terça-feira, novembro 02, 2010

UMA NOITE EM 2010 

THE BAGGIOS. FOTO: MARCO VIEIRA

O inglês Pete Townshend foi o primeiro cara a quebrar uma guitarra no palco. E o paulista Sérgio Ricardo foi o primeiro a quebrar um violão. A cena aconteceu no 3º Festival de Musica Popular Brasileira e está no filme Uma Noite em 67: irritado c/ o público que o vaiava por ter se classificado p/ a final eliminando Jair Rodrigues, Sérgio interrompe a música Bebeto Bom de Bola e diz: “Vocês ganharam!” Em seguida, aplica um cabongue na sua viola e atira os destroços sobre a audiência.

A Record promovia esse festival em São Paulo, e a Globo, o Festival Internacional da Canção no Rio de Janeiro. Festivais transmitidos pela TV são parte importante da história da música brasileira desde os anos 60. Revelaram e consagraram nomes como Elis Regina, Tom Jobim, Jorge Ben, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Os Mutantes, Milton Nascimento, Beth Carvalho e até Toni Tornado. Samba do crioulo doido.

2 sábados atrás, na noite de 23 de outubro, aconteceu o 2º Festival Aperipê de Música, que envia músicos locais p/ o Festival das Rádios Públicas do Brasil. A Aperipê é uma fundação estatal de comunicação, afiliada à TV Brasil e à ARPUB [Associação das Rádios Públicas do Brasil]. 84 artistas e bandas inscreveram suas músicas p/ o Festival deste ano, 30 foram peneiradas p/ tocar na AM e na FM durante 1 mês, tempo em que ficou aberta a votação pela internet que selecionou os 10 nomes que se submeteriam a um júri especializado, apresentando-se ao vivo.

Não concordo com a votação na internet, pois quem tem muitos amigos sai beneficiado”, diz Júlio Rego, gaitista da banda instrumental Café Pequeno, uma das 10 escolhidas p/ tocar no Teatro Lourival Batista. “Artistas de grande qualidade não puderam estar entre os finalistas do Festival por causa de votos insuficientes na internet”, faz coro Patrícia Polayne, vencedora da 1ª edição do F.A.M. c/ a canção Arrastada [clique no título e assista o clip dirigido por Gabriela Caldas].

Ela representou o estado em 2009, levou o prêmio principal no festival nacional, em Salvador, e fez um pocket show antes do anúncio dos campeões. “Essa resistência do festival é fundamental porque os festivais fizeram uma grande história na música brasileira nos anos 60, 70 e agora temos a volta deles, e os festivais continuam fortes mesmo fora do eixo da grande mídia”, diz Patrícia, aniversariante da semana. “Claro que muita coisa precisa ser mudada, acrescida, amadurecida.

Se ano passado só havia um prêmio, em 2010 foram quatro. E se o sistema de votos pela rede não é muito bem visto entre os músicos, por outro lado também dá a acesso a desconhecidos mostrarem seus trabalhos. Na internet, as mais votadas foram Bela Nostalgia, pop rock da banda Sauna 970 [foto abaixo], e Pelo Mundo, do psicanalista Alberto Silveira, um virtuoso do violão. Levaram os prêmios do “júri popular nas categorias Melhor Música com Letra e Melhor Música Instrumental.

Mas o que valia mesmo eram os prêmios do júri principal, que ia de Alvino Argolo, violonista clássico, a Mingo Santana, dono de uma loja de instrumentos. O Festival Aperipê foi aberto ao público, que compareceu p/ torcer por seus favoritos. “Foi uma divulgação que deu pra fazer no tempo que teve pra fazer e o resultado disso é o público que veio, casa cheia”, diz Edézio Aragão, diretor da FM e tocador de cavaquinho na Naurêa e Banda dos Corações Partidos – grupos que obviamente não participaram.

Se dependesse de um corpo de jurados especialistas em música, provavelmente os 10 concorrentes seriam todos nomes conhecidos da cena. Graças à internet, o interior foi representado por caras como Cícero Guerra, bancário de Simão Dias residente em Lagarto; Sérgio Lucas, juiz de Porto da Folha que nas horas vagas pesquisa música regional e trouxe quilombolas e um aboiador; e a banda Mutante in Sanidade, de Ns.Sra. da Glória, cidade em que é realizado o festival Rock Sertão. O vocalista Luiz Tiago explica que o sinal da Aperipê não chega na cidade de Glória sem a parabólica, então fica difícil saber do festival”.

Foi uma seleção eclética, do grupo de chorinho do flautista Odir Caius ao indie pop da banda Nantes, passando pelo samba rock da Cabedal. “Eu lembro dos festivais das décadas de 70 e 80, e o Festival Aperipê vem com a proposta inovadora de veiculação das músicas na rádio antes da tradicional apresentação ao vivo”, diz Guga Montalvão, do Café Pequeno, grupo vencedor da Melhor Música Instrumental c/ Hang Drum Café. Projeto do percussionista Pedrinho Mendonça, no som experimental dos caras cabe efeitos de pedal na gaita [acima] e um instrumento louco semelhante a um casco de tartaruga. 

Se não fosse a internet, talvez a música Em Outras nem tivesse sido classificada num primeiro momento, e júri & platéia não veriam de perto o blues punk do guitarrista Júlio Andrade e do baterista Gabriel Carvalho. A todos os participantes era permitido abrir c/ uma música que não estivesse concorrendo, e The Baggios já saíram quebrando tudo na Canção dos Velhos Tempos: Julico puxando um slide e caindo de joelhos, enquanto Perninha batia tão forte que o bumbo andava p/ frente. 

Quando partiram p/ a vera, o jogo já tava ganho. O operador da mesa de som, acostumado a trabalhar c/ forró e MPB, ficou assustado c/ a amplificação do Warm Music valvulado, e abaixou o volume da guitarra e aumentou o da voz. Luiz Oliva, guitarrista da Snooze e sonorizador da Aperipê, tentou ao máximo equalizar o áudio na filtragem do material p/ a TV, mas ele é engenheiro de som, não é mágico. Nada disso, porém, impediu que Em Outras vencesse nas categorias Melhor Intérprete e Melhor Música. 

The Baggios e Café Pequeno serão nossos representantes no Festival das Rádios Públicas do Brasil, que acontece em Belo Horizonte no mês de dezembro. Em entrevista à locutora Flávia Lins durante o programa Sonora, Julico comentou a vitória: “Foi uma felicidade e surpresa ao mesmo tempo. Nos inscrevemos mais preocupados com a divulgação da banda do que com o prêmio principal. Também estava torcendo para o pessoal da Nantes e da Cabedal, bandas que admiro muito.

Eu estava lá nos bastidores gravando entrevistas p/ o programa Cena do Som, apresentado pelo músico e luthier Nino Karvan. Confira o último bloco c/ as apresentações premiadas dos malucos do Café & Baggios. O festival abre as portas para músicos com talento, mas ainda sem espaço no mercado. Esse é um prêmio que nos faz pensar que estamos no caminho certo. A sensação é de estar um pouco mais fortalecido e reconhecido”, diz Julico, só sorrisos.

E pensar que em 67 tinha artista fazendo passeata contra a guitarra na música brasileira...

FESTIVAL APERIPÊ DE MÚSICA
- FOTOS: ANDRÉ TEIXEIRA

PATRÍCIA POLAYNE VENCEU O FESTIVAL NACIONAL EM 2009
 23/10/10, CASA CHEIA NO TEATRO LOURIVAL BATISTA
NANTES FOI UMA DAS PRIMEIRAS ATRAÇÕES DA NOITE
A BANDA CABEDAL CONCORREU C/ SEU SAMBA ROCK
 DR. ALBERTO SILVEIRA, O "HOMEM DE 50 DEDOS"
CAFÉ PEQUENO VENCEU A CATEGORIA INSTRUMENTAL
THE BAGGIOS EM DOIS MOMENTOS QUE VALEM POR TRÊS...
...QUEBRANDO TUDO NA 'CANÇÃO DOS VELHOS TEMPOS'...
...E SENDO PREMIADOS PELA MELHOR PERFORMANCE NO F.A.M.



por VIVA LA BRASA c/ reportagem de NINO KARVAN e SÓSTINA SILVA / retrato de PATRÍCIA POLAYNE por EDSON COSTA
agradecimentos: FUNDAÇÃO APERIPÊ & UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE / http://empautaufs.wordpress.com/

CENA DO SOM VAI AO AR TODA QUINTA-FEIRA 18h30 [horário de verão] C/ REPRISE SÁBADO 15h30 - APERIPÊ TV canal 2

3 comentários:

Anderson Ribeiro disse...

Muito bom. E é bom saber que esses festivais estão realmente fortalecendo a música local. Artistas aparecendo e 'descentralizando' a cena, no que diz respeito aos personagens batidos. Parabéns a Aperipê e ao texto elucidativo e cheio de referências do homem brasa.

bela_raposo disse...

Sem dúvida nenhuma a noite do dia 23 foi a concretização do esforço que temos feito há alguns anos para divulgar e abrir espaço para a cena musical sergipana. trabalhei muito para que tudo pudesse acontecer e fico muito feliz com o resultado. me sinto recompensada! Acho que muitos pontos precisam ser repensados para o próximo festival, a votação pela internet é um deles. Mas aproveito esse espaço para reforçar que o festival aperipê de música, assim como o festival de música das rádios públicas do brasil, é um festival de veiculação de música! é claro que a noite de apresentações foi maravilhosa, mas o fato das músicas desses artistas estarem circulando na rádio e fazendo parte de nossa programação é um grande feito. Agora é the baggios e o café pequeno circulando pelo brasil! Adolfo, parabéns! Sensacional o trabalho que você tem feito na Aperipê TV e aqui no viva la brasa, sou fã.

Viva La Brasa disse...

valeu, isabela.
tb sou seu fã, você sabe.