sexta-feira, dezembro 10, 2010

DESENHANDO ONDAS
DE RICK GRIFFIN À TUBULAR CELS, SURF E QUADRINHOS DROPAM A MESMA ONDA
Todo guri que começa a surfar gosta de desenhar ondas no caderno da escola. Paredes d’água perfeitas e tubulares sendo lambidas pelo vento terral, durante aquela aula chata num dia quente. Desenhar é sonhar.

Alguns param de surfar quando crescem. Outros, além de continuar pegando onda, permanecem sonhando acordados. O americano Rick Griffin foi um desses garotos que seguiu na vida rabiscando linhas – no mar e no papel.

Criador do logotipo original da revista Rolling Stone e designer oficial da banda Grateful Dead, Griffin foi o primeiro artista surgido no surf a alcançar o mainstream. Praticamente sozinho, definiu a estética psicodélica dos anos 60 c/ seu traço elaborado e lisérgico. “O trabalho de Rick Griffin, por exemplo, para a Surfer e seu cartaz para o filme Pacific Vibrations (em que ele também aparece, surfando) é a base de todo imaginário gráfico do universo do surfe”, escreve o editor Rogério de Campos no prefácio da compilação brasileira da ZAP Comix:

Por pelo menos três décadas, não houve logotipo de surfwear, estampa de camiseta ou anúncio publicitário do segmento que não seguisse as coordenadas lisérgicas dadas por Griffin. Mas sua importância vai além. Ao mesmo tempo em que fazia seus desenhos para a Surfer, Griffin começou a tocar cítara no Jook Savages. Em 1965, o grupo fez uma apresentação em San Francisco. O Jook Savages não fez muito sucesso, mas o cartaz que Griffin criou para anunciar o show, sim. Em pouco tempo, Griffin era um astro da cidade e um dos principais nomes na febre de pôsteres de rock que tomou a juventude americana. Por isso ele foi escolhido para fazer o logo da revista Rolling Stone e o pôster do histórico Pow-Wow, o primeiro grande Human Be-In, que reuniu Timothy Leary, Jerry Rubin, Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti e as maiores bandas de San Francisco, incluindo o Jefferson Airplane e o Grateful Dead.

Além de ajudar Robert Crumb a criar a revolucionária ZAP, Griffin publicou a primeira revista em quadrinhos totalmente focada em surf, TALES FROM THE TUBE, cujo slogan “raves from the caves of waves” embalava as histórias de seu alter-ego Murphy, c/ a arte primorosa que fez a fama do local de Palos Verdes. TALES... custava $0,50c e acabou influenciando um surfista do outro lado do mundo a também arriscar umas HQs.

Em 1970 Tony Edwards criou o Capitain Goodvibes, “the pig of steel”. Veiculado na Tracks, a Bíblia do surf, o porco ganhou 3 álbuns, calendários, um curta-metragem e um programa de rádio, c/ Edwards dublando sua voz. Marcou os anos 70 e, como tudo relacionado a surf na Austrália, influenciou todas as gerações seguintes – enquanto na América a herança de Griffin é mais perceptível na cultura do skate.

Em 1993 a Waves Magazine começa a publicar as aventuras de Gonad Man, um surfista que sofre de priapismo [só anda de barraca armada] criado por Mark Sutherland. Publicado na revista durante 7 anos seguidos, o Homem-Gônada fez tanto sucesso que estampou camisetas, canecas e virou série de animação na TV australiana. Sutherland ainda lançou 2 livros e chegou a vender alguns de seus cartuns originais p/ o Museu Nacional Marítimo.

Em 99, a concorrente Australia's Surfing Life apresenta aos leitores Felch, “o filho degenerado do surf do novo milênio”. O personagem, cujo nome vem de uma gíria suja p/ sexo, é um perdedor que larga emprego e família – leia-se mulher e filhos – p/ morar numa república c/ outros fracassados, só p/ viver em frente a um pico c/ altas ondas.

Felch só anda a perigo e ainda tem que dividir a sua namorada – uma boneca inflável – c/ os amigos. Desenhado num estilo “extremamente hardcore”, segundo definição do próprio criador Steve Cakebread, o cartum é o oposto do sonho dourado vendido pela mídia. “Eu ainda recebo minha cota de cartas de pais indignados”, Cakebread admite c/ orgulho, “e os editores também adoram recebê-las!

Retrato sem maquiagem de muito do que acontece na praia, Felch é machista, superficial e invariavelmente se fode. “Também adoro receber cartas de mulheres”, diz o autor. “Além de serem mais espertas, elegantes e classudas que os homens, algumas delas ainda surfam melhor que nós. Meus personagens não conseguem nada por causa disso. Na verdade, as leitoras reclamam quando Felch se dá bem!  

Gonad Man, Felch e outros personagens estão tão inseridos na cultura de praia australiana que anualmente é realizada a exposição itinerante TUBULAR CELS, c/ exibição de cartuns, quadrinhos, pôsteres e animações em galerias de arte, museus e universidades. A curadoria é de Jan Begg, que dirigiu o filme Silicon Pulp.

Pesquisando p/ escrever este texto, descobri que nunca houve quadrinhos de surf no Brasil, a não ser exceções esporádicas como Glauco, que colocou o Geraldão p/ surfar dentro de casa numa tábua de passar roupa, e Allan Sieber, que provocou polêmica c/ sua charge do “surfista de Cristo maconheiro”. Trabalhos isolados de 2 cartunistas geniais, mas que nunca pegaram onda.

Em 2006, Matias Maxx me pediu uma colaboração p/ a Tarja Preta. Ele queria algo sobre surf na sua revista. No ano seguinte saía a 5ª edição, c/ a clássica capa do Jaca parodiando as Meninas Super-Poderosas. E lá dentro a minha HQ, a primeira que eu roteirizei & desenhei depois de 10 anos parado – não fazia nada do tipo desde o fim do Cabrunco.

SURF É COMPROMISSO tenta desmistificar a imagem de ‘macho alfa’ que o surfista tem de si. O personagem principal sou eu mesmo, quando ainda morava na Praia da Costa e pegava ônibus p/ ir ao trabalho. O título é uma referência à música Rap É Compromisso, do finado Sabotage. Mas o surf, ao contrário do rap, também é a maior viagem.

Por que você acha que tantos marmanjos continuam desenhando ondas no papel?

***
 HOMENAGEM A RICK GRIFFIN
*18/06/1944 - +18/08/1991

3 comentários:

FUN disse...

surf sultura é no VivaLaBrasa!!!!!


A materia do Raoni tmb ficou muito irada!!!!!!

Riot disse...

Divulguei no Facebook. ;)

A wild blumen disse...

Cara, deu saudade de tudo: do espírito perdido do surf, do Cabrunco, realmente seu post é emocionante e maravilhoso. Rick foi um dos grandes cartunistas, chrgistas, enfim, um cara com o dom do desenho!