sábado, outubro 09, 2010

ONDE VOCÊ ESTEVE 


Eu sou um caranguejo, estou de andada”... cantava Chico Science em Risoflora.

Eu estava em Recife quando Chico morreu. Já contei isso aqui antes. Fiquei enfiado na lama da Manguetown de janeiro a abril de 97. Eu era jovem e conseguia viver c/ o mínimo de grana. Foi o único carnaval que curti em Olinda.

Passava o dia nos Quatro Cantos e imediações. Fim-de-tarde, pôr-do-sol no quintal da casa de uma amiga no Amparo. À noite a estrovenga girava, c/ a 1ª edição do Rec Beat num anfiteatro olindense. Festival de rock em plena folia de Momo. Samba Esquema Noise.

A Mtv me entrevistou p/ falar sobre camisinha. Eu, chapado, nem tinha. A produção me descolou uma em cima da hora do flash ir pro ar. Na mesma noite, durante show da Eddie, fiquei c/ a garota que seria responsável por minha mutação em homem-caranguejo. 

Alta, branca, falsa magra. Sardenta, cabelo preto liso, curto atrás e comprido na frente, o corte que as ‘modernas’ usam hoje em dia. Olhos azuis. Top model européia nascida na beira do Capiberibe – imagina se a colonização holandesa tivesse vingado...

Morava em Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana de Recife, a duas quadras da praia, e logo eu estava lá, vivendo c/ ela. Em seu quarto, no apartamento que dividia c/ o irmão, referências a Basquiat e The Cure. 

Bebíamos vinho noite adentro e amanhecíamos ouvindo Beck, Flaming Lips, Cardigans, Portishead. Um disco, em especial, era nosso preferido: WHERE YOU BEEN do Dinosaur Jr.

O som ao mesmo tempo pesado e romântico, distorcido e melódico de J.Mascis, c/ seus solos de guitarra e voz anasalada, embalou madrugadas memoráveis.

Um brinde.

No último mês de setembro, Mascis e seus velhos comparsas Murph & Lou Barlow estiveram no Brasil como principal atração do festival Coquetel Molotov, em Recife, e aproveitaram p/ fazer sua 1ª turnê no país.

São 9 álbuns, entre eles GREEN MIND e WITHOUT A SOUND nos anos 90, e os recentes BEYOND e FARM, de 2007/09. “A banda voltou com sua formação original e, pasmem, vem lançando grandes discos e fazendo shows muito bem cotados por público e crítica especializada”, comenta o jornalista Tiago Marditu.

Não viajei p/ nenhuma cidade p/ assistir – infelizmente p/ mim – mas meu chapa Adelvan K., que até há poucas semanas ostentava uma cabeleira maior que a do J., vendeu suas madeixas e usou a grana p/ ver a apresentação do trio em Salvador.

O show aconteceu na Concha Acústica, um anfiteatro infalível. Assisti a Nação Zumbi lá em 99, ao lado da Pitty, mas essa é outra história...

DINOSAUR JR. EM SALVADOR
por Adelvan Kenobi em 28/09


No último domingo eu vi um dos melhores shows da minha vida. Dá pra acreditar que eu nunca tinha ido na Concha Acústica do TCA? Encravado no Campo Grande, centro da cidade, além de amplo, espaçoso, bonito e com uma excelente estrutura, o local é lendário, um dos melhores e mais democráticos espaços culturais da região. Por lá já passou de tudo, como por exemplo um show do Sepultura em formação ‘clássica’ com Max Cavalera no início dos anos 90.

Me bati com um brother das antigas, o vocalista da banda punk baiana Injúria, mencionei que era minha primeira vez na Concha e ele já foi lembrando da primeira vez dele, em 1989, show do Cólera com o Taurus! Por aí dá pra notar a diversidade e a importância desses espaços para o cenário não apenas soteropolitano mas também de todo o Nordeste.

Era também a primeira vez do CIDADÃO INSTIGADO, e Fernando Catatau estava emocionado por isso. Ele já tinha tocado por lá com outros músicos, como Otto, mas não com a SUA banda, o Cidadão. E foi um show excelente, como não poderia deixar de ser, já que a estrutura era de primeira. Desfile de pérolas psicodélicas pontuadas por uma originalíssima sonoridade influenciada pela música REALMENTE popular brasileira dos anos 70 e 80 – aquele brega clássico que o Catatau prefere chamar de música romântica.

É como se Odair José tivesse tomado um ácido e tirado uns sons com alguma banda psicodélico/progressivo virtuosa. Destaque para ‘Deus É Uma Viagem’, com seu clima num ‘crescendo’ que culmina numa espécia de louvação. Acho essa música uma obra-prima – aliás, acho o disco ‘U-HUUU’ um dos melhores (senão o melhor) do rock brasileiro dos últimos tempos. Rock mesmo, brasileiro, mas ROCK – ‘Viva a resistência roqueira no Brasil’, gritou Catatau numa certa altura. Excelente.

Antes do Cidadão teve A BANDA DE JOSEPH TOURTON. Legal. Bons músicos, boas intenções (música instrumental experimental), mas falta composição. Não empolgou.

A gente estava lá para ver DINOSAUR JR.. Vimos, e ouvimos. Ouvimos muito. Muito alto. 

Foram precedidos pela montagem de duas paredes de amplificadores, com a mítica marca Marshall reluzindo na maioria deles. [...] Quando entraram no palco, entraram ‘com gosto de gás’, como costumamos dizer por aqui. Quer dizer, não entraram correndo, nem saudando a galera aos gritos ou coisa do tipo. Apenas entraram, ligaram seus instrumentos e começaram a triturar sem dó nem piedade nossos tímpanos. E nós gostamos, muito.

O ritual de sadomasoquismo sonoro começou com uma faixa de ‘Green Mind’, aquela que no disco tem uma flautinha bacana criando um clima (acho que é ‘Thumb’ – perdão por não saber o nome com precisão, sou apenas um jornalista amador). Perfeito. Deu o tom do que seria o restante da apresentação: displicente, porém supereficiente. Displicência é, aliás, a marca registrada de J.Mascis.

Enquanto Lou Barlow se acabava batendo cabeça e espocando as cordas do seu contrabaixo no lado direito do palco e o baterista batia sem dó nem piedade em suas peles, Mascis apenas ligava suas Fender Jazzmaster no talo e nos emocionava com aquelas belas melodias saídas de sua voz preguiçosa. Barlow arriscou uns ‘obrigado’ em bom português e Mascis falou alguns ‘thank you’ numa vozinha afetada, em tom de brincadeira, e foi isso. 

A comunicação com o público foi através da música. Só clássicos, como prometido. ‘The Wagon’, ‘Feel The Pain’ e ‘Over It’, aquela do sensacional videoclipe deles andando de bike e skate, foram as vencedoras na categoria ‘recepção entusiasmada’ por parte dos presentes. De minha parte, emocionou bastante a execução de ‘Out There’, do ‘Where You Been’, disco com o qual eu e quase todo mundo com mais de 30 aqui no Brasil foi apresentado ao som da banda, já que foi o primeiro a ser lançado em terras tupiniquins, em plena ‘era do grunge’.

Para o bis, apenas dois sons. Encerraram com o excelente cover de ‘Just Like Heaven’, do The Cure. Nunca vi um final de show tão abrupto. Pararam de sopetão, agradeceram e caíram fora. Pode ter dado a impressão aos desavisados de que eles não estavam felizes por estar ali – o que eu acho difícil – mas não importa. Eu estava feliz, meus amigos estavam felizes e as pessoas ao nosso redor também pareciam bastante satisfeitas.

Voltamos para casa felizes e eu estou feliz até agora, digitando isso aqui pra você. Espero que você tenha ficado feliz depois de ler.


***
[dedicado à você, aí fora. @]







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