sexta-feira, novembro 05, 2010

ADEUS ÀS ARMAS  
Um dos mais célebres romances do escritor Ernest Hemingway, Adeus às Armas, conta a história de um jovem americano que se alista no exército italiano durante a 1ª Guerra Mundial. Ferido, recebe cuidados num hospital em Milão e apaixona-se perdidamente pela enfermeira. Os dois se amam, ela engravida e ele retorna à linha de frente, em Caporetto. Diante da derrota iminente no campo de batalha, surge o questionamento quanto ao sacrifício da felicidade pessoal em nome de uma causa maior.

Andy Irons é um dos mais célebres nomes do surf. Tricampeão mundial em 2002, 03, 04. Tetracampeão da Triple Crown, a tríplice coroa havaiana. 4X Pipeline Master, entre 10 conquistas em casa, no Hawaii. Mais 6 vitórias na Califórnia, 3 na França, 3 no Tahiti, 2 na Austrália, 2 no Japão, 2 na África do Sul, e 1 na Espanha, Fiji, México e Chile... 12 no WQS e 20 no WCT, totalizando 32 vitórias no circuito mundial. E mais o título mundial júnior em 98.

Mais de $1 milhão e meio de dólares ganhos apenas em premiações de campeonatos, valor aproximado do salário anual do patrocinador principal, a marca australiana Billabong – que lançou uma linha de boardshorts c/ seu nome inspirada nos raios de sol estilizados dos guerreiros kamikaze da Grande Guerra.

Sua reputação há muito superou o surf: loiro de olhos azuis, não demorou a se tornar alvo dos paparazzi. Empresas como a bebida energética Red Bull e a grife de óculos Von Zipper fizeram dele seu garoto-propaganda, e revistas de moda o convidavam p/ ensaios fotográficos. Entre os surfistas, a fama de Irons só não era maior que a de Kelly Slater, seu maior ídolo – e adversário.

Descobri do que sou capaz graças ao Andy, o competidor mais intenso que já vi”, diz o eneacampeão, que comeu poeira por 3 temporadas seguidas no rastro de Irons até voltar a vencer o título mundial em 2005 e 2006, anos em que o havaiano foi vice. A rivalidade dos dois, de tão eletrizante, rendeu 2 dos melhores filmes de surf já feitos: BLUE HORIZON de Jack MacCoy mostra a disputa de 2003 e A FLY IN THE CHAMPAGNE registra a reconciliação numa boat trip pela Indonésia. 

Tenho sorte de tê-lo conhecido e passado um tempo com ele”, disse Slater ao saber da morte do amigo na terça-feira, 02 de novembro: “Sinto-me abençoado por termos superado as diferenças que tivemos. Aproveitamos muito tempo junto com nossas garotas no ano passado e eu conheci um menino feliz, divertido, inocente, que ficava contente por viver cada segundo com as pessoas que amava. Estou triste.

Andy tinha 32 anos. Deixou pais, o irmão Bruce – 2 anos mais novo e também um fora-de-série do surf – e a esposa Lyndie, grávida de 8 meses. Faleceu sozinho, num quarto de hotel em Dallas, no dia de finados. Tal qual um ‘rock star’. Mas não há glamour algum na perda precoce de uma vida, e a história que envolve o óbito de A.I. ainda é nebulosa e cercada de mistérios.

Ele foi encontrado sem vida às 10h do horário local do Texas, escala do vôo que o levaria de Porto Rico, onde acontece a penúltima etapa do circuito mundial 2010, p/ sua casa no Kauai. A primeira causa apontada foi dengue hemorrágica, supostamente adquirida em Portugal, onde foi disputada a etapa anterior. Hipótese desmentida pela Direção Geral de Saúde do país. “Em Portugal não há dengue”, diz o ministro Francisco Jorge: “Todos os casos identificados são importados”.

Irons já fora contaminado c/ uma variante desse tipo de dengue em 2007, e suspeita-se que ele tenha contraído a doença novamente na Indonésia, por onde passou antes do campeonato em Peniche, litoral lusitano. A origem do Aedes Aegypti é asiática, e sua picada afeta 500 mil pessoas por ano [muitas delas no Brasil], apresentando taxa de mortalidade de até 10% em pacientes hospitalizados e 30% nos não-tratados.

Em seguida, vazou na internet a informação sobre uma possível overdose de metadona, substância usada no tratamento de toxicodependentes e vendida sob prescrição médica. O site TMZ noticiou que as autoridades encontraram no quarto cápsulas da droga e embalagens de Zolpidem e Alprazolam, medicamento similar ao Xanax.

Está todo mundo perplexo, em estado de choque”, informa o catarinense Luli Pereira, juiz da ASP, direto de Porto Rico p/ o site Waves: “Ele tinha voltado este ano ao circuito mundial dizendo que só queria ganhar mais um campeonato.

Metadona é mais forte do que morfina, e costuma ser receitada na recuperação de dependentes químicos. A.I. passou um tempo afastado do World Tour p/ se desintoxicar do vício em cocaína, e este ano recebeu o convite p/ correr todas as etapas – chama-se a isso “Wild Card”. Estava em 16º na classificação e vencera a 6ª etapa, o Billabong Pro em Teahupoo, há pouco mais de um mês. “Superou todos os problemas e estava muito feliz com a vida profissional e pessoal, brilhando novamente”, diz Luli.

Phil Irons, pai de Andy, culpa a associação dos surfistas e a companhia aérea pela tragédia. “Eu não posso explicar a condição dele. Eu só sei que é muito ruim que meu filho tenha morrido. As razões por trás disso serão descobertas.” Ele está indignado, e c/ razão. A ASP foi negligente ao liberar um atleta que se apresentava mal de saúde – e por isso mesmo não conseguiu competir na etapa. E a American Airlines foi irresponsável ao não autorizar o embarque de um passageiro doente – na escala do Texas – e deixá-lo sozinho, sem assistência.

Quando ele foi entrar no avião estava muito doente e não o deixaram ficar a bordo”, desabafa Phil: “Em vez de ligarem para mim ou para a esposa dele, ou colocá-lo em um hospital, mandaram-no embora. Deixaram ele sozinho. Andy acabou indo para um hotel, e morreu!” Ainda deve demorar uns 90 dias até sair o resultado da autópsia. O Rip Curl Search em Porto Rico está suspenso e corre o risco de ser cancelado.

Irons é o primeiro campeão mundial de surf a morrer, desde que o circuito foi criado em 1976. Todos os caras daquela época – PT, Shaun, Rabbit, MR – continuam pegando onda na meia-idade. Todos os campeões dos anos 80, 90 e desta década estão aí, vendendo saúde – Carroll, Hardman, Lynch, Ho, Occy, Sunny, CJ, Fanning... P/ não falar no líder do ranking 2010! Até o gênio alcoólatra Tom Curren, tricampeão em 85/86/90, bebe sim e está vivendo.

O australiano Joel Parkinson, vicecampeão mundial em 2002/04/09 e companheiro de equipe, chorou quando recebeu a notícia. “Eu não podia acreditar no que estava escutando. Fui com um grupo de amigos até o clube em Snapper à tarde, bebemos uma cervejas, choramos e contamos umas histórias sobre Andy, tipo quando fomos para o deserto ano passado no aniversário do Occy. Tivemos de dormir numa barraca para duas pessoas e ele reclamou o tempo todo.

Andy Irons era um pentelho, mas sem ele o surf-competição vai perder muito da graça. Sua gana de superar Slater ajudou a elevar o nível de performance nos últimos anos, em finais tensas no oceano Índico [África do Sul em 2003, vitória de Kelly] e no Pacífico [Pipeline em 2003 e 2006, vitórias de Andy; Teahupoo em 2005 e Pipe em 2008, vitórias de KS] – c/ os dois era assim, toma lá dá cá. Poderia ter sido o sucessor natural do maior surfista da história, mas nunca aceitou o papel de coadjuvante.

P/ Andy valia a máxima dos Rolling Stones, “falem mal mas falem de mim”. Joel ‘Parko’ lamenta o fato de sua morte solitária, anônimo num hotel. “Pensar nisso só me arruína. Nós já estávamos conversando sobre viajar juntos no próximo ano com nossas esposas e crianças para o Tahiti... Como surfista ele tinha um ‘cachorro louco’ dentro de si. Não temia nada, usava o coração nas duas luvas. Tinha uma agressividade inacreditável em seu surf.

O site Data Surfe chama a atenção p/ um dado interessante: “É o único surfista que figura entre os 10 maiores vencedores do WCT e também do WQS.” Kelly Slater está fora dessa lista porque nunca se dedicou ao ‘QS, repleto de eventos menores e de pouco valor. Irons, por sua vez, sempre competiu muito em casa – Hawaii e EUA – além de ter sido desclassificado da 1ª divisão em 99. Voltou à elite em 2000 p/ vencer 3 títulos consecutivos.

Melhor competidor havaiano de todos os tempos, sempre citou como referência os indomáveis Martin Potter, Mark Occhilupo, Matt Archbold, Sunny Garcia e Shane Dorian – surfistas intensos e radicais. Mas, ao ser entrevistado p/ a campanha I SURF BECAUSE... da Billabong, admitiu a influência do ídolo & rival: “Eu surfo por causa do Kelly, pelas garotas, por causa dos carros legais, pelo hype.

Bad boy. Defendia o localismo, ‘secava’ seus adversários nas baterias e não fazia a menor questão de ser simpático, mas nunca puxou a cordinha de ninguém e sempre venceu c/ a prancha no pé, no surf mesmo.

Eu o idolatrava”, diz Parko: “Se Andy colocasse uma coisa em sua mente, não havia nada que ele não pudesse fazer em uma onda, e ao longo dos anos eu o vi fazer algumas das coisas mais incríveis. Ele e Kelly dominaram o surf nos últimos 10 anos.

K.S. falou que o mítico 10º título que ele está prestes a conquistar tornou-se insignificante diante dessa perda. “Estou pronto para competir, mas pensar em pegar onda, garantir nota... É difícil neste momento, mas estamos aqui para isso. É parte do que Andy era, o motivo de nós o conhecermos tão bem. É algo que nos une. 

E já garantiu à viúva que a comunidade do surf dará toda assistência ao bebê que chega mês que vem. “Andy tinha muito o que viver e dói pensar nisso”, diz Slater: “Realmente vou sentir sua falta, ele tinha um bom coração. Espero que sua memória permaneça viva em nossas recordações, e em seu filho que está a caminho. Há muitos tios esperando por sua chegada.

Andy só queria vencer mais uma vez, e fez isso em setembro, numa de suas ondas preferidas. O último encontro dos dois campeões aconteceu após a vitória de Kelly em Portugal: “Ele me deu um abraço e disse que estava feliz por mim.

Em Adeus às Armas, o protagonista foge da guerra na Itália e refugia-se na Suíça c/ a amada. Mas a garota morre ao dar à luz a criança. Diria Hemingway: “A própria vida não é senão uma ilusão de honra, como de felicidade.

NICE RIDE, KAMIKAZE
ANDY APRESENTA SUAS ARMAS...
...TÉCNICA E ESTILO P/ VENCER EM TEAHUPOO...
 ...E 'POWER VERSUS POWER' EM PIPELINE...
 ...FOI 4X PIPE MASTER VENCENDO 2X SLATER...
...E DIVIDIU PÓDIOS C/ O IRMÃO CAÇULA, BRUCE...
...FLOATER EM J-BAY, ÁFRICA, ONDE VENCEU EM 2004...
---SEM MEDO DA MORTE EM THE BOX, AUSTRÁLIA...
 ...CAMINHANDO P/ SUA ÚLTIMA BATERIA, EM PORTUGAL...
...ANDY TINHA FORÇA P/ ENCARAR QUALQUER ONDA...
...E HABILIDADE P/ FAZER QUALQUER MANOBRA...
 ...GANHOU QUASE TUDO QUE PODIA...
...MAS SÓ FOI FELIZ AO LADO DE LYNDIE...
...HOMENAGEM DOS AMIGOS NO HAWAII, 03/11... 
...VALEU, ANDY *24/07/1978 - +02/11/2010



Um comentário:

Maicon disse...

Não saco nada de surf, nem ao menos sei nadar, hehehehe... E como sempre me fascinou o lançe de poder estar sobre uma prancha brincando com as leis de Newton, eu andei de skate o quanto meus joelhos aguentaram hehehe Mas eu conhecia a fama do Andy Irons aí, e da força que ele e do Kelly Slater tem sobre a prancha.

Belo post, mestre AdolfO S.