segunda-feira, maio 31, 2010

CHOPPER
A MAN WENT LOOKING FOR AMERICA AND COULDN’T FIND IT ANYWHERE

Sem destino. É a tradução brasileira p/ EASY RIDER, o melhor filme sobre moto de todos os tempos.
Get your motor runnin’/ Head out on the highway/ Lookin’ for adventure/ And whatever comes our way”...

Numa cidade do México, os motoqueiros Wyatt e Billy conseguem – por meios ilícitos – dinheiro suficiente p/ caírem na estrada em uma viagem de costa a costa nos EUA, numa jornada de ‘redescobrimento’ da América. Com a grana muvucada em mangueiras dentro dos tanques de gasolina, os jovens, loucos e rebeldes saem queimando tudo pela Interstate 40 e a Highway 160...

Lançado em 1969, Easy Rider foi o 1º blockbuster de uma nova geração de diretores que iria quebrar convenções e salvar Hollywood do ostracismo [como Francis Ford Coppola, Martin Scorsese e George Lucas], c/ lucro 10X superior ao seu baixo custo de US$ 400.000. Além disso, lançou Peter Fonda – irmão de Jane e pai de Bridget – ao estrelato e retratou o espírito de uma geração ao mesmo tempo em que antecipou o fim do sonho hippie.

Prêmio de Melhor Filme de um Novo Diretor no Festival de Cannes p/ Dennis Hopper, então c/ 32 anos, protagonista ao lado de Fonda. O roteiro, escrito pelos dois junto a Terry Southern [autor de Dr.Strangelove], também recebeu uma indicação ao Oscar. “Easy Rider foi o primeiro filme independente a ser distribuído por um grande estúdio!”, bradava.

Apesar de ser O CARA na virada dos 60 pros 70, Hopper já estava em cena desde que atuou ao lado do mito James Dean nos filmes Rebel Without a Cause [no Brasil, ‘Juventude Transviada’] e Giant [‘Assim Caminha a Humanidade’], ambos de 1955. Na década seguinte, participa de clássicos do faroeste – Rebeldia Indomável e Bravura Indômita – e torna-se amigo do produtor Roger Corman, rei dos filmes B, e do ator Jack Nicholson, rei dos doidões. Com eles, participou da 1ª película sobre os Hell’s Angels: The Wild Angels, de 1966.

TOP CHOP

Yeah, darlin’ gonna make it happen/ Take the world in a love embrace/ Fire all of the guns at once and/ Explode into space”...

’69 foi um ano quente nos EUA: festival de Woodstock, eleição de Nixon, guerra do Vietnã, assassinato de 2 líderes políticos [Robert Kennedy e Martin Luther King]. Sem Destino surge neste contexto capturando o clima incerto de uma era de mudanças. Os anti-heróis da história eram maconheiros vivendo à margem da sociedade, que perturbam o status-quo somente c/ as suas presenças aonde chegam.

Dois jovens em busca da liberdade que encontram a realidade”, resume o pessoal do Mamutes – não a banda de rock, mas o site do motoclube. A trilha sonora é primorosa, c/ Jimi Hendrix, Bob Dylan, The Band, Steppenwolf em seu auge tocando o hino de uma geração... E as motocas! Harley-Davidson modelo Chopper, 1200 cilindradas de potência sobre duas rodas. “Peter Fonda comprou 4 motos num leilão da polícia, elas eram Harleys equipadas com motor ‘Panhead’, uma 1950, duas 1951 e uma 1952”, conta o Mamutes: “Com a ajuda de Cliff Boss foram montadas duas motos de cada.

As motos foram batizadas de Capitain America e Billy Bike. “Fonda foi o responsável pelo desenho da Capitão América, para o qual se baseou no estilo das motos californianas da época. A moto de Hopper, que não tinha experiência nesse estilo, teve seu guidão mais baixo e freio na roda dianteira para facilitar a pilotagem e minimizar o risco de acidentes.

As Choppers foram criadas quando os donos da Harley resolveram desenvolver motocicletas mais leves, como as inglesas, sem perder o estilo próprio. Retiraram então todo o peso desnecessário – setas, buzinas, paralama dianteiro, assento do garupa – e reduziram o sistema de frenagem. Alongaram os garfos dianteiros e levantaram o guidon p/ cortar o ar e assim ter estabilidade nas rodovias. Como a lei exigia espaço pro carona, introduziu-se um ‘sissy bar’ [o famoso ‘santo antônio’]. Nascia um ícone.

Falando em mitos, Dennis Hopper participou de mais de 200 produções p/ o cinema e a TV em quase 60 anos de carreira. Dirigiu documentários e atuou em alguns dos maiores clássicos do cinema moderno, como Apocalipse Now e O Selvagem da Motocicleta, de Coppola, e Veludo Azul, de David Lynch.

Após prisões e internamentos por abuso de álcool e drogas, ‘encaretou’ na década de 80. Coincidência ou não, passou a aceitar qualquer trabalho que lhe oferecessem. Em 1988 dirigiu Colors [no Brasil, ‘As Cores da Violência’], o 1º filme a retratar o conflito de gangues em Los Angeles. Dois anos depois faria Catchfire [‘Atraída pelo Perigo’], estrelado por Al Pacino, e Hot Spot [‘Um Local Muito Quente’].

Mesmo nos anos 90, quando se especializou nos papéis de vilões em bombas hollywoodianas [Speed, Waterworld, etc.], ainda mostrava lapsos de brilhantismo. Em sua participação no filme Amor à Queima-Roupa, de Tony Scott [c/ roteiro de Quentin Tarantino], interpretando um aposentado que mora num trailer e é torturado por mafiosos italianos por causa da dívida do filho vigarista, divide uma cena memorável c/ Christopher Walken, na qual zoa seus algozes diante do inevitável destino, dizendo que os sicilianos têm cabelo crespo por causa dos mouros que invadiram a Itália e comeram suas tataravós.

DENNIS TROUT

I like smoke and lightnin’/ Heavy metal thunder/ Racin’ with the wind/ And the feelin’ that I’m under”...

‘Chopper’ Hopper morreu neste sábado, aos 74 anos, em sua casa na praia de Venice, CA, cercado pela família e amigos. Sua última aparição pública foi em 26 de março, quando recebeu a estrela na Calçada da Fama do Sunset Boulevard, em Los Angeles. “Vocês me ofereceram uma vida que eu jamais poderia ter tido sendo um menino de Dodge City, no Kansas”, falou na ocasião. Irônico que um dos caras c/ mais ‘culhões’ em Hollywood tenha morrido de câncer de próstata, mas assim é a vida.

Nós tínhamos atravessado a década de 1960 e ninguém tinha feito um filme sobre fumar maconha sem matar um monte de enfermeiras.Workaholic, atuou em 25 filmes nos últimos 10 anos – só em 2008 foram 6! Ano passado, mesmo doente, participou da série Crash, versão televisiva do filme homônimo vencedor de 3 Oscar.Eu fui abençoado por sua paixão e amizade”, lamentou Peter Fonda, após a notícia do falecimento do amigo: “Juntos, rodamos pelas estradas dos Estados Unidos e mudamos a forma como filmes eram feitos.

A produção foi uma bagunça", escreveu João Solimeo no blog Câmera Escura, Hopper não tinha idéia de como se fazia um filme, era extremamente violento e egocêntrico e tão viciado que tinha marcado, no roteiro, que tipo de droga usaria para interpretar cada cena.“ As informações são do livro Easy Riders Raging Bulls, de Peter Biskind, traduzido no Brasil p/ 'Como a Geração Sexo, Drogas & Rock'n'Roll Salvou Hollywood': Hopper não conseguia finalizar o filme e os financiadores tiveram que tirá-lo dele, cortando-o para uma duração apropriada. O filme acabou sendo um sucesso inesperado e deixou os estúdios sem saber o que fazer.

As últimas fotos dele que eu tinha visto mostravam quase um cadáver ambulante, terrível mesmo”, comentou Allan Sieber em seu blog: “Um cavalo selvagem & louco desse naipe não merecia passar pelo papelão de definhar em público. Era hora de sair de cena mesmo. Lembrei de Paris Trout, filme pouco citado onde ele simplesmente destrói.

Easy Rider é um dos poucos road movies autênticos já feitos. Toda a equipe de filmagem viajou junto c/ Wyatt e Billy pelas cidades de Needles, na Califa, Selingman, no Arizona, Morganza, na Louisianna, etc. A caminho do Texas, a produção foi ‘aconselhada’ pelos nativos a não gravar nada, mas Hopper estava decidido a rodar algumas cenas em Taos, onde morou por 15 anos. Após 1 dia de estrada e 1 acampamento, conseguiram filmar convencendo os caipiras de que compartilhavam de suas idéias racistas. Os ‘rednecks’ chegaram a participar do filme, mas a paz acabou quando o xerife flagrou o grupo de cabeludos californianos bebendo num bar p/ negros. “A música e a diversão eram bem melhores!

Dennis Hopper foi o fotojornalista de Apocalipse Now, o Frank Booth de Veludo Azul, o terrorista de Velocidade Máxima e o vilão caolho de Waterworld, mas será lembrado sempre como o motoqueiro fora-da-lei inspirado em Billy The Kid, de Sem Destino. “As pessoas fumavam maconha e tomavam LSD em todo o país, mas no cinema continuavam vendo Doris Day e Rock Hudson. Não havia sido feito nada até então. Eu queria que Easy Rider fosse como uma cápsula do tempo sobre aquele período.

...“Like a true nature’s child/ We were born, born to be wild/ We can climb so high/ I never wanna die.[Born To Be Wild, Steppenwolf]

HOPPER E FONDA EM EASY RIDER: ASAS DA LIBERDADE

CONTEMPLANDO O ABISMO EM APOCALIPSE NOW

COM ISABELA ROSSELINI EM VELUDO AZUL

*17/05/1936 - +29/05/2010

quinta-feira, maio 27, 2010

ACONTECEU LÁ NO SERTÃO O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão!”, profetizava Antônio Conselheiro ao seu povo. De fato, Canudos, depois de destruída pelas tropas federais em 1897, foi inundada e virou um açude na Bahia. No interior de Sergipe, o sertão vira rock todo ano.
21/05. Sexta-feira, 20h30. Acompanhado de minha querida Gil, encarei os 135 km que separam Nossa Senhora da Glória da capital p/ conferir pela 1ª vez o Rock Sertão, em sua oitava edição. Fomos de carona no Peugeot 206 do meu amigo Adelvan ‘Kenobi’, apresentador do Programa de Rock [104.9 FM] que iria estrear na TV, convocado de última hora p/ ancorar a transmissão ao vivo. Completavam a barca um moleque que eu não conhecia mas mó gente fina – usava uma camisa do DFC – e Roberto Nunes, produtor da Sessão Notívagos, que há 2 semanas trouxe p/ Aracaju o Cidadão Instigado.
NOSSA SENHORA DO ROCK
O festival começou na quinta c/ Alex Sant’Anna e Banda dos Corações Partidos. Durante o dia estavam rolando oficinas, como a dos artistas do Campo do Crioulo, capitaneados pela banda Lacertae e os alunos da Casa de Cultura Zabumbambus; e palestras e mesas redondas c/ convidados ilustres, como o pernambucano Paulo André, organizador do Abril Pro Rock. Eu, que não fui convidado pra nada, fiquei no estúdio móvel dando uma força no início da exibição. Mas logo deixei Adelvan c/ os leões, e fui dar atenção à minha mulher e assistir alguns shows.
Abrindo a noite, Villa Carmen, som novo c/ levada caribenha. “Parece lambada!”, sentenciou minha garota. Em seguida, a banda dos donos da festa, Fator RH, do instigado vocalista Kleberson Santos. “Tocamos em Itabaiana, até em Aracaju e queríamos tocar na cidade, mas não conseguíamos.” Com os amigos Daniel de Matos [baixista da RH] e Jefeson 'Crivo', organizou um festival em 2001. “O primeiro foi bem pequeno, num palco tão estreito que mal cabiam 5 pessoas e as caixas de som.
Em seguida, o hard rock da Mamutes, uma espécie de ‘Matanza’ menos hardcore e mais anos 70. Além de tocar suas composições c/ alto teor de testosterona, fizeram uma homenagem a Ronnie James Dio, ex-vocal do Sabbath falecido no último dia 16. “O rock que fazemos é literalmente valvulado”, diz o vocalista Karl de Lyon: “À proporção que vai esquentando, vai ficando mais encorpado, e é aí que o pau quebra.” E foi c/ os amplificadores aquecidos que a Vendo 147 surgiu no palco alternativo p/ quebrar tudo c/ seu rock instrumental nervoso e indefinível.
Adelvan já tinha me avisado que o quinteto baiano fizera o melhor show do Abril Pro Rock, e em Glória não deu outra. Mix de surf music e heavy metal, c/ um baixista tão ‘virtuose’ que chega a ser firuleiro, e 2 bateristas que tocam sincronizados, de frente um pro outro, usando o mesmo bumbo. Influência do grupo suíço Monsters. O nome veio das páginas de classificados – o Fiat 147 é um dos carros mais vendidos nos jornais. Com dissidentes da Vinil 69 e The Honkers, a Vendo tem até um ex-Snooze na formação – o guitarrista Duardo Costa.
Mopho fechou a noite – pelo menos pra mim. A banda de Maceió faz rock psicodélico, tem um tecladista que usa timbres antigos e conta c/ fãs na platéia que sabem cantar suas músicas; mas tudo isso a gente já tem aqui c/ a Plástico Lunar, que só não tocou em Glória este ano porque estava no Bananada, em Goiânia [GO]. A Plástico é mais acelerada, chapada e lírica que seus vizinhos alagoanos, e na inevitável comparação a Mopho sai perdendo. Hora de pegar a estrada de volta pra casa.
WOODGLÓRIA
Em 1969, o empreendedorismo de um jovem que organizava um festivalzinho de música levou p/ sua cidade no interior dos EUA um festivalzão: Woodstock, que atraiu 500.000 pessoas p/ Bethel, no estado de Nova York. A história de Eliott Tiber está no filme recente do cineasta Ang Lee, Aconteceu em Woodstock. O evento, proibido de ser realizado na cidade original, foi viabilizado graças a Eliott, que alojou toda a produção no hotel da sua família e intermediou o aluguel do terreno. Foram vendidos 186.000 ingressos, mas a multidão que invadiu o lugar derrubou todas as barreiras.
O Rock Sertão, apesar de gratuito, não atraiu nem 3.000 pessoas a cada noite em 2010. Glória tem apenas 30.000 habitantes, mas isso não serve de desculpa. Woodstock aconteceu numa fazenda de 600 acres de terra na zona rural. Uma das hipóteses levantadas p/ o pouco público seria a ausência de uma grande atração nacional, como Zeca Baleiro há 2 anos, mas Luiz Oliva, que tocou lá c/ a Renegades of Punk em 2009, não crê nisso: “Ano passado não rolou apoio do governo e só teve banda daqui do estado, mas o público foi bem mais homogêneo.
Praticamente todas as grandes bandas de Aracaju já tocaram no festival, mas ainda estamos aprendendo bastante”, disse Kleberson da RH à repórter Aline Braga, do jornal Cinform: “Não temos a visão de ser um grande festival. Temos uma visão de contato com bandas amigas. Sempre tivemos essa idéia.
Rick Maia, guitarrista da Mamutes, também agita as coisas em Aracaju c/ seu coletivo Virote Cultural. “Hoje em dia, infelizmente, não dá pra ter uma banda e se preocupar somente com a música em si”, falou a Rian Santos, do Jornal do Dia: “Atualmente as gravadoras só trabalham com bandas já prontas pro mercado, com disco lançado, DVD e alguns anos de estrada. Acredito que quem irá se destacar será aquele que tiver um bom disco, uma boa apresentação ao vivo, conhecer melhor o seu nicho e o que melhor trabalhar nos bastidores, enfim, quem conseguir achar um meio termo entre a organização de uma empresa e a anarquia do rock’n’roll.
BLACK SÁBADO22/05. Vi os shows da última noite no conforto do meu lar. Não é todo dia que um festival de rock é transmitido num canal aberto de televisão, ainda mais no que eu trabalho. Quando o programa começou, às 22h, o trio Urublues, de Itabaiana [SE], já destilava sua malandragem em sons como ‘Migalhas’ e ‘Minha Sede’, boas letras e bons riffs de Ferdinando, vocal e guitarra: “Deveria ter um Rock Sertão em cada cidade! É importante pro músico, porque as chances de tocar no interior aumentam.” Maior município do interior, Itabaiana tem uma cena underground fervilhante, c/ bandas como Karranca e Thee Swamp Beat Brothers.
Lacertae vem da cidade vizinha. “Já tocamos em festivais em Salvador, Rio de Janeiro, ou mesmo no Abril Pro Rock, em Recife, mas a sensação de tocar na nossa terra é outra”, diz Deon Costa, que se apresentou acompanhado do irmão Costaeira, da Unicampestre, no baixo, e os primos Diel na bateria e Marcelo, da Zanimais, na percussão e instrumentos de sopro. “Somos Lacertae, somos mutantes, somos de Lagarto. E esse vento da brisa do sertão é maravilhoso.
Rosie And Me foram os únicos ‘gringos’ dessa noite. O grupo paranaense faz folk melódico cantado em inglês. “Acho que a gente apareceu pra quebrar essa tradição de rock mais pesado no evento”, falou a vocalista Rosie: “Trouxemos uma levada mais country, um som gostoso de ouvir e dançar.” Pra quem curte Belle & Sebastian, Malu Magalhães e Los Hermanos...
Ainda teve Naurêa e mais duas bandinhas escolhidas na internet, mas os poucos & bravos que resistiram na madrugada de sábado garantem que a Karne Krua fez o melhor show. “Quando cheguei e vi dois palcos, eu me assustei”, zoa Sílvio ‘Sartana’, vocalista da banda pioneira no punk rock sergipano. “Me lembro de um show em que anunciaram que nosso guitarrista ia tocar com uma Fender. Foi a grande sensação do evento. A guitarra apareceu mais do que a maioria das bandas. Talvez por isso a Karne Krua tenha se destacado.
Há 25 anos na ativa, Sílvio ainda mantém 2 projetos paralelos – Máquina Blues e Words Guerrilla – e uma loja de discos – Freedom – no centro de Aracaju. Após milhares de formações, Sartana mantém-se punk e anarquista, como deixa claro em ‘Terrorismo Séc.XXI’, novo hit da KxKx. “A persistência e o prazer de fazer música é o que mantém a Karne Krua tocando por tantos anos. E os novos músicos trazem novas energias para a banda.
IN ROCK WE TRUST
O interior de Sergipe já revelou grandes bandas, como as citadas Lacertae, Urublues e Fator RH; em São Cristóvão tem The Baggios, em Propriá tem a Anjos Inocentes, Simão Dias tinha a SD Punk... “A efervescência do Rock Sertão provocou o surgimento de três bandas em Glória: Barrones, Identidade C e Distúrbio Mental”, escreveu Aline Braga no Cinform, “todas já pisaram no palco Véio Artesão, personagem emblemático da cidade. Portanto, além de estimular a criação de bandas, o Rock Sertão possibilita que elas aprendam a lição de casa tocando para um público bem eclético.
Este ano rolou cachê p/ as bandas, divulgação na imprensa, e transmissão simultânea no rádio e TV. Além disso, os shows ocorreram numa praça central da cidade. De graça! Achei que encontraria um monte de adolescentes c/ sede de rock... Mas parece que a juventude sertaneja está mais interessada em assistir Calcinha Preta e Aviões do Forró nas vaquejadas. Questão de identificação ou cultura de massa? “O sertão é impregnado dessa música, a prefeitura disponibiliza não-sei-quantos mil reais para forró eletrônico”, protesta o Padre Márcio, entusiasta do festival.
Digamos que alguém dentro da máquina do estado tenha sensibilidade e reconheça a legitimidade do trabalho dessa galera e resolva investir – eu acho ótimo”, blogou Adelvan: “Ano passado o governo saiu fora, mas o festival, veja só, aconteceu. Este ano o estado voltou a dar suporte, mas eu não tenho dúvidas de que ele iria acontecer de novo, de qualquer jeito – sem a menor visibilidade, mas aconteceria.
Na matéria ‘Dá-lhe Rock no Sertão’, Aline aponta alguns fatos que confirmam a relevância de uma festa dessa p/ a economia local. “Em maio, durante o festival, algumas lojas de roupa preenchem suas vitrines de preto e, nas viagens de compra à São Paulo, garantem o All Star do pessoal do rock. Passaram a falar a mesma língua e apoiar o evento – tanto o ambulante que vende cachorro-quente quanto o vendedor de bebidas na Praça Antônio Alves de Oliveira, ou o proprietário de estabelecimentos comerciais.
Rock'n'roll também faz parte da indústria cultural. Importada, ainda por cima. Talvez eles não precisem mesmo desse barato. Roberto Chagas, da Livraria Nordeste, resume em poucas palavras o que o Rock Sertão representa p/ o cidadão comum gloriense: “Independente de gosto, acho importante porque culturalmente diversifica os conceitos do pessoal que só gosta de forró. Não gosto de rock, go$to do$ efeito$.
AGRADECIMENTOS: ALINE BRAGA [CINFORM], RIAN SANTOS [JORNAL DO DIA] E ADELVAN BARBOSA [PROGRAMA DE ROCK]
FOTOS: SNAPIC + MARCELINHO HORA

terça-feira, maio 18, 2010

TIJUANA BIBLES Esta é a gênese dos céus e da terra quando foram criados”, reza a Bíblia em seu livro inaugural, o Gênesis, que conta a história da criação do universo, do mundo e da humanidade. No versículo 7 do capítulo 2, Moisés escreveu: “Então, formou o Senhor Deus ao homem do pó da terra e lhe sobrou nas narinas o fôlego da vida, e o homem passou a ser alma vivente.” Sabemos no que deu essa história: Deus arrumou uma companheira pro 1º homem, ela foi na conversa da cobra, comeu a maçã da árvore do paraíso, ofereceu ao namorado, ambos conheceram o bem e o mal, caíram em desgraça, foram expulsos, tiveram filhos, e aqui estamos nós.

Adão, o personagem bíblico, é um ícone religioso p/ cristãos, judeus e muçulmanos. Adão Iturrusgarai, o cartunista, é um piadista que não respeita credo, classe social ou opção sexual. Suas histórias estão mais p/ as “Tijuana Bibles” – quadrinhos safados c/ temáticas infantis [como sátiras a Mickey, Popeye e Betty Boop] publicados nos EUA nos anos 40/50 – do que p/ a Bíblia que inspirou seu nome de batismo. Não é à toa que esse tipo de gibi era chamado de “catecismo” no Brasil. Sexo & religião andam de mãos dadas, que o digam os padres pedófilos da Igreja Católica...

Só moleque doente não gosta de pornografia, de filmes e de revista de mulher pelada”, disse Adão à EleEla, revista da qual foi colunista por um ano, “[...] o Brasil é foda, o último bastião da sacanagem. Sexo e relacionamento são os temas principais do meu trabalho mesmo. Muito porque é o que fica na minha cabeça. Vivo muito em função dessas coisas: putaria, mulher, cerveja...

Nascido em Cachoeiro do Sul [RS] em 1965, Iturrusgarai já começou a carreira envolvido em polêmica, quando publicou a revista Dundum no início dos anos 90 em Porto Alegre: “Era a primeira administração do PT na cidade e os vereadores da oposição quiseram usar isso como forma de enfraquecer a prefeitura, porque tinha verba municipal na revista. Eu lembro deles falando que a prefeitura estava estimulando a zoofilia, uma baboseira sem tamanho. Mas vira e mexe tem alguém reclamando dos meus quadrinhos. Principalmente a igreja e alguns setores mais conservadores da sociedade.

De saco cheio, mudou-se p/ a França, onde passou 2 anos – período que inspiraria as tiras autobiográficas La Vie En Rose. Em 94, retorna ao Brasil e é convidado a ser o ‘4º amigo’ dos Los 3 Amigos, HQ do trio Angeli, Laerte e Glauco – trinca de ases do cartum underground dos anos 80. No mesmo ano, publica a revista Big Bang Bang, c/ personagens como a Família Bíceps [antes do Massaranduba do Casseta & Planeta] e Rocky & Hudson, casal de cowboys gays [bem antes de O Segredo de Brokeback Mountain]. “As tiras de Rocky e Hudson nasceram quando começou a história da AIDS. Eu sou um especialista em piada de cu. Deve ser meu lado de viado.

Apesar de gaúcho, ele gosta mesmo é de mulher. “Já morei junto com duas namoradas, uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro. Na verdade, eu me mudei pro Rio por causa de mulher, assim como eu tô me mudando pra Argentina. Sempre vou por causa das mulheres”, falou em 2007. “Você vai na Europa e não come mulher não, nem na Argentina, é dose. Na África deve rolar de comer mulher, mas igual ao Brasil é difícil. Não é à toa que eu fiz muita merda por aqui. Quer dizer, não dei o rabo e essas coisas, mas aprontei...

Casado e pai de 2 filhos [Olívia, 2 anos, e Camilo, 7 meses], Adão vive na Patagônia e aguarda a 2ª temporada de ALINE, a série de TV baseada nas tiras da personagem criada por ele – uma ninfomaníaca que vive c/ 2 namorados e vira monstro quando está na TPM. “Eu achei que um triângulo amoroso daria muito pano pra manga de piadas. Coloquei uma mulher no meio da coisa toda e deu certo, porque falta mulher nos quadrinhos brasileiros. Depois da morte da Rê Bordosa então, a coisa ficou escassa. Daí eu pensei, por que não uma menina? Eu tive a idéia depois de um porre em São Paulo.

Seus cartuns já foram publicados nas revistas Bundas, Capricho, Caros Amigos, Chiclete com Banana, Chacal Puant, Flag, General, Tarja Preta, Veja, Vírus, no Jornal do Brasil e Correio da Manhã em Portugal. Fez parte do time de roteiristas da TV ColOsso e teve algumas de suas tiras transformadas em desenho animado pelo Casseta & Planeta. Seus desenhos já viraram até sandálias Havaianas [série Cartunistas]. Atualmente é fixo da Folha de S.Paulo, do jornal O Liberal e da revista Fierro, na Argentina, e teve as tiras Pecados, Penitências e Análise compiladas em livrocom prefácio do meu psicanalista”.

A edição de maio da revista SuperInteressante traz 3 capas destacáveis c/ os temas 'AMOR', 'ROTINA' e 'FIM'. No verso de cada uma, quadrinhos mostrando um pobre-coitado que passa pelas maiores agruras p/ se declarar à sua amada, como levar mordida de cachorro e acabar num hospital. Na real, uma propaganda do perfume Humor! da Natura. Mas também uma prova de que Adão no fundo é um romântico – desde que lhe paguem...

Viva La Brasa - Você me falou que tava aprendendo a pegar onda de pranchão, quando morava no Rio de Janeiro... E aí, surfista, abandonou o esporte?!..

Adão Iturrusgarai - Cara, eu tô morando na Patagônia. E pegar onda aqui é coisa de macho. Aliás, coisa de BEM macho. Como eu sou mais ou menos macho, passo. Mar a 10º não dá pra encarar. No verão tentei pegar umas ondas, água a 18º, mas desisti.

VLB - Vc mora há quanto tempo na Argentina? Como é a vida na Patagônia? Um amigo esteve em Buenos Aires e Mar Del Plata, vi as fotos e fiquei c/ a impressão de ser o lugar mais ‘europeu’ da América... Mas por outro lado a economia tá fudida há quase 10 anos... Já que vc ganha em real, deve viver bem por aí...

AI - Buenos Aires tem várias caras. Mas a mais evidente é a européia. Tem bairros que são iguaizinhos a Paris. Mesmo com uma economia fraca e instável há decadas, isso ainda se preserva. Mas já se vê muitos sinais de terceiro mundo, como: violência, grades, sujeira. Atualmente tudo está pela metade aqui. Então sugiro para todos os brasileiros mudarem para a Argentina.

VLB - Como é publicar na Fierro, a maior revista em quadrinhos sulamericana?

AI - Eu e meus colegas disputávamos a tapa exemplares da Fierro. Nunca imaginei que viesse a publicar na revista. Ela mudou muito mas mantém um excelente time de desenhistas. É ótimo estatr acompanhado desse pessoal. Uma pena que eu tenha pouco tempo para produzir HQs longas. Não esqueça que faço uma tira diária...

VLB - Eu sabia que a Mafalda e a Maitena eram argentinas, mas comecei a prestar atenção mesmo nos quadrinhos daí depois de ler aquela HQ do Che roteirizada pelo Hector Oesterheld e desenhada por Alberto e Enrique Breccia, pai e filho...

AI - Você tem que ler o livro do jornalista Paulo Ramos. Ele está lançando agora. O Liniers fez a capa e eu prefaciei. Se chama Bienvenido - Um Passeio pelos Quadrinhos Argentinos.

VLB - O Oesterheld foi assassinado pela ditadura nos anos 70, junto c/ as filhas... Dos Perón aos Kischner, a política argentina é uma coisa bizarra, ahn? Os políticos parecem ser ainda piores que os do Brasil, se é que isso é possível...

AI - Sim. Inacreditavelmente isso é possível. A política Argentina é mais complicada que a brasileira. E o pior é que eles não tem oposição. E é triste ver que muitas passeatas que eles fazem aqui são encomendadas por gente podre.

VLB - Seus quadrinhos são basicamente sobre sexo & comportamento. No Brasil funciona – brasileiro se amarra em sacanagem – mas e na Argentina?

AI - Minha entrada no quadrinho argentino é bastante tímida. Por enquanto só publico na revista Fierro. Então não dá pra sacar muito o impacto do meu trabalho aqui. Pretendo fazer mais, mas por enquanto estou ocupado cuidando de meus dois filhos.

VLB - Que tal las chicas portenhas?

AI - Esqueça as portenhas. Fique com as brasileiras. Elas são bem complicadas. Como a política. Leia os livros da Maitena e tende entendê-las. A exceção é Laura, minha mulher, que é perfeita.

VLB - Não é a primeira vez que vc vive no exterior. Quando era jovem vc foi morar na França, período que inspirou a série "La Vie En Rose", das tirinhas existencialistas...

AI - Depois de tantas idas e vindas me dei conta que sou um aventureiro. Não tenho vontade de ir morar no Brasil, apesar de morrer de saudades dos amigos. É bem provável que em breve eu vá mudar para outro país mas não vai ser o Brasil. O Brasil é muito selvagem. Eu morava no Rio de Janeiro, que é mais selvagem ainda. Quero um pouco de tranquilidade. Estou casado e com dois filhos, não quero distrações.

VLB - Outra autobiográfica era aquela "Momentos Rídiculos da Minha Vida Imbecil", ou algo do tipo... Hahah, essa era campeã! Você chegou mesmo a fazer aulas de teatro e teve um professor que queria que vc beijasse outro homem num exercício?

AI - Sim, eu fiz essas aulas. Mas não lembro se acabei beijando o cara. No máximo um selinho sem saliva.VLB - Por falar nisso, homossexualismo é um tema que sempre esteve presente em seus quadrinhos... Seus primeiros personagens que emplacaram foram Rocky & Hudson, os cowboys gays... Você é gaúcho... Esses aí tinham algo de autobiográfico tb?

AI - Perguntinha capciosa a sua, hein? Eu sempre desconfiei muito daqueles gaúchos machos. Daquele excesso de macheza dos tomadores de chimarrão. A idéia dos caubóis surgiu pra tirar um sarro do gaúcho tradicionalista. E a primeira idéia era que fossem gaúchos mesmo. Mas, para não ser muito regional, resolvi criar dois caubóis. E foi na época que morreu o ator Rock Hudson. Aquele que fazia papel de macho em Hollywood. Mas, de macho, só tinha o chapéu. Mas que fique bem claro que adoro os gays. E odeio homofobia. Rocky e Hudson sempre teve uma aceitação no mundo gay e eu sempre gostei disso. Tirar um sarro, mas com elegância.

VLB - Quando ainda morava no Rio Grande do Sul você publicou 2 gibis que se tornaram referência dos quadrinhos brasileiros: Dundum e Big Bang Bang... Essas revistas ganharam prêmios? Venderam muito ou pouco? Tem vontade de lançar um novo título?

AI - A Dundum, por causa da polêmica vendeu bastante. Claro que não chegou a ser um Harry Potter ou Paulo Coelho. Mas deve ter vendido uns 3 mil exemplares. Para um fanzine, está de bom tamanho. A Big Bang Bang devia vender uns 7 mil. Mas era uma revista distribuida em SP, com editora e tal. Mas não se sustentou. Muito trabalho para pouca grana. Acho linda a idéia de lançar um novo título, mas é difícil pensar nisso tendo que produzir uma tira todos os dias. A tira te consome uns 30% do teu tempo diário. O ideal seria juntar um grupo e fazer algo. Nos últimos 15 anos tivemos várias idéias mas nenhuma foi pra frente. Com Laerte, Angeli, Caco Galhardo, Allan Sieber... conversamos muito, mas ficou na conversa.

VLB - Você acha que seu traço foi influenciado por quais autores? Às vezes me lembra o Ota, da Mad – sem querer ofender...

AI - É uma honra ser comparado ao Ota. Sou fã do trabalho dele e somos grandes amigos. Afastados, mas sempre amigos. Tenho uma lista grande de influências. A mais importante delas é o Wolinski. Tem também o Henfil, Angeli, Glauco, Crumb (sempre ele), Vuillemin, Mattiolli, Popeye... putz, eu posso ficar o dia escrevendo sobre isso.

VLB - Em que pé está a série de TV da Aline?

AI - Vai para uma segunda temporada. Parece que vão produzir mais 7 episódios.

VLB - Você acha que na adaptação rolou o velho erro de ‘miscasting’ e de ‘áçucar global’? A Maria Flor é uma gata mas a mina que faz a Kelly é que tinha a cara da Aline... Não assisti todos os episódios, mas desde o 1º, não vi a personagem vestir sua minissaia de caveira, o cabelo era diferente... Um dos namorados era muito manjado de novelas [e além disso muito ‘galã’], e que papo é aquele de "nós só queremos é que todo mundo seja feliz"?!..

AI - Obviamente, se eu pudesse meter o bedelho, muita coisa ia sair diferente. Mas assinei um contrato que me impedia dar opiniões e tal. Eu cheguei a fazer várias exigências: casting, roupa e tal... mas negociar com a Globo é bastante complicado. O máximo que minha advogada (nem pense em não ter uma nesses casos) conseguiu é mudar uma cláusula aqui, outra ali, subir um pouco a grana e blá blá blá. Eu considero que a Aline da Globo é uma adaptação do meu texto. Eu digo do meu texto, por que visualmente não transparece isso. Quase como se fosse uma adaptação de um livro, de um romance. A minissaia de caveira aparece algumas vezes, mas os personagens são tão diferentes. Cá entre nós, no especial de fim de ano estão todas as minhas piadas ali. Isso foi bem bacana. O especial tava bem parecido, até por que, as primeiras tiras da Aline são bem ingênuas, bobinhas. Mas acho interessante que mais gente conheça o meu trabalho e compre meus livros e compre dos colegas, etc.

VLB - Nos anos 90 vc trabalhou como roteirista da TV ColOsso, que era um programa muito legal. Hoje nem o desenho do Bob Esponja consegue salvar a programação infantil da Globo... Você já viu a TV Globinho? Que tipo de idiota escreve aqueles roteiros?!..

AI - Nunca assisti TV Globinho. Tenho mais o que fazer pela manhã. Responder esta entrevista, por exemplo. TV ColOsso era muito legal. Bom, pelo menos era legal de escrever. Mas só pelo fato de ter quebrado a hegemonia da Xuxa, já é de bom tamanho. Acho que TV ColOsso foi a última coisa politicamente incorreta escrita para crianças, infelizmente. O Laerte costumava dizer uma coisa muito legal sobre o tema: -Quando escrevemos para o programa não pensamos em crianças!

VLB - Os 90 também foram o auge e o começo-do-fim da imprensa independente, c/ os zines [eu mesmo fazia um, o Cabrunco] e revistas como General e Vírus, das quais vc participou. Hoje o underground migrou pra internet...

AI - Fazer revista em papel sempre foi um negócio caro e de bravos corajosos desmiolados. A internet tornou possível e gratuita a publicação. Antes você tinha que vender uma linha telefônica pra imprimir uma revista. "Vender uma linha telefônica" é bem coisa de velho.Tem uma lista enorme de desenhistas novos que estão fazendo fama na internet.

VLB - Recentemente o Casseta & Planeta animou uns quadrinhos seus. Vc participou do processo? O que achou do resultado? Já pensou em lançar uma série em animação?

AI - Não participei de nada. Só vendi o direito de veiculação de determinadas tiras que eles escolheram. Eu não vi o resultado. Assino a Globo Internacional aqui mas vejo muito pouco TV. Não pensei em série de animação. O dia que me proporem algo, vou pensar.

VLB - Outro cartunista gaúcho peso-pesado é o nosso chapa Allan Sieber. Vocês já trabalharam juntos nas tirinhas dos Irmãos Brothers [hahahah, belo nome]... Ele tem uma produtora de animação, a Toscographics. Por que nunca fizeram um curta juntos, ou um piloto p/ a TV, ou algo do tipo?

AI - Esse título ‘Irmãos Brothers’ nós roubamos de uma banda gaúcha. Sim, não temos nenhum escrúpulo. Eu vi o Allan crescer. Peguei ele no colo, troquei suas fraldas. Cara, ele é um dos melhores atualmente. Babo pelo Allan. Seu desenho impressiona a cada dia, morro de inveja. Seu único defeito é continuar se desenhando magro e com cabelos nas tiras. De resto, é um gênio.

VLB - Você foi um ‘Dartagnan’ do Los 3 Amigos, o grupo formado por Angeli, Laerte e Glauco – o 4º mosqueteiro [ou mariachi, no caso]. Como foi a experiência de trabalhar c/ esses caras, heróis de todos nós?

AI - Cara, Laerte e Angeli são grandes amigos. São caras que eu admiro muito e tive a sorte de conhecer e trabalhar junto. Aprendi muito com eles. Mas o mais importante é que são grandes amigos. Nos encontrávamos uma vez por semana e o esporte era tirar um sarro de um dos quatro. O Glauco era campeão nisso. Teve uma reunião que não largou do meu pé o tempo inteiro. E você não parava de rir. E desenhávamos e depois íamos tomar um café por perto. Um café somente por que eles não estavam mais na balada.

VLB - Uma pergunta chata: faz bem pouco tempo da morte do Glauco e do filho dele... A mídia diz que o uso do Daime desencadeou o surto psicótico que levou o maluquinho lá a matá-lo... Qual sua opinião sobre isso?

AI - Eu não posso afirmar isso ou aquilo por que não tenho muito conhecimento sobre a coisa. O que sei é que algumas substâncias não são recomendadas para algumas pessoas com "problemitas". Mas se não fosse o Daime, seria o LSD, seria a maconha. Enfim... o Glauco estava no lugar errado, na hora errada. Triste.

VLB - Durante um tempo vc publicou na EleEla e ao ser entrevistado pela revista [uma das minhas preferidas por sinal], disse que, sempre que troca de cidade ou país, vai atrás de uma mulher... Já se deu mal alguma vez? Tipo aquela HQ do Fábio Zimbres, "O Pato em Marte"...

AI - Sempre me dou mal, rsrs. Mas agora até que estou me dando bem. Tenho uma mulher muito bacana e dois filhinhos lindos. Estou mais maduro e isso faz uma diferença. Recém deixei de ser adolescente.

VLB - Pra qual lugar não se mudaria de jeito nenhum?

AI - Pra algum lugar que eu já morei.

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