terça-feira, dezembro 07, 2010

PINTURA DE GUERRA  
O cacique Raoni Metuktire é o líder dos caiapós, povo silvícola cujo nome significa “gente ruim da mata”. Um personagem importante p/ a defesa dos direitos dos índios da Amazônia. Em 1984 ele conseguiu negociar a demarcação de terras p/ sua tribo no Parque Nacional do Xingu indo ao encontro do então Ministro do Interior, Mário Andreazza, armado de lança e pintado p/ guerra. Ganhou fama mundial 5 anos depois, quando excursionou pela Europa ao lado do roqueiro Sting numa campanha internacional contra a invasão de reservas e territórios.
Raoni voltou ao Velho Mundo em 2000 em busca de apoio financeiro p/ a implantação de um núcleo de alta tecnologia c/ escolas, hospital e um centro de pesquisa da biodiversidade. O projeto nunca saiu do papel. Em maio deste ano, o caiapó esteve pela 3ª vez na França p/ lançar sua biografia RAONI – Memórias de Um Chefe Indígena, escrita por Jean Pierre Dutillex. Reuniu-se c/ o ex-presidente Jacques Chirac e o atual, Nicolas Sarkozy, e pediu ajuda na luta contra a instalação da usina de Belo Monte no Rio Xingu.
Durante entrevista num talkshow do canal TF1, o cacique mandou a letra: “Já mandei meus guerreiro se preparar pra guerra e também as outra tribo do Xingu. Nós vai matar todos branco que construir essa barrage”, disse c/ sotaque típico e o característico botoque de 8cm no lábio inferior. Em seguida, tirou a camisa e mostrou sua pintura de guerra. “Quando eu anda na cidade, eu usa camisa. Em casa, na minha aldeia, eu não preciso disso, não preciso de nada!
PROMESSA É DÍVIDA

O carioca Raoni Monteiro é o melhor surfista surgido em Saquarema, cidade do litoral norte fluminense pertencente à antiga região dos índios Goytacazes e famosa por suas ondas fortes. 
Integrou a seleção brasileira no Mundial Amador de 1998, em Portugal, profissionalizou-se aos 17, chegou aos Top 16 do Super Surf aos 18, e se classificou p/ a elite do circuito mundial da ASP aos 21, c/ uma vitória no Japão. Durante 4 anos competiu no World Tour, obtendo sua melhor colocação na etapa do Brasil em 2005 – 3º lugar. “Eu tinha um suporte bom no mundial, mas algumas vezes o julgamento dos árbitros pesava mais para os atletas famosos, como o Kelly Sater e o Andy Irons.”
Apontado como futuro campeão pelos próprios Andy e Kelly, Raoni nunca emplacou um ano realmente bom no mundial. Sua melhor classificação foi top 23 em 2004, c/ um 5º lugar em Trestles como destaque. “Acho que os caras se empolgaram quando me conheceram”, disse à Fluir ao ser desclassificado do WT depois de amargar uma série de contusões que lhe valeram até um convite especial p/ competir em 2007. “Estou trabalhando para voltar. Não tenho mais dores e vou correr atrás da vaga.
Seus braços cobertos de tattoos lhe emprestam um ar agressivo, o que pode ter atrapalhado sua imagem no mercado. Fora da elite, acabou despedido da Rip Curl, gigante da surfwear e patrocinadora de longa data, e durante 2 anos se bancou às próprias custas no caro circuito mundial. Desempregado, venceu o tradicional Hang Loose Pro Contest, 5* ‘prime’ do WQS em Fernando de Noronha, foi vice nas duas edições seguintes, e ficou c/ o título sulamericano de 2008.
ARRANCANDO ESCALPOS
No início de 2010 assinou c/ a O’neill, empresa americana pioneira na fabricação de roupas de borracha. O contrato foi selado c/ uma performance incendiária nas ondas geladas da Escócia no Coldwater Classic, evento do novo patrocinador em que chegou às semifinais. “Estou treinando muito, principalmente em Saquarema, e com o [técnico] Pedro Robalinho, fazendo musculação. Também estou com muitas pranchas boas [do shaper Ricardo Martins, que o apóia desde criança]. Além disso, estou procurando chegar uns dias antes nos campeonatos para me adaptar mais rápido às condições do lugar.”
E o retorno à elite aconteceu neste sábado, no Havaí. Raoni venceu o O’neill World Cup of Surfing, subiu da 38ª p/ a 29ª colocação no novo ranking unificado, garantindo-se entre os Top 32 que competirão no WT 2011, e de quebra levou US$ 20.000,00 pela conquista do 6* ‘prime’ em Sunset Beach, última etapa do WQS e penúltima do ano. Resta apenas o Billabong Pipeline Masters, e Monteiro é o 4º brasileiro na lista dos classificados p/ o ano que vem – Adriano de Souza e Jadson André, em 8º e 13º, garantem-se pela 1ª divisão, e Heitor Alves vem em 19º c/ quatro vitórias no ‘QS em 2010. O estreante Alejo Muniz está em 31º e pode completar o time, mas dependerá do resultado de alguns adversários em Pipe.
Numa semana em que Sunset quebrou parecida c/ a Praia da Vila em Saquarema, Raoni foi selvagem. Na sua bateria das oitavas-de-final, mandou um aéreo 360º na junção e arrancou 8.67 dos juízes, deixando p/ trás 3 tops: Jadson, Mick Fanning e Brett Simpson. Nas quartas marcou 8.60 em sua melhor onda p/ eliminar Joel Parkinson, campeão da etapa anterior, e o ‘legend’ Taylor Knox. Na semi, 8.17 e 7.03, batendo de novo o bicampeão do mundo Mick e o moleque John-John Florence. Na final escalpelou 1 havaiano e 2 australianos ao marcar 14.37 pontos, p/ obter a maior vitória da sua vida.
Surpreendeu a todos, creio que até mesmo o próprio Raoni”, diz Rosaldo Cavalcanti, editor da Alma Surf. “Imagino que nem mesmo ele, nos seus melhores sonhos, poderia imaginar que acabaria este ano vencendo uma das mais importantes provas da temporada, em Sunset Beach, um dos templos do surf. Surfista talentoso, capaz de derrotar os melhores do mundo, vamos ver se desta vez Raoni conseguirá se manter na elite. O fato é que terá mais uma chance – talvez a última da sua carreira – de confirmar tudo aquilo que nós sempre esperamos dele: pelo menos um lugar entre os Top 10 da primeira divisão.
GENTE RUIM DA MATA
Mesmo afastado do World Tour, Raoni Monteiro continuou a ser o surfista brasileiro favorito de tops como os australianos Fanning, Parkinson e o americano Dane Reynolds. Baixo e invocado, Raoni cresceu surfando altas ondas na cidade natal – Saquarema é um dos trechos do litoral brasileiro que melhor suporta grandes swells – e isso moldou seu estilo ‘tudo-ou-nada’ de manobras poderosas sempre no crítico.
Em Sunset, repetiu um feito histórico p/ o surf nacional. Há quase 20 anos, Fábio Gouveia venceu a mesma Copa do Mundo em condições parecidas, selando outra conquista inédita: um brasileiro entre os Top 16 – o paraibano também venceu na França em 91 e foi o 13º no ranking final. Desde então, tirando a conquista do Mundial Sub-20 em Makaha por Pedro Henrique no ano 2000 e o 2º lugar de Léo Neves na World Cup em 2007, nenhum outro descendente de Tupis-Guaranis chegou nem perto no Hawaii.
 “Esta vitória significa muito pra mim, há muito tempo eu venho dando o melhor de mim aqui e agora conquistei o 1º lugar”, disse o caboclinho no pódio, triunfante ao lado dos homens brancos Julian Wilson [2º], Granger Larsen [3º] e Josh Kerr [4º]. “Quero agradecer e dedicar esta vitória aos que acreditaram em mim, pra minha esposa, minha filha, minha família, enfim, todos os brasileiros que torcem por mim e especialmente pra essa galera que tá aqui no Havaí e me apoiou nesses dias. Agora ‘tou louco pra voltar pra casa e festejar!
Os brasileiros são os primos pobres do surf. Quando um de nós vence no mundial, os dólares vão pro puxadinho no quintal. Emergentes do 3º Mundo, falamos alto numa língua estranha ao inglês e, empolgados por ondas que não existem aqui, muitas vezes agimos c/ pouca – ou nenhuma – educação. Nós não somos bem-vindos, e isso fica claro no julgamento da ASP. O cronista Júlio Adler está na ilha de Oahu, e em seu Diário Habaiano relata um encontro que dá a dimensão exata do que significa a conquista de Raoni Monteiro:
[...] encontrei com um dos juízes da ASP na ciclovia e o parabenizei, ‘fico feliz que vocês tiveram coragem de dar a vitória pro Raoni. Na mesma hora seu olhar mudou, ele me encarou como alguém que queria muito contar algo secreto, algo que eu deveria saber, mas talvez não... Estamos tão acostumados a perder no último minuto, suado e injusto, que quando finalmente vencemos a sensação de alívio é gigantesca.
‘Cara, foi por pouco... Lá em cima o negócio ficou esquisito’, confessou o camarada juiz enquanto se afastava. Fui ver as notas e constatei que dois juízes queriam muito que o sonho australiano se concretizasse. Um deles chegou a dar 7.3, nota de precisão cirúrgica, dado que Julian precisava de 7.2. [...] Lógico que vão dizer que Sunset tava marola, entre outras coisas, pouco importa, Raoni não precisa provar que é capaz de surfar ondas grandes com o mesmo entusiasmo. [...] estamos aqui e viemos pra ficar.
O BOM SELVAGEM
RAONI NA FRANÇA: PINTURA DE GUERRA NA PRANCHA
CAMPEÃO DO HANG LOOSE PRO CONTEST EM 2008
 UM DOS MELHORES EM NORONHA: 3 FINAIS EM 3 ANOS
 COM A FILHA VITÓRIA E A TÍTULO SULAMERICANO, 2008
 SURF QUENTE NO MAR GELADO DA ESCÓCIA: 3º LUGAR
BRASIL CAMPEÃO DA COPA DO MUNDO 2010... DE SURF:
US$ 20.000 DE PRÊMIO P/ RAONI TERMINAR O ANO NO AZUL

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