sexta-feira, dezembro 17, 2010

W DE VINGANÇA  

Inimigo público nº 1. O homem mais perigoso do mundo.

É o que o australiano Julian Assange se tornou desde que seu site WikiLeaks começou a divulgar 251.287 segredos de Estado, telegramas de embaixadas e demais documentos comprometedores, em 28 de novembro. Procurado na Suécia por supostos crimes sexuais, Assange foi preso na Inglaterra dia 07 de dezembro e libertado ontem sob fiança.

O WikiLeaks está há 4 anos no ar. Lançado durante o Fórum Social Mundial de 2007, no Quênia, c/ o objetivo de tornar públicos arquivos secretos de regimes opressores como China, Coréia do Norte e países da África Subsaariana e do Oriente Médio, “sem deixar à margem as condutas pouco éticas do Ocidente”, o site começou a receber colaborações de várias partes do mundo, tornando-se fonte segura p/ o tráfego de informação.

Já havia divulgado dados sigilosos da Guerra do Afeganistão e mensagens pessoais da ex-candidata a presidente dos EUA, Sarah Palin. No início deste ano, divulgou um vídeo de 39 minutos feito a partir de um helicóptero no Iraque em 2007, mostrando soldados americanos matando 12 pessoas, entre elas 2 jornalistas da Reuters. Foi aí que a chapa começou a esquentar p/ o lado de Assange.

Filho de artistas mambembe, o fundador do WL não recebeu educação formal e montou seu primeiro portal em 1987, aos 16 anos. Aos 20 tornou-se hacker, e durante a década de 90 invadiu os sistemas da Universidade Nacional da Austrália, do Royal Melbourne Institute of Technology e da empresa de telecomunicações canadense Nortel. Acusado de 20 delitos na Austrália, foi condenado a pagar multa de $2.100 dólares sob a condição de não voltar ao crime.

Lançou em parceria c/ a acadêmica Suelette Dreyfuss o livro Underground, um best-seller. Em 2006, aos 35, abandonou a faculdade de física p/ se dedicar ao seu mais ambicioso projeto. Como todo site hospedado dentro da plataforma Wiki, o Leaks é baseado na horizontalidade, ou seja, o serviço é gerenciado por colaboradores e mantido por doações. Assange é apenas a ponta do iceberg.

O WikiLeaks não é uma organização de hackers. É uma editora e uma empresa jornalística”, disse a advogada Jennifer Robinson, enquanto seu cliente esperava a decisão da Justiça inglesa. O processo contra Assange foi aberto em agosto por duas mulheres identificadas apenas por Miss A e Miss W. A primeira acusa-o de ter estourado a camisinha de propósito durante um encontro na cidade sueca de Enkoping. A outra afirma ter sido abusada enquanto dormia, após uma noite de amor na mesma cidade.

A Corte de Estocolmo expediu um mandato de prisão e extradição, a cargo da Interpol. Libertado provisoriamente, Assange disse que “se nem sempre se alcança a justiça, ao menos ela ainda não está morta”. Jornais respeitados como o inglês The Guardian, o alemão Der Spiegel, o francês Le Monde, o espanhol El País e até o americano New York Times continuaram a publicar novos documentos expostos pelo site, e alguns foram mais longe.
 
Segundo o Guardian e o Monde, a prisão por estupro não passa de uma manobra p/ extraditá-lo p/ a América, onde seria julgado por espionagem. Enquanto a lei inglesa não permite a extradição, EUA e Suécia têm um amplo acordo de colaboração internacional nessa área e, uma vez em território sueco, seria o fim de Julian Assange. “Há um rumor de que haveria uma acusação formal apresentada contra mim pelos americanos”, disse na coletiva de imprensa em Londres.

O vazamento de informações sigilosas até agora funcionou de forma iconoclasta – não poupou ninguém. Ditadores foram ridicularizados por embaixadores: Robert Mugabe, do Zimbabue, “perdeu o contato com a realidade”, o nortecoreano Kim Jong-Il é “uma criança mimada” e Hugo Chávezlate mais do que morde[palavras do ministro brasileiro Celso Amorim]. P/ a embaixada americana na Rússia, “Medvedev é o Robin do Batman Putin”. O rei Abdullah, da Arábia Saudita, pede que uma intervenção ocidental no Irã, que nos faz de escudo político em seu projeto atômico.

Em mensagem confidencial de 2005, o embaixador americano no Brasil acusa que a presidente eleita – então ministra da Casa Civil Dilma Rousseff de organizar 3 assaltos a bancos e planejar o roubo ao cofre do ex-governador de SP Adhemar de Barros. A operação, creditada à Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, teria rendido US$ 2 milhões.  O atual presidente Lula não vê problema no site. “A Dilma tem que falar pra os seus ministros que se não tiver o que escrever, não escreva nada. Não escreva bobagem. Daí aparece o tal do WikiLeaks e desnuda essa diplomacia”, falou bonito durante o balanço do PAC.

Se as revelações do WikiLeaks expuseram ao ridículo tantos governos autoritários – que nem por isso se manifestaram ou sequer ameaçaram o site ou seu fundador – por que despertaram tanta fúria nos EUA, onde a rede de TV americana Fox News chegou a sugerir que Assange só será detido “cortando-se a cabeça”, parafraseando o rei Abdullah?

O documentarista Michael Moore, cineasta mais incômodo da atualidade, foi uma das personalidades que se juntaram na vaquinha equivalente a $640.000 reais [240 mil euros] p/ libertá-lo, e tem uma resposta. Ou pelo menos uma hipótese: “O que eu peço é que não sejam ingênuos sobre como o governo trabalha quando decide ir atrás de sua presa. Por favor, jamais acreditem na ‘história oficial’. Franqueza, transparência, estas são as poucas armas que a cidadania tem para se proteger dos poderosos e corruptos.

Moore ofereceu seu site, servidores e domínios na internet p/ “ajudar a manter com vida e em desenvolvimento o WikiLeaks enquanto continuar com sua tarefa de expor os crimes que foram tramados em segredo e feitos em nosso nome e com o dinheiro de nossos impostos.” Crimes como o tráfico de armas c/ o Uzbequistão na ‘Guerra ao Terror’ ou a corrupção do governo implantado pelos EUA no Afeganistão.

A oferta de ajuda surgiu dos problemas que o WL vem enfrentando p/ manter-se no ar. Depois de ter seus serviços suspensos na Amazon.com, o site de Assange migrou p/ um servidor protegido num bunker subterrâneo sueco dos tempos da Guerra Fria e refugiou-se no domínio .ch do Partido Pirata da Suíça. As retaliações continuaram. O sistema de pagamentos PayPal e o PostFinance dos correios suíços suspenderam a conta do Leaks. Em seguida, Visa e Mastercard pararam de processar as doações financeiras sob o pretexto de que seus clientes não podem envolver-se em “operações ilegais”.

A resposta veio em forma de contra-ataques on-line e manifestações nas capitais. “Fire now” foi a deixa p/ o bombardeio de acessos que tirou do ar os sites da Amazon, Mastercard, Visa, PayPal, PostFinance e Moneybookers durante horas na última semana. A autoria é do grupo Anonymous, que tem em torno de 3 mil integrantes conectados em todo o globo.

A arma é o LOIC, sigla p/ “low orbit ion cannon” ou canhão de íons de órbita baixa, que nada mais é do que um programa que tenta repetidamente conectar-se ao servidor alvo. O efeito amplificado por milhares de internautas causa uma sobrecarga no sistema do serviço acessado. Sem querer, os Anonymous também ajudaram a criar um neologismo político-tecnológico: ‘hacktivista’, um hacker c/ ideais.

Eu acredito na liberdade de expressão, acho o WikiLeaks fantástico, e deve crescer muito mais, há coisas a serem reveladas”, diz um brasileiro que participou dos ataques. “Ele divulga informações anônimas concretas, tem o poder de mudar a geopolítica mundial. Me uni aos ataques por curiosidade e vi que funcionam. Não custa nada deixar o PC fazendo o trabalho.” Os perfis do grupo no Twitter, c/ mais de 20 mil seguidores, e no Facebook, c/ 10 mil fãs, foram cancelados.

Anonymous é uma legião”, diz Gregg Housh, um dos anônimos [já não tão ‘anônimo’ assim]. Eles são simpatizantes de causas como o Pirate Bay e o próprio WikiLeaks, e têm experiência de investidas bem-sucedidas contra a indústria fonográfica e a Igreja da Cientologia. “Se for possível chamar de guerra o conflito entre as iniciativas pró e anti WikiLeaks, que resultam em vários ataques de negação de serviço e, portanto, na queda de websites, o servidor de bate-papo IRC do grupo Anonymous pode ser considerado um quartel”, escreveu Altieres Rohr p/ o G1.

A revolução digital começa aqui”, gritavam os 50 manifestantes reunidos em Hyde Park , EUA. “Pela liberdade, não ao terrorismo de estado”, diziam os cartazes em Madri e Barcelona. Jovens de vários continentes saíram às ruas p/ protestar contra a prisão de Julian Assange. Lisboa, Amsterdã, São Paulo, Buenos Aires, Tóquio, Hong Kong. Todas as grandes cidades responderam à convocação do movimento Free WikiLeaks. Paralelo à guerrilha virtual, protestos violentos eclodiam na Inglaterra e na Itália contra o aumento nas taxas de empréstimo estudantil cobradas pelas universidades.

Pirata digital? Terrorista virtual? Anarquista cibernético? Espião internacional? Até Assange se tornar uma mistura de anti-herói e pop star, o americano Kevin Mitnick era o maior nome da cultura hacker. Pioneiro do ramo quando a internet era só um embrião, Mitnick invadiu computadores de empresas de tecnologia, operadoras de celular e provedores de rede; acabou preso em 1995, libertado em 2000 após pagar fiança de $64 mil dólares, passou mais 3 anos sem poder se conectar, e hoje tem uma empresa de consultoria de segurança na web, a Mitnick Security.

Julian Assange está numa propriedade rural inglesa – na verdade uma mansão vitoriana – sendo monitorado eletronicamente enquanto aguarda o julgamento. “Do you want to know a secret?”, seria a manchete da capa da Time em que apareceria c/ uma bandeira dos EUA amordaçando sua boca. Ele foi o mais votado pelos leitores americanos na tradicional escolha do “Man of the Year”. Num inédito gesto de autocensura, a revista preferiu premiar Mark Zuckerberg, o espertalhão dono do Facebook.

Zuckerberg recebeu 18 mil votos. Assange, 382 mil. A revolução digital já começou.

OPERATION: PAYBACK
 HACKERS FRANCESES PREPARAM O ATAQUE...
 ...USANDO O CANHÃO DE ÍONS DE ÓRBITA BAIXA...
...E LOGO SITES SAEM DO AR, COMO O DA MASTERCARD...
...ENQUANTO JOVENS PROTESTAM PACIFICAMENTE NA CHINA...
...E OS EUROPEUS QUEBRAM TUDO NA ITÁLIA E NA...
...INGLATERRA, FAZENDO VALER A MÁXIMA DE HAKIM BEY:
"A IDÉIA NÃO É MUDAR A CONSCIÊNCIA, É MUDAR O MUNDO"

3 comentários:

A wild blumen disse...

Isto sim é retratar uma situação! Mas o ser humano é covarde mesmo, ainda mais agora no conforto dos ataques virtuais. Parabéns por este post, meus queridos ''fake profiles'' (*).


(*) Todos os que interagem comigo são definidos como meus fakes por um ''famoso'' dono da situação que qeur me ver segregada.

Viva La Brasa disse...

???

Schiavon disse...

Lindo post brhu!