quarta-feira, dezembro 01, 2010

AUTOMAZO  

Conheci Jamson Madureira num show do Camboja, a sua banda-de-um-homem-só. O ano era 96 e o lugar, um pequeno teatro do músico Paulinho Lobo, que pela 1ª vez recebia uma noitada de rock. E que noite! Lobo toca MPB e estava arrancando os cabelos c/ a zona ali dentro. O palco era no nível do chão e a platéia ficava em arquibancadas de alvenaria. Apoiado pelos amigos Lelinho na bateria e Sílvio ‘Sub’ na segunda guitarra, o negão magro de cabelo descolorido mandava riffs de guitarra toscos enquanto moshs rolavam soltos. De vez em quando dava uns berros:

- I AM A SICK BOY, SICK BOY! I WANNA DIE, I WANNA DIE!

O Camboja surgiu no início dos anos 90 c/ Sílvio nas 6 cordas, o mítico Fúria nos vocais e Jamson como baterista. O trio do Marcos Freire [bairro suburbano de Nsa. Sra. do Socorro, região metropolitana de Aracaju] lançou a fita-demo GRIND TO GRIND, mas Fúria saiu p/ formar sua própria banda, Critical Mass, e Sílvio sempre teve a Karne Krua, a mais longeva e produtiva banda punk sergipana, ainda na ativa. C/ várias idéias na cabeça e uma guitarra usada nas mãos, Jamson assumiu o comando e gravou sozinho a demo LIES ABOUT FREEDOM, um marco do underground local.

Acompanhado apenas por uma bateria eletrônica primal, Madureira revelou-se “um exímio criador de riffs matadores e de melodias grudentas que compunham uma música minimalista ao extremo”, escreveu a jornalista Maíra Ezequiel num artigo publicado nos sites Overmundo e Meus Sons: “Nessa época, o som do Camboja consistia basicamente dos vocais berrados de seu líder ao lado de sua guitarra velha, extremamente suja e desafinada, tocada com vontade. Ecos de Ministry e Nine Inch Nails, guardadas as devidas proporções.”

P/ as apresentações ao vivo, escalou o irmão Cícero ‘Mago’ nas baquetas. Foi o 1º roqueiro da cidade a explorar o formato guitarra/bateria – o Lacertae ainda era um trio e The Baggios nem sonhava em existir. Nunca houve baixo na formação, “pra não atrapalhar”. Nesse ano, Sílvio vendeu a Lokaos p/ Adelvan Barbosa [que ainda não era o ‘Kenobi’], e assim Jamson descolou seu 1º salário fixo: balconista da loja de discos. Como eu sempre comprava CDs e camisetas lá, nos tornamos amigos. Enquanto isso, a Cambojaseguiu seu caminho meio que solitária, nadando contra a maré”, diz Adelvan:

Tornou-se uma banda ‘cult’ entre os que compreenderam melhor sua proposta inovadora, mas não fazia grande sucesso entre os punks e headbangers, que eram a esmagadora maioria entre os que freqüentavam shows alternativos na época. Isso porque a banda tinha realmente um som bastante original. As músicas eram, invariavelmente, extremamente minimalistas – um riff (sempre muito bom, diga-se de passagem) e uma frase em inglês repetidos à exaustão até o fim – que não demorava muito, as faixas não costumavam durar mais que 2 minutos.

As canções tinham títulos como Machine Man, Italian Sex Movie e What Do You Know About Pain?. Lembra Adelvan: “O último show (que não estava previsto para ser o último show) foi especialmente memorável, no Mahalo da Atalaia, abrindo para o Káfila do Piauí. O show foi matador, Madureira estava especialmente inspirado, e foi inclusive registrado para ser distribuído em K7 pelo fanzine CABRUNCO, o que infelizmente acabou não acontecendo.

Agora eu entro na história novamente. A fita rolou – MY EMPTY CLONE, único lançamento do selo MauMau – e só não foi distribuída junto c/ o zine porque eu também era um quebrado e só tive grana p/ reproduzir algumas poucas cópias. Viajamos juntos – eu, Jamson e Adelvan – p/ Salvador, fomos assistir o lançamento da coletânea UMDABAHIA, mas foi uma viagem tão gonzo que na volta não encontramos a rua onde deixamos Jamson, na casa de uns punks, e decidimos ir embora sem ele mesmo.

Encontrei-o dias depois, de volta a Aracaju, e ele estava muito puto, hahah! Mas assim que eu gargalhei, o gelo foi quebrado. Esse tipo de coisa era normal naqueles tempos, em que usávamos qualquer substância ilícita que parasse em nossas mãos. Isso obviamente alterava comportamentos...  Jamson ainda arriscou alguns projetos pós-Camboja – Misery High Tech, She Don’t Like Jazz – que não foram p/ frente por pura falta de “tesão de tocar”, segundo suas próprias palavras.

Na real a veia artística de Jamson Madureira começava a impeli-lo em outra direção. “Os shows do cara eram um caos, mas o que chamava mesmo a atenção era a arte que emoldurava o material promocional da banda, releases e capinhas de demo”, diz Maíra: “Era um traço estilizado, com uma excelente utilização do contraste claro/escuro e óbvia inspiração no que de melhor existia nos quadrinhos alternativos da época.

Madureira explorou como poucos os recursos de colagens e da sujeira da Xerox, padrões estéticos dominantes nos fanzines dos anos 90. Começou a produzir aquarelas em P&B, e em seguida a pintar quadros em telas que ele mesmo construía. Quando nos demos conta, Jamson já havia trocado os instrumentos musicais por tinta e pincéis. Tornou-se pai e fez suas primeiras exposições individuais, na Galeria do Sesc em 97 e no festival ROCK-SE em 98, c/ peças como Pílula, uma tela em vermelho c/ uma cápsula azul e branca em primeiro plano.

Suas pinturas seguiam o estilo punk que sempre o caracterizou, c/ linhas angulosas e quebradiças aliadas a cores fortes e finalizações inusitadas, como o uso de garfos p/ arranhar a última camada. Maíra descreve a reação de quem via seus novos trabalhos: “O estilo arrojado [...] apresentou-se arrebatador aos desavisados. ‘Como assim esse cara é de Sergipe?’ ‘Aquele mesmo doido do Camboja?’ A arte de Jamson Madureira não tinha raiz alguma com o que já se fez no estado.

Dizem que seu traço lembra o de Bill Sienkiewicz, autor de Elektra Assassina. “Mesmo assim, essa tentativa de aproximação em nada resume a dimensão da sua arte. O caos de 68, poemas dadaístas e a música de John Cale talvez ajudem”, diz Maíra: “Não há nada tão abstrato num elefante. Ou numa colher. O que importa é o traço, ou garrancho, ou simplesmente as partes do quadro perfuradas por algum instrumento estranho aos manuais de artes plásticas. Sua arte pintada seguia, de um certo modo, a mesma concepção de sua música minimalista, feita de signos e de imagens urbanas, paranóias e fixações. Experimentalismo. Talvez seja por aí.

Eu fui sumindo de cena no final dos 90 e, paralelamente, Madureira também. Cansado de produzir muito e vender pouco, foi atrás de trabalhos que pusessem comida na mesa. Mas as coisas nunca são fáceis quando você é preto, pobre e mora longe.

Reencontrei-o alguns anos depois na Freedom, a nova loja do Sílvio. Perguntei o que estava fazendo da vida e ele respondeu: “Quebrando pedra!” Presenteou-me c/ algumas cópias de AUTOMAZO, sua HQ autobiográfica que me inspirou a voltar a produzir um zine p/ o meu projeto de conclusão de curso na universidade [chamou-se ODIÁRIO e foi totalmente estampado c/ a arte do Jamson nas páginas internas].

Madureira voltou a exibir seu talento distribuindo fanzines – mesmo sendo já coisa do passado, era pré-internet – apresentando sua criação para o mundo dos quadrinhos”, continua Maíra: “AUTOMAZO & A Amante do Mutante é feita e desenhada a mão, xerocada e distribuída pelo próprio artista. O texto, uma linguagem solta e inspirada, em cima de argumento beirando o surrealismo.” A série está sendo adaptada p/ um vídeo de animação por Ricardo ‘Bebegás’, meu parceiro no clip Gargantas do Deserto, da Plástico Lunar.

Jamson nunca parou de tocar nem de pintar. Mantém c/ o irmão o duo surf-rock Madame Tubarão, gravou um disco caseiro c/ direito a versão de A Day In The Life dos Beatles, fez a capa do disco de estréia da Snooze em 97, WAKING UP WAKING DOWN, e a arte gráfica de livros do poeta Araripe Coutinho e do vice-presidente do STF Carlos Ayres Britto. Em 2005 foi o único artista sergipano convidado p/ a mostra de novos talentos da Funarte, no Rio de Janeiro. “Aos poucos, mesmo sem nenhum esforço pessoal do artista, Jamson foi chamando a atenção de mais e mais pessoas, inclusive aquelas distantes do mundinho underground onde vivia”, Maíra conclui.

Garantindo o real c/ o trampo de assistente de palco nos eventos do governo e da prefeitura, meu chapa Madureira voltou a expor ano passado na coletiva Solidariedade com Arte, promovida pela Sociedade Semear. Em meio ao ecletismo de nomes desconhecidos como Marcos Suruba a consagrados como Adauto Machado, Jamson novamente destacou-se por ser o único da nova geração a usar óleo sobre tela – hoje em dia todo mundo prefere acrílico porque dilui na água e seca mais fácil.

Jamson Madureira faz o caminho das pedras. Desde 19 de novembro, está novamente em cartaz c/ a exposição TRÊS, aberta p/ visitação até a próxima terça, dia 07, na mesma Galeria do Sesc em que estreou há mais de 10 anos. Desta vez em companhia de mais dois malucos, Marcelo Roque e Tiago Campelo. Seus quadros continuam instigantes, e a preços acessíveis. Afinal, o cara é um artista da classe operária, pintando telas em tom de Khmer Vermelho.

QUEBRANDO PEDRA
A Arte de Jamson Madureira
A HQ AUTOMAZO VAI VIRAR FILME
CAMBOJA: INDUSTRIAL DE 3º MUNDO
'CACHORRO', FEITA SOBRE PAPEL RECICLADO
 'MULHER LÍRIO', ÓLEO SOBRE TELA
'PORCO COM MAÇÃ', MAIS UMA A ÓLEO
JAMSON, MARCELO ROQUE E TIAGO C. NA EXPO 'TRÊS':
SÃO ARTISTAS PLÁSTICOS, MAS PODIA SER UMA BANDA DE ROCK


por Adolfo Sá, Adelvan Kenobi e Maíra Ezequiel – amigos e admiradores

6 comentários:

Adelvan disse...

Brasa, o texto que vc cita como sendo de Maira na verdade é meu e de Fabinho - acho que saiu com o nome dela no overmundo pq ela era colaboradora lá, tinha que ter uma conta pra postar, algo assim. E Silvio não é da formação original do Camboja, que era Madureira na bateria, Furia no vocal e Sergio na guitarra. Depois ficou Madureira na guitarra e Lelinho na bateria, e por fim silvio na outra guitarra. Cicero Mago, que eu saiba, só tocou naquele ultimo show mesmo.

No mais, de fuder. O final, com a citação ao Khmer vermelho, ficou ótimo.

Adelvan disse...

tava comparando aqui os textos nos dois links e lembrei que no primeiro, do Overmundo, eu apenas colaborei com algumas informações. Depois republiquei colocando mais informações sobre o camboja no meu blog, o escarro, e assinei como sendo meu e de Fabinho. Não sei se foi maira que fez o primeiro texto, mas lembro bem que foi Fabinho que entrou em contato comigo para colaborar - ou sei lá, na época eles usavam o mesmo e-mail, que confusão !!! Acho que vou perguntar a eles ...

Adelvan Kenobi disse...

por fim: vc lembra o nome da terceira demo do Camboja, a de estudio, que saiu depois de lies about freedom e antes da ao vivo ? Não consigo lembrar nem a pau ...

Adelvan Kenobi disse...

Brasa, confirmei com Maira, o texto é dela mesmo.

Viva La Brasa disse...

confuso mesmo...
esse negócio de formação de banda é complicado, lembra daqueles releases dos anos 90:
a banda tal começou c/ fulano, depois beltrano saiu e ciclano entrou na guitarra, daí fulano passou p/ a bateria, beltrano voltou e foi p/ o baixo...
putz, quem tinha paciência de ler aquelas merdas?!
a idéia aqui foi tentar dar uma ordem cronológica ao texto, acho que rolou...
não é fácil, eu mal consigo lembrar do que fiz ontem!
abrax my friend @

programa de rock disse...

Então tá.