domingo, novembro 07, 2010

VENCER PRA QUÊ? 
O Rip Curl Pro Search 2010 não existiu. O que nós assistimos pela TV e internet na última semana não foi a penúltima etapa do circuito mundial de surf, mas o lançamento de WORLD TOUR, a nova série dos roteiristas e produtores de Lost. A história, sobre um grupo de surfistas profissionais que viajam pelo planeta competindo entre si p/ ver quem é o melhor, traz os mesmos elementos da bem-sucedida série da rede ABC: aventura, suspense, ficção científica, teorias conspiratórias e um final-surpresa nem tão surpreendente assim.

O roteiro começa c/ a morte de um dos campeões num quarto de hotel em Dallas, EUA, bem longe do mar. Na mesma semana, seu maior rival – e melhor amigo? – vence pela 10ª vez o circuito em que os dois duelavam, um feito insuperável. Grande argumento, ahn? Nessa realidade bizarra, apenas 4 dias depois do passamento do personagem Andy Irons, o ator que interpreta Kelly Slater compete nas finais, tira duas notas 10, uma delas na decisão, e dedica o título à família do falecido. A série promete ser sucesso de público & crítica.

Semelhante à Lost, a locação principal é também fica numa ilha paradisíaca: Porto Rico, pequena nação caribenha anexada aos Estados Unidos. Mais especificamente a praia tropical de Porta Del Sol, onde ondas de 1 metro e meio quebram p/ a direita de quem dropa. Um cenário perfeito, c/ luz ideal. A estréia do programa foi no último dia 02, feriado de finados. Pico de audiência, todo mundo ligado...

Há muita ficção entre nós”, aparece Andy num flashback durante o 2º capítulo, que foi ao ar ontem: “Comecei a acreditar no que estava lendo, a imprensa criou um monstro. Comecei a entrar no personagem e isso atrapalhou minha relação com o Kelly. Essa rivalidade nos consumiu. As pessoas queriam nos ver como inimigos.

PAUSA P/ OS COMERCIAIS

Jogada de mestre matar o vilão logo na estréia, só p/ humanizá-lo nos episódios seguintes. “Se não fosse pelo Andy, eu não estaria aqui agora”, Slater discursou no pódio. “Só quero enviar minhas condolências à família Irons. Foi uma semana de extremos para mim. Não sei o que dizer, estou bastante consternado e só quero dedicar a vitória à família do Andy e à minha.

Careca como o John Locke de Lost, Kelly também se sente revigorado sob a atmosfera da ilha: “Eu não surfava em Porto Rico desde 1988. Eu vinha muito aqui, é como minha segunda casa.” Uma segunda casa na qual não aparecia há 20 anos. Da mesma forma que o bad boy da série era um sujeito de bom coração, o protagonista de WORLD TOUR também não é um herói óbvio. “Na minha idade as pessoas dizem ‘você não deveria estar fazendo isso.’ Todos os novatos estão melhorando e é um desafio acreditar em si mesmo, e não no que as pessoas falam.

Personagem multifacetado que diz coisas que querem dizer outras, KS é frio, calculista e manipulador. Dizia estar triste demais p/ surfar nos dias seguintes à morte de AI, mas foi o maior defensor da continuidade do campeonato mesmo assim – “É algo que Andy faria” – e também o primeiro a oferecer o ombro amigo à viúva Lyndie, prestes a ser mãe do 1º filho de Irons. Os roteiristas pensaram em tudo.

Se fosse na vida real, o campeonato provavelmente seria cancelado e os surfistas que acompanham o circuito estariam de luto, não voltariam à água 3 ou 4 dias depois da tragédia p/ o joguinho de pegar onda. A realidade é complexa demais p/ uma dinâmica tão rasa quanto à proposta pela nova série.

Se algo parecido acontecesse de verdade, o Rip Curl Search seria suspenso, a premiação dividida entre os atletas, e a cota destinada ao campeão da etapa iria p/ Lyndie e seu bebê. O ranking seria congelado no ponto em que estava. O circuito deste ano seria encerrado c/ Slater vencendo o 10º título – coisa que acabou acontecendo de qualquer jeito – e Andy terminaria a temporada entre os Top 16.

Valeria como homenagem e também registro histórico. A última etapa, Billabong Pipeline Masters, seria rebatizada como Andy Irons Pipeline Masters e este ano, excepcionalmente, realizada como um evento especial, sem valer pontuação p/ ranking nenhum. Isso já aconteceu em 2001, quando as etapas européias foram canceladas após o ataque às Torres Gêmeas em 11/09. Os surfistas ficaram c/ tanto medo de viajar de avião que o Tour daquele ano foi encerrado c/ apenas 5 etapas realizadas.

Mas como a vida perdida aqui foi um caso isolado, o circo segue em frente porque o show não pode parar. “Sinto-me aliviado, honestamente”, disse Slater ontem, c/ 2 troféus nas mãos – o do campeonato tem o formato de um globo e o do título é uma taça dourada, símbolos emblemáticos de sua posição – “Jordy, Dane, Mick, Taj, todos esses caras são bons e é uma maratona. Não é uma onda, não é uma manobra, não é um evento. É um ano inteiro, e eu soube focar e deu tudo certo.

A SEGUIR CENAS DO PRÓXIMO EPISÓDIO

Os capítulos seguintes serão gravados no Havaí. Damon Lindelof, produtor de Lost e de W.T., adianta que o mocinho tentará conquistar a viúva de Irons, aproximando-se dela através da criança recém-nascida.  Seria a tribo do surf tão filha-da-puta quanto o que é mostrado na TV, um tipo de gente que não espera nem defunto esfriar?

O que você faria por um milhão de dólares?” Pergunta o jornalista americano Nathan Myers. “Comeria cocô? Transaria com sua mãe? Stand Up Paddle em Teahupoo? Só considerar já é humilhante, especialmente sem ninguém oferecendo a grana. Recentemente, entretanto, o mundo do surf tem oferecido quantias consideráveis para surfistas irem um pouco além do convencional.

A vitória em Porto Rico foi a 45ª de Kelly no circuito mundial [contando apenas as provas da 1ª divisão]. O decacampeonato lhe renderá luvas de U$ 10 milhões do seu patrocinador. “No lugar de se perguntar o que faria por um milhão de dólares, pergunte o que você faria se dinheiro não fosse um problema. Surfaria o dia inteiro. Moraria na praia. Passaria o tempo todo com seus amigos e nunca trabalharia de novo.

Quem lucra c/ o 10º título de Kelly Slater, além dele mesmo? A ASP? A Quiksilver? A quem interessa a popularização do surf e sua absorção pelo mainstream? A indústria de moda? A mídia especializada? No fim, nós só queremos continuar surfando, conclui Myers: “Todas essas recompensas, prêmios e competições não passam de uma desculpa para ficar na água.

A série WORLD TOUR mostra o quanto os surfistas podem ser egoístas & superficiais. E Slater é o maior de todos.

ONLY ONE $URFER KNOW$ THE FEELING
SLATER 2010, C/ O MUNDO A SEUS PÉS
 MULHER NUNCA FOI PROBLEMA P/ ELE
 
 DE PAMELA ANDERSON À GISELE, A LISTA É GRANDE
ATÉ 2008, UMA VITÓRIA NA ASP VALIA U$30 MIL; GRAÇAS À
PRESSÃO DE KS10, HOJE CADA ETAPA PAGA NO MÍNIMO U$ 75 MIL
MAS DE QUE ADIANTA VENCER, P/ COMEMORAR C/ NOVA SCHIN? 

POR UNS DÓLARES A MAIS 
SLATER COMANDOU O SHOW EM PORTO RICO...
 ...TIRANDO DUAS NOTAS 10 E LEVANDO O 10° TÍTULO
BEDE DURBIDGE NÃO FOI À ETAPA PORTUGUESA P/ ASSISTIR AO NASCIMENTO DO FILHO NA AUSTRÁLIA; EM PORTO RICO FICOU EM 2° E ESTÁ EM 6° NO RANKING
DYLAN GRAVES VENCEU AS TRIAGENS E REPRESENTOU O SURF LOCAL
ADRIANO DE SOUZA FICOU EM 5º E ESTÁ NOS TOP 10 DO WT
SILVANA LIMA FOI A PRIMEIRA MULHER A TIRAR UM 10 ESTE ANO...
...E STEPHANIE GILMORE GARANTIU SEU 4° TÍTULO MUNDIAL

2 comentários:

Viva La Brasa disse...

LIVRO DE ECLESIASTES — Capítulo 3

1 Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.

2 Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;

3 tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar;

4 tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;

5 tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar;

6 tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora;

7 tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;

8 tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.

9 Que proveito tem o trabalhador naquilo em que trabalha?

euamolongboard disse...

Fala Binho. Leio há muito, só agora escrevo, pois o momento é especial.

O que você esperava do KS? O Cara (maiusculo mesmo) é americano, e agora 10 vezes campeão mundial.

Assim como uns Bill Gates, Metallica, e outros, quem chega no topo tem necessáriamente uma gama de qualidades nem sempre boa. Não esqueçamos que todo mundo diz que ele é mestre do ~mind game~, então acha que iria deixar o campeonato esfriar?

Anyway, só acho que ele não vai pegar a viúva não. Hordas de havaianos vão quebrar ele inteiro se fizer isso.

Todo o resto, veritas.

Abs Klaus