quarta-feira, janeiro 27, 2010

É DOCE MORRER NO MAR? Semana passada 2 moleques ingleses da banda After Death morreram afogados no mar de Aracaju [SE]: o guitarrista Leon Villalba, 21, e o baixista Timothy Kennely, 18 anos. Hospedados na Atalaia, foram dar um mergulho na Praia dos Artistas, ‘Orlinha’ p/ os íntimos. O problema é que os gringos NÃO eram íntimos, e foram arrastados pela correnteza. Essa praia fica na boca do Rio Sergipe e tem 2 correntes: uma chamada “Barra” e outra, “Atalaia”, cada uma vai numa direção e em determinado ponto ambas se cruzam. Não à toa, é o lugar da cidade c/ as melhores condições p/ o SURF.
O acidente trágico aconteceu na quinta-feira, 21/01 [Dia do meu aniversário! Metaaal!..]. O corpo de Leon Villalba foi encontrado no final da tarde, mas Kennely só foi localizado no dia seguinte, na Praia de Aruana. Ken Do, o vocalista, foi reconhecer os corpos no IML, acompanhado por bombeiros. Agentes da PF e membros do Consulado Britânico estiveram por lá apurando o caso. Ken e os outros integrantes da banda, Barry O’Connor e Marc Vagas, prestaram depoimento na Delegacia de Homicídios.
Villalba será transladado p/ Manila, capital das Filipinas. A justiça ainda aguarda a autorização da família de Tim Kennely – que só morreu porque entrou na água p/ salvar o amigo. “Já recebemos a autorização por escrito da família de Leon e o processo de translado foi iniciado”, disse hoje Mercedes Aranda, da seguradora Princípios: “Estamos aguardando os trâmites legais. O processo ainda tem que passar pela Embaixada p/ a autorização das polícias civil e federal”.
DEPOIS DA MORTEAfter Death é um dos principais grupos de DEATH METAL da nova geração, e veio ao Brasil acompanhando os veteranos do Masters of Hate, dos EUA. A idéia era percorrer 23 cidades do país até dia 21 de fevereiro tocando muita desgraceira em alto volume. A tour brasileira começaria justamente aqui, num show underground marcado p/ acontecer dia 22 em um estacionamento da rua Santo Amaro, centro da cidade, c/ a Predator abrindo p/ as 2 bandas. A cena death local é bem forte: no início dos 90, a Anal Putrefaction era tão famosa que chegou a ser entrevistada no Programa Legal da Regina Casé.
Aracaju não costuma receber muitas atrações de rock – ou qualquer outro gênero – internacionais. Sente o naipe: em 1989, A-ha; em ’91, Information Society [foto]... Você iria a algum desses? Tenho um amigo que se orgulha de ter ido no A-ha: “Várias gatinhas!”, diz o psicopata. Longo hiato na década de 90, e no início dos 2000 tivemos Mark Ramones and The Intruders em ’01, um pacote c/ bandas australianas p/ surfistas coroas – Men At Work, Spy Vs. Spy, etc. – e Sepultura [banda gringa de Minas Gerais] em ’02.
No reggae a coisa é um pouco mais dinâmica: Pato Banton, Gregory Isaacs, Culture, Gladiators, Wailers e Dezarie [foto] já passaram por aqui, em intervalos regulares nas últimas 2 décadas. No rock, a não ser que você seja um grande fã do Iron Maiden e tenha ido ver Blaze Bailey, não rolava nada de interessante há uns 7 anos. Tudo bem, tivemos Nação Zumbi, RxDxPx, Mutantes, etc. Mas Red Hot, Alice In Chains, White Zombie, Smashing Pumpkins, Shelter, DFL, Asian Dub Foundation, Jon Spencer Blues Explosion, Mudhoney... eu sempre tive que viajar p/ outros estados p/ ver uns showzinhos importados. Até um certo pirata da França invadir nossa praia.
TOMBOLATOUR
Em 2009, Manu Chao esteve no Brasil p/ 7 shows durante o mês de fevereiro, na turnê do disco La Radiolina. Thomas Arthur Chao freqüenta a América Latina desde 1990. É tão local do Rio de Janeiro que se tornou amigo do Capitão Presença. Conhece tão bem o Nordeste que tem um filho de 9 anos em Fortaleza [CE]. Aracaju foi a 3ª etapa da “Tombolatour”, que também passou por Salvador [BA], Curitiba [PR], Camboriú [SC], Brasília [DF], Rio de Janeiro e São Paulo.
Aqui o show de Chao foi bancado pela Prefeitura e fez parte do Projeto Verão, um evento gratuito a céu aberto na praia de Atalaia – a mesma onde morreram os garotos do After Death. Manu, um francês que canta em espanhol, português e inglês, mostrou seu peculiar mix de rock, reggae, ska, afrobeat, música flamenca, caribenha, latina, samplers, o escambau, durante 3 horas intensas: tocou todos os hits – “Clandestino”, “Desaparecido”, “King of the Bongo”, “Bienvenido a Tijuana”, “La Primavera”, “Minha Galera”, “Me Gustas Tu” – , algumas do disco novo, e várias do Mano Negra, seu clássico grupo a la The Clash. Hoje quem o acompanha é a Radio Bemba Sound System, uma puta banda c/ guitarra, batera, teclado, trompete, percussão e o alucinado baixista Gambeat. Cena marcante: Manu Chao batendo o microfone no peito, compondo uma batida na cadência do coração. Lirismo, engajamento e diversão num cara só.
Como rock é coisa do demo & o show não pode parar, os organizadores dos shows anunciaram em seu blog [no mesmo dia da morte dos 2 After Death] que "a Masters of Hate Tour terá continuidade em respeito, principalmente, ao público, e em homenagem aos músicos”. Enquanto isso, Leon Villalba & Tim Kennely descansam nas gavetas do IML de Aracaju. Mas peraí: death metal é “metal da morte”, After Death significa “além túmulo”; integrantes afogados, delegacia de homicídios, cadáveres no necrotério... Os metaleiros que sobraram na banda londrina já têm material p/ 1 disco inteiro!



LA CUCARACHA ENTREVISTA MANU CHAO
Matias Maxx - Você acha que a arte tem que ter um compromisso c/ a política?
Manu Chao - Eu acho que a arte pertence a qualquer um, e que qualquer um faça sua arte como der vontade. Não se pode impor a um artista qualquer regra. Se algum quer fazer política c/ sua arte, como eu faço, tudo bem! Se alguém não necessita ou não quer fazer, ok, se respeita. Não se deve obrigar nada a ninguém na arte. A arte pertence a qualquer um.
MM - O álbum CLANDESTINO [Virgin, 1999] pertence ou trata de algum lugar em especial?
MC - Eu tinha acabado c/ minha carreira musical [no Mano Negra], era como um disco p/ relaxar um pouco, lançar músicas que eram bem pessoais e dizer “tchau, vou pra praia c/ minha mulher!”... Não tenho plano de carreira, não me importa, posso ser feliz de milhares de outras maneiras. Mas o que aconteceu? O disco gerou uma coisa tão bonita, que vale a pena seguir. Com ‘Clandestino’ eu tive uma resposta do público, das pessoas, que eu nunca tive na minha vida... Isso é algo muito forte, digamos que é ternura, a ternura não é isso? Então minha força é um pouco essa, que segue sendo essa força geral, fazendo um intercâmbio de esperança... Se segue assim é que vamos continuar, porque vale a pena.
MM - Você não teme se tornar um produto? Entrar na sociedade de consumo? “Compre Manu Chao porque ele diz coisas legais”...
MC - Isso é um grande perigo, creio que hoje mensagens de rebeldia e tudo mais são um marketing potentíssimo, e as gravadoras sabem muito bem. Rebeldia vende! A única maneira de combater isso é tratar você mesmo de sua maneira de trabalhar, creio que é a única possibilidade de você, ao acordar, não ter vergonha de si mesmo. O que você diz nas canções, tentar fazer... Digo “tentar”, porque nem sempre é fácil. “Entre lo dicho y lo echo el camino es derecho” é uma frase do Mano Negra. Creio que essa é a base.

domingo, janeiro 24, 2010

FILMES DO ANO [PASSADO] Que mané Avatar o quê! É no Distrito 9 que o bicho pega. Lua Nova? Aqui no VxLxBx lobisomem não se cria, muito menos vampiro emo... Os melhores filmes que assisti ano passado foram produções independentes ou azarões do mercado, todos feitos FORA de Hollywood, a maioria falada em outras línguas que não o inglês – sendo 2 documentários brasileiros – , a maior parte lançada em 2008 [o que enfatiza a minha defasagem no acesso à produção cultural mundial].

2009 foi, p/ mim, um ano de resgate do cinema & do rock’n’roll: no rock através do meu envolvimento espontâneo c/ a Plástico, e no cinema graças ao Cine Cult c/ suas sessões Notívagos & Virada Cinematográfica, excelentes pedidas p/ insones feito eu. A seguir, meu Top 5 dos filmes mais finos que vi na última temporada. A peneira foi tão fechada que nem Bastardos Inglórios entrou nesta lista:
1) VALSA COM BASHIR [dir. Ari Folman / Israel, 2008]Desenho animado ao mesmo tempo psicodélico & ultra-realista no qual o diretor Ari Folman faz um acerto de contas c/ o seu próprio passado, através de consultas ao seu analista ou fumando maconha c/ ex-companheiros na Guerra do Líbano, ou Guerra Árabe-Israelense, ou Operação Paz na Galiléia, em 1982. Chame como quiser, foi um MASSACRE do exército judeu auxiliado por facções cristãs contra imigrantes palestinos no Líbano. Um episódio tão sangrento que Folman – na época um adolescente de 19 anos – durante muitos anos ‘apagou’ as lembranças de sua participação. A história vai se desvendando através de interpretações psicológicas p/ os sonhos – ou pesadelos – de Ari e seus amigos. O emprego de diferentes técnicas 2D e 3D torna tudo mais lisérgico. A cena de abertura, dos 26 cachorros, é inesquecível. Outros momentos memoráveis são a volta do recruta a Tel-Aviv, c/ "This Is Not a Love Song" do PIL rolando na boate, e o episódio que dá nome ao filme. Bashir é o presidente eleito cuja morte deflagra o uso de artilharia pesada contra o alvo palestino. Ao final, cenas reais do dia seguinte ao massacre no campo de refugiados, “p/ lembrar que o assunto é sério, que não fiz apenas um filme ‘cool’ sobre a guerra”, diz o diretor. SAIBA MAIS: Valsa Com Bashir concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009, mas não levou porque o júri – composto por judeus, católicos e protestantes – não gostou da forma como israelitas e cristãos são retratados. Também foi a única animação a concorrer na mostra competitiva de Cannes, em 2008. Existe uma versão em quadrinhos, à venda nas livrarias.
2) GOMORRA [dir. Matteo Garrone / Itália, 2008]
Esqueça Marlon Brando em O Poderoso Chefão. Esqueça a classe e o humor de Família Soprano. Gomorra, título que faz referência à cidade italiana mergulhada em pecado & lava de vulcão, é um trocadilho c/ CAMORRA, máfia napolitana de corrente de ouro, chinelo nos pés e sujeira nas mãos. Distante dos códigos de honra sicilianos descritos por Mario Puzo, os mafiosos de Nápoles investem abertamente no tráfico de drogas e lavam dinheiro enterrando lixo tóxico, material radiativo e outras tranqueiras industriais em terrenos baldios e pedreiras abandonadas, num esquema denunciado pelo jornalista Roberto Saviano, autor do livro Gomorra - a História Real de um Jornalista Infiltrado na Violenta Máfia Italiana. Saviano [um cara mais jovem que eu] entrou nos clãs camorranos e expôs os tentáculos da organização: do mercado de produtos piratas vendidos em camelôs até os sofisticados circuitos da alta-costura e das obras de arte, c/ conexões nas principais cidades do mundo, dos EUA ao Leste Europeu, da China ao Brasil. SAIBA MAIS: Roberto Saviano é considerado um traidor pela Camorra e tem sua cabeça a prêmio. Ele é uma espécie de Salman Rushdie italiano: jurado de morte pela máfia, vive sob proteção da polícia. Seu livro foi lançado em 2006 e já vendeu mais de 1 milhão de cópias em 40 países. Gomorra, o filme, venceu o Grand Prix do Festival de Cannes em 2008.

3) DISTRITO 9 [dir. Neil Blomkamp / África do Sul+Nova Zelândia, 2009]
Eu pensava já ter visto tudo em matéria de ficção científica e filmes B, mas alienígenas ameaçadores reféns dos seres humanos num gueto da África do Sul realmente é uma idéia original, levada a cabo pelo novato Neil Blomkamp, co-roteirista ao lado de Terri Tatchell. Há 20 anos, um cargueiro interplanetário quebra sobre o céu de Joanesburgo. Uma empresa, a MNU, é contratada pelo governo p/ cuidar dos refugiados, acomodando-os em barracos de zinco, formando um favelão em constante conflito étnico entre os humanos e os “camarões”, como são apelidados os ETs – que mais parecem baratas. “O maior desafio era fazer o público sentir ojeriza pelos aliens, mas ao longo da história criar uma empatia por eles”, diz Neil. Filmado em Soweto, uma favela de verdade, Distrito 9 é uma metáfora sobre o apartheid: “Até 1994, Johannesburg era uma cidade militarizada, armas em todos os lugares e muita presença da polícia, como esses veículos brancos que fazem patrulha pelo Distrito 9”.SAIBA MAIS: Os US$30 milhões investidos se pagaram em 3 dias de exibição. A produção é de Peter Jackson, diretor da trilogia Senhor dos Anéis: seu estúdio foi o responsável pela impressionante animação dos ‘camarões’. O filme gerou conflito de verdade na África do Sul: os nigerianos são mostrados como canibais, e 50 imigrantes do Zimbabue foram assassinados numa noite em Soweto. “São negros pobres atacando negros pobres. Havia muita violência rolando quando começamos a filmar em 2008, mas não imaginava que as coisas poderiam ficar tão feias”, disse Blomkamp.

4) GUIDABLE [dir. Fernando Rick+Marcelo Appezzato / Brasil, 2008]
Guidable” é uma gíria criada pelos Ratos de Porão c/ múltiplos significados. Mas pode ser resumida como “foda-se!”. Que mais dizer sobre o documentário da 1ª banda punk/HC latinoamericana, há 30 anos na ativa sem tirar de dentro, sobrevivente a vícios, tretas, modas e ameaças? 121 minutos de depoimentos de caras como Rédson do Coléra, Clemente dos Inocentes, Andreas e Paulo do Sepultura, e mais todos os integrantes da banda, dos originais aos atuais. O longa segue de forma cronológica, esmiuçando álbuns clássicos como Crucificados Pelo Sistema, Cada Dia Mais Sujo e Agressivo, Brasil, Feijoada Acidente, Sistemados Pelo Crucifa, até os mais recentes, como Inconsciente Coletivo e Homem Inimigo do Homem. Além de pioneiro no movimento punk, no hardcore e no crossover, o RxDXPx também trouxe de suas tours em squats europeus o know-how p/ a fabricação de crack. “É um documentário independente, sobre uma banda e um movimento que sempre andaram c/ as próprias pernas. Não tem o que esconder. Histórias de brigas e drogas são de praxe”, diz Fernando Rick, um dos diretores. “A gente acabou entrando no clima ‘droguístico’ da banda, mas foi só durante a finalização. Hoje somos uns santos!”, jura o outro diretor, Marcelo Apezzatto. SAIBA MAIS: Guidable traz imagens históricas do festival Começo do Fim do Mundo, em 1982. Destaque também p/ o show no Hangar 110 [SP] em 2007, quando Gordo, Jão, Jabá & Spaghetti reencontram-se p/ uma foto no camarim. Em Aracaju, a banda Karne Krua fez um autêntico show de punk rock no saguão do cinema, após a exibição do filme.

5) LOKI
[dir. Paulo Henrique Fontenelle / Brasil, 2008]
Quando assisti o documentário sobre Arnaldo Dias Baptista, o gênio por trás da melhor banda brasileira de rock em todos os tempos, o pianista-baixista-dos-Mutantes que lançou algumas das obras-primas da música nacional ao longo de toda sua carreira, e que depois se lançou de um prédio fugindo de uma sanidade imposta à base de sedativos e choques elétricos, e que sobreviveu a tudo isso – rompimentos, decepções, depressões, internações, traumatismo craniano e coma – , rendi minha homenagem em um extenso post: O Homem que Caiu na Terra. Produzido pelo Canal Brasil, o longa de Paulo Fontenelle levou os prêmios do júri no Festival do Rio e na Mostra de Cinema de São Paulo em 2008, apesar de algumas falhas graves do ponto de vista técnico [erros de foco, por exemplo]. Seu grande mérito é resgatar imagens perdidas no tempo, tipo um especial da Patrulha do Espaço p/ a TV no fim dos anos 70. A cena final, onde Arnaldo expõe seu quadro e sai brincando como se o filme estivesse em reverso, redime o diretor, cuja intenção era “fazer justiça a El Justiciero”. Conseguiu.
SAIBA MAIS: Arnaldo mora c/ a 3ª esposa num sítio em Minas Gerais e é artista plástico diletante. Em 2004, lançou o álbum Let It Bed, em que toca todos os instrumentos. Inspirada pelo Loki, a Plástico Lunar fez uma de suas melhores apresentações na sessão Notívagos – banda no auge, noite florida, todo mundo chapado & feliz: “Se eu fizer uma ligação/ Sua química e a minha/ Vamos longe/ Talvez longe até demais/ Só não vale voltar atrás/ Se decida/ Na hora de juntar as peças/ às vezes é melhor errar/ Assim uma nova idéia/ terá espaço pra entrar”...

segunda-feira, janeiro 18, 2010

A VOLTA DO BOÊMIO O melhor copo da cidade”. Assim Cleomar Brandi foi definido pelo jornalista Rian Santos, do blog Spleen & Charutos, na ocasião do lançamento de Os Segredos da Loba, 1º livro em 35 anos de jornalismo. Se ‘GONZO’ é a definição p/ o último homem de pé após uma bebedeira, CLEOMAR é o maior jornalista gonzo que eu já conheci. The last man standing.

Fazer jornalismo diário é profissão de fé”, diz o lobo velho, que já passou pelo jornal A Tarde [BA], Jornal de Sergipe e revista Veja, pela Rádio Educadora da Bahia e Delmar FM, pelas TVs Sergipe e Caju, etc. Nascido em 18 de janeiro de 1946, neto de italiano da Sicília que foi plantar café na cidade de Ipiaú, passou a infância em Rio de Contas, ambas no interior baiano:

Pescávamos belos piaus de cima do cais: plataforma exata para grandes mergulhos na água que nos acolhia. O grande abacateiro do quintal era a grande vigia de onde, lá de cima, me sentia Robinson Crusoé, os ‘babas’ [como são chamadas as ‘peladas’ de futebol na Bahia] com os irmãos, os filmes do Cine Theatro Éden, o cheiro do pão fresco saindo do grande forno da Padaria Minerva, a manteiga derretendo no milagre do pão quente e aberto, as histórias de assombração, as brincadeiras de guerra nas pilhas de cacau do grande armazém de Tio Coló, os bois soltos na ruas nos dias de matança, um corre-corre danado e a gente jogava sal no fogo pois diziam que deixava os animais mais brabos. Uma infância com cheiro de banhos de rio, rapé roubado do meu avô, visgo de cacau na boca e o coração na porta, batendo forte, esperando a chegada do meu pai que vinha da padaria, enquanto o serviço de auto-falante cantava a Ave Maria.

Aos 17 era recordista de nado livre e borboleta, mas um fato inesperado mudou sua vida p/ sempre. “Fui atingido por um voraz vírus que quase consome minha existência”, conta ele: “Daí em diante minha adolescência foi dura: 2 anos internado num hospital e mais 6 meses em cima de uma cama, às vezes quase morrendo, família reunida esperando o desfecho, febres diárias, eu apagava durante dias e sempre voltava, com um laivo de determinação nos olhos. É que meus olhos sempre foram temperados na forja da fé, e acreditava que a vida era muito bela para morrer adolescente.

LOBO DO ESTEPE

Não pude seguir o caminho normal de todos”. Cleomar tem um estilo poético de escrever e ao mesmo tempo um olhar pragmático sobre o cotidiano: “Entre febres, cirurgias, engessamentos, dezenas de escaras (medalhas amargas), consegui sobreviver e, 8 anos depois, busquei aproveitar os anos que passei deitado, mas sempre abraçado à melhor literatura mundial. Fiquei amigo de Tolstoi, de Stendhal, de Baudelaire, de Homero, de Goethe, de muitos escritores, bálsamos de palavras e estilos que me ajudavam mais que as pomadas, cirurgias e internamentos. Soube armazenar meu silo com uma vasta biblioteca e esse conhecimento mostrou-se mais tarde uma das grandes armas da minha sobrevivência profissional.

Quando eu conheci Cleomar, em 1994, ele era cadeirante. Depois, em conseqüência do vírus, teve as duas pernas amputadas. “Já numa cadeira de rodas, aprendi a me arrastar pelas escadas. Em junho, prestei o supletivo de 1º Grau. Em dezembro, fiz o supletivo de 2º Grau. Em janeiro, fiz vestibular na Universidade Federal da Bahia, no curso de Pedagogia, onde fundei o 1º diretório estudantil, com o slogan ‘Uma gota d’água nesse oceano de inércia’, o que rendeu muita confusão política, perseguições durante o curso. A pior delas foi a transferência da minha sala para o 4º andar, e eu tive que, durante 4 anos, arrastar-me degrau por degrau, todos os dias de aula, até o último andar, enquanto meus colegas levavam minha cadeira de rodas. Talvez por orgulho ou desafio, nunca permiti que me carregassem nos braços. Preferia desafiar a diretoria com o estandarte político de luta do meu cansaço.

Seu problema de saúde nunca o impediu de fazer sucesso c/ as mulheres, nem de praticar seu esporte preferido – não, NÃO é a natação... Namorador, nunca se casou: “Nada contra, mas prefiro conviver, sem maiores cerimônias”. Seu último relacionamento sério foi c/ Mariana Salermo, que o fez “tremer até os aros da cadeira de rodas” quando se conheceram: “Hoje, trago em mim a calma de perceber a mulher exata, quando chega, quase sorrateira, leve, brisa em fim de tarde. [...] Aquele amor que faz você se sentir um cavaleiro templário, guardião da menina amada, sabe?

SÍSTOLE E DIÁSTOLE

De tanto cantar as mulheres – em verso e prosa – Cleomar lançou em outubro uma coletânea c/ 71 crônicas, todas c/ seu peculiar estilo classudo e sacana: “A palavra é anzol, é oceano e isca. Ela é bambu, grama e jacarandá. A palavra é bolero, tango e frevo. Ela é camaleão esperto. A palavra é sístole e diástole. É sangue, nervo e músculo. Bússula e náufrago, alimento e veneno.

O título do livro foi extraído de uma crônica em especial, que “caiu no agrado do público leitor feminino e são elas que sempre determinaram alguns caminhos que percorri”. Ao ser indagado por uma repórter gatinha da filial da Globo sobre o que é preciso p/ desvendar os segredos da loba, ‘Créumar’ respondeu: “Muita pesquisa de campo e bom conhecimento da matilha!

Cleomar Brandi é um gozador. Vive pregando peças. A última que ele aprontou foi uma internação de mais de 1 mês na UTI p/ retirada de tumores no intestino. Mas, igual a Iggy Pop, Cleomar tem Lust for Life, ou 'fome de viver', como naquele filme de vampiros c/ a Catherine Deneuve... “Perguntei pra São Pedro se lá no céu tinha Domecq, ele disse que não, eu falei que voltava quando tivesse”, me contou, zoando.

Sobrevivi a vários chamados da soturna morte e estou aqui até hoje, sentindo o vento na pele e o cheiro do mar nas narinas”, diz Cleomar, que voltou à ativa há 15 dias, produzindo matérias p/ o Jornal da Cidade e a Aperipê TV, dirigindo seu próprio carro adaptado... e ainda imbatível após uma noite de porre & boemia. Até hoje, nada nem ninguém derrotou o lobo do estepe.

Tive uma vida comum, apenas foi mais difícil. Aprendi o sentido das dores diárias, o alcance, a extensão da crueza que é ter beijado a face enrugada da morte e ter voltado, algumas vezes. Estou no mundo e quero cumprir o que determina meu coração, minha vida e minha fé. Gosto de perceber o mistério das palavras quando escrevo, quando ouço um blues. Continuarei amando as madrugadas e buscando compreender a humanidade. Sou o que faço. Nada mais.

OS SEGREDOS DA LOBA

‘Estou na fase da loba, me sinto plena de mim’. Como um cochicho, a frase chegou aos meus ouvidos, quase um sussurro entre um uísque e outro, na festa de aniversário de um amigo, numa dessas noites. Conversávamos, algumas pessoas na mesa e a noite ia adiantada. Na hora em que a frase visitou a esquina da minha orelha foi como o estalo de um chicote determinado, um certo calor na voz mas, em seu bojo, havia a segurança de uma mulher que sentia a necessidade de falar aquela frase, como um anúncio de que havia perigo no ar, que o frisson que visitara meu cangote era gerado de uma fonte onde havia turbilhões de energia vulcânica em suspensão, lavas magmáticas de paixões incandescentes que podiam aflorar num piscar de olhos. Com um giro lento de cabeça, ousei encarar a face da loba que resolvera chegar ao começo da madrugada uivando baixo e trazendo-me uma certa perplexidade gerada por aquela voz quente, rasgo de noturno verão, cheiro de doce perigo no ar.

A mulher, quando é resolvida, fruta maturada, sabe ter a esperteza da loba e sabe sobreviver sem matilha. Amiga da lua, prima do sol, conhece cada segredo dos lugares por onde anda; deixa seu cheiro, seu almíscar em cada pele visitada, como antiga tatuagem ou cicatriz de velhas batalhas. A idade da loba dá, à mulher, a certeza da aura que clareia os caminhos eleitos por ela, apenas por ela. Aos machos mais frágeis, desacostumados a enfrentar a altivez sensual da mulher-loba, resta o medo, a fuga, como acontece com muitos, ainda não temperados nos mistérios dos sortilégios que envolvem essa raça de pêlo brilhante, farto, eriçado ao mínimo toque na hora do encontro selvagem.

A mulher-loba conhece o poder de suas garras, o laivo de sangue dos seus olhos determinados. Para ela, não há mistérios no amor nem discussões existenciais no silêncio morno do quarto amanhecido com jeito de ter enfrentado o fragor de um doce embate. Ela sabe os caminhos traçados em sua bússola.

A mulher-loba guarda seus uivos para os momentos mais profanos, quando eriça o pêlo e se encharca de vinho, te olha e ensaia um tango, com um jeito de quem conhece velhos segredos de bandoneons platinos. Segura de si, é capaz de eleger em seu guarda-roupa um vestido vermelho quando o tom da moda é a cor clara e sair por aí, requebrando as ancas fartas apenas para provocar um frevo doido nos olhos dos homens que passam. A mulher-loba é colombina, cigana e tem nos ombros a pele trigueira das mulheres da Andaluzia.

A mulher-loba sabe delimitar como ninguém os espaços da sua área de caça. Ela é a guerreira, a que atiça a caça e conhece como ninguém os perigosos caminhos da jugular.

Como uma fruta madura, a mulher-loba conhece o momento da plenitude da sua estação. Mas a colheita, é ela quem determina, guardiã zelosa da seiva que escorre das suas raízes.

por Cleomar Brandi [em 27/03/2007]

sábado, janeiro 16, 2010

PSICODÁLIA
O mundo está cheio de plástico. Este derivado do petróleo que serve p/ fazer mesas, cadeiras, copos, garrafas, canetas, pen-drives, carros, motos, embalagens e tampas – mais utilidades que Bombril – é ao mesmo tempo um item indispensável na vida contemporânea e um dos maiores vilões p/ o mundo natural. Produto industrial que demora NO MÍNIMO 100 ANOS p/ se decompor, o plástico compõe quase 80% do lixo encontrado nos mares.
Em 1997, o velejador Charles Moore, participando de uma travessia da Califórnia p/ o Havaí, entrou numa região conhecida como Giro Subtropical do Norte do Pacífico, ou ‘Zona Morta’, assim chamada por ser um “ponto estacionário”, formado por uma grande massa de ar quente, totalmente insalubre, cujas correntes se enroscam no sentido horário. Os veleiros evitam passar ali, e a maior parte dos animais também. Mas o que Moore encontrou foi mais assustador do que qualquer lenda marinha:
Dia após dia, eu não conseguia ver nenhum golfinho, nenhuma baleia, nenhum peixe sequer; tudo o que eu via ali era plástico.” Ele criou uma fundação e desenvolveu um método, junto a especialistas em poluição da água, p/ quantificar os detritos. Os primeiros resultados foram publicados no Marine Pollution Bulletin em 2001: a equipe recenseou uma média de 334.000 fragmentos de plástico por km2 – c/ pico de 969.777 fragmentos por km2 em certos trechos – , p/ um peso médio de 5 kg/km2. A massa plástica é 6X maior que a de plânctons naquela área oceânica, tão grande quanto o Texas, rebatizada de Eastern Garbage Patch, ou ‘Lixão do Leste’.
A água está sempre em movimento, o que torna ainda mais difícil a medição. Eu percorri 150.000 km a bordo do Alguita pelo Pacífico Norte e encontrei plástico em todo lugar”, diz Charles Moore. O Lixão do Giro do Pacífico está registrado no documentário The Mermaids Tears, que traz cenas bizarras – e infelizmente verídicas – de gaivotas e albatrozes mortos por confundirem lixo c/ peixe, focas e leões marinhos enforcados por fios de nylon, e tartarugas c/ cinturinha de Dita Von Teese após terem crescido c/ pulseiras e outros objetos esféricos em volta das suas carapaças.
OUTROS PLÁSTICOS
O custo da limpeza das praias de Bohuslän, na Suécia, foi de $1 milhão de euros ano passado. No Peru, a cidade de Ventanillas investiu $ 400 mil dólares p/ limpar a sua costa, o dobro do orçamento p/ limpeza de toda a zona urbana. No Brasil... Deixa pra lá. A única coisa boa que produzimos nessa área foi o Plástico Lunar, grupo de rock biodegradável que ainda tem muita brasa p/ queimar, sem nenhum dano ao meio ambiente.
A despeito da poluição dos mares, 2009 foi um grande ano p/ eles, que nem são de ir p/ praia... Começaram tocando no Festival Psicodália, em pleno carnaval de Santa Catarina. Lançaram seu aguardado 1º álbum, Coleção de Viagens Espaciais, após 10 anos, 2 EPs e uma participação na coletânea Brazilian Peebles da Baratos Afins – selo c/ o qual assinaram.
No 2º semestre gravei c/ eles o clip de ‘Gargantas do Deserto’, e em seguida a banda tocou no Festival DoSol, em Natal [RN]. Sofreram uma baixa c/ o pedido de “tempo” do Daniel [foto], mas sacodiram a poeira na turnê Nordeste Fora de Eixo, c/ Jr. e Julico dividindo os vocais. Em dezembro, foram chamados novamente p/ o Psicodália, que desta vez aconteceu na virada do ano, em Rio Negrinho [SC].
A Plástico Lunar era apenas uma das 30 bandas de nomes engraçados e chapados, escaladas p/ a 10ª edição do festival: Bandinha Di-Dá-Dó, Baratas Humanóides, Cadillac Dinossauros, Cosmo Drah, Mesa Girante, Poucas Trancas, Terreno Baldio, etc. Mas, num festival psicodélico onde a principal atração eram Os Mutantes, que tal seria tocar no ápice da noite do réveillon p/ uma multidão gritando o nome da sua banda?
- Plástico! Plástico!, vi c/ meus próprios olhos o público aclamando os caras, através das imagens de celular do Werden ‘Tatu-Bola’ Tavares, que registrou a viagem em fotos e vídeos de 1 minuto. Pra variar, os lunáticos só conseguiram a grana p/ viajar em cima da hora, graças ao patrocínio do Banese Card, intermediado pelo produtor Roberto Nunes.
Daniel Torres, o irmão pródigo, encontrou a turma na conexão do RJ e reintegrou a banda nessa noite festiva. Encontrei c/ o Júnior semana passada e perguntei como foi a experiência; tudo o que ele lembrava era de que “foi legal, gritaram nosso nome, vendemos todos os CDs”...
THAT 70'S SHOW
TARJA PRETA P/ ENTRAR NO CLIMA

A BANDA EM SEU HOTEL 1000 ESTRELAS

PSICODÁLIA 2009/10: CASA CHEIA & PLÁSTICO NA VEIA

JR. NO BAIXO + AMPS MARSHALL = EXPLOSÃO DE ROCK

DÊ UM VINHO A DANIEL E VOCÊ TERÁ UM SHOW

CRIATURAS ESTRANHAS CIRCULAVAM APÓS A MEIA-NOITE

sexta-feira, janeiro 01, 2010

2010, O ANO EM QUE FAREMOS CONTRATO
Após 5 anos sem férias, tirei uns dias p/ curtir o ano-novo c/ minha mulher em SSA/BA, minha cidade natal. Trouxe a prancha [minha RG 5'11" swallow] na vã esperança de pegar umas ondas na Caracas, praia onde aprendi a surfar, mas verão no nordeste é perdido: FLAT total.
As fotos deste 'post' são da festa de ontem em Stella Maris. Acho champanhe uma puta bebida de fresco, mas "em Roma como os romanos", ou no caso, "na Bahia como os baianos". Hmm, ficou meio estranho isso...
Aos amigos & leitores do VxLxBx, desejo "muito dinheiro no bolso, saúde pra dar e vender". E um Engov antes, glicose depois.
BELDADES EM FAMÍLIA: MINHA ESPOSA GIL & MINHA PRIMA ANNE
10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2010!
É NOIZZZZZZZZZZZZZZZZZ