sexta-feira, julho 02, 2010

JUNINHO ARACAJU FAMILY – PARTE 3
Foram diversos lugares e culturas conhecidas, pessoas muito importantes que conheci ao longo dos anos, que me ensinaram muito e mantemos até hoje uma união pura e verdadeira. Irmãos aracajuanos, Aracaju Family, irmãos em todos os locais do Nordeste, irmãos em todo o Brasil, irmãos na Califórnia, irmãos na Europa, irmãos na Ásia, irmãos na Oceania, irmãos no Caribe, irmãos na África, todos os lugares que tive chance de conhecer ou mesmo só conhecer irmãos de determinado local, e tudo isso e todos esses relacionamentos foram através do skate.

Se os skatistas parecem rappers & rock stars, a Aracaju Family poderia ser uma banda de reggae. Um power trio rasta, c/ Mosquito na guitarra e Cara-de-Sapo na bateria. No coração da banda, cantando e tocando baixo, Adelmo Jr.

Mais jovem da trinca de ases surgida em Sergipe nos anos 90 – tem 31, Fabrízio 32 e Lúcio 34 – Adelmo foi o 2º skatista local a virar PRO, aos 16 em 1995. Garoto-propaganda da Narina desde os tempos em que tinha cabelo curto e era conhecido como ‘Juninho E.T.[por ser alto, magro e ter um nível de skate do outro mundo], nunca se deu bem em competições mas construiu uma sólida reputação c/ atitude & respeito.

JAH SERVANT
Não lembro de um campeonato que Juninho tenha vencido. Seu estilo sempre foi mais streeteiro, rasgador, das ruas. Conforme foi se aprofundando na cultura rastafari e deixando a cabeleira fluir, tornou-se um personagem sui generis. Mesmo num universo underground, cosmopolita, multiétnico e cultural como o do skate, Adelmo chama atenção não só por sua técnica sobre o carrinho, mas também por sua postura zen e seus imensos dreadlocks – os mais longos do skateboarding mundial.

Parceiro do Mosquito de 1ª hora, acompanhou o amigo nos circuitos brasileiro e mundial. Morou um tempo na Europa na virada do século, sem residência fixa, até mudar-se definitivamente p/ a Califórnia em 2001 – quando entrou p/ as equipes Arcade e IPath. “Gosto de andar de skate nos centros das cidades, e nos EUA tem um monte de lugares bons pra isso”, falou em entrevista a Quim Cardona p/ o site da Organika, seu atual patrocinador.

É um dos PRO skaters mais procurados pela mídia atualmente. No início do ano ganhou 8 páginas na edição #173 da TRIBO Skate. “Adelmo Júnior é outro que fez seu nome levando junto sua região, seu país e suas crenças”, escreveu o editor César Gyrão: “O sergipano agora é cidadão do mundo e usa seus dons para unir pessoas, transbordando positividade. Não é à toa que conquistou uma boa situação como profissional, mas também muitos amigos pelo mundo.

TRANSWORLD
Astro dos filmes IT’S OFFICIAL, da Kayo [2007], BUILD A NATION, da Organika [2008], e GIVE ME MY MONEY, CHICO, da LRG [2010], foi entrevistado em março pela revista americana TRANSWORLD Skateboarding, que enviou o repórter Josh Brooks e o fotógrafo Dave Chami a Costa Mesa, onde Juninho vive c/ a família – esposa, filha e Aracaju Family.

TransWorld - Vc tá na Organika há um bom tempo, certo?
Adelmo Jr. - Yeah, e antes eu estava na Arcade. Foi a primeira companhia que me adotou aqui. Entrar p/ a Arcade foi o que me fez mudar pra cá. Eu estava na Europa quando eles me contrataram.

TW - Você tb fez parte da IPath, desde o começo da marca...
AJ - Entrei p/ a IPath em 2001.

TW - Mas, eles passaram por mudanças recentemente. O que aconteceu?
AJ - Eu tava no Brasil na tour da LRG e um dia recebi um e-mail do nosso team manager dizendo que eles queriam ir numa direção diferente e, pelo que eu soube, algumas pessoas foram demitidas.

TW - That’s a bummer.
AJ - Well, I’ve been in skating for a long time and I know it’s a business. É triste, porque eu acho que as pessoas gostam de uma marca como a IPath pelo que a companhia representa e defende. Mas, as pessoas não entendem que na maior parte do tempo p/ a empresa, isso é um negócio.

TW - Mas, vc é uma pessoa quintessencial quando eu penso na IPath.
AJ - You know, a comunidade do skate é bem unida, uma comunidade passional, tá ligado? Muita gente pra quem contei reagiu tipo, ‘Man, really? I can’t believe... What happened?’

TW - So, did you lose it and go on a rampage in the office when you got back?
AJ - No, I was in Brazil. Mas, nós tivemos uma reunião bem legal em novembro. Eles nos disseram que tinha sido um bom ano. They talked about a lot of things, you know? Então, quando recebi o e-mail no Brasil, foi bem inesperado.

TW - Sounds like it. Mas, vc deve ter tirado o melhor disso tudo.
AJ - That’s the way I live life, you know? Eu tenho uma fé muito forte. A educação rastafári ensina que tudo vem p/ vc por uma razão e Jah é meu guia, tá ligado? Eu só quero o que Jah me dá. Algumas pessoas gostam de julgar a situação, mas eu prefiro apreciar tudo o que acontece.

TW - Vc tem realmente um olhar positivo sobre tudo. Eu nunca te vi aborrecido. Mas, crescendo no Brasil, já teve alguma vez que se defender ou entrar numa briga?
AJ - Eu nunca briguei na minha vida, mas o Brasil é um lugar que, ao longo da história, europeus vieram e roubaram muito nosso país e exploraram os nativos, então até hoje em dia, você tem essa influência no Brasil, tipo muito roubo e alguma violência. Dependo da área, da hora, e com quem vc tá, vc pode ser roubado. Com certeza houve vezes, quando eu tava crescendo, que as pessoas me abordaram numa área diferente, onde eu não conhecia ninguém. Às vezes, dependendo do jeito que vc fala c/ eles, you can get out of it, you know? Às vezes vc tem que se defender, mesmo. As pessoas estão tentando sobreviver e às vezes esse é o único meio de se conseguir alguma coisa, roubando. It’s hard, you know?

TW - Vc acaba de fazer essa trip pro Brasil c/ a LRG. É tipo voltar pra casa, mas o quanto o Rio difere de Aracaju?

AJ - Minha cidade é a capital do menor estado do Brasil, então comparada a Rio e São Paulo, é bem pequena. Na minha cidade ainda temos uma ‘vibe’ interiorana. Tipo, se vc não conhece certa pessoa, pelo menos já a viu em algum lugar antes. Rio e São Paulo são simplesmente cidades gigantes c/ milhões e milhões de habitantes – a lot going on. Whatever you want to eat you’ll find. Whatever you want to see, you can see. The difference is pretty much that. E tem tb o estilo de vida brasileiro. Aracaju fica na costa, então as pessoas são bem relaxadas. Vc vai num restaurante e espera uma hora pela comida, às vezes. But, it’s just the way it is. Like, ‘No worries!’

TW - Foi lá que vc se iniciou na cultura Rastafari, tipo crescendo cercado por esse clima relax?
AJ - Yeah, ouvindo música desde cedo. Minha mãe é bem atlética e ela tinha uns discos – alguns deles de reggae – que eu comecei a ouvir. E isso meio que me fez encontrar um link p/ a Bíblia. Rastafari baseia-se nos ensinamentos cristãos. É só um jeito diferente de respeitar os caminhos da criação – o modo como Jah criou a Terra – e um jeito de viver o melhor possível, respeitando a natureza e todos ao seu redor.

TW - Parece que vc vive uma vida muito pura, mas vc tb vem da capital do estado bem acima da Bahia, onde rolam festas de carnaval massivas. Do you ever go down there and partake?
AJ - It’s funny because a lot of people ask me about Carnival. Eu costumava ir quando era mais novo. Mas, via muita loucura – gente sendo roubada, gente apanhando. Algumas pessoas vão c/ suas famílias, esposas, e neguinho tira onda mesmo e começam as brigas. A celebração é basicamente enlouquecer por 5 dias e no 6º dia relaxar e esquecer tudo o que vc aprontou. I just try to avoid it.

TW - It’s kind of like Mardi Gras in New Orleans, right? É divertido, mas antes que vc se dê conta, tem gente fazendo sexo no beco e gente brigando na rua.
AJ - Yeah, vc vai aonde o povo festeja e tem tipo um milhão de pessoas no mesmo lugar. Ao mesmo tempo, pra quem nunca experimentou é bem legal, vc vê um monte de gente brincando e os caras tentando pegar as garotas. So, it’s fun too.

TW - O Brasil é conhecido pela dança – especialmente durante o carnaval – so can you cut a rug like that?
AJ - Yeah, eu costumava dançar nessas paradas. É engraçado. O samba, vc tá ali no meio e começa a dançar, even if you’re not much a dancer.

TW - As meninas chegam junto c/ suas fantasias e vc tem que começar a se mexer, certo?
AJ - Your body starts moving on it’s own.

TW - Eu sei que uma coisa que todo mundo te pergunta é sobre seu cabelo, então eu peço desculpa, mas tenho que descobrir algumas coisas por mim mesmo. O que fez vc decidir não cortá-lo?
AJ - It’s like another rule – a Biblical quote. Eu sigo alguns dos caminhos Rastafari de fazer certas coisas e evitar outras. E um desses caminhos é não cortar seu cabelo. As pessoas viajam, tipo ‘Man, it’s getting long!’... É apenas uma parte de mim e da minha vida.

TW - Não posso falar pelos outros, mas quando eu vejo vc andar de skate seu cabelo é hipnótico, tipo uma anêmona do mar ou coisa do tipo. I think it’s tight.
AJ - Some people like it... É engraçado, meu pai um dia olhou pra mim e disse, ‘Ei filho, vc não corta seus deadlocks por causa do skate?’. Tipo, ‘eles te disseram que era pra não cortar?’. E eu, ‘Não pai, esse é o caminho que eu escolhi viver – algo que sigo e acredito.’

TW - That’s a part of the Rastafari practice, thought, right?
AJ - Não é uma regra obrigatória, mas muitos rastas escolhem segui-la como mandamento bíblico. Muitos rastas evitam álcool, evitam algumas comidas – Deus pediu a Moisés que dissesse isso às pessoas. Pra seguir Deus na outra vida, vc tem que fazer certas coisas. Vc não é obrigado a fazer. You choose to do what you want to do.

TW - Parece que seu pai não se acostumou muito c/ a idéia.
AJ - Yeah, a maioria dos brasileiros tem uma educação católica, então muita gente, até os protestantes e evangélicos, julgam e tentam entender por que eu quis deixar meu cabelo desse jeito. Anthony Claravall sempre me fala: ‘Na primeira vez que fui a Aracaju, pensei que veria um monte de rastas ouvindo reggae nas ruas – people like you.’ Quando ele vai lá, vê todo mundo na minha cidade olhando esquisito pra mim. Ele até me disse, ‘Me sinto mais bem-vindo aqui do que vc!’ [risos]

TW - Pra quem nunca chegou perto, fale sobre os cuidados que vc tem c/ os locks... Costuma lavá-los?
AJ - Yeah, for sure. You have to. Algumas pessoas criticam, dizem que é sujo. Mas, tudo o que vc precisa fazer é ficar limpo – seu cabelo e vc.

TW - It’s amazing how long it is, thought. Vc já cortou ele alguma vez?
AJ - No, not really. Ah! Muita gente pergunta sobre andar de skate, se o cabelo já ficou preso nas rodas e tal, mas não, nunca aconteceu.

TW - Eu tenho amigos cabeludos cujo comprimento é bem menor e eles já ficaram presos em portas, coisas assim...
AJ - Talvez uma vez na porta do carro, mas nada demais.

TW - O outro cenário que vem à mente é na hora de urinar. Tipo, alguma vez rolou de vc olhar pra baixo ou puxar a descarga e o cabelo ir junto?
AJ - Não, eu tento deixar ele preso nessas situações. Isso nunca aconteceu.

TW - All right, enough hair talk... Um de seus skatistas favoritos na adolescência foi Guy Mariano, certo?
AJ - Yeah, Guy e Karl Watson eram os preferidos... Os primeiros vídeos que assisti foram H-Street e os velhos filmes da Powell-Peralta. Então, eu sempre gostei do jeito do Guy andar de skate, tá ligado? A primeira vez que vi Karl num vídeo foi tipo, ‘Man, I love this guy’s skating, you know?’

TW - Como vc conseguiu esses vídeos lá no Brasil?
AJ - Minha cidade tem muitos surfistas, e às vezes eles iam a São Paulo ou Rio – as cidades grandes. Alguns desses surfistas começaram a andar de skate. Muitos amigos meus surfavam, e eles sempre lembravam de mim, ‘Tenho um vídeo de skate pra vc aqui, ó!’ Eu ficava amarradão. Watching the first videos was cool.


TW - Definitivamente fica claro no seu estilo a influência de Karl.
AJ - It’s funny. Ele foi uma grande inspiração na minha adolescência. Quando eu cheguei aqui, ele me chamou pro time dele, ‘I want to put you on this’. Ele insistiu pra eu entrar na Organika, mesmo quando eu corria pela Arcade. Mas, eu tenho muito respeito pela Arcade, porque foram eles que me trouxeram pra cá, então me mantive leal. Quando a Arcade quebrou, foi uma coisa natural pra mim entrar p/ a Organika.

TW - Quais as partes de Guy e Karl nos vídeos que ficaram na sua memória?
AJ - Do Guy, a parte do Video Days’. Eu era pivetão quando assisti esse vídeo e fiquei impressionado c/ o switch stance e as transições dele. ‘Mouse’ era um dos favoritos tb. Do Karl, a parte do ‘Mad Circle 5 Flavors’. I love that part.

TW - Vc pirou quando conheceu esses caras?
AJ - I did. Algumas pessoas que eu assistia quando tava crescendo hoje vem me cumprimentar. Tipo, ‘Man, I like that one trick you did.’

TW - Eles vêm te dizer que gostaram de algo que vc fez e vc, ‘Não não, eu gostei do que vcs fizeram!’...
AJ - Yeah, yeah... That’s true. Eles tipo, ‘Eu sou seu fã’, e eu tipo, ‘E eu sou seu fã! Thanks for that, but you are responsible for maybe me being created.’

TW - Apesar do lance da IPath, a boa notícia é que vc tem uma parte de destaque no novo vídeo da LRG, certo?
AJ - Yeah. Espero que as pessoas gostem. A gente foi a lugares incríveis. Eu, Karl, Chico, Rodrigo, Jack, TX, Rob, nós somos amigos e estamos juntos há um bom tempo na empresa. Foi uma coisa incrível p/ nós, porque já tínhamos uma amizade e tocar um projeto juntos foi simplesmente incrível, cara.

TW - Pra onde vcs viajaram neste vídeo?
AJ - Fomos p/ a China duas vezes. Fomos p/ a Tailândia. Nova Zelândia, Austrália. Viajamos um monte dentro dos EUA. E tb fomos pro Canadá.

TW - Depois de ‘Give Me My Money, Chico’, vc tá trabalhando em quê?
AJ - Nós temos conversado sobre um novo vídeo da Organika. Já temos algum material gravado, mas todo mundo tá num projeto diferente agora. Acho que é uma boa hora p/ viajar e trabalhar nisso. Hopefully, that’s the plan.

PATROCÍNIOS: Organika / LRG / Viva Wheels
MÚSICA: Jah music – Midnite, Reação
HERÓI: The Almight Creator

ANÚNCIO DA ORGANIKA, PRINCIPAL PATROCINADOR

VISUAL PARADISÍACO NA TAILÂNDIA, FILMANDO P/ A LRG

SWITCH STANCE FS BOARDSLIDE EM SALVADOR, BAHIA

ANÚNCIO NA INTERNET DA REVISTA TRANSWORLD, EUA


Um comentário:

Luiz Oliva disse...

Irada essa série da "Aracaju Family"! Nunca, que eu saiba, houve um apanhado da história dessa galera! O que é do mundo, tem que ir pro mundo!