sábado, outubro 30, 2010

ALINE & BOB

 
No Brasil, dizemos que “roupa suja se lava em casa. Nos Estados Unidos, esse tipo de limpeza é feito em lavanderias. Você senta num banco coletivo e assiste a roupa rodar pela janelinha de vidro da máquina de lavar. Nessas horas as pessoas costumam jogar videogame, tuitar pelo celular, ouvir música pelo MP3... Tá meio fora de moda, mas também dá p/ passar esse tempo do jeito antigo – lendo. Quadrinhos, por exemplo.

Robert & Aline Crumb trocaram os EUA pela França há quase 20 anos, mas ainda lavam roupa suja em público. Desde os anos 70 publicam juntos HQs sobre sua vida de casal, c/ desenhos de ambos – Bob faz a si mesmo e Aline se retrata do jeito que quer. Por causa dessa parceria, ela é considerada a “Yoko Ono dos quadrinhos underground”. Os amigos da ZAP COMIX culpam-na pelo afastamento de Crumb da revista.

Meu traço é tão primitivo que se eu desenhar com o pé ninguém vai perceber”, diz a Sra.Crumb. No Brasil suas histórias a 4 mãos vem sendo publicadas pela revista Piauí – são os mesmos quadrinhos da consagrada The New Yorker, que publica a série autobiográfica dos Crumb desde os anos 80. Embora esta colaboração [Crumbs + TNY] esteja prestes a acabar, como fica claro na entrevista a seguir, concedida por Aline Kominsky-Crumb à repórter Raquel Cozer, do jornal O Estado de São Paulo.

Aline esteve no Brasil acompanhando seu homem na FLIP, e participou c/ ele da principal atividade agendada: a mesa literária. Relata Tasso Marcelo, do Estadão: “Aline, que entrou no terço final da mesa, chamada pelo mediador Sérgio D’ávila, foi acusada por espectadores de falar demais. Na média, todo mundo com quem conversei odiou a entrada dela. Eu particularmente, acho que deu um fôlego para a conversa seguir até o final. Acho que ela devia estar no palco desde o começo, porque tem senso de humor afiadíssimo e ajuda a evitar aqueles silêncios constrangedores causados pelo desconforto de Crumb. 

Aline não é Yoko, senão Crumb já estaria morto. “Estou feliz em estar aqui porque venho sendo ignorada há 40 anos”, disse à platéia. “As pessoas mandavam cartas cheias de ofensas quando começamos a desenhar juntos. Diziam: ‘Ela pode ser boa na cozinha, mas deixe-a fora do papel’. As pessoas estavam furiosas.

No Rio de Janeiro, serviu de escada e escudo nas situações em que o marido se sentiu acuado – na mesa e na coletiva de imprensa. Como no resto do tempo Bob mal saiu do quarto, restou a ela passear por Paraty segurando vela p/ o velho amigo do casal, Gilbert Shelton, e a namorada dele, Lora Fountain, agente literária dos Crumbs. Os quadrinhos underground são uma grande família.

Raquel Cozer - Aqui no Brasil, do seu trabalho, é conhecido só o que faz com Crumb...
Aline Kominsky-Crumb - Ano que vem sairá pela Conrad um livro com todo o meu trabalho. O título do livro em que esse se baseou é NEED MORE LOVE, que eu acho um bom título. E tem o LOVE THAT BUNCH, um livro mais antigo. Há algumas coisas dos dois livros. N.M.L. tem fotos, pinturas e textos, é um livro multifacetado. É uma autobiografia gráfica, como todo tipo de imagens. Mas a Conrad usará apenas as HQs desse trabalho. 

RC - Você também é pintora, então.
AKC - Comecei meu trabalho como pintora. Fiz meus estudos em aquarela e óleo em tela, me formei e sou professora de arte, mas só dei um ano de aula em toda a minha vida. Quando me formei, nos anos 60, me interessava pelos quadrinhos underground, o trabalho do Crumb, do Gilbert [Shelton] e de um artista chamado Justin Green, que fez um trabalho muito autobiográfico e me inspirou a fazer o mesmo. Então me dei conta de que todos os quadrinhos estavam sendo publicados em San Francisco, e fui para lá, em 1971.

RC - Seus cartuns já eram autobiográficos naquela época?
AKC - Sim, eu não sabia fazer mais nada. Não conheço nenhum outro assunto bem o suficiente para poder desenhar a respeito. Eles precisavam de mais trabalhos desesperadamente, porque não havia cartunistas mulheres. Se você parar para pensar, não tinha isso. Então, para qualquer uma que pudesse minimamente desenhar um quadrinho eles diriam: OK, você pode entrar nessa revista.

RC - Quando conversei com Crumb, ele me disse que você tem mais talento para o roteiro que para o desenho de HQ, um humor judeu...
AKC - Sim, é verdade. Quando trabalhamos juntos, eu faço quase todo o roteiro. Meu desenho é muito primitivo, estranho e idiossincrático. Prefiro pintar, não sou uma cartunista profissional nem estou interessada nisso. Meus quadrinhos não são muito comunicativos no que diz respeito à forma, eles são muito pessoais e doidos. Não uso nenhuma das técnicas formais dos quadrinhos.

RC - De que tipo de técnicas você fala?
AKC - Estilização, simplificação, por exemplo, quando você tem um personagem, fazê-lo sempre da mesma maneira o tempo todo. Quando desenho, eu mudo o tempo todo. Se estou de bom humor, eu me desenho melhor, se estou de mau humor, me desenho mais feia. Mudo meu cabelo, meu peso. Cada desenho para mim é um desenho, não penso no sentido da arte seqüencial, expressão comercial, de manter um público.

RC - Quando você desenha com Crumb, ele tem esse respeito pelas técnicas da arte seqüencial e você não...
AKC - É insano como isso funciona. Não deveria funcionar, mas por alguma razão funciona. Ele coloca a linha lá e eu aproveito as deixas. Mas, em termos de desenho, é totalmente irracional, porque o desenho de Robert é tridimensional, e o meu é chapado. Da primeira vez que fizemos isso não era para publicar, era só para nos distrair. Foi em 1974, eu acho, e eu tinha caído e quebrado a perna, estávamos no campo, chovia, eu estava muito entediada e o deixando louco. Então, para me deixar ocupada, meu irmão e eu costumávamos fazer quadrinhos juntos, como ele fazia com o irmão dele, Charles... A primeira que fizemos foimuito louca, a história vai para todo lugar, espaço sideral, criaturas que aterrissam na nossa fazenda, Timothy Leary aparece, é realmente louco. Não tentamos fazer nada coerente porque não pensávamos em publicar, mas daí um editor viu e quis publicar. 

RC - Você sabe quantas histórias fizeram desde então?
AKC - Temos esses dois livros chamados Dirty Laundry, dos anos 70, e uma compilação. Fizemos para jornais locais, para a revista Weirdo...

RC - Quando começaram a fazer para a New Yorker?
AKC - No meio dos anos 90. A primeira acho que foi sobre nossa reação ao documentário de Terry Zwigoff, em 1995. Nós queríamos desaparecer depois daquele filme. Robert usava chapéu e tinha um bigode, mas ele começou a ser reconhecido em todo lugar. Então ele mudou o tipo de chapéu e deixou a barba crescer, mudou o visual. Hoje ele ainda é muito reconhecido, mas naquela época foi mais estranho. Em qualquer lugar alguém o reconhecia, era demais. Ele é um cara muito doce, muito legal. É tímido. Depois de certo ponto, ele não pode mais falar. Ele não gostar de falar dele mesmo.

RC - E como surgem essas histórias em parceria?
AKC - A gente não tem nenhuma regularidade para isso. A New Yorker sempre nos pede coisas, mas ele não quer mais fazer nada para eles.

RC - Por quê?
AKC - Porque eles pediram a ele uma capa, e ele fez, estava muito boa. Era meio controversa, porque eles pediram uma capa sobre casamento, e ele fez uma sobre casamento gay, e eles não usaram. Até aí tudo bem, ele não se importa, mas eles nunca explicaram por que não usaram a capa. Ele perguntou muitas vezes, e nunca teve resposta. Ele disse: ‘Se eles me dissessem a razão, estaria tudo bem, eu faço outras coisas para eles. Mas como eles não tiveram coragem nem respeito o suficiente para me explicar isso’... Ele está zangado. É compreensível. Durante um ano, eles ficaram dizendo que usariam, que usariam, fizeram isso dez vezes, durante um ano, eles pagaram pela capa... Mas ele ficou realmente frustrado de não saber por quê, se não gostaram... Ele trabalhou com muito afinco naquilo, e não tiveram coragem de ligar para ele e dizer o que houve. Era só dizer: ‘Não é seu melhor trabalho’.

RC - Mas vocês ainda fazem histórias juntos?
AKC - Sim, estamos trabalhando num novo livro. O título provisório é Drawn Together, que tem dois significados em inglês, atraídos um pelo outro e desenhando juntos. Incluirá o trabalho da New Yorker, o trabalho anterior e algumas outras histórias. Sai ano que vem.

RC - Será a história de amor de vocês?
AKC - Sim... Sim. Como você quiser chamar. (risos) Mas haverá trabalhos antigos que provavelmente quase ninguém viu, publicado só em pequenas editoras, e histórias totalmente inéditas.

THE CRUMBS

 ALINE & BOB NOS ANOS 70, QUANDO SE CONHECERAM...
...E NA FRANÇA, ONDE VIVEM: ALINE FOI A INSPIRAÇÃO P/ A...
...DEVIL GIRL, PERSONAGEM FAVORITA DE ROBERT CRUMB...
...DOIS MOMENTOS DO CASAL NO BRASIL, EM JULHO...
 ...CRUMB & ALINE ADORAM OS FOTÓGRAFOS


HISTÓRIA PUBLICADA NO BRASIL NA REVISTA PIAUÍ Nº42

2 comentários:

Espedito disse...

Sensacional 3!!!

Viva La Brasa disse...

A foto de abertura é do Tomás Rangel. A HQ de Aline & Bob e a entrevista c/ Crumb estão disponíveis no site:

http://www.saraivaconteudo.com.br/Artigo.aspx?id=377

"Ao som de blues e Pixinguinha", por Bruno Dorigatti