quinta-feira, outubro 21, 2010

CURTIÇÃO DOS JOVENS 


Se namorar mulher bonita já dá dor-de-cabeça, ser casado c/ a Carla Bruni e presidir a França é encrenca na certa. O inferno astral de Nicolas Sarkozy começou em agosto, quando sua esposa – modelo e cantora de sucesso – enviou uma carta aberta a Sakineh Mohammadi Ashtiani, iraniana presa sob acusação de participar do assassinato do marido e cuja sentença de morte por apedrejamento comoveu o Ocidente.

Sakineh, seu nome virou um símbolo para todo o mundo”, escreveu Carla num abaixo-assinado junto a outras artistas, como Isabelle Adjani, que pedia ao governo iraniano p/ “não lavar suas mãos no crime”. E garantiu à Ashtiani que o governo francês iria “defender o seu caso com afinco”. O Irã respondeu c/ manchete de capa no jornal estatal Kayhan: “PROSTITUTAS FRANCESAS ENTRAM NO TEMA DIREITOS HUMANOS”.

Huahaha! Não se pode dizer que os caras não têm senso de humor...

A burca já havia sido proibida em espaços públicos franceses, e agora a primeira-dama colocava o presidente numa saia mais justa do que as que ela usava em ensaios fotográficos. Por sorte, o governo iraniano revogou a condenação após a pressão internacional – até países aliados como o Brasil manifestaram-se contra – e Sarkozy livrou-se de uma intriga internacional. Mas não conseguiu evitar que a casa caísse.

O chefe de Estado da França tem que administrar uma patroa linda e geniosa, e de quebra um dos países mais ricos, influentes e antigos do mundo. E rico, quando quebra, quebra mesmo. Como a Grécia, por exemplo.

Em 2008, quando explodiu a crise financeira internacional, EUA e Europa abriram seus cofres públicos p/ salvar bancos e indústrias endividados. “Com a crise bancária, para evitar a recessão mais aguda e prolongada, os governos europeus elevaram os gastos públicos para tentar dinamizar a economia”, explica o economista Estevão Resende Martins. “Mas a medida trouxe um lado ruim, que foi ampliar o endividamento dos governos.

Agora veio a conta.

Há uma semana o presidente francês enfrenta a maior crise interna desde que assumiu em 2007. C/ apenas 30% de aprovação ao seu governo – o mais baixo índice entre governantes europeus – ele agora encara uma greve apoiada por 70% da população. 12 mil refinarias de petróleo pararam sua produção, 4.000 postos de combustível foram bloqueados, 380 escolas e 10 universidades fecharam suas portas, e metade dos aeroportos suspenderam seus vôos.

Meses de protestos pacíficos descambaram p/ confrontos entre o povo e a polícia nas cidades de Lyon, Marselha e Paris – principalmente no subúrbio de Nanterre – onde barricadas foram incendiadas, carros virados e pedras duelaram c/ bombas de gás lacrimogênio.  Mais de 1000 manifestantes foram presos, a maioria de jovens. “Estão brincando de Maio de 68”, comentou a jornalista Mírian Leitão c/ farta dose de chauvinismo no Bom Dia Brasil.

O estopim dos protestos é a votação no Senado da reforma previdenciária, que entre outras coisas aumentará a idade mínima p/ aposentadoria de 60 p/ 62 anos. Mais da metade da população francesa é sexagenária. “É uma aritmética simples que leva à necessidade das reformas”, diz Estevão, que é diretor do Instituto de Ciências Humanas da UnB. “O fato é que a França e os outros países da Europa Ocidental estão envelhecendo e em breve poderão não ter capacidade financeira para sustentar seus aposentados.

Equilibrar as contas da Previdência Social não é uma questão exclusiva dos franceses. No Brasil, onde apenas 7% da população é idosa, foi registrado déficit de $9.191 bilhões de reais somente no último mês. De janeiro a setembro deste ano, a Previdência arrecadou R$ 147 bilhões e gastou R$ 187 bi c/ benefícios e aposentadorias.

O que a França está fazendo hoje é colocar as contas públicas numa trajetória sustentável. Embora essas medidas não sejam populares, são urgentes”, diz Roberto Padovani, estrategista-chefe do banco WestLB. “França e Alemanha precisam reduzir os riscos na Europa. O temor de que governos não consigam honrar suas dívidas pode ocasionar uma contração ainda maior no crescimento econômico.

Por que cabe a França e Alemanha conter a crise européia? Porque os outros países não têm mais condições p/ isso. A Inglaterra tem o maior déficit da Europa c/ exceção da Grécia, 11,5% do PIB, e também anunciou ontem um corte de despesas violento, c/ demissão de quase 500 mil funcionários públicos nos próximos 4 anos. Na Espanha, onde a taxa de desemprego está acima de 20%, o primeiro-ministro José Luis Zapatero eliminará 2 ministérios e substituirá sua vice visando ganhar força política p/ aderir às medidas de austeridade.

Antes de ser presidente, Nicolas Sarkozy foi líder da UMP, a União pelo Movimento Popular, e é comprometido c/ as causas trabalhistas. Ele sabe que terá que negociar c/ os estudantes e sindicatos se quiser passar sua reforma. “Talvez o governo ceda em alguns pontos secundários, para não parecer intransigente. Pode manter, por exemplo, a idade de 60 para a aposentadoria de trabalhadores em condições de extrema insalubridade, ou facilitar a aposentadoria integral deles”, adianta Estevão.

Enquanto Paris queima, deixo vocês c/ fotos dos protestos – e da primeira-dama – embalados pela trilha sonora do Conjunto de Música Rock MERDA, do Espírito Santo, que em 2003 lançou o álbum CURTIÇÃO DOS JOVENS. No Brasil, onde a idade mínima p/ se aposentar é 65, estudante só se une p/ fazer carteirinha de meia-entrada. Na França, a curtição dos jovens é brincar de Maio de 68.

Um problemão p/ Sarkozy, mas nada que o colo da Carla Bruni não possa resolver.

FOTOS: ASSOCIATED PRESS / CARTUNS: 'KEBRA' DE JANO

Um comentário:

Espedito disse...

muito legal