamentos improvisados. A Força Nacional enviou uma tropa de 40 militares.

Em Alagoas, ao invés da FN, há o FCM, novamente candidato ao governo do estado: "Dou um recado aos bandidecos de merda! Que saiam de Alagoas ou vão sentir a minha mão mais pesada, que vai cair sobre eles!" Lembram quando Fernandinho 'passou os cinco' na poupança do brasileiro, em 1990? Mão pesada mesmo...

HOMENS & CARANGUEJOS

No mangue, tudo é, foi ou será caranguejo, inclusive o homem e a lama”, comparava Josué de Castro: “A fome se revelou espontaneamente aos meus olhos nos mangues do [rio] Capiberibe, nos bairros miseráveis do Recife – Afogados, Pina, Santo Amaro, Ilha do Leite. Esta foi a minha Sorbonne. A lama dos mangues de Recife, fervilhando de caranguejos e povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejo, pensando e sentindo como caranguejo.

São seres anfíbios – habitantes da terra e da água, meio homens meio bichos. Alimentados na infância com caldo de caranguejo – este leite de lama – se faziam irmãos de leite dos caranguejos. Cedo me dei conta desse estranho mimetismo: os homens se assemelhando em tudo aos caranguejos. Arrastando-se, acachapando-se como caranguejos para poderem sobreviver. A impressão que eu tinha era de que os habitantes dos mangues – homens e caranguejos nascidos à beira do rio – à medida que iam crescendo, iam cada vez se atolando mais na lama.

Em respeito às famílias que sofrem sem perspectiva neste momento, tentei manter-me anônimo a mais este flagelo numa região já caracterizada pela pobreza endêmica. Mas ver o metrossexual Mion fazendo média na mídia às custas do sofrimento alheio mexeu c/ meus brios. “A globalização é um totalitarismo. Totalitarismo que não precisa nem de camisas verdes, nem castanhas, nem suásticas. São os ricos que governam e os pobres vivem como podem”, costumava dizer José Saramago, o Prêmio Nobel da língua portuguesa, falecido no último dia 18.

Pagamos excesso de bagagem!”, anunciou o repórter do programa Legendários, orgulhoso pelos 100 kg de donativos levados pela produção da TV às vítimas da chuva. “Tem gente que tira proveito da miséria”, diz Lula. “Tem que saber pra onde corre o rio, tem que saber seguir o leito”, ensinava Chico. “Não sou pessimista. O mundo é que péssimo”, concluiu Saramago.

SEM COMENTÁRIOS
"Este fosso econômico divide hoje a humanidade em dois grupos que se entendem com dificuldade: o grupo dos que não comem, constituído por dois terços da humanidade,[...] e o grupo dos que não dormem, que é o terço restante dos países ricos, e que não dormem com receio da revolta dos que não comem."
Josué de Castro

2 comentários:

Anderson Ribeiro disse...

Grande texto mais uma vez. Bem costurado e cheio de informações; diferentes das que vemos na TV todos os dias. Exibimos hoje no jornal uma matéria que falava das histórias que se foram com a enxurrada (documentos e acervos inteiros das cidades atingidas), à espera agora, dos governantes com seus cadastros de programas como o Bolsa Família, para identificar as pessoas e ajudar a ter uma 'identidade' de novo. Ser gente perante a sociedade.

Viva La Brasa disse...

...e olha que nem citei o cheiro de merda e a doença de rato...