terça-feira, outubro 19, 2010

L’ÉTAT C’EST MOI
É pra isso que a gente vive!”, falou Kelly Slater, amarradão, após perder a final do Quiksilver Pro France, 7ª etapa do circuito mundial da ASP.

KS é eneacampeão, palavra esquisita que significa 9 títulos de melhor do mundo. “O Estado sou eu” é a famosa frase proferida por Luís XIV, o ‘Rei-Sol’ da França absolutista do séc. XVII. Em 2010, após a perna européia do World Tour, “l’État c’est Slater”.

Um sujeito que já foi o melhor por tantas vezes obviamente não gosta de perder. Mas o 2º lugar na França representava a consolidação da liderança do ranking após a vitória em Trestles, EUA, 6ª etapa. Naquele momento 8 mil pontos o separavam do vicelíder Jordy Smith, 22 anos, um dos nomes mais fortes da nova geração.

BAGUETES & BARRELS
38 é a idade em que os surfistas profissionais começam a se aposentar, a maioria nem chega a tanto, c/ raríssimos casos de atletas que estendem suas carreiras aos 40 [o ex-campeão mundial Mark Occhilupo e o ex-campeão paulista Wagner Pupo, por exemplo]. Pois bem, o tio Kelly, nascido na Flórida em 1966, careca feito uma bola de boliche, segue fazendo seus strikes, derrubando garotos no auge da forma c/ idade p/ ser seus filhos, como se fossem pinos numa pista.

Slater é o cara c/ melhor rendimento no segundo semestre, o que mais rápido se adaptou ao novo formato do circuito e o favorito absoluto na corrida pelo título de 2010. Sua felicidade no pódio da França, no entanto, não era só por isso. “Foi insano! As ondas mais loucas lá fora! E elas ainda estão lá”, exultava sobre o melhor swell desde aquele clássico em 2004, quando os irmãos Irons derrotaram ele & Sunny Garcia nas semifinais e Andy venceu Bruce na única final que os dois disputaram no WT.

Hossegor é uma das melhores praias que existem p/ a prática do surf, seu fundo de areia segura grandes ondulações c/ perfeição e potência havaianas. Isso quase nunca acontece, e o que se costuma esperar da etapa francesa é “um passeio outonal c/ belas parisienses de topless, alguns baguetes quentes, uma variedade de queijos e garrafas de vinho”, como escreveu o australiano Ian Cairns no Power Rankings, e não “tubos cavernosos, batendo forte, dragando areia e quebrando pranchas”, como neste ano.

As melhores ondas que já surfei num campeonato!”, atestou Brett Simpson, estreante na elite. “É o melhor resultado da minha carreira”, diz o americano de 25 anos que venceu por duas vezes consecutivas o US Open, WQS mais caro do mundo, acumulando na conta 2 cheques de $100 mil dólares. Na França, só parou diante de adivinhe quem.

Na semi contra Simpson, Slater completou um drop em queda livre, como já fizera em Teahupoo na 5ª etapa, só que desta vez de frente p/ onda, emendando num tubo improvável p/ marcar um 10 redondo nos 5 juízes. “Não foi uma daquelas clássicas. Parecia meio gorda no início e eu esperei ela chegar mais na bancada. Atrasei o drop c/ o braço, mas minhas quilhas desgarraram e eu escorreguei pela parede quase no bico da prancha. Pensei que tinha estragado tudo, mas quando cheguei na base as quilhas encaixaram e eu refiz a linha”, explica o aberrante.

Na decisão, o atual bicampeão do mundo e defensor do título do Quik Pro, Mick Fanning, 28 anos [10 a menos que KS], tirou proveito do fôlego da juventude p/ vencer seu 1º campeonato na temporada. Foi uma revanche da 2ª etapa em Bells Beach, Austrália, quando Slater o derrotou em casa.

Foi difícil”, disse Fanning, “Kelly e eu conversamos lá fora sobre como chegar no pico. Havia muita água se movendo, condições superdesafiadoras. Eu fui amassado pela série – tomei várias ondas na cabeça e isso me deixou morto. A correnteza te tirava do pico, tive sorte de achar duas pra surfar.

16.90 x 6.74, vitória de lavada em tubos épicos. “Ano passado não bombou, mas este ano eu quase não me senti numa competição, foi mais como passar uns dias entubando.” Mick, o ‘macaco albino’ [apelido que ganhou dos brasileiros], vencedor do título mundial em 2007/09, é o mais bem-sucedido dos ‘Coolie Kids’ da Gold Coast, geração formada por ele, Joel Parkinson [3X vicecampeão mundial], Bede Durbidge [vice mundial 2008] e Dean Morrison [ex-Top 10].

Surgiu na cena ao vencer em Bells aos 19 anos, competindo como convidado em 2001. Virou ídolo da garotada c/ o vídeo Fanning The Fire, passou anos seguidos entre os Top 5, e após a vitória na França assumiu a 3ª colocação no ranking 2010. Seu surf é volátil, inflamável, moldado à semelhança do ícone. Já foi o surfista mais veloz do tour, mantém-se ligeiro mas ligado, c/ uma turma nova tão rápida e radical quanto ele. Focado e dedicado, é um grande representante do esporte.

Sobre a vitória, disse: “É um começo. Ainda há muito trabalho pela frente, Kelly e Jordy têm duas finais a mais que eu. Vamos pra Portugal tentar nos divertir!

EU TE DISSE
Logo no início do ano, após o 1º dia de baterias no Quiksilver Pro Gold Coast, 1º campeonato do ano válido pelo World Tour, joguei no ar um ‘post’ intitulado KS10, cantando a bola do 10º título mundial em 2010. Slater marcara a maior média do 1º round, mas àquela altura nada havia sequer começado, quem dirá definido, e de fato ele perdeu nas oitavas-de-final, Taj Burrow venceu o evento e parecia que eu tinha mandado uma bola fora.

Mas, tratando-se de Kelly Slater tudo pode acontecer. Ele venceu a etapa seguinte [Bells, contra Mick], fez a final no Brasil [onde foi surpreendido pelo Jadson André], venceu de novo nos EUA, outra final na França e, em Peniche, litoral da Península Ibérica, a 44ª vitória da carreira em provas de elite e terceira na temporada. “Obviamente o 10º título é um grande desafio pra mim. Se isso acontecer será a maior conquista da minha vida. Tenho sorte por ter um círculo incrível de amigos ao meu redor e minha namorada Kalani...

K9 nunca vencera em Portugal. E ele já venceu em absolutamente todas as paradas do circuito, mais de uma vez na maioria delas. Dá p/ imaginar o quanto ele queria ganhar o Rip Curl Pro, 8ª etapa do WT. Se na França rolaram altos ‘barrels’, a disputa portuguesa aconteceu em Supertubos, pico onde quebram as melhores ondas lusitanas – apesar deste ano ter prevalecido um surf ‘hot dog’ em marolas deliciosas e perfeitas.

A final foi meio devagar e nenhum de nós teve nenhuma onda realmente de peso”, comentou o ‘Freak’ sobre sua vitória por 13.33 x 11.43 contra Jordy Smith. Em esquerdas e direitas ‘glassy’, limpas, espelhadas e, eventualmente, tubulares, o tiozão dominou o duelo dos líderes [nº 1 x nº 2] usando pauladas de backside old-school e principalmente um tubo de grab-rail finalizado c/ um floater.

Quase cheguei ao meu limite na bateria, então tive que esperar por ondas que realmente importassem. Jordy Smith tem todo talento do mundo. Ele é capaz de obter uma pontuação a qualquer momento. Nada estava terminado até a buzina tocar”, disse o enea, quase deca, campeão, que disputou quatro baterias no último dia.

Jordy arriscou um aéreo superman, mas o 7.10 obtido não foi suficiente p/ virar o resultado a seu favor. Mesmo assim, é o único adversário que sobrou na disputa pelo título. Fanning e Burrow, 3º e 4º na corrida, não têm mais chance. Feras da nova era que até o meio do ano estavam na briga, como Dane Reynolds, 25, e Adriano de Souza, 24, não arrumaram nada na Europa e caíram de 4º p/ 6º e de 5º p/ 9º, respectivamente. Já era.

Quem se recuperou foi o francês Jeremy Flores, 23 anos, que subiu do 20º p/ o 15º lugar na classificação. “Eu fui reajustando minha abordagem e foquei nas coisas que funcionavam melhor. Acho que isso me ajudou muito aqui em Portugal e espero obter mais alguns bons resultados antes do final do ano.” Namorado da brasileira Bruna Schmitz, uma surfista paranaense de 19 anos que compete no World Tour feminino, Jeremy terminou a etapa empatado em c/ o redivivo Chris Davidson, 32.

Promessa australiana que nunca vingou, ‘Davo’ subiu de produção nos últimos anos, como um tinto do Porto que só melhora c/ o tempo: em 2009 foi coadjuvante na vitória de Adriano ‘Mineirinho' em Mundaka, Espanha, este ano fez a final do WQS 6* Prime na Califórnia, e em Supertubos chegou até as semis, perdendo apenas p/ Slater numa disputa decidida por um aéreo alley-oop absurdo do campeão.

A vitória de hoje me coloca um passo à frente, vamos ver o que acontece em Porto Rico.K$10 refere-se ao Rip Curl Search, penúltima parada antes do Pipe Masters, no Havaí. Ao voltar p/ o outside depois de completar o giro no ar sem as mãos, foi surpreendido c/ uma homenagem do adversário: Davidson bateu continência e ‘tirou o chapéu’, gesto muito aplaudido pelo público que assistia na areia.

O que você pode fazer quando o rei apronta das suas?”, pergunta Davo, retoricamente. “Tudo que pude fazer foi saudá-lo. Foi um evento bom pra mim e senti que surfei muito bem, mas quando Kelly Slater completa um alley-oop 360, fica difícil lutar. Espero que alguém possa jogar uma chave-inglesa nas performances dele e segure a decisão pelo título até Pipeline.

ASP EUROTOUR 2010
 DEAN MORRISON 'EMBARRELADO' NA FRANÇA
LINE-UP DE HOSSEGOR, ESTILO PIPE / BACKDOOR
SUPERTUBOS NUMA PACATA VILA DE PORTUGAL
SLATER PASSANDO POR DENTRO P/ VENCER DE NOVO
JEREMY FLORES, O MELHOR EUROPEU NO TOUR
JADSON ANDRÉ LEVOU 1000 EUROS NA EXPRESSION SESSION







C/ REPORTAGEM DE FERNANDO IESCA E FOTOS DE ALEKO STERGIOU & KIRSTIN/ ASP

2 comentários:

MaiNe disse...

Esse careca não pode ser humano, deve ser algum tipo de extraterrestre anfibio infiltrado entre nós... rsss...
Então... Lembra aquele entrevista do Fun (http://vivalabrasa.blogspot.com/2009/11/sniper-temporada-havaiana-ja-comecou-e.html) que te pedi pra publicar no ano passado? Queria saber se podemos colocar na Parafina (http://www.revistaparafina.com.br/) do próximo mês, com todos os créditos ou para o Viva La Brasa, ou no seu nome, é Adolfo o que mesmo? Já estou entrando em contato com o Fun também pra ele autorizar e passar umas fotos. Forte abraço e vamos remando juntos!

Viva La Brasa disse...

ADOLFO SÁ, servindo bem p/ servir sempre.

sinceramente, acho que o Slater é mutante, tipo X-Men saca?

poder de simbiose c/ o mar e envelhecimento retardado, uma mistura de Wolverine c/... sei lá, Aquaman?!

me avisa qdo a entrevista do FUN estiver na Parafina.

vamos nessa @