terça-feira, junho 29, 2010

CARA-DE-SAPO ARACAJU FAMILY - PARTE 2
Nos anos 90, todo skatista sergipano tinha um apelido compulsório: Mosquito, Detefon, ET, Cegão, Chinês, Badá, Rato, Galinha, Pato Rouco, Nego John... Mais pelos olhos grandes do que pelos saltos acrobáticos, Fabrízio Hora Santos ganhou a alcunha de ‘Cara-de-Sapo’. A molecada não perdoava.

Vindo de Riachuelo, uma pequena cidade do interior, Fabrízio só conheceu o skate aos 13 anos. Começou a competir aos 14, e logo dominou os campeonatos de Aracaju nas categorias iniciante e amador. Aos 15, 1ª vitória fora do estado – uma etapa do circuito baiano em Salvador, que lhe valeu o patrocínio da Jan Skates.

Em 1998, vence a etapa de Curitiba [PR] do circuito brasileiro PRO, batendo na final o herói local Rodil Ferrugem, bicampeão mundial de street. O patrocinador do evento, Drop Dead, passa a investir no paraibinha de dreads. Em 99, compete pela 1º vez nas etapas do tour na Europa. Em 2000, prêmio Best Trick no evento da Swatch, na Suíça.

Dono de um estilo que alia leveza, velocidade e agressividade, Cara-de-Sapo mora nos EUA desde 2001. Lá, firmou seu nome junto à Aracaju Family e ganhou um novo apelido: “THE BREEZE”, trocadilho entre Fabrízio e a palavra ‘brisa’ em inglês. Conhecido por aproveitar bem toda a extensão das pistas em que se apresenta, foi homenageado batizando a maior do nordeste, Cara-de-Sapo Skate Park, na orla de Atalaia [SE], c/ 27 obstáculos ao longo de 4000m².

Dos skatistas profissionais de Sergipe radicados na Califórnia, é o único que continua ativo nas competições. Em 2007 teve seu melhor desempenho no Dew Tour, válido como circuito americano: 3º lugar no Vans Invitational e 6º no ranking final. Ano passado fez a final da 2ª etapa, em Portland, e foi vicecampeão dos X-Games asiáticos, realizados na Tailândia.

No Brasil é difícil viver do skate, é um esporte discriminado por muita gente, com algumas exceções”, disse ao blog A Voz do Imigrante: “Nos EUA, os patrocinadores valorizam o esporte e promovem espetáculos em estádios, além de pagarem bons salários e viagens para seus competidores. C/ passagem pelas equipes.” C/ passagem pelas equipes Etnies e OakleyFabrízio Santos é um atleta dedicado: não bebe, não fuma, não cheira.

People are always like: ‘You want some weed?’. And I’m like: ‘No man’. And then at the contests they are like: ‘You want some coke?’. I always have to turn them down”, falou à revista SLUG. “At the bar they are like: ‘You want a beer?’. ‘No, I don’t do that!’ They say: ‘Really? You lie for me! Stop lying, man!’...

Em agosto, ‘The Northern Breeze’ foi entrevistado pelo site europeu KINGPIN. Contou sobre sua recém-criada marca de shapes, e como foi parar numa festa do rapper Snoop Dogg. Traduzi o material, mas deixei alguns trechos no original. O skate é uma língua universal.
Kingpin - Você vai muito ao Brasil?
Fabrízio - Sim, uma vez por ano, normalmente.

K - Mas agora vc vive em Orange County, certo?
F - Yeah. Eu vivo com minha esposa e duas filhas em Costa Mesa.

K - Como é ‘um dia na vida’ p/ vc?
F - Todo dia eu acordo lá pelas 9h, levo as crianças pra escola. Dou um tempo e vou andar de skate a partir das 3h da tarde.

K - So it’s mellow days then!
F - Yeah, mellow days! [risos]

K - Quais são suas inspirações quando vc tá em casa, ou colocando de outro modo, what hypes you up on a day-to-day basis?
F - Minha família, Deus, todos os meus amigos and all the young kids that are new with skating and always super hyped.

K - E quais as maiores diferenças entre os dias tranqüilos de skate no Brasil e na América?
F - Pra mim, no Brasil eu andava de skate por amor... in America is pretty much business.

K - Você fica mais por cima do que acontece estando aqui, né?
F - Exato.  No Brasil eu simplesmente amava andar de skate, na América eu sou tipo um ‘homem de negócios’.

K - Who’s your favourite brazilian skateboarder at the moment?
F - Luan de Oliveira. He’s a new FLIP AM. Esse moleque é incrível, just amazing. Ele tem 17 e venceu o último Goofy vs. Regular.

K - Se vc tivesse que escolher 3 skatistas brasileiros p/ competir nas Olimpíadas? If it actually fucking happens, that is?
F - Luan de Oliveira, of course, Fábio Cristiano and César Gordo.

K - Que vídeos te inspiram no momento?
F - Cara, boa pergunta. Eu diria os velhos vídeos da Plan B. [risos]

K - Nenhum vídeo novo?
F - Na verdade, sim – 'Our Life' da Oakley! É legal ver todo mundo andando junto.

K - Pra onde a ‘nação skate’ te levou que te fez pensar: ‘fucking hell WOW I can’t believe I’m here, this place is amazing’?
F - Ha, China com certeza. Shangai is amazing, just amazing. Tudo é tipo de mármore e vc pode andar de skate em qualquer lugar, eu passei umas 3 semanas lá numa trip.

K - Qual seu país preferido na Europa p/ andar de skate?
F - Espanha é meu lugar favorito na Europa pro skate, oh yeah and Lyon [França]. Lyon pra mim é a melhor cidade p/ andar.

K - Ok então, posso te fazer umas perguntas baseadas em alguns rumores de L.A.?
F - Shoot.

K - Primeiro, eu soube que vc criou uma marca de shapes. O que te levou a isso?
F - Yeah I did. It’s called FOREST. No momento, eu tô juntando o time. Eu sempre quis começar uma marca de shape, porque eu quero estar envolvido c/ skate pra sempre. Eu só não tinha o tempo e os fundos p/ fazer isso antes.

K - Tá sendo difícil montar um time?
F - É bem difícil montar um time! Logo que vc começa ninguém bota fé, porque já existem tantas companhias por aí. So it was kinda hard to pick it up, but now it’s cool.

K - Dos 'crentes' em sua marca, quantos estão correndo por ela?
F - Eu, Andrew Soptich, Jason Jones, Amy Caron.

K - O outro rumor que eu ouvi é que vc tem curtido umas baladas c/ o Snoop Dogg?
F - Actually it’s true. [risos] Mas foi, tipo, há uns 3 anos... eu conheço esse cara que é amigo do dono da Oakley, aí ele, tipo: ‘Hey, I’m going to see Snoop Dogg – wanna come?’, e eu tipo ‘yeah, ok’ – sem acreditar nele. Daí, lá estou eu na casa do Snoop Dogg curtindo por duas horas. He had, like, a LOT of people around him.

K - Like a Long Beach gangster entourage?
F - Yeah!

K - Wowzers! That ties up a few loose ends. Dá pra finalizar c/ a velha lista de patrocinadores?
F - Yeah sure. Eu ando p/ Forest skateboards, Icon boardshop, Destructo, e Bones.

K - Últimas palavras?
F - Eu quero agradecer a Deus por me deixar viver na América andando de skate. Também agradeço a minha família, minhas filhas e meus amigos.

K - Living the dream, right?
F - Exato, mantendo o sonho vivo.

THE BREEZE - 2009 HIGHLITGHS
 
VICE-CAMPEÃO DO ASIAN X-GAMES, TAILÂNDIA
DISPUTANDO AS FINAIS DO DEW TOUR EM PORTLAND, EUA
 

imagens: Claudionor / Detefon / Fábio Galinha / Gilmar Giba's Dog
agradecimentos: Aperipê TV / 411 Video Magazine

sexta-feira, junho 25, 2010

MOSQUITO ARACAJU FAMILY - PARTE 1
A mulato/ an albino/ a mosquito/ my libido/ yeah!..
Em 1991, enquanto o Nirvana estourava nas paradas de sucesso c/ Smells Like Teen Spirit, um adolescente de Aracaju [SE] começava a alçar vôo em cima do skate: Lúcio Flávio Andrade Santos, o Mosquito.
Primeiro atleta da região a se destacar nacionalmente, desde cedo contou c/ o apoio dos pais. Ao perceberem o dom [sobre]natural do filho, seu Laerte e dona Enalva montaram a Underground, uma loja c/ uma pista, p/ que evoluísse mais rápido. “Foi o primeiro skatista que vi acertar um nollie heel flip nose slide em 1993”, testemunha Sérgio Guerra, proprietário da Venice Skateshop.
Mosquito começou cedo e marcou época. Alexandre Macarrão, um de seus companheiros de session no início da carreira, lembra: “Como esquecer daquela mini-ramp, foi o único point de Aracaju, no início dos anos 90, em que a evolução era realmente possível. Já dava pra ver que o talento dele era diferenciado. Misturava velocidade e técnica como poucos!
Profissionalizou-se em 94, ano da morte do Kurt Cobain. Vicecampeão brasileiro logo em sua temporada de estréia, repetiu a dose em 96 e passou o resto da década entre os Top 10. Desenvolveu modelos de shapes, tênis e camisas p/ as marcas Formula e PTS. E liderou o ataque sergipano aos circuitos brasileiro e mundial, compondo a ARACAJU FAMILY c/ os parceiros Adelmo Jr. e Fabrízio Santos.
Radicado há quase 10 anos na Califórnia, onde vive c/ a esposa Marina e o filho Mateus – um cidadão norte-americano de 2 anos de idade – Lúcio Santos, como é conhecido nos EUA, anda meio sumido de cena. Mas o natalense Paulo Costa resgatou sua história no blog Veteran Skate, c/ a entrevista que reproduzo a seguir.
I’m worse at what I do best/ and for this gift I feel blessed/ Our little group has always been/ and always will until the end”, cantava Cobain...
Veteran Skate - E aí, Lúcio Flávio, como foi que tudo começou no skate?
Mosquito - Eu e meu irmão Laerte surfávamos e tinha um cara da nossa rua que começou a andar de skate, aí montamos um com patins e o resto que sobrou do dele. Era feito com uma madeira que cortamos no serrote mesmo... (rs)
VS - Qual a origem do apelido?
M - Esse mesmo amigo, Ricardo, me chamava de ‘Mosquito’ porque quando íamos surfar eu era o menor da turma. Nem conseguia levar minha prancha. Ele que levava p/ mim.
VS - Quais skatistas te influenciaram no início e no decorrer da sua carreira?
M - No começo de carreira foi o Renato Cupim, Rui Muleque, Alexandre Ribeiro, Frankie Hill e Matt Hensley. Depois foram o Tarobinha, Chupeta, Kris Markovich, Mike Carroll, Eric Koston, Pat Duffy, Rick Howard, Danny Way, Colin Mckay (eu também dava uns rolês no half… rs). No geral todo o time da Plan B original, mas a minha maior influência de todos era o Hensley mesmo.
VS - Seus pais sempre te apoiaram, não? Lembro deles sempre com você nos eventos aqui em Natal, João Pessoa...
M - Sim. Meu pai queria que eu fosse jogador porque ele tinha um time de futebol de salão. Quando começamos a surfar ele não gostou nem um pouquinho da idéia. Minha mãe comprou pranchas de isopor p/ gente escondido, aí um dia quando meu pai foi na praia ele me viu de pé descendo uma onda boa numa prancha de isopor (tinha cordinha de varal e passava até parafina… rs). No outro dia ele foi com a gente numa fábrica de pranchas e comprou duas pranchas. Eu fiquei na pilha do surf, meu pai levando na praia de manhã e pegando à noite até uns 12 anos de idade, quando comecei a andar de skate. Comecei em março de 1988 e em outubro rolou o primeiro campeonato. Fiquei em 1º no iniciante e 3º no amador (na época podia competir em 2 categorias). A partir daí meus pais montaram loja de skate, me apoiaram me levando em todos os eventos ao redor do nordeste e mandaram eu e meu irmão p/ SP passar temporadas e competir. Eles foram essenciais na minha carreira!!!
VS - E a idéia da loja com área de skate?
M - Começou da idéia de transformar a boutique de minha mãe numa loja de skate, já que em Aracaju não existia uma skateshop no final de 1988. Já a pista veio quando eu já tinha recebido umas propostas de passar p/ PRO dumas marcas do sul, mas eu era muito novo e meus pais seguraram até eu ter uma idade e estudo melhor p/ tomar uma decisão, afinal de contas afeta muito os estudos. O projeto da pista era uma área p/ eu treinar mesmo, já que na época não tinha skatepark em Aracaju, só half público (tinha uns 2). O Renato Cupim veio p/ dar uma demo em Aracaju (fomos em Natal também) e começamos a escolher o local e alugamos uma casa. O Cupim projetou tudo, mas nunca chegou a andar lá. Foi embora quando estava quase pronto. Até hoje ele lamenta isso… rs.
VS - Você sempre esteve nos eventos pelo Nordeste, nas primeiras colocações, ganhou vários...
M - Lembro que na primeira vez que fui num campeonato fora do estado eu nem sabia o nível dos caras. Fui p/ Salvador e já ouvia falar de John-John, André Lagartixa, Fred Diabo Louro… eu pensava: ‘vou lá e ver se dá p/ ir na final pelo menos’... ganhei! Nesse mesmo ano fui campeão baiano, sergipano e nordestino… Comecei a competir em todo lugar do nordeste... Lembro alguns que perdi, uns 2 ou 3 durante 6 anos como amador. Fui 5X campeão nordestino amador. Em 1994 corri as 3 primeiras etapas e ganhei as 3, e já era campeão de novo, aí o Tarobinha falou: ‘E aí? Vai ficar querendo ganhar só aqui no nordeste até quando?’ Foi aí que me liguei que tinha chegado a hora, e passei p/ PRO no meio de 1994.
VS - Quais skatistas te impressionavam e quem foi um páreo duro na época?
M - No nordeste só tinham 2 caras que realmente eu gostava de ver andar: John-John de Salvador e Glauco de Aracaju. Eles eram muito bons mesmo, mas não sabiam competir muito.
VS – No período em que tínhamos um circuito estadual em Natal, você sempre aparecia com Adelmo Jr. (na época Juninho ET), Cara-de-Sapo também veio e mais uma galera. Que lembranças você tem desta época?
M - Na época eu patrocinava o Juninho (fui o visionário a ver que ele tinha futuro... rs) e Cara-de-Sapo era da Venice, ia com Sérgio Guerra. Era legal que o pessoal de Aracaju sempre ia nos eventos pelo nordeste. Lembro que tinha uns caras bons em Natal... O Tiburcinho tinha muito estilo, apesar das caneleiras que ele usava… (rs) Tinha o Gia de Campina Grande, o Ferbson e o Tomazone de João Pessoa… o Charles de Natal foi um dos caras que mais andava… streeteiro puro! Lembrava o Mike Carroll.
VS - E a passagem pra categoria profissional? Como foi a chegada lá em SP? Pois até então, aqui no nordeste, só Marcelo Agra (skatista pernambucano dos anos 80) tinha chegado à categoria...
M - Eu já tinha ido a SP correr de amador, mas nunca deu certo porque tinha muita ‘panela’. Eu acertava as minhas linhas inteiras e não passava. Certos amadores famosos da época erravam tudo e passavam… Isso era ruim e bom, porque foi daí que resolvi correr de PRO porque sabia que iam ser só uns 60 p/ ser julgados… prestariam mais atenção. No amador eram 200 a 300 pessoas competindo... os juízes nem olhavam os atletas andarem. Era uma palhaçada! Então, o Marcelo Agra tinha passado p/ PRO, mas não era muito conhecido porque não chegou a competir. Naquela época p/ ser PRO tinha de competir, ainda bem que isso mudou no Brasil. Quando passei p/ PRO já competi na minha primeira semana e fiquei em 2º lugar na eliminatória e 4º na final. Daí fui p/ Europa na outra semana, foi tudo muito rápido! Europa não estava programada. Era só p/ correr em Curitiba mesmo, daí com o resultado de quarto lugar, meu pai se empolgou e comprou a passagem p/ o mundial, que ia ser na outra semana.
VS - E ainda rolou um flipão descendo a escadaria na Alemanha... Falaí.
M - Hoje em dia pode parecer até banal falar disso, mas lembro que no campeonato os gringos só andavam na escada nos treinos, para filmar. Dei um flip na volta, o que foi meu passaporte p/ a final, já que só saía ollie na hora da volta e olhe lá. (rs)
VS - Na época que você passou morando em SP foi um período de baixa do skate... Como foi aquela fase?
M - Na realidade não. O período de baixa no skate foi quando minha pista tinha mais ou menos 1 ano… fim de 91. Lembro que por um ano mais ou menos só andava eu, Vavinho, Venturinha e Juninho, o resto todo mundo parou de andar nessa época. Foi a baixa do skate, mas foi bom. Foi à época que mais evoluímos e aprendemos andar de mini-rampa de verdade.
VS - Lúcio Ceguinho disse que em 1997 morou um tempo com você na Formula, que era bem difícil se manter... Você foi tutor do Ceguinho lá?(rs)
M - Quando o Ceguinho chegou lá eu já era meio que macaco velho no esquema de ser PRO. Eu já sabia andar em SP p/ todo lugar. Íamos andar sempre na pista de São Caetano do Sul. Eu sempre ligava p/ os fotógrafos e agilizava alguém p/ filmar nossas sessões. Ele poderia ter se dado muito bem se não tivesse voltado p/ o nordeste. A gente andava pela Formula e morávamos c/ eles sem ter de pagar aluguel, o que já era um grande adianto porque em SP tudo é muito caro, especialmente aluguel. Eu não sabia se era difícil p/ ele porque nunca soube quanto ele ganhava, mas p/ mim foi a época que eu mais ganhei $$$. Meus modelos de shape, tênis e camisetas vendiam muito e eu sempre estava nas cabeças nos campeonatos. A melhor parceria na minha carreira foi a Formula! Eles são como família p/ mim até hoje... Devo muito a eles por tudo que fizeram por mim!!!
VS - E o desempenho nas competições aqui no Brasil? Fala um pouco.
M - Na época, salário de profissional de skate, mais de 50% vinha de competições… no meu caso mais do que 80%! Se você não se dava bem em campeonatos, você pagava p/ andar de skate porque os patrocinadores não davam valor p/ o atleta que não fizesse final... Os Top 10 viviam do skate e os outros PROs ‘sofriam’ do skate, mas ainda bem que tudo isso mudou, porque na realidade o trabalho de fotos e vídeo deve contar muito mais. Hoje em dia quase não está tendo competição profissional e olha o nível da geração nova, é impressionante!
VS - Como foi seu desempenho nos circuitos PRO aqui no Brasil?
M - Duas vezes vice-campeão brasileiro 1994 e 1996, 3° do ranking de 1995, 4° lugar do ranking 1997, 11° lugar do ranking de 1998, 4° Lugar no ranking de 1999.
VS - Você teve boas colocações nas competições, eventos de destaque como o X-Games, porém, ao contrário dos seus conterrâneos, deu uma sumida. O que houve?
M - Tive algumas boas colocações em triagens de X-Games… por politicagem nunca tive acesso aos X-Games em si. Fiquei em 23º em Tampa, mas os melhores resultados internacionais foram Canadá (20º lugar) e Europa mesmo (16º na Inglaterra e 23º na Alemanha em 1994, passei em 4º direto p/ final)... Desde a época que morei em SP comecei a viver uma vida muito da noite e atleta não pode ter esse ritmo! Quando vim p/ cá já não tinha mais o mesmo pique, virava muita noite na balada, bebia muito… Estava vivendo uma vida de rockstar: mulherada, festa, só não tinha droga, nunca gostei! Mas bebida, passei dos limites! Isso atrapalhou muito a minha carreira.
VS - Lógico que o skate é muito mais que competição, porém, você não acha que os skatistas perdem muito com a falta delas? Principalmente a categoria profissional?
M - Competições são sempre importantes em qualquer esporte. Lógico que no skate não seria diferente. É o que gera novos adeptos, atração da mídia, cria ídolos e retorno aos patrocínios. Não estou fazendo apologia à extinção de competições no skate, mas sim delas não serem o foco principal p/ o atleta. O skate é um esporte que não pára de evoluir nunca. Tanto em manobras, como em lifestyle ou moda. Quando as pessoas centram muito em competição, até atrasa a evolução delas. Eu mesmo evoluía bem mais na época que não tinha compromisso com competições, isto é, na época de amador. Como profissional eu estava tão focado em ‘não errar’ nas competições que eu vivia ‘treinando’ a mesma manobra sempre, e aí está o perigo: parar a evolução do atleta. No meu ponto de vista campeonato e títulos são apagados da memória em um curto espaço de tempo. Garanto que a maioria que ler esta entrevista nem sabe quem sou mais... (rs) Mas vídeos e revistas são eternos! O Matt Hensley pulando uma mesa de cabalerial em 1990 nunca vai ser esquecido, o fifty do Pat Duffy no corrimão de tranco no Plan B é eterno, o switch b/s 180 de Brian Wenning no Love Park, os corrimãos desafiados pelo Fábio Sleiman, Wolney e Biano também são exemplos. Cada revista, cada vídeo é guardado em sua coleção p/ sempre! Ou vai me dizer que você jogou as revistas e os vídeos fora?!? (rs) Você lembra cada parte de cada vídeo, está na sua memória. Quem ganhou o circuito brasileiro de 1991? Já não importa mais porque você nem lembra!!!!
VS - Quando veio a mudança pros EUA?
M - Em março de 2001.Tive a proposta de entrar na marca de tênis PTS e me chamaram p/ vir correr o Tampa Pro e morar aqui p/ fazer um trabalho com a marca. Vim e não voltei mais.
VS - Existe um vídeo com o pessoal da equipe em Aracaju. O que houve com a marca? O Kao Tai (skatista old school brasileiro há muitos anos nos EUA) era o manager, não?
M - Então, eu mudei pros EUA em março de 2001... adivinha o que aconteceu em setembro? World Trade Center!.. Um monte de marca cortou orçamento, deu uma zoada na economia. A PTS acabou naquela mesma época… começo de 2002. O Kao Tai continuou a trabalhar na Topwin (distribuidora dona da PTS) e não tivemos mais contato. Sei que ele anda de skate em tudo que é piscina na Califórnia. (rs) Mas ele foi uma das pessoas que me ajudaram muito aqui. Ele e o Edsinho da Connexion Wheels.
VS - Vc se adaptou bem aí?
M - No começo foi difícil, mas como em todo lugar, tem os seus prós e contras, e no final das contas, são muito mais prós do que contras viver aqui. (rs)
VS - Mesmo nesse período de crise?
M - Eu tinha comprado uma casa com o Edsinho aqui em 2005, perdemos a casa no final de 2007. Ganhava mais no meu emprego que eu tinha antes, etc. Mas, como falei, mesmo com a crise aqui ainda tem muitos pontos positivos como violência e criminalidade baixas, educação e muitas outras coisas. Gosto de poder planejar o que vou fazer, e os EUA são um país que te permite isso. A crise é difícil, mas vim de um país que vive em crise e ninguém reclama. No Brasil se tem cerveja,carnaval e futebol está tudo certo. Aqui, o diferente é que todo o mundo sabe que está em crise, porque é EUA e reflete no mundo inteiro. Mas brasileiro é guerreiro e por isso p/ mim não faz diferença!
VS - Você também é cristão. Como se deu esse encontro com Cristo?
M - Por isso vim parar nos USA! Era o plano Dele. Aqui encontrei pessoas que eram servos e que Deus usou pra me mostrar o caminho Dele. Comecei a andar c/ André Genovesi, que tinha se convertido há uns 3 anos e ele tinha um estudo bíblico, eu não sabia... Juninho ia também no estudo. Comecei a freqüentar e me converti, para glória de Deus, me batizei, e até hoje temos estudo bíblicos com a galera cristã aqui de brasileiros. Vou na Igreja, leio a palavra… Jesus mudou minha vida! Ele é tão misericordioso que mudou a vida dos meus melhores amigos (André Genovesi, Felipe Buchecha, Tarobinha, Simão, Fábio Anjinho, Rudá Lopes e Edsinho) e da minha namorada na época, que é mãe do meu filho hoje. E vai mudar a vida de minha família também porque está escrito: ‘Serás salvo tu e tua casa’ (Atos, 16.31).
VS - Existe uma quantidade de skatistas critãos aí, não? Muitos caras das antigas, como Cabalero, Eddie Reategui... Eddie Elguera é pastor...
M - Sim. Meus pais ficaram fascinados de ver quanto skatista famoso e cristão. Eu vou numa Igreja que se chama The Sanctuary. O pastor principal é skatista de piscina das antigas, o Jay Hazlip. Os outros pastores dessa Igreja são o Christian Hosoi, Brian Sumner e Shawn Mandoli. Nos cultos sempre estão o Paul Rodriguez, Jereme Rogers, Sierra Fellers, Josh Harmony, Ray Barbee... O Terry Kennedy, Eddie Reategui e Dave Duncan começaram a ir agora.
VS - Você tem consciência da sua importância pro skate não só de Aracaju, mas do nordeste, uma vez que você rompeu várias barreiras influenciando outros...
M - Eu nunca tinha pensado muito nesse ponto até a minha primeira entrevista numa revista nacional, a Tribo Skate. Hoje em dia eu fico orgulhoso de ter ajudado a fazer parte dessa história e ter mostrado ao eixo sul/sudeste que temos grandes skatistas no nordeste, isso abriu a visão do mercado p/ todo o resto do Brasil. A melhor parte é que temos muitos skatistas de todo nordeste levando adiante essa semente que foi plantada 15 anos atrás! Sempre acompanho o trabalho dessa nova geração, principalmente de Aracaju, que vem elevando nível do skate na região. O JN Charles é o meu favorito dessa nova leva… talento natural, born to skate.
VS - Como é sua vida hoje? Que espaço o skate tem em sua vida hj?
M - Tenho minha família, trabalho como gerente de um restaurante pela manhã e à tarde com uma empresa de network marketing. Surfo (quando não é inverno) nos sábados pela manhã, ando de skate sempre que tem uma galera p/ ir numa pista perto ou vou sozinho mesmo. Não dá p/ esperar a galera porque eles sempre vão andar longe e eu não tenho saco de dirigir, ou eles estão viajando. Ando mais com o Juninho e o Cara-de-Sapo mesmo. Mas skate está sempre presente na minha vida. Acompanho todas revistas e vídeos dos EUA e Brasil.
VS - Sente falta de estar no skate profissional?
M - Só não sinto falta de cobrança de patrocinador por causa de campeonato (rs). Sentia falta no começo. Aquela coisa de viajar com os amigos, andar em picos diferentes, conhecer lugares, não ter de acordar cedo e ainda ter $$$ no fim do mês. Sem ter de trabalhar num trabalho normal. Isso é ser skatista profissional! É lógico que qualquer um iria sentir falta. (rs) Se você ainda é PRO, aproveite, porque tudo passa…
VS - Pra finalizar, com sua experiência, que recado você deixa pra quem tá começando e/ou está na ativa hoje?
M - Andar de skate tem de ser divertido! Se você não está se divertindo, algo está errado. O profissionalismo, viagens, dinheiro são somente conseqüências do que você está fazendo por amor. Skate é um estilo de vida. Você ainda vai aprender e ensinar muito através dele! Nunca deixe ninguém dizer que vc não pode. Sua mente é muito mais poderosa do que vc pensa. Barreiras são feitas p/ serem ultrapassadas!!!

terça-feira, junho 22, 2010

CALA BOCA GLOBO 
Cala a boca, Galvão!”  era o tópico mundial nº 1 do Twitter, desde o início da Copa da África. Até domingo.
Na coletiva de imprensa  após a vitória do Brasil por 3x1 sobre a Costa do Marfim, o técnico Dunga interrompeu uma resposta sobre Luís Fabiano p/ intimar o repórter da Globo Alex Escobar – que falava ao celular balançando a cabeça negativamente...
- Algum problema?, perguntou Dunga.
- Eu nem tava olhando pra você!, amarelou o jornalista.
- Merda! Você é um puta cagão do caralho!, mandou o ‘professor’ na lata.
Na mesma noite, durante o Fantástico, o apresentador Tadeu Schmidt [o irmão ‘bola murcha’ do ‘bola cheia’ Oscar] tomou as dores e pronunciou-se em defesa do colega: “O técnico Dunga, no comando da seleção há quase 4 anos, não apresenta nas entrevistas comportamento compatível com a imagem de alguém tão vitorioso no esporte. Com freqüência usa frases grosseiras e irônicas.
Soou mais a um editorial da emissora”, escreveu o cronista esportivo Bob Fernandes. Pior pro Tadeu, que desbancou Galvão: CALA BOCA TADEU SCHMIDT” é o novo nº 1 Trending Worldwide do Twitter.Now, who’s cala boca tadeu schmidt? Is a new project to save animals?”, perguntou um tuiteiro gringo sem entender nada.
Por ter levado mais de 300.000.000 de ‘Cala Boca Tadeu Schmidt’ você tem o direito de pedir uma música, @tadeuschmidt”, zoou uma usuária. “Xingou o técnico, é jornalismo; xingou os jornalistas, é crime contra a liberdade de imprensa”, disse outro. E outro: “Dunga não faz média com ninguém. A Globo é que não tá acostumada a ser tratada como as outras emissoras. Bem feito! Cala boca Tadeu Schmidt!
Dunga não é um amor de pessoa, e passa longe de ser uma unanimidade aqui no Brasil. Por causa de seu cenho fechado, estilo militar e escolhas pouco populares, ele consegue até fazer c/ que torcedores mudem de lado.
Este ano torcerei pela Argentina”, escreveu Allan Sieber no ‘post’ intitulado ‘Abrindo o Voto’: “Entre Dunga e Maradona não tem nem como ficar em dúvida. É uma questão de humanidade, acima de bandeiras e rivalidades antigas. Não posso conceber ser ‘representado’ por um jeca do naipe do Dunga. Ponto.
Não tenho muita instrução. Estudei apenas até o 2º grau”, admite Carlos Caetano Bledorn Verri, o descendente de alemão que dirige a seleção. “Mas sou inteligente, tenho experiência e aprendi”, completa. Tudo bem, o cara chama ‘Caetano’ e se veste como baiano, mas o que dizer do MULLET de 'Dieguito’?..
Dunga ganhou muitos pontos c/ a torcida, mas pode se preparar p/ ser retaliado. A FIFA afirmou ontem que vai analisar o vídeo e avaliar o caso. Ano passado, Maradona foi punido c/ 2 meses de suspensão e multa de $25 mil francos suíços pela coletiva após a classificação da Argentina [contra o Uruguai em Montevideo]. Na ocasião, ele mandou essa pra imprensa:
- Que chupem todos, e continuem chupando!
Os 2 treinadores brasileiros que eu vi vencerem a Copa – Parreira em 94 e Felipão em 2002 – não eram simpáticos nem unânimes. Antes dos torneios começarem, ambos penaram p/ se classificar e eram constantemente ‘descascados’ pela mídia. Lembram?
Técnico de seleção de futebol não tem que ser legal, tem que ser campeão. E Dunga, desde que assumiu o cargo há 4 anos, venceu 39 de 55 jogos, perdeu apenas 5, foi campeão da Copa América em 2007, da Copa das Confederações em 2009 e classificou o Brasil em 1º – no grupo e no ranking da FIFA.
Bob Fernandes, o cronista citado no início desta postagem, é um jornalista que já cobriu Olimpíadas, Confederações e Copa do Mundo. De Joanesburgo, ele escreveu:
A crise que ronda o Brasil é uma crise para fora, que não envolve os jogadores. É uma crise de poder.
De um lado o poderoso sistema Globo, que carregou 300 profissionais para a África do Sul e quer um retorno para tanto. Em outras palavras, deseja o que querem os quase mil profissionais do Brasil que aqui estão: acesso. E quanto mais privilegiado, melhor.
Assim foi, assim é da índole e história da Globo, de emissora que no Brasil tenha a dimensão que ela tem.
O problema é que, na outra ponta, está Dunga, o Schwarzenegger. E como sabemos desde quando ele era o pitbull da seleção amarela, quando divide, o Dunga racha.
Está claro, cada dia mais claro, que secundado por quem ele confia e a quem tem como leais, casos de Jorginho e Taffarel, o técnico Dunga fechou um pacto com seus jogadores. De um lado ele, eles, do outro, o resto. Em especial a mídia e quem mais, dentro ou fora da seleção, não reze integralmente pela mesma cartilha.
Se há fissuras no chamado ‘grupo’ não se sabe; não se sabe mesmo, não existem informações concretas que levem a dizer isso. Estas coisas, que sempre existem em agrupamentos humanos, costumam aparecer, vide França e Inglaterra, quando pintam os fracassos.
No Tempo Dunga na seleção não há fracassos; salvo na Olimpíada da China, quando máquinas se moveram para derrubá-lo. Como não há fracassos, parece evidente que Dunga escolheu um caminho: vencer ou vencer.
Por mais que pareça rudimentar a lógica ‘ou está comigo ou contra mim’, o técnico da seleção já viveu e apanhou o suficiente para saber o que significa a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar.
Dunga, que apanhou injustamente entre as Copas de 90 e 94, cuja família teve que suportar o marido, o pai, o filho a carregar por 4 anos a negativa marca da ‘Era Dunga’, certamente sabe o que alimenta contra si de rancor, de ressentimento, a cada bordoada que distribui.
Ele, que já me admitiu em 2007 não terem cicatrizado ainda as feridas da ‘Era Dunga’, obviamente sabe que está jogando a cartada mais arriscada de sua vida profissional. A de construir para si mesmo a alternativa ‘vencer ou vencer’.
Quando se decide por enfrentar a Globo, Dunga sabe que está encurtando seu caminho à frente da seleção brasileira, perca ou ganhe. Dunga sabe quais são e como se movem os interesses para a Copa 2014, e sabe quem maneja boa parte dos cordéis.
Nos idos da Copa América e Olimpíada, eventos que acompanhei, Dunga distribuiu fartamente bordoadas contra o sistema Globo. Durante e depois. Basta consultar os noticiários, capturar o que disse aqui e ali o técnico. São fatos.
Fato é, também, que depois disso tudo um acordo foi costurado. Com a participação do diretor de Comunicação da CBF, Rodrigo Paiva, encontraram-se o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e um dos Marinho da Globo.
Selou-se, então, um acordo de paz, de convivência por conta dos mútuos interesses. Não por acaso duas entrevistas exclusivas ao Jornal Nacional na Copa das Confederações, não por acaso Dunga na bancada do Jornal Nacional depois da convocação para a Copa de agora.
Isso é inegável. São os fatos. Não há como negá-los.
Mas, havia, há um Dunga no meio do caminho. Com a mesma determinação que jogou em 94, que então protegeu Romário de si mesmo e do assédio da mídia, Dunga agora se fecha com seu grupo.
A propósito, Romário, que não é bobo, sentiu o cheiro da crise e nesta terça-feira postou em seu twitter, @Romário11, as seguintes mensagens de apoio ao capitão do Tetra:
- Infelizmente sobrou pro Escobar (ele é gente boa e americano). Mas geral só gosta de bater, então apanhar um pouco faz bem!
- Parceiro 'Dunga', não perca o foco, vamos em frente e faltam 5 jogos!
Ao se fechar tanto, Dunga comete erros. Erros como o de enxergar e tratar a todos, sem distinção, como se fossem adversários, inimigos mesmo, e isso não é uma verdade.
Em algum momento Dunga perceberá, ou algum amigo lhe dirá, que não seria preciso tanto e contra todos. Nesta terça-feira, com a experiência de quem já viveu e enfrentou essa tsunami, Felipão Scolari aconselhou. A todos:
- Pelo bem da Seleção não adianta um dar um soco e o outro revidar, depois um dar um chute e o outro dar um chute também, porque, se não, nunca vão se entender...
Dunga, o Schwarzenegger, decidiu-se por pagar o preço, por queimar as caravelas. A ele e seu grupo só uma coisa importa. Vencer. Ganhar a Copa do Mundo. Custe o que custar.
O velho parceiro Romário, herói do Tetra a quem Dunga tanto deve e vice-versa, também nesta tarde postou em seu twitter:
- A gente já sabe o que vai acontecer. Se o Brasil ganhar é obrigação, se perder não vou querer estar na pele do Dunga..."

sábado, junho 19, 2010

OSSOS DO OFÍCIO 
Caiu de moto?

Foi a pergunta que mais ouvi nos últimos dias.

– Não, mordida de cachorro!

Quarta-feira, 16/06. Eu levava meu cachorro – um pitbull chamado Chacal que herdei junto c/ a casa que comprei no início do ano – p/ seu passeio diário pelo bairro, quando um poodle saiu por um portão aberto, atravessou a rua correndo e latindo, e a pendenga começou. Consegui tirar o cão pentelho das garras de Chacal, mas neste momento ele fechou a bocarra antes que eu tirasse totalmente minha mão de sua mandíbula.

Quase perdi a ponta do dedo médio direito. Unha partida, carne perfurada, osso quebrado; 4 horas no Hospital de Urgência e 10 dias sem beber, tomando vacinas e antibióticos. Pior: Assim que soltou o maldito poodle, Chacal abocanhou o filhote que latia ao lado. Por isso fui mordido. De tabela. Azar. “Pra se topar uma encrenca/ basta andar distraído/ que ela um dia aparece/ (não adianta fazer prece...)”, cantava Moreira da Silva.

Tragédia. O cachorrinho morreu. Na hora.

A primeira coisa que fiz quando tive alta foi procurar a dona do animal e oferecer meus préstimos. Prometi lhe dar um novo filhote, p/ compensar a perda. Quanto ao meu ‘dog’, só volta a sair c/ focinheira. E mesmo assim, apenas quando eu me recuperar, o que p/ Chacal significa uns dias ‘de castigo’ preso no quintal. Fui imprudente, talvez por inexperiência – já tive outros cães, de vira-latas a husky siberiano, mas nenhum do porte ou poder de destruição de um pitbull. Apesar de tudo, é um bicho obediente e tranqüilo c/ humanos – a não ser que você tente invadir minha casa.

Os pitbulls foram estigmatizados no Brasil graças aos seus donos criminosos, protegidos por uma sociedade abertamente injusta”, diz o criador Luiz F. referindo-se aos Pit Boys. “Cães pitbulls bem criados dificilmente se sentem ameaçados com nossa presença e dificilmente atacam por medo. Já perto de um pequenês ou outros cães de pequeno porte, nunca me sinto à vontade. Eles mordem mais frequentemente pois se sentem ameaçados c/ a presença de qualquer animal maior que eles. Este é o grande motivo dos ataques.

No mesmo dia da mordida, recebi o convite que a HARDCORE me enviou pelo correio p/ a festa de 21 anos da revista, que acontece HOJE na boate Sirena, na praia de Maresias, valorizado pedaço do litoral norte de SP. A discotecagem ficará a cargo do Zegon, o Zé Gonzales do Planet Hemp atualmente em carreira internacional c/ o N.A.S.A.. O evento também servirá p/ o lançamento do novo site da publicação paulista. Demorou.

Desde que mudou de editora, a HC estava fora do ar na internet, acessível apenas por redes sociais. Em semelhante situação se encontra a revista Fluir. Ou melhor, não se encontra, já que a revista de surf mais antiga do país só pode ser acessada pelos perfis no Facebook ou Twitter. Sua página oficial na web não é atualizada há quase 2 anos.

Enquanto os grandes boiavam no outside, uma série de novos títulos entrou c/ força no ‘line-up’ virtual brasileiro. A 1ª e mais conhecida é a BLACKWATER, editada pela mesma turma responsável pelos filmes da marca carioca Que! Life Style. O nome da revista faz alusão ao grupo paramilitar americano que agiu em missões secretas na Guerra do Iraque. O nº 1 foi ‘loadeado’ em julho de 2006. “A revista nasceu para usar a internet, inicialmente, como alternativa para um projeto de baixo custo que gerasse um serviço gratuito e de qualidade para o leitor”, explica o fotógrafo Fábio Minduim: “O pioneirismo no Brasil colocou o projeto Blackwater em um oceano azul. Desde então a revista manteve o foco em um conteúdo diferenciado baseado em inovações tecnológicas.

De São Paulo vem a revista PARAFINA, c/ foco em arte, literatura e meio-ambiente. Uma das melhores. E o Guarujá é a nova sede da V8Surf, que nasceu em Fortaleza [CE] e passou a contar c/ o reforço da lenda viva Taiu Bueno – um dos maiores big riders do Brasil, preso a uma cadeira de rodas há quase 20 anos. “Embarquei de corpo e alma (guerreira) neste projeto”, comemorou Taiu.

O foco na gratuidade acoplado com um projeto multimídia levou o surfe a todos os sentidos do surfista moderno”, blogou o jornalista Luís Lima: “A revista Blackwater, por exemplo, tem nos vídeos e áudio a base ideal para transferir todos os sentimentos do surfe direto para a tela do computador.

Diziam que a internet acabaria c/ os livros, revistas e jornais. Previam um futuro tecnológico distópico, uma espécie de sociedade à la Farenheit 451, o famoso romance de Ray Bradbury no qual livros são queimados em "uma América hedonista e anti-intelectual que perdeu totalmente o controle", diz a Wikipedia. "É uma história sobre como a televisão destrói o interesse na leitura", dizia Bradbury. Hoje temos Kindles e Ipads, ‘gadgets’ de leitura virtual que seriam a concretização desse ‘apocalipse’ da mídia impressa tal qual Gutenberg a inventou. Mas os números desmentem as previsões.

A livraria virtual Amazon é o 2º negócio mais lucrativo da net, apenas o Google vale mais. No mês de abril, os jornais dos EUA bateram recorde de audiência on-line – 2 bilhões de acessos. Seguindo uma tendência criada pelos americanos, o maior jornal francês, Le Figaro, reformulou seu site e passou a cobrar por conteúdos específicos – informações em tempo real continuam livres. No Brasil, o Instituto Verificador de Circulação registrou alta de 1,5% no mercado nacional de jornais durante o 1º quadrimestre deste ano.

O mercado de revistas registrou crescimento de 5% a 7,5% nos últimos 3 anos, segundo a ANER. Este tipo de mídia responde a 8,5% da fatia do bolo publicitário no Brasil. A projeção é que em 3 anos atinja 10,5% do ‘share’. Esta evolução pode ser constatada pelos lançamentos dos últimos anos, desde a Piauí da editora Abril às independentes Zupi, +Soma e Vice.

Algumas nascem no mundo real mas vingam mesmo no virtual. É o caso da IdeaFixa, totalmente dedicada à arte: pintura, ilustração, fotografia, design... “O objetivo é inspirar e promover os artistas participantes”, diz Berna Bauer. A NOIZE, voltada ao mundo musical, já está no nº 34. “Todo mundo quer dar uma bocada na coxinha”, zoa a editora Ana Malmaceda, que mensalmente disponibiliza uma nova edição.

Não há limite de tiragem e o alcance é infinito”, resume o ‘blackwaterman’ Minduim. Pode ser que as mídias eletrônicas superem e acabem c/ os veículos impressos, mas esse dia ainda está relativamente distante. “Steve Jobs não é o novo Gutenberg”, compara o jornalista Alexandre Versignassi, da SUPER: “Você sabe por que. Ler um livro inteiro no computador é insuportável. Isso sem falar em outro ingrediente: quem gosta de ler curte tocar, sentir o fluxo das páginas, exibir a estante cheia. Uma relação de fetiche. Amor até.

O Kindle não emite luz, o que facilita a leitura, mas a tinta eletrônica demora p/ se reposicionar ao virar as páginas virtuais. Além disso, a tela é em preto e branco – só funciona bem c/ livros. O Ipad tem tela colorida, mas de LCD, que após algumas horas irritam os olhos. Além disso, vem c/ defeito de fábrica: não lê páginas em Flash, o que impossibilita a visualização de muitas publicações.

Revistas como a Ôxe! Skate e a Inferno Pub podem ser lidas através do site Issuu, um portal que transforma documentos em PDF em páginas diagramadas, que podem ser viradas c/ o mouse, num movimento que emula o papel. A animação é feita em Flash, c/ opções de zoom e impressão, entre outras.

No nordeste é difícil manter uma revista só de skate, existem muitas marcas mas ainda pequenas, e com isso fica complicado de fazer algo relacionado ao esporte”, explica Júlio Detefon, co-editor da sergipana Ôxe!: “O Tiago Rocha já fazia um site chamado Cyberboard. Lançar a Ôxe nesse formato já é difícil, imagine publicar! Mas vamos trabalhando...

Pra mim é a maior terapia editar um zine”, diz DJason, da banda Miami Bros., “não vejo tal tarefa como esforço algum.” O zine Inferno Pub traz notícias musicais e ensaios sensuais c/ gatas do underground carioca. A última edição traz a funkeira Dani Brinks, autora de versos singelos como “[...] me faz de gato e sapato/ me leva logo pro quarto/ ai neném, ai neném/ me seca neném, me seca neném/ me seca (delícia)”.

Dizem que o Sirena é o night-club c/ maior concentração de mulher bonita por metro quadrado na noite paulista. A praia de Maresias produz alguns dos maiores tubos do Brasil. A Hardcore é uma das melhores revistas de surf do mundo. E o DJ da festa é o Zegon!

Fiz 40 anos e toco desde os 17. São 23 anos de noite”, falou Zé à revista OE. Ano passado, ele montou uma base p/ seu grupo em São Sebastião, onde fica Maresias. Seu parceiro Sam trouxe o irmão Spike Jonze, e Zé levou o fotógrafo Bitão e o videomaker Raul Machado: “Paramos tudo, fomos pra praia e montamos um estúdio. De manhã nadava, relaxava, comia um churrasco. Mas chegava a noite e íamos fazer o quê? Música! E toda essa galera surfa, aí ficou a casa do surf com estúdio montado... Foram os melhores dias do ano!

A balada vai ser boa. Mas p/ conferir eu teria que pegar um avião até Sampa e descer pro litoral, tudo isso p/ NÃO surfar, NÃO beber e NÃO pegar ninguém – sou casado, e o convite é individual. Melhor NÃO ir. Fica pra próxima.

Valeu, HC. Se vocês precisarem de um jornalista gonzo, sabem onde me encontrar. Eu já disponibilizo meu conteúdo de graça na internet mesmo...

FOTOS: ADOLFO SÁ + MÁRCIO VENÂNCIO + REPRODUÇÕES
SPECIAL FUCKIN' THANKS: JÚLIO ADLER, STEVEN ALLAIN & PRIMOS STRYJER