sábado, dezembro 25, 2010

DEBUTANTE SONORA


Sou eu um transistor/ Recife é um circuito/ O país é um chip/ Se a Terra é um rádio/ Qual é a música?

Sábado, 17/12, rolou Mundo Livre S/A em Aracaju. O show fez parte da comemoração dos 15 anos da Aperipê FM, que aconteceu no Parque da Sementeira c/ 8 atrações diferentes em um evento gratuito a céu aberto.

A 104.9 é a FM que mais investe na música local, chegando a dedicar 1 dia inteiro a cada mês p/ tocar apenas artistas nativos – como a excelente banda instrumental Café Pequeno, que abriu a noite; a molecada da Cabedal, que tocou em seguida o seu samba rock; o veterano Edelson Pantera e sua MPB c/ influência de bossa nova [tocou acompanhado do filho, João Mário, baixista da Renegades of Punk]; a sanfona de Cobra Verde, que esteve recentemente na França mostrando seu forró pé-de-serra aos europeus; ou o rock cru [e extremamente bem tocado] do duo The Baggios.

Eu já vim ao aniversário como espectador, e agora estou como convidado”, disse Julico, que além de cantar e tocar na Baggios também é guitarrista da Plástico Lunar. Ele refere-se às edições anteriores da festa, que trouxeram à cidade DJ Dolores [2007] e Mutantes [2008]. “É uma grande oportunidade participar de uma festa assim, cheia de gente e em um lugar muito bonito. Sergipe é riquíssimo de bandas boas, e a idéia da Aperipê em reunir esses ritmos diferentes foi bem legal, até p/ atingir e agregar um público como esse, p/ que eles tenham conhecimento do que tem sido feito de música por aqui.

Quem também estava debutando era a cantora Patrícia Polayne. Revelada em 1995, quando venceu o festival de música da UFS, ela vem construindo uma carreira sólida ao longo desses 15 anos no underground. Em 2009 lançou seu aguardado 1º disco, O CIRCO SINGULAR, gravado em Pernambuco, e no final do ano venceu o festival nacional das rádios públicas [ARPUB] c/ a canção Arrastada. Há apenas 1 mês, apresentou-se no Itaú Cultural em São Paulo.

Atriz, compositora e dona de uma voz sutil que alcança notas altas, Patrícia conquistou a audiência c/ seu repertório refinado e forte presença cênica. “É sempre uma emoção muito grande comemorar junto c/ a Aperipê essas conquistas. São quinze anos lutando p/ manter viva uma identidade musical aqui em Sergipe. A festa está bem representada, c/ todos os ritmos dessa diversidade musical sergipana. Está sendo uma noite muito linda, muito mágica.

Os shows de sábado fizeram parte da extensa programação de aniversário da rádio. Palestras, oficinas e uma balada eletrônica na sexta-feira antecederam o evento – Global Beats, c/ os DJs Dolores, Kaska, Patrick Tor4 e o alemão Axe.l, do Globalibre World Club Culture. A TV também incluiu várias atrações vinculadas à FM p/ o fim de ano, como a exibição dos melhores momentos do Festival Aperipê de Música e do Aniversário de 15 anos. Além de uma estréia.

Diariamente no ar das 14 às 16h, o Sonora é uma revista musical que “divulga a música pop em todas as suas vertentes, dando destaque aos artistas que estão fora da mídia”, segundo a própria apresentadora do programa, Flávia Lins, radialista carioca radicada em Sergipe. Hoje, às 19h, será seu debut na TV, na versão do Sonora dirigida por mim c/ os clipes produzidos pela Aperipê em 2010. C/ seu cabelo afro estiloso e dicção de locutora, a Flávia ficou muito bem na tela e tem tudo p/ emplacar na grade de programação em 2011.

O especial c/ os shows de 15 anos da 104.9 irá ao ar na próxima sexta, dia 31. Quem não viu ao vivo terá a chance de conferir a passagem da seminal Mundo Livre S/A por Aracaju após um hiato de mais de 10 anos. “Fazia muito tempo que a gente não tocava aqui, e certamente esse foi o show em Aracaju que a gente teve a melhor estrutura”, elogia Fred Zero Quatro, líder da  banda e co-autor do manifesto Caranguejos com Cérebro ao lado de Chico Science e Renato L.

Mais bacana por ser aberto ao público e c/ essa divulgação de uma rede pública”, diz Fred sobre o festival. “Com certeza, a melhor visita que a gente já fez a Aracaju na história. Foi um público novo que a gente pegou, e foi uma oportunidade de atrair e diversificar ainda mais o nosso trabalho.” Os caras não tocavam aqui desde 1999, no Cultart. Já haviam tocado em 96 no Little Hell e em 95 no Batata Quente, quando Otto ainda estava na banda.

Da 1ª vez que estiveram na cidade, eu editava o Cabrunco e entrevistei Zero Quatro p/ a 4ª edição do zine. Bebendo cerveja num quiosque da praia de Atalaia, ele contou a mim e a Márcio de Dona Litinha como surgiu o movimento em Recife:

A gente teve a idéia de vender a cena contendo todo um conceito, com manifesto, vocabulário, visual próprio... [...] temas definidos, tentando vender um outro lado do Recife que não aparece na mídia, o lado da pobreza, da miséria, da quarta pior cidade do mundo, tudo fechado em torno de uma nova cena que a gente quis mostrar. A gente sabia que, como Recife não estava no circuito tradicional do pop, fora do eixo de produção, de difusão de informação, então pra se chegar num esquema de cavar espaço na mídia nacional tinha de ser uma coisa muito mais trabalhada, um movimento mesmo. Aí eu tirei essa onda de MangueBit. Eu fiz uma música inspirada em Manguetown, de Chico, que [...] era um hino do movimento, tinha um refrão bem legal, umas palavras-chave. ‘Mangueeetown!’, acho bem legal, assim... Aí eu: ‘pô, o Mundo Livre tem que ter seu hino também, relacionado ao mangue. Eu vim com essa de ‘Manguebit’, já tinha uma frase da música, tava precisando de um refrão, então eu encaixei isso, já sabendo que ia dar rolo [risos], dar esse mal-entendido, manguebit com beat, batida, e pá... Mas eu tava a fim de criar essa polêmica. O interessante é você saber lidar com a psicologia da mídia, pra poder tirar o máximo de proveito do que ela tem de mais perverso, desse lado meio escroto. E acho que a gente conseguiu chegar no objetivo. Banda de periferia, sem um puto no bolso, foi gravar um disco com cavaquinho e duas congas na mão, saca? Chegou pra gravar em São Paulo sem nada, mas conseguiu, sacou? Coisa que muita gente batalha a vida inteira, não consegue e acaba desistindo. E a partir daí as coisas estão ficando mais fáceis pra quem ta começando a batalhar.

Fica a dica p/ a cena local: “Não espere nada do centro/ se a periferia está morta/ pois o que era velho no norte/ se torna novo no sul”, como diz a letra de Destruindo a Camada de Ozônio.

Numa noite de Woodstock na Sementeira, c/ famílias & malucos em harmonia no gramado à beira do lago, Mundo Livre S/A brindou os ouvintes c/ as clássicas dos seus 2 primeiros discos, SAMBA ESQUEMA NOISE de 94 e GUENTANDO A ÔIA de 96. Sons como Livre Iniciativa, Musa da Ilha Grande, Free World S/A e a versão meio Kraftwerk p/ Eu Só Poderia Crer levantaram geral, mas nada comparado ao coro em Pastilhas Coloridas. O astral subia junto c/ o cheiro de mato queimado enquanto todo mundo chapado cantava junto:

...“Amigos nas farmácias/ e quando a erva faltava/ qualquer droga era boa/ qualquer droga era booooaaaa”...

15ANOS_APFM
 CABEDAL FOI UMA DAS BANDAS DE ABERTURA...
...NA NOITE EM QUE A SEMENTEIRA LEMBROU WOODSTOCK
DEON DO LACERTAE, BANDA PSICODÉLICA DE LAGARTO/SE
THE BAGGIOS EXPLODINDO OS AMPS C/ SEU BLUES ROCK
MUNDO LIVRE S/A DESTRUINDO A CAMADA DE OZÔNIO
SONORA: EDIÇÃO ESPECIAL VAI AO AR HOJE NA AP.TV
http://aperipe.swapi.uni5.net/

5 comentários:

Viva La Brasa disse...

As fotos são da assessoria de comunicação da FUNDAP.

ellen disse...

só pra lembrar, o mundo livre esteve aqui em 2005 também, lá no tequila café. o post ficou muito bom, minha única crítica é que, enquanto vocês curtiam o mundo livre, eu tava aqui, curtindo um frio desgraçado. meio injusto, viu? (:

Carlo Bruno Montalvão disse...

belo texto, La Brasa! ;)

Adelvan disse...

ótimo. Pra mim é um grande mistério esse show do Mundo livre de 2005 - como eu não fiquei sabendo disso ?

Viva La Brasa disse...

pois é, nem eu.