sexta-feira, agosto 13, 2010

A MORTE DÁ UMA CARONA 
Quando Quentin Tarantino estreou na direção c/ CÃES DE ALUGUEL, em 1992, foi saudado como o novo enfant-terrible do cinema de ação de Hollywood, comparado a Sam Peckinpah e Martin Scorsese. Os produtores o amavam, a crítica especializada estava a seus pés, e as mulheres começavam a ir p/ sua cama.

A vida era só festa p/ o jovem diretor de 29 anos, até que em uma entrevista um repórter o indagou:

- Você não acha Reservoir Dogs um filme machista? Fora a citação à Madonna, a única personagem feminina é a garçonete, que mal aparece e não tem um papel relevante na trama...

- Cães de Aluguel é um filme de assalto, e os caras não levam suas namoradas a esse tipo de programa!

Recusou propostas p/ dirigir Velocidade Máxima e Homens de Preto, preferindo uma temporada em Amsterdã, onde escreveria PULP FICTION, a obra-prima que lhe rendeu a Palma de Ouro em Cannes em 94 e o Oscar de melhor roteiro original em 95. De novo, a vida era só festa.

Mas a acusação de machismo deve ter surtido algum efeito. JACKIE BROWN, seu filme seguinte, é uma versão p/ o livro Ponche de Rum de Elmore Leonard protagonizada por Pam Grier, musa do blacksploitation. KILL BILL foi escrito especialmente p/ Uma Thurman, sua atriz favorita.

E DEATH PROOF é todo sobre mulheres. E carros.

BIKINI GIRLS WITH MACHINE GUNS
Quinto filme de Tarantino, À PROVA DE MORTE faz parte do projeto Grindhouse, uma ode aos filmes baratos dos anos 70 e 80 exibidos em sessões duplas, às vezes triplas, em salas de cinema vagabundas. Lançado em 2007 numa dobradinha c/ PLANETA TERROR, do mexicano Robert Rodriguez, a projeção original durava 191 minutos.

Se no início dos multiplex os lanterninhas enlouqueciam c/ os clientes que trocavam de sala entre uma sessão e outra, os 2 filmes de Grindhouse tiveram que ser relançados separadamente diante da impaciência das platéias de hoje. O projeto chegou a ser exibido na íntegra na Mostra de Cinema de São Paulo, mas permaneceu inédito no circuito comercial e só o de Rodriguez saiu por aqui, em DVD.

Logo nos créditos de abertura, Planeta Terror diz a que veio, c/ a pole-dance de Rose McGowan, a stripper Cherry Darling, que tem a perna amputada e usa como prótese uma metralhadora.  Essa solução, arrumada pelo ex-namorado El Wray, se revela muito útil quando a cidade é invadida por uma horda de mortos-vivos. Dependentes do gás denominado Agente Químico p/ sobreviver após terem assassinado Osama Bin Laden, um grupo paramilitar chefiado por Bruce Willis fabrica zumbis em retaliação ao governo americano.

Insana homenagem a George A. Romero, criador do gênero, feita por um sujeito que começou a carreira no México trabalhando como cobaia em laboratórios de remédios p/ levantar os U$ 7 mil necessários p/ rodar seu 1º filme, El Mariachi. Além de escrever e dirigir, Robert Rodriguez produziu, fez a luz, compôs a música e editou essa história de terror c/ grandes personagens, como JT, o barman que só pensa em aperfeiçoar seu molho de churrasco. O parceiro Quentin e o ator Naveen Andrews – o Said de Lost – aparecem perdendo as bolas, cada qual à sua maneira.

Outros personagens transitam entre os 2 grindhouses: o xerife, as gêmeas The Crazy Babysitter Twins, e a anestesista Dakota Block [Marley Shelton], que tem um caso c/ a Fergie [Black Eyed Peas] e carrega suas seringas coloridas na cinta-liga. Todos esses protagonistas de Planeta... são apenas coadjuvantes em Death Proof, finalmente lançado no Brasil no último mês de julho.

ADIVINHE QUEM VEM P/ JANTAR 
À Prova de Morte é um autêntico produto da marca Tarantino: colorido, verborrágico, violento, c/ muitas referências ao cinema e mulheres bonitas & fortes, o que tem sido uma constante mesmo no filme de guerra Bastardos Inglórios, que tem na judia fugitiva Shoshana Dreyfus [Melanie Laurent] uma de suas figuras centrais, e cujo sucesso comercial viabilizou a exibição de Death Proof nos cinemas nacionais – apesar de permanecer inédito nas salas de Aracaju.

A estética de Grindhouse inclui descolorações, riscos na película, imagens trepidantes, simulação de filme queimado, rolo faltando, projetor avariado, tudo p/ remeter à sensação de estar assistindo uma cópia gasta numa sala decadente. Esses ‘defeitos’ são mais explícitos em Planeta Terror.

Quentin Tarantino é um fetichista sem-vergonha, e sua maior tara são filmes antigos. “Eu nunca freqüentei a escola de cinema. Eu freqüentei o cinema”, disse certa vez o ex-balconista de locadora e atual gênio da 7ª arte. Em DP tudo é pontual, desde os erros propositais – marcação de corte aparecendo na tela, montagem tosca desde a abertura, que sugere que o nome original seria Thunder Bolt – até as cenas de ação e violência.

O ritmo da história é marcado pela trilha sonora garimpada no fundo do baú da música pop –outra característica sua – como Jeepster do T-RexGood Love Bad Love de Eddie Floyd, Gangster Story dos irmãos De Angelis e Hold Tight dos obscuros Dave Dee, Beaky, Mick & Tich. Há uma do maestro Burt Bacharach e duas do italiano Ennio Morricone, compositor nos western spaghetti do mestre Sergio Leone, referência recorrente desde Kill Bill e Inglorious Bastards [“Era uma vez, em uma França ocupada pelos nazistas...”].

Death Proof começa c/ um ronco de motor dando a deixa p/ The Last Race, de Jack Nitzsche. Rose McGowan e Tarantino atuam novamente, em papéis diferentes. Ela é um loirinha oxigenada sem noção do perigo e ele é Warren, o dono do jukebox bar onde as garotas passam a noite.

Logo de cara, o diretor – que também assina roteiro, produção e fotografia – nos oferece 2 takes c/ o melhor ângulo de Sydney Tamiia Poitier, filha caçula do ator Sidney Poitier. Lembram dos anéis nos pés da Bridget Fonda em Jackie Brown? E do próprio Quentin bebendo champanhe nos pés da Salma Hayek em Um Drink no Inferno? Pois aqui o bastardo exercita sua podolatria em toda sua extensão, c/ planos abertos, médios e close-ups de pezinhos ao vento c/ unhas pintadas de vermelho, pernas pra cima da mesa, coxas, bumbuns e... virilha. 

Sydney Tamiia é Jungle Julia, a DJ mais sexy de Austin, Texas, onde se passa a 1ª parte do filme. Ela arrebenta dançando Baby It’s You girando o cabelão, mas quem quebra a banca mesmo é Vanessa Ferlito e seu lap dance ao som de Down In Mexico, dos Coasters. As duas passam o filme quase todo de shortinho. “O segundo maior fetiche é com os pés”, diz Lola Aronovich, do blog Escreva Lola Escreva, “o terceiro é com bundas. O fetiche principal é com carros mesmo.

CORRIDA CONTRA O DESTINO
Death Proof é um filme de carros. E dublês. Kurt Russell é Stuntman Mike, o redneck que escolhe suas vítimas escutando It’s So Easy, de Willy Deville, dentro de seu Chevy Nova preto c/ uma caveira estilizada no capô e um pingente de pato no bico – o tal carro 'à prova de morte' do título.

Na eleição de 2002 do Sight and Sound Directors, Tarantino foi convidado a listar sua principais referências cinematográficas. Ele citou, nesta ordem: Três Homens em Conflito, Rio Bravo, Taxi Driver, His Girl Friday, Rolling Thunder, They All Laughed, Carrie, Coffy, Dazed and Confused, Five Fingers of Death e Hi Diddle Diddle.

Em outras oportunidades ele já havia mencionado Acossado de Jean-Luc Godard, Blow Out de Brian de Palma, Mean Streets de Scorsese, Per Qualche Dollaro in Più de Leone, e mais meia dúzia de undergrounds: Breathless, One-Eyed Jack, Band à Part, Le Doulos, They Live by Night, The Long Goodbye.

Pulp Fiction foi um tributo à cultura de almanaque. Kill Bill é uma saga de kung fu. E Bastardos Inglórios, seu suposto ‘filme sério’, é um faroeste ambientado na 2ª Guerra Mundial. P/ seu filme grind, Tarantino disse em Cannes que bebeu no sangue do gênero Slasher: Massacre da Serra Elétrica, Sexta-Feira 13 e Halloween. E há inúmeras auto-referências, desde os diálogos dentro do carro [Pulp Fiction] e na lanchonete [Cães de Aluguel] até o ringtone do celular do xerife, Song Number 1 [Kill Bill].

Também lembra Crash, de David Cronenberg, cortesia do Stuntman Mike. O pessoal do blog Amálgama traçou o perfil psico[pato]lógico do homem da cicatriz: “O personagem sublima a falta de amor/sexo de belas mulheres por meio de perseguições e rachas excitantes. Para ele, o possante carro é como extensão do pênis, e não à toa deseja literalmente penetrar as mulheres com o veículo.

A escolha de Russell remete aos filmes B de John Carpenter estrelados pelo ator, Fuga de Nova York e Aventureiros do Bairro Proibido. E ao fazer Stuntman Mike olhar p/ a câmera toda vez que vai aprontar alguma – como o Ferris Bueller de Curtindo a Vida Adoidado – o diretor nos torna cúmplices do que vai acontecer. 

A dublê australiana Zoë Bell entra em cena interpretando ela mesma na segunda parte, ambientada em Lebanon – existe mesmo uma cidade chamada Líbano’ nos EUA – na qual usa o Dodge Challenger branco de Vanishing Point [Corrida Contra o Destino, 1971] p/ um ajuste de contas no duelo de ‘muscle cars’ motor V8: uma perseguição na estrada estilo Bullit, coração na boca.

I SPIT ON YOUR GRAVE
Quentin Tarantino é um sádico. Mas o que esperar de um cara nascido no Tennessee, batizado c/ nome de presídio porque a mãe era fã do Burt Reynolds? “Em À Prova... ele consegue fazer um filme machista tendo mulheres em papéis de enorme destaque. É machista porque, apesar da autoconfiança de algumas personagens femininas, e do final, puro girl power, elas acabam sendo vítimas, e da forma mais misógina possível”, diz Lola:

Quando um diretor coloca em cena uma mulher fazendo strip tease ou, no caso, uma dança erótica, e coloca um homem em cena olhando pra essa mulher, temos um olhar duplo: do personagem homem olhando e desejando a mulher, e do espectador homem olhando e desejando a mulher. É uma justificativa pra servir a mulher de bandeja pro público.

O filme termina c/ Chick Habit, de April March.

SE ASSISTIR, NÃO DIRIJA
 
CARTAZ DA SESSÃO DE ESTRÉIA, 06 DE ABRIL DE 2007
DEATH PROOF: GAROTAS BOAS VÃO PARA O CÉU...
 ...AS MÁS VÃO PARA ONDE LHES DEREM CARONA
 DANIEL TREJO, O 'MACHETE' DO FALSO TRAILER
 ROBERT RODRIGUEZ NO SET DE PLANETA TERROR
  A STRIPPER CHERRY DARLING, MUSA DA ACROTOMOFILIA
 SYDNEY TAMIIA POITIER, A JUNGLE JULIA...
...PERNAS, PRA QUE TE QUERO! 
LUZ... CÂMERA... DESTRUIÇÃO

3 comentários:

Rafa Aragão disse...

não dá pra entender como esse filme ficou tanto tempo na "geladeira" e só agora foi ao cinema aqui no Brasil. Depois reclamam da pirataria, sem ela ainda não teríamos conhecimento desse filme, que é muito bom.

Daniela Rodrigues disse...

Grindhouse é foda! 1º filme que passamos no Cineveggie. E isso foi há 3 anos atrás!!! Fomo pioneiros hein?! Hehehe. Tem altas referências de Tarantino à Jack Hill - diretor de Switchblade Sisters entre outros. Tô louca pra ver Machete!

Viva La Brasa disse...

Dani, vc tá sempre na vanguarda, garota.
Rafa, preciso devolver sua cópia, heheh...