sábado, outubro 16, 2010

NÃO PLANTE, CANTE 
E aí firmeza tu vai pôr um mofu/ Vai com a fina dar com catrin com os tatru/ Eu não tenho mas sei onde tem/ Oi lá no rromo e no gueman também/ Se cevô quiser dar um gapé no mofu/ Joga cocin na mão que eu vou lá casbu”...

Em 1º de julho de 2010, dia de jogo do Brasil contra a Holanda pela Copa do Mundo, o carioca Pedro Caetano saiu de casa a pé pelas ruas de piçarra do Engenho Mato, bairro de Niterói sem saneamento básico próximo à famosa praia de Itacoatiara. No meio do caminho, foi enquadrado por duas viaturas da polícia.

Aqui não chega água encanada, mas a polícia chegou. Tomei a dura. Aí um policial recebeu um chamado no rádio e falou: ‘vamos para sua casa, temos uma denúncia’. Na hora eu já sabia o que era”, diz Pedro, que mantinha uma pequena estufa p/ cultivo de Cannabis sativa. Foram apreendidos 10 pés adultos e 8 mudas. “Levaram até os vasos!

No dia seguinte, o Jornal de São Gonçalo trazia uma foto de P.C. sendo conduzido algemado à delegacia. “As informações foram colhidas por policiais da 75ª DP (Rio do Ouro) durante o trabalho de investigação sobre a ‘guerra’ na Vila Candoza, em São Gonçalo, onde cinco pessoas morreram, na semana passada”, diz a reportagem: “Pedro não ofereceu qualquer tipo de resistência e topou ser conduzido à delegacia para prestar depoimento.”

Preso sob acusação de tráfico, passou 14 dias dividindo uma cela c/ até 70 pessoas, e só foi solto quando o caso chegou à promotoria, que considerou a acusação improcedente. A história poderia ter acabado aí, não fosse Pedro Caetano baixista do Ponto de Equilíbrio, o melhor grupo brasileiro de reggae da atualidade.

Surgida em 1999 no subúrbio de Vila Isabel [RJ], a banda de 8 componentes lançou o 1º CD-demo c/ apenas 6 meses de formada. O disco continha 6 músicas [O Inimigo, Lágrimas de Jah, Árvore do Reggae, Rastafará, Odisséia na Babilônia e uma versão de Soul Rebel, de Bob Marley & The Wailers] que rapidamente caíram nas graças da massa regueira, através da velha propaganda boca-a-boca – quem ouvia, recomendava – e das novas possibilidades oferecidas pela internet – pirataria de MP3.

A temática não era muito diferente de tantas outras bandas nacionais do gênero [como a baiana Diamba, os alagoanos da Vibrações ou os paulistas da Planta & Raiz] mas a peculiaridade do som e a carência de nomes da nova geração mais combativos dentro do gênero [como os veteranos Edson Gomes, O Rappa e Ras Bernardo & Digitaldubs] fez c/ que conquistassem público cativo logo de cara.

Somos bem raiz”, diz o guitarrista Ras André. “Nossa maior influência é o reggae jamaicano dos anos 70, que tem ênfase no groove. Mas também temos influências de afrobeat, maracatu, funk estilo James Brown, rock psicodélico, jazz e samba.

André esqueceu de citar o dub, segmento mais chapado da música jamaicana evidente no vocal de Hélio Bentes, ao mesmo tempo esganiçado e melódico, c/ uma métrica toda própria: “Isso é coisa, coisa/ Mas isso é coisa, mas isso é coisa/ Isso é coisa.../ Seu assunto principal é falar mal da vida alheia/ Mas isso é coisa feia...”, canta em Aonde Vai Chegar?, hit do disco de estréia, REGGAE A VIDA COM AMOR, de 2004, que vendeu 70 mil cópias num esquema totalmente independente.

Apesar das dificuldades geradas por um mercado onde falta originalidade e sobram modismos passageiros, a banda traz uma nova proposta de conscientização, através do autêntico reggae rastafári”, comentam Shimoo e Dado Brother, do fã-clube Árvore do Reggae.

2007, ano em que se completaram 10 anos da prisão do Planet Hemp em Brasília, marca também o lançamento de ABRE A JANELA, que agrega elementos de maculelê e capoeira-angola. Em abril de 2010 sai DIA APÓS DIA LUTANDO, pelo selo Kilimanjaro, c/ participações de Jorge Du Peixe e Marcelo D2 e dos jamaicanos Don Carlos & The Congos, e capa d’Os Gêmeos.

Sempre passam por aqui a cada álbum lançado. No último sábado, tocaram no bar Torre do Mar, na praia de Aruana, c/ show de abertura da Oganjah, banda da favela do Pantanal que desenvolve um real trabalho social em sua comunidade. Aracaju tem uma forte e autêntica cena reggae suburbana, c/ Oganjah se destacando no momento, precedida pelos rastas da Reação, baseados no Morro do Avião no Santos Dumont, e Guerreiros Revolucionários, do Bugio.

Quando os negros vieram da África, trouxeram uma planta pra fazer defumação/ Faziam a limpeza no templo interior, usando esta planta como forma de oração/ E assim trabalhavam na força da terra, com a mãe natureza e meditação”, canta Bentes em Santa Kaya: “Esse é o apelo que eu faço às autoridades/ Para que abram os olhos para seu uso medicinal/ Para que abram os olhos para seu uso cultural/ Para que abram os olhos para seu uso cerimonial, cerimonial”...

A questão é discutida desde 1961, quando a ONU proibiu uma planta de existir. Ao longo das décadas, figuras notórias vieram a público defender o fim ao veto, de Gilberto Gil e John Lennon nos anos 70, até os ex-presidentes Bill Clinton e Fernando Henrique Cardoso. A prisão de Pedro Caetano trouxe de volta a discussão, e o assunto ganhou até capa da edição de outubro da revista GALILEU:

Em vez de políticos ou artistas com ideais liberais, quem levantou a bandeira da legalização foram quatro dos cientistas mais respeitados do Brasil”, informa a matéria intitulada A Ciência da Legalização. Em carta aberta publicada no jornal Folha de S.Paulo, os neurocientistas Cecília Hedin [doutora em biofísica], Sidarta Ribeiro [PHD na Universidade de Duke, EUA], João Menezes [PHD em Massachusetts e Harvard] e Stevens Rehen [diretor do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ] afirmam sem medo que a proibição da maconha é mais danosa do que o consumo.

A questão levantada pelos cientistas se resume em três pontos. No primeiro, argumentam que o que é proibido não pode ser regulamentado. [...] O segundo ponto é o de que a Cannabis sativa (nome científico da maconha) pode ser usada como remédio no tratamento de diversas doenças. O terceiro, e principal ponto da argumentação, diz que a droga faz mal ao corpo – mas não tanto quanto já se pensou – e que esse problema é bem menor quando comparado aos males que seu comércio ilegal causa à sociedade”, diz a revista.

Sidarta, chefe do laboratório do Instituto Internacional de Neurociências de Natal e professor da UFRN, argumenta: “Não é dizer que a maconha não faz mal, café faz mal, cigarro, álcool, e as drogas que nós receitamos? Mas tudo isso pode ser controlado. Porém só a legalização permite regulamentar e controlar uma droga.” Mas também alerta: “Se for legalizado rapidamente, a sociedade vai engasgar. As pessoas vão mudar de crime – assalto a mão armada, sequestro. Quando legalizar tem que dar emprego, informação.

Marijuana não é legalizada em país nenhum do mundo. Alguns adotaram legislação mais branda, como a Holanda, onde se pode plantar ou portar até 30 gramas [e queimar até ½ quilo de erva dentro das coffee shops], e os EUA, onde é descriminalizada em 13 dos 50 estados, e liberada p/ uso medicinal em 15. No Brasil, a posse e o consumo de pouca quantidade foram despenalizados em 2006, mas a lei 11.343 dá muitas margens a interpretações, como sentiu na pele Pedro Caetano. E nos cabelos – ele teve os dreadlocks raspados na cadeia.

Eu e eu buscando o Ponto de Equilíbrio/ Entre nós e o eu dos irmãos que andam no mesmo caminho”, canta Hélio Bentes em De Que Valem os Dreads. Em economia, ‘ponto de equilíbrio’ equivale ao lucro variável. É a diferença entre o preço de venda unitário de um produto e os custos e despesas. Significa o faturamento mínimo que uma empresa tem que atingir p/ não ter prejuízo, mas sem contabilizar lucro naquele determinado ponto.

...“Pode esquecê vai catrin no mofu/ Vamo lá dá um isdo pra ficar sussu/ Dê incendeia/ Nhacoma mafu eu vou/ Dê incendeia/ Nhacoma mafu eu vou/ Legalize ganja ieman sensimilla”...


3 comentários:

Rafa Aragão disse...

ótimo texto!! muito bom mesmo, esse tema de legalização é super importante, ainda mais aqui no brasil dos conservadores. Tem um blog bacana que é exclusivo sobre o assunto, o hempadão: http://hempadao.blogspot.com/

vale a pena a visita.

Rafa Aragão disse...

ah e dá uma olhanda no Fome de Tudo: http://fome-de-tudoo.blogspot.com/

flw

Viva La Brasa disse...

grande rafa, pai da maria joana!
aquele vídeo do bad brains salvou a sexta, meu broder...
tá linkado!