quarta-feira, setembro 22, 2010

VALES DE NETUNO
It’s very far away/ It takes about a half day to get in there/ If you travel by my/ Dragon fly”... Não, não é na Espanha. “But anyway, it’s a groovy name”...

Estados Unidos da América.

Você pode ser antiamericano, comunista, muçulmano, vegetariano. Pode odiar o capitalismo selvagem, o imperialismo ianque, Hollywood & fast food. Mas há de convir que, quando os gringos cismam de ser os melhores em alguma coisa, eles conseguem. 

Surf & rock são duas expressões humanas, americanas até no nome. Tudo começou lá: Duke Kahanamoku, Jerry Lee Lewis, Mickey Dora, Eddie Cochran, Gerry Lopez, Elvis Presley.

De Pearl Harbor a Hiroshima. Da Guerra da Coréia às Torres Gêmeas. Repúblicas de Bananas, Revolução Cubana, Oriente Médio. Lá estão eles. Pro bem e pro mal.

Jazz. Pop art. Graffiti. Gonzo. Punk. New Wave Hookers. Just do it.

2001, Taxi Driver, Star Wars, Pulp Fiction, Matrix. Dogtown & Z-Boys.

Vietnã, Watergate, Wall Street, Windows, Madonna, MP3. Wireless.

Simpsons, South Park, Bob Esponja. Bob Dylan, que apresentou maconha aos Beatles.

Ernest Hemingway. Elmore Leonard. Edward Bunker. E Charles Bukowski, que era alemão mas escrevia sobre Los Angeles. E Nova Orleans. Nova York. E Miami.

Disney. Will Eisner. Stan Lee. Rick Griffin. Robert Crumb. Freak Brothers. Irmãos Hernandez.

LSD. Cheech & Chong. Cypress Hill. Beck. Budweiser. Hell Yeah.

Betty Boop. Betty Page. Traci Lords. Sylvia Saint.

Suicide Girls. Dita Von Teese.

Alt-porn. Apple. Google.

ARE YOU EXPERIENCED?
...“Now, if 6 turn out to be 9/ I don’t mind/ I don’t mind”...

Sábado 18 foi um grande dia p/ o surf & o rock dos EUA. Um dia p/ celebrar. E se lembrar. 
Kelly Slater, 38 anos, marca 18.13 pontos em 20 possíveis e vence o Hurley Pro Trestles, 6ª etapa do ASP World Tour, voltando ao topo do ranking e acelerando com tudo rumo ao 10º título mundial – algo sem precedentes.

Olhando para trás em minha carreira, eu nunca teria sonhado com o nono título, muito menos um décimo!”, disse o eneacampeão no pódio: “Não sei o que dizer. Ainda há um longo caminho pela frente e ainda temos quatro eventos. Agora quero apenas curtir esta vitória e não pensar em tudo isso.

Lower Trestles é uma onda ideal p/ o surf de alta performance, pista perfeita p/ aéreos, batidas, cut backs, o escambau. Foi lá que KS obteve sua primeira vitória profissional, em 1990, aos 18 anos. Nesta década foram mais quatro – 2005/07/08/10 – que somadas c/ tantas outras ao redor do globo totalizam 43.

Isso se contarmos apenas os eventos válidos pelo título mundial.

Slater é gênio não apenas por suas vitórias. É gênio por levar o surf a novos patamares. P/ o bem ou p/ o mal.

Ele derrubou as barreiras que separavam as competições do surf de aéreos, participou e venceu eventos de ondas grandes como o Eddie Aikau Memorial; desenvolveu pranchas mais leves e estreitas nos anos 90 em parceria c/ Al Merrick, e modernizou templates retrô como o modelo Deep Six, que usou p/ vencer em Pipeline, às vezes shapeando suas próprias pranchas e fazendo escolhas pouco usuais, como quadriquilhas – nem sempre sendo bem-sucedido.

Seu fiasco mais notório foi a participação no seriado Baywatch [no Brasil, SOS Malibu] em 1993. Mesmo assim, namorou a garota do programa, Pamela Anderson. Predador nato, conquistou um sem-número de anônimas e famosas, como a über top Gisele Bündchen, que foi a Trestles em 2005 só p/ dar mole pro cara...

É gênio porque enxerga na frente e não teme experimentar. Dizem que surfa do jeito que surfa porque tem a melhor leitura de onda no mundo. Na minha opinião, tem a melhor escrita também.

Ao longo dessas duas décadas de circuito mundial, vem pressionando juízes e cartolas por mudanças no formato de competição – chegando a aventar a possibilidade de criar uma nova associação independente.

Ferrenho defensor de melhor remuneração no esporte, levou US$ 105.000 por sua vitória no último sábado. A maior premiação do surf p/ o maior competidor do surf [mas ano que vem a etapa mais rica será a do Brasil, U$500 mil p/ o campeão no RJ].

Um herói nascido na Flórida triunfando num campeonato na Califórnia patrocinado por uma empresa local. Os gringos amam muito tudo isso. Festa 100% yankee no dia em que se completavam 40 anos de morte do maior gênio do rock.

AXIS: BOLD AS LOVE
I need help bad, man” foram as últimas palavras de Jimi Hendrix no fatídico 18 de setembro de 1970. Ele havia misturado soníferos c/ vinho e ainda conseguiu ligar p/ um amigo pedindo ajuda, antes de morrer sozinho num quarto de hotel, sufocado no próprio vômito, aos 28 anos.

Apenas 4 anos antes, ele chegava à Londres p/ fazer história. Nascido em Seattle e c/ passagens pelas bandas de Little Richard, BB King e Ike & Tina Turner, foi descoberto pelo produtor inglês Chas Chandler quando tocava c/ o bluesman Curtis Knight.

Canhoto, Jimi tocava c/ as cordas invertidas e  usava a base adquirida no blues e no R&B p/ solos c/ bends e legato, baseados na escala pentatônica. Era performático & incendiário em seus shows, tocando c/ a guitarra nas costas, mordendo as cordas c/ os dentes ou ateando fogo na sua Fender Stratocaster, modelo que popularizou e se tornou quase sua marca registrada, embora também usasse uma Gibson Flying V invocada.

Marshall era seu nome do meio e também a marca de amplificadores de alta potência que deram peso e saturação ao seu som único. Jimi explorou a microfonia nos palcos como ninguém fez igual até hoje, transformando um barulho indesejado numa nota a mais. Gostava da alavanca de tremolo da Fender e dos pedais Fuzz e Wah-Wah, que lhe permitiam entortar acordes sem perder a afinação. Amava a experimentação.

Seu equipamento de amplificação consistia geralmente de seis caixas Marshall 4x12, um monitor 4x12 e quatro amplificadores Marshall de 100 watts envenenados”, conta a Wikipedia: “O pessoal da técnica costumava ter dificuldades em manter seu equipamento funcionando em turnês porque ele ligava tudo no máximo, sobrecarregando muito além dos limites, e frequentemente atacava o equipamento.

C/ seu power trio The Jimi Hendrix Experience, lançou 3 obras-primas em 2 anos: ARE YOU EXPERIENCED? e AXIS: BOLD AS LOVE em ’67 e ELECTRIC LADYLAND em ’68. Mitch Mitchell na bateria, Noel Redding no baixo, JH nos vocais, guitarra e efeitos de estúdio – outra fronteira desbravada pelo descendente de índios & negros americanos. Foi um dos pioneiros na estereofonia. Em parceria c/ o engenheiro Roger Mayer, desenvolveu dispositivos de vibratos e simuladores eletrônicos de alto-falantes como a Axis Fusion Unit, o Octavia Octavia Doubler e o Uni-Vox Uni-Vibe.

Jimi dizia que até o som do ar assobiando no pára-quedas quando serviu o exército no Kentucky o inspirava a criar suas músicas.

ELECTRIC LADYLAND
Lembro-me de um homem muito acessível, com quem era prazeroso trabalhar. Era o contrário do artista explosivo no palco. Tinha um carisma indiscutível”, recorda-se o fotógrafo Gered Mankowitz, que retratou Hendrix em duas sessões no seu estúdio, em ’67. As fotos em P&B são as mais conhecidas do guitarrista, reproduzidas constantemente em coletâneas, relançamentos e matérias em revistas.

Jimi Hendrix é tão popular porque ele é a representação da fórmula sexo, drogas e rock’n’roll. Mas não estou tão certo se hoje ele teria esse status se ainda estivesse vivo. Como dizem, herói bom é herói morto”, diz Yazid Manou, curador da mostra The Experience - Jimi Hendrix in Mason’s Yard, que reúne na loja Renoma, em Paris, 70 das 120 imagens feitas por Mankowitz, além das extravagantes roupas mod do astro.

Jimi se ressentia por não ser tão reconhecido como compositor quanto era – e é – como instrumentista. Concordo c/ ele: tremenda injustiça. O negão deixou um legado de canções incríveis, ao ponto de Are You Experienced? ser considerado o melhor álbum de estréia de um artista na história do rock.

Seus dons quase sobrenaturais com a guitarra elétrica e seu controle hábil dos efeitos especiais nunca foram superados; seu jeito de tocar foi um abalo sísmico numa época em que músicos como Eric Clapton estavam no auge”, diz Mark Blacklock, ex-editor da revista Bizarre e criador da rádio pirata Negativland:

Na versão em  CD repaginada e remasterizada, lançada em 1997 e produzida sob a égide do engenheiro de som original Eddie Kramer, três singles (o cortante clássico acid Purple Haze, Hey Joe – seu primeiro sucesso, sexto lugar na parada britânica – e a terna The Wind Cries Mary) foram incluídos. São fatias da história do rock que não perderam o poder de excitar e fazer viajar. Mas não havia buracos no original.

O LP lançado primeiro no Reino Unido começava c/ Foxy Lady, um rock c/ letra safada e guitarras funkeadas; ficava pesado em Manic Depression, Love or Confusion e Fire; blues em Red House; melódico em May This Be Love; e psicodélico em Third Stone From The Sun e na faixa-título, que encerrava o disco: “Have you ever been experienced?/ Well, I have”...

BAND OF GYPSYS
Hendrix seguiu sua tour-de-force nos 2 discos que completam a trilogia do Experience. “Com a possível exceção do Cream, The Jimi Hendrix Experience era o melhor power trio do mundo. Enquanto sua fama como músicos e improvisadores extraordinários garantia ao grupo um enorme reconhecimento, a constante pressão para que fizessem turnês e gravassem discos depois do álbum de estréia fez com que Axis: Bold As Love fosse lançado às pressas, antes de estar realmente pronto”, escreve Joel McIver no livro 1001 DISCOS:

Apesar disso, não se discutem – mesmo passadas quatro décadas – as impetuosas e cintilantes canções do disco, o controle que Jimi e seus companheiros tinham das tecnologias de estúdio à sua disposição e a beleza lírica da guitarra de Hendrix. Spanish Castle Magic e sua melodia em espiral, a estrutura vai-e-volta de If 6 Was 9, a doce Castles Made of Sand [...] são os pontos altos do disco – mas a melhor música, para muitos, é a perturbadora Little Wing. Com sua mistura perfeita de guitarras principal e rítmica (as primeiras linhas melódicas da canção embaralham para sempre esses dois papéis), Little Wing é pura beleza e foi regravada várias vezes desde então por artistas como Sting e Metallica.”

ELECTRIC LADYLAND é o mais famoso, tanto pela capa quanto por ter se tornado o preferido dos soldados americanos no Vietnã. Álbum duplo, é também o mais politizado e, ao mesmo tempo, viajandão. Contém uma de suas baladas mais bonitas, The Burning Of The Midnight Lamp, flertes c/ funk e soul – Crosstown Traffic – , um blues de 15 minutos – Voodoo Chile – e a jazzística Rainy Day, Dream Away. Jimi era fã de Curtis Mayfield, mas c/ este disco acabou influenciando Miles Davis a compor Bitches Brew.

Ele montou a Band of Gypsys após o fim do Experience, e gravou mais de 300 músicas embora não tenha lançado nenhum outro disco oficial enquanto vivo. Somente de gravações originais, saíram 5 álbuns póstumos de ’70 a ’74: BAND OF GYPSYS, THE CRY OF LOVE, RAINBOW BRIDGE, WAR HEROES e LOOSE ENDS.

Nos anos 90 sua obra foi remasterizada e relançada em CD, além do duplo inédito BBC SESSIONS, c/ gravações ao vivo nos estúdios da melhor rádio do mundo: “Radio One/ You’re the number one/ For me”, cantava Jimi...

F IRST RAYS OF THE NEW RISING SUN
C/ a vitória na Califórnia, Kelly Slater volta a ser o número 1 do ranking, a 3 meses do fim da temporada.

Seu desempenho no último sábado foi uma prova da genialidade que o tem feito pairar acima dos demais nos últimos 20 anos – KS marcou as melhores médias do dia nas 4 fases que disputou: 17.10 na repescagem, 17.03 nas quartas-de-final, 15.87 nas semis e 18.13 na decisão.  

Como Hendrix, ele faz do instrumento uma extensão do próprio corpo p/ alcançar as notas mais altas.

Um dos prêmios do Hurley Pro é uma Fender Stratocaster.

Várias homenagens estão sendo feitas a Jimi p/ lembrar os 40 anos de sua morte. Além da exposição na França, a Sony está relançando os 3 álbuns do Experience e FIRST RAYS OF THE NEW RISING SUN, c/ material da Band of Gypsys.  

No início do ano foi lançado o disco de blues VALLEYS OF NEPTUNE, e também vai rolar um DVD c/ depoimentos de Noel, Mitch, Chas etc.; um livro c/ as fotos de Mankowitz; e uma caixa c/ 4 horas de música intitulada WEST COAST SEATTLE BOY - The Jimi Hendrix Anthology.

O apartamento em que viveu no bairro londrino de Notting Hill está aberto a visitação até o dia 26 [domingo]. O grupo Händel comprou o imóvel e pretende transformá-lo num museu. O hotel Cumberland grafitou as paredes de uma de suas suítes c/ retratos psicodélicos do herói da guitarra. A diária custa 399 libras.

Enquanto isso, Slater segue em sua última turnê. Sua vitória em Trestles teve impacto no surf semelhante ao de Hendrix tocando o hino nacional americano no festival de Woodstock. A etapa final do circuito no Havaí pode ser como o concerto de Jimi na ilha de Wight – a última chance de ver um mito ainda vivo. E se mexendo.

Every day in the week I'm in a different city/ If I stay too long people try to pull me down/ They talk about me like a dog/ Talk about the clothes I wear/ But they don't realise they're the one's/ Who's square/ Yeah/ And that’s why/ You can’t hold me down/ I don't want be tide down/ I got to move/ Stone free/ Do what I please/ Stone free to ride the breeze/ Stone free/ Baby I can't stay/ I got to got to got to get away/ Yeah”...

VOODOO CHILD [SLIGHTLY RETURN]
 
HENDRIX & SLATER: TOP OF THE POPS
JIMI NO INÍCIO, NA BANDA DE WILSON PICKETT...
...E NO AUGE, INDENDIANDO MONTEREY EM 67
 INGRESSO ORIGINAL DO FESTIVAL DE WOODSTOCK
KELLY SLATER C/ EDDIE VEDDER, DO PEARL JAM...
...E EM MAIS UM DIA DE TRABALHO, NO HAVAÍ
 JIMI HENDRIX EM SEU ÚLTIMO DIA NA TERRA


3 comentários:

O Inimigo disse...

Dois gênios da raça. Comprei dois dos relançamentos de Hendrix. Falta só Are You Experienced. E Slater parece que nasceu com a prancha grudada no pé. Vi a final em Trestles e ele arrebentou como sempre.

FUN disse...

HEROES

Henrique vasquez disse...

Boa cara,

suas metáforas são muito fodas;

Lembro do rorshech (não lembro como escreve) com o Neco, e o John com Slater...bom trabalho..

valew