sábado, outubro 23, 2010

O ANJO, O DIABO E A POMBA-GIRA 


Tem várias personas morando dentro de mim – o anjo, o diabo, a pombagira. Cada um tem a sua hora e, juntas, fazem eu me sentir completa.

Fui apresentado a Priscila Novaes Leone em 1996, na redação da Mtv em Salvador [BA]. Eu editava um fanzine chamado Cabrunco em Aracaju [SE], e ela fazia parte de uma banda chamada Inkoma.

Mais conhecida como Pitty, hoje Priscila é uma cantora de sucesso que, aos 32 anos, já lançou 3 álbuns solo e ganhou 5 discos de ouro, 2 de platina, os principais prêmios do VMB e Multishow, e até indicações ao Grammy Latino.

Bem antes de fazer o rock’n’roll existencial que ouvimos em Máscara, Equalize, Teto de Vidro, Memórias e Déja Vu, hits de ADMIRÁVEL CHIP NOVO, ANACRÔNICO e CHIAROSCURO – lançados pela Deckdisc, do produtor Rafael Ramos – ela já praticava um hardcore nervoso no vil & violento underground baiano.

Não é à toa que ficou tão à vontade posando p/ fotos sensuais no ensaio de capa da edição de estréia da versão brasileira da revista INKED, lançada em julho. “O cenário é talvez o mais pé sujo dos hotéis de São Paulo”, escreve a repórter Carine Savietto na matéria de 10 páginas que disseca a história das “mais de 10, menos de 20” tatuagens que Pitty tem espalhadas em seu corpinho de 1m60.

Show!”, diverte-se a roqueira-modelo no hotel barato.

Quando a conheci, Priscila era uma ninfeta de 18 anos que gritava contra o sistema em shows onde a maioria do público era de punks, e o pogo quase sempre descambava p/ a briga. Ela já tinha mais tattoos do que eu tenho hoje. O visual louco era uma defesa externa p/ a menina doce, inteligente e madura p/ a idade, como ficava expresso na demo PILHA PURA, de 96:

Quando eu vejo as coisas erradas no jornal e na TV/ Eu penso em fazer algo e eu não sei bem o quê/ Se você acha que pode vir a se tornar palmatória do mundo/ Isso não vai adiantar/ Cê tá ligado que sozinho não vai dar pra acontecer/ É que o problema na verdade é bem maior do que você/ Conscientização e principalmente união/ Não passe pelo mundo sendo só mais um/ Cuzãããããoo...

Berrava que era uma beleza.

Haha, o namorado dela deve ouvir altos gritos no pé da orelha”, zoava Marcos ‘Bola’, guitarrista da Dinky-Dau [e mais tarde da Sangria e Magajanes Muertos], um dos meus melhores amigos. Foi através do toca-fitas do carro dele que conheci a Inkoma.

O som da banda não saía dos meus ouvidos, nem a vocalista da minha cabeça. Assim que nos conhecemos, o santo bateu e iniciamos uma parceria – eu arrumava desculpas p/ ir lá e ela me visitava de vez em quando.

Comemoramos meu aniversário de 21 anos num bar sinistro estilo candomblé em SSA, e em AJU eu a levei p/ ver Trainspotting no cinema e um show do Mundo Livre S/A, que rendeu uma resenha na última edição do Cabrunco – escrita por ELA:

E não é que eu fui mesmo? Me joguei na estrada com destino a Aracaju pra passar o feriadão, dar um saque num campeonato de skate, divulgar a cena soteropolitana e, claro, ver o show da Mundo Livre S/A. De novo. É o terceiro que eu vejo em menos de seis meses, e é sempre uma festa. Em Aracaju não foi diferente.

O show aconteceu num pico recém-inaugurado na cidade, o Little Hell. O espaço é super-legal, com capacidade para mais ou menos trezentas pessoas. É uma pena que não tenham comparecido ao local nem cinqüenta. Culpa de uma divulgação inoperante e deficiente ou da suposta ‘frágil’ cena sergipana? Mistérios do bom e velho underground. [...]

O texto continua por mais 2 parágrafos, mas é impressionante como continua atual – a cena melhorou um pouco, não muito. Já a Pitty, quanta diferença. Em 99, quando a reencontrei, ela tocava bateria num projeto paralelo, Shes, banda punk só de garotas bonitas e tatuadas. Em 2000, gravou o único álbum da Inkoma, INFLUIR, e em 2002/03 mudou-se p/ o RJ, em seguida SP. O resto é história.

Hoje estou casado c/ a Gil, e ela c/ o baterista do NX-Zero. A última vez que a vi foi na minha despedida de solteiro em 2008 – nos encontramos na mesma noite no show do Mudhoney e numa boate da Barra, totalmente ao acaso. Mas foi estranho, agora ela é uma celebridade, todos os olhos a acompanham, não me senti muito à vontade.

Cada um pensa o que quer. Isso é liberdade de expressão, sacou?” Essas duas frases são da entrevista que fiz c/ a Priscila na primeira vez em que ela esteve aqui, publicada no nº 8 do zine.

Na mesma edição – a derradeira do Cabrunco – o apresentador do Programa de Rock da 104.9 FM, Adelvan Kenobi, na época zineiro e dono da loja Lokaos, assina uma resenha dos shows de lançamento da coletânea UMDABAHIA que não me deixa mentir:

A banda que eu mais queria ver era a Inkoma, ultra-recomendada por Adolfo Sá. Bem, Adolfo não é exatamente um expert em hardcore, e eu desconfiava que a babação dele tinha endereço certo, mas desta vez ele acertou na mosca. A banda (eu disse a banda) é realmente do caralho! A vocalista Pitty também é, mas o fato é que eles têm a postura ideal diante da música (‘hardcore é diversão’), com letras que são excelentes crônicas sobre a vida urbana – ou seja, universais.

Mas peraí, que papo esse que eu não sou “expert em hardcore”? E meus discos do RxDxPx, Black Flag, Bad Brains, Dead Kennedys? E meu vinil original do Sex Pistols [que tá c/ um amigo que mudou p/ Salvador – mais bem guardado c/ ele do que comigo]? Mas que puto! Heheh... Tudo bem, mesmo que eu não sacasse nada de HC, teria aprendido por osmose na curta mas intensa convivência que tive c/ a Pitty.

Termino a entrevista perguntando que nota ela dava a si mesma:

- Porra, Adolfo! (risos) Que nota pra mim?! Porra, 10! Vou dizer o quê? (mais risos) Sou legal, sou gente boa. Nem ronco! (risos novamente) E você, que nota dá pra mim?

- Você é uma guria legal. Vale um 10.

LUST FOR LIFE
PITTY NO ENSAIO FOTOGRÁFICO DA INKED #001
 E À FRENTE DA INKOMA NOS ANOS 90 [foto: arquivo pessoal]

7 comentários:

Rafa Aragão disse...

Recordar é viver...hehehehe

muito bom o texto, essa conexão SSA-AJU com Pitty realmente deve ter sido irada, hehehe.

E pow bem que ela podia voltar com o Inkoma como um "projeto paralelo" ao seu trabalho solo.

Adelvan disse...

O mundo dá voltas ...

Anônimo disse...

pena que essa mina virou EMO

Viva La Brasa disse...

virou EMO mas continua GOSTOSA...

Daniela disse...

Virou EMO? tá louco?
Continua gostosa? Vamos aumentar o nível dos comentários aê!

Viva La Brasa disse...

é verdade, emo é o namorado...
qto ao outro comentário, foi o que me veio à cabeça vendo essas fotos.

Riot disse...

Os brutos tb. amam! ;P