sábado, outubro 30, 2010

ALINE & BOB

 
No Brasil, dizemos que “roupa suja se lava em casa. Nos Estados Unidos, esse tipo de limpeza é feito em lavanderias. Você senta num banco coletivo e assiste a roupa rodar pela janelinha de vidro da máquina de lavar. Nessas horas as pessoas costumam jogar videogame, tuitar pelo celular, ouvir música pelo MP3... Tá meio fora de moda, mas também dá p/ passar esse tempo do jeito antigo – lendo. Quadrinhos, por exemplo.

Robert & Aline Crumb trocaram os EUA pela França há quase 20 anos, mas ainda lavam roupa suja em público. Desde os anos 70 publicam juntos HQs sobre sua vida de casal, c/ desenhos de ambos – Bob faz a si mesmo e Aline se retrata do jeito que quer. Por causa dessa parceria, ela é considerada a “Yoko Ono dos quadrinhos underground”. Os amigos da ZAP COMIX culpam-na pelo afastamento de Crumb da revista.

Meu traço é tão primitivo que se eu desenhar com o pé ninguém vai perceber”, diz a Sra.Crumb. No Brasil suas histórias a 4 mãos vem sendo publicadas pela revista Piauí – são os mesmos quadrinhos da consagrada The New Yorker, que publica a série autobiográfica dos Crumb desde os anos 80. Embora esta colaboração [Crumbs + TNY] esteja prestes a acabar, como fica claro na entrevista a seguir, concedida por Aline Kominsky-Crumb à repórter Raquel Cozer, do jornal O Estado de São Paulo.

Aline esteve no Brasil acompanhando seu homem na FLIP, e participou c/ ele da principal atividade agendada: a mesa literária. Relata Tasso Marcelo, do Estadão: “Aline, que entrou no terço final da mesa, chamada pelo mediador Sérgio D’ávila, foi acusada por espectadores de falar demais. Na média, todo mundo com quem conversei odiou a entrada dela. Eu particularmente, acho que deu um fôlego para a conversa seguir até o final. Acho que ela devia estar no palco desde o começo, porque tem senso de humor afiadíssimo e ajuda a evitar aqueles silêncios constrangedores causados pelo desconforto de Crumb. 

Aline não é Yoko, senão Crumb já estaria morto. “Estou feliz em estar aqui porque venho sendo ignorada há 40 anos”, disse à platéia. “As pessoas mandavam cartas cheias de ofensas quando começamos a desenhar juntos. Diziam: ‘Ela pode ser boa na cozinha, mas deixe-a fora do papel’. As pessoas estavam furiosas.

No Rio de Janeiro, serviu de escada e escudo nas situações em que o marido se sentiu acuado – na mesa e na coletiva de imprensa. Como no resto do tempo Bob mal saiu do quarto, restou a ela passear por Paraty segurando vela p/ o velho amigo do casal, Gilbert Shelton, e a namorada dele, Lora Fountain, agente literária dos Crumbs. Os quadrinhos underground são uma grande família.

Raquel Cozer - Aqui no Brasil, do seu trabalho, é conhecido só o que faz com Crumb...
Aline Kominsky-Crumb - Ano que vem sairá pela Conrad um livro com todo o meu trabalho. O título do livro em que esse se baseou é NEED MORE LOVE, que eu acho um bom título. E tem o LOVE THAT BUNCH, um livro mais antigo. Há algumas coisas dos dois livros. N.M.L. tem fotos, pinturas e textos, é um livro multifacetado. É uma autobiografia gráfica, como todo tipo de imagens. Mas a Conrad usará apenas as HQs desse trabalho. 

RC - Você também é pintora, então.
AKC - Comecei meu trabalho como pintora. Fiz meus estudos em aquarela e óleo em tela, me formei e sou professora de arte, mas só dei um ano de aula em toda a minha vida. Quando me formei, nos anos 60, me interessava pelos quadrinhos underground, o trabalho do Crumb, do Gilbert [Shelton] e de um artista chamado Justin Green, que fez um trabalho muito autobiográfico e me inspirou a fazer o mesmo. Então me dei conta de que todos os quadrinhos estavam sendo publicados em San Francisco, e fui para lá, em 1971.

RC - Seus cartuns já eram autobiográficos naquela época?
AKC - Sim, eu não sabia fazer mais nada. Não conheço nenhum outro assunto bem o suficiente para poder desenhar a respeito. Eles precisavam de mais trabalhos desesperadamente, porque não havia cartunistas mulheres. Se você parar para pensar, não tinha isso. Então, para qualquer uma que pudesse minimamente desenhar um quadrinho eles diriam: OK, você pode entrar nessa revista.

RC - Quando conversei com Crumb, ele me disse que você tem mais talento para o roteiro que para o desenho de HQ, um humor judeu...
AKC - Sim, é verdade. Quando trabalhamos juntos, eu faço quase todo o roteiro. Meu desenho é muito primitivo, estranho e idiossincrático. Prefiro pintar, não sou uma cartunista profissional nem estou interessada nisso. Meus quadrinhos não são muito comunicativos no que diz respeito à forma, eles são muito pessoais e doidos. Não uso nenhuma das técnicas formais dos quadrinhos.

RC - De que tipo de técnicas você fala?
AKC - Estilização, simplificação, por exemplo, quando você tem um personagem, fazê-lo sempre da mesma maneira o tempo todo. Quando desenho, eu mudo o tempo todo. Se estou de bom humor, eu me desenho melhor, se estou de mau humor, me desenho mais feia. Mudo meu cabelo, meu peso. Cada desenho para mim é um desenho, não penso no sentido da arte seqüencial, expressão comercial, de manter um público.

RC - Quando você desenha com Crumb, ele tem esse respeito pelas técnicas da arte seqüencial e você não...
AKC - É insano como isso funciona. Não deveria funcionar, mas por alguma razão funciona. Ele coloca a linha lá e eu aproveito as deixas. Mas, em termos de desenho, é totalmente irracional, porque o desenho de Robert é tridimensional, e o meu é chapado. Da primeira vez que fizemos isso não era para publicar, era só para nos distrair. Foi em 1974, eu acho, e eu tinha caído e quebrado a perna, estávamos no campo, chovia, eu estava muito entediada e o deixando louco. Então, para me deixar ocupada, meu irmão e eu costumávamos fazer quadrinhos juntos, como ele fazia com o irmão dele, Charles... A primeira que fizemos foimuito louca, a história vai para todo lugar, espaço sideral, criaturas que aterrissam na nossa fazenda, Timothy Leary aparece, é realmente louco. Não tentamos fazer nada coerente porque não pensávamos em publicar, mas daí um editor viu e quis publicar. 

RC - Você sabe quantas histórias fizeram desde então?
AKC - Temos esses dois livros chamados Dirty Laundry, dos anos 70, e uma compilação. Fizemos para jornais locais, para a revista Weirdo...

RC - Quando começaram a fazer para a New Yorker?
AKC - No meio dos anos 90. A primeira acho que foi sobre nossa reação ao documentário de Terry Zwigoff, em 1995. Nós queríamos desaparecer depois daquele filme. Robert usava chapéu e tinha um bigode, mas ele começou a ser reconhecido em todo lugar. Então ele mudou o tipo de chapéu e deixou a barba crescer, mudou o visual. Hoje ele ainda é muito reconhecido, mas naquela época foi mais estranho. Em qualquer lugar alguém o reconhecia, era demais. Ele é um cara muito doce, muito legal. É tímido. Depois de certo ponto, ele não pode mais falar. Ele não gostar de falar dele mesmo.

RC - E como surgem essas histórias em parceria?
AKC - A gente não tem nenhuma regularidade para isso. A New Yorker sempre nos pede coisas, mas ele não quer mais fazer nada para eles.

RC - Por quê?
AKC - Porque eles pediram a ele uma capa, e ele fez, estava muito boa. Era meio controversa, porque eles pediram uma capa sobre casamento, e ele fez uma sobre casamento gay, e eles não usaram. Até aí tudo bem, ele não se importa, mas eles nunca explicaram por que não usaram a capa. Ele perguntou muitas vezes, e nunca teve resposta. Ele disse: ‘Se eles me dissessem a razão, estaria tudo bem, eu faço outras coisas para eles. Mas como eles não tiveram coragem nem respeito o suficiente para me explicar isso’... Ele está zangado. É compreensível. Durante um ano, eles ficaram dizendo que usariam, que usariam, fizeram isso dez vezes, durante um ano, eles pagaram pela capa... Mas ele ficou realmente frustrado de não saber por quê, se não gostaram... Ele trabalhou com muito afinco naquilo, e não tiveram coragem de ligar para ele e dizer o que houve. Era só dizer: ‘Não é seu melhor trabalho’.

RC - Mas vocês ainda fazem histórias juntos?
AKC - Sim, estamos trabalhando num novo livro. O título provisório é Drawn Together, que tem dois significados em inglês, atraídos um pelo outro e desenhando juntos. Incluirá o trabalho da New Yorker, o trabalho anterior e algumas outras histórias. Sai ano que vem.

RC - Será a história de amor de vocês?
AKC - Sim... Sim. Como você quiser chamar. (risos) Mas haverá trabalhos antigos que provavelmente quase ninguém viu, publicado só em pequenas editoras, e histórias totalmente inéditas.

THE CRUMBS

 ALINE & BOB NOS ANOS 70, QUANDO SE CONHECERAM...
...E NA FRANÇA, ONDE VIVEM: ALINE FOI A INSPIRAÇÃO P/ A...
...DEVIL GIRL, PERSONAGEM FAVORITA DE ROBERT CRUMB...
...DOIS MOMENTOS DO CASAL NO BRASIL, EM JULHO...
 ...CRUMB & ALINE ADORAM OS FOTÓGRAFOS


HISTÓRIA PUBLICADA NO BRASIL NA REVISTA PIAUÍ Nº42

sexta-feira, outubro 29, 2010

PURPLE HAZE
HENDRIX POR CRUMB
 









quinta-feira, outubro 28, 2010

E CRUMB CRIOU A MULHER...

I THINK I’VE DRAWN MYSELF OUT
Tenho vergonha de viver no planeta Terra”, disse Robert Crumb na coletiva de imprensa em Paraty [RJ] durante a FLIP 2010. “Mas não tem jeito!

Nem precisa ser fã de quadrinhos p/ conhecer o trabalho de Crumb. Basta gostar de rock – é dele a capa de CHEAP THRILLS, o melhor disco de Janis Joplin, quando a cantora fazia parte do grupo Big Brother & The Holding Company.

Nascido na Pensilvânia em 1943, mudou-se p/ Ohio ainda jovem, trabalhou como desenhista numa empresa de cartões e casou-se. Aos 23 anos, abandonou tudo, saiu de casa sem avisar à esposa Dana, e partiu rumo à Califórnia.

Chegou em San Francisco na virada de 67 p/ 68, não conhecia ninguém. Sentou na calçada em frente a uma head shop e começou a observar o movimento. “Eu não tinha idéia de para onde estava indo, nenhuma idéia. Lá estava eu sem esposa, sem dinheiro, só com as roupas do corpo. E tinha esses hippies indo e vindo. Alguns também sentavam por ali. Eu estava me sentindo sem esperança, sozinho, e então um cara que me conhecia de Cleveland veio e falou: ‘Crumb, o que você está fazendo aqui?’ Conversamos, ele me levou para a casa dele e fiquei por lá umas semanas.

Provou maconha & LSD, gostou e transferiu p/ os quadrinhos as viagens e visões que tinha sob efeito dos alteradores de consciência. Colaborou c/ a EVO e Yarrowstalks, publicações independentes da costa oeste, e logo chamou a atenção de um editor, Don Donahue, que se propôs a bancar uma revista inteira só p/ ele. Nascia a ZAP COMIX.

Quando Crumb fez a primeira ZAP, simplesmente atingiu toda a cena underground como um furacão. Foi algo muito grande”, relata Spain Rodriguez, quadrinista californiano que logo se tornou amigo e colaborador. Era 1968 e Frisco vivia o auge do Verão do Amor. Crumb, que àquela altura já havia reatado c/ a mulher, levou seu gibi p/ as ruas dentro de um carrinho de bebê e os vendeu de mão em mão por $0,60.

Robert Crumb fez a coisa que pôs tudo em movimento”, escreve Patrick Rosenkranz na introdução de Rebel Visions: “Em dois meses explosivos de febre criativa, ele concebeu e desenhou a ZAP COMIX, que se tornou o protótipo e a inspiração para dezenas de gibis underground que rapidamente a seguiram.

Apenas a 1ª edição foi exclusiva c/ seus quadrinhos. O nº2 conta c/ os reforços de Moscoso, S.Clay Wilson e Rick Griffin, desenhista oficial do Grateful Dead. No nº3 entraram Spain e Gilbert Shelton, criador dos Freak Brothers. E no 4, Robert ‘Hank’ Williams, que anos depois ficaria mais conhecido pela capa de Appetite for Destruction. Moscoso era artista, Griffin surfista, Spain motoqueiro, Shelton maconheiro, Williams totalmente doido, e muitas histórias eram transcrições de viagens de ácido.

A ZAP foi a catalisadora”, resume Patrick Gaumer em seu livro Le Siécle Rebelle. P/ Robert Corben, “foi como se uma porta se abrisse para um novo universo de possibilidades.George Metzger diz que “a ZAP mudou um monte de coisas quando apareceu. Crumb tinha o poder de seus desenhos e de sua visão. O fato é que tinha verdade ali.

Ele falou com todo mundo, teve culhões para fazer esses gibis”, diz Bill Griffith, criador de Zippy The Pinhead: “Crumb reinventou o gibi. Ele tomou isso como outros de sua geração tomaram a música. Existem poucas pessoas que você pode dizer que literalmente se tornaram o ponto de partida para todo um movimento. Crumb teve a grande visão, a visão ardente.

A ZAP trazia HQs que diziam: “AJUDE A CONSTRUIR UMA AMÉRICA MELHOR! Agora você não precisa de um psiquiatra para descarregar sua congestão cármica! FIQUE CHAPADO!” Totalmente transgressora, mas também engraçada, principalmente por causa de ‘Bob’.

Sua tira Keep On Truckin’ marcou a década de 60, assim como os personagens Mr.Natural e Fritz The Cat, dois tipos malandros. O velhinho Natural é um falso guru espiritual que só quer ganhar um troco e comer umas discípulas – isso numa época em que os Beatles viajavam p/ a Índia e traziam de lá caras como Maharishi Mahesh Yogi... Fritz era um gato tigrado que curtia drogas e pegava universitárias.

C/ sua crônica da época e colaborações p/ Janis Joplin e Jimi Hendrix – fez uma versão em quadrinhos de Purple Haze – Crumb tornou-se um dos maiores ícones da cena hippie, embora nunca tenha sido um. “Por causa do traço, pensei que fosse um velho desenhista, alguém que tinha tido seu momento na década de 20 ou 30 e depois sumira”, conta Donahue.

Crumb sempre se vestiu como velho e colecionou discos de 78 rotações c/ blues e jazz do início do séc.XX. Foi assim que conheceu Harvey Pekar, roteirista que ele revelou ao desenhar suas histórias a partir dos anos 70, década em que conheceu Aline, c/ quem está casado até hoje. Graças ao traço de Bob, surgiu o gibi American Splendor, adaptado p/ o cinema em Anti-Herói Americano.

C/ Aline, produz uma série autobiográfica a quatro mãos publicada na revista New Yorker. Foi ela quem o convenceu a vir p/ o Brasil, a convite da Feira Literária Internacional de Paraty, em julho. O casal mora numa vila do sul da França desde 1991. “Não quero voltar aos Estados Unidos”, disse Crumb no Rio de Janeiro: “Tenho vergonha de dizer que sou americano. Os EUA viraram um estado corporativo fascista. É um dos piores países do mundo. Obama não pode fazer muito. Estamos em perigo.

Em 1994 é lançado CRUMB, premiado documentário longa-metragem dirigido pelo amigo Terry Zwigoff, parceiro na banda Cheap Suit Serenaders [Seresteiros de Terno Barato, na tradução literal], que tocavam hits como My Girl's Pussy, de Harry Hoy & His Orchestra. O filme mostra a relação de Bob c/ os irmãos, ainda mais desajustados socialmente que ele – Max é um artista autista e Charles virou faquir. E foca nas taras expostas sem pudor nas HQs: Bob é fissurado em garotas roliças de bunda grande e pernas grossas.

Este é o tema de MEUS PROBLEMAS COM AS MULHERES, álbum lançado durante a FLIP que compila material de 1964 a 91, c/ todas as transas & neuras do autor. Mulheres sempre foram o assunto preferido, embora sua abordagem passe longe do politicamente correto – na maioria das histórias as garotas são objetos sexuais em posições que desafiam a anatomia.

Em sua juventude, você era o desenhista descolado chapado de LSD que inventou a ZAP COMIX e iniciou um movimento a partir dos quadrinhos. Agora, na meia-idade, vive suas fantasias. Qual é o problema, PORRA?!”, questiona em Não Dá Mais!, sua última colaboração p/ a ZAP em 96.

Não sou mais tão obcecado por sexo quanto era. Vejo esse trabalho agora e não me identifico com a pessoa que fez isso. Penso: Jesus, que lunático”, disse o criador da Devil Girl na mesa literária que participou ao lado do amigo Gilbert Shelton p/ uma platéia de jornalistas e pagantes.

Crumb pode parecer cafajeste em seus cartuns e incoerente em seu discurso, mas pode ser sensível e mostrar olhar apurado, como em Uma Breve História da América. Em meras 5 páginas séculos se passam sob o ponto de vista do mesmo lugar – mas não da mesma paisagem. “Eu desenho o mundo para tentar entendê-lo.

Em 2007 foi eleito Top 20 entre os 100 gênios vivos na Terra, num ranking criado pela empresa de consultoria Synectics World. Já ilustrou e adaptou contos de Charles Bukowski e Phillip K.Dick. Gosta de retratar músicos esquecidos pelo tempo, mas odeia viajar e dar entrevistas. Detesta “câmeras fotográficas, aeroportos, controle de segurança” – a lista é dele. “Gosto de ficar anônimo. Gosto de observar, não de ser observado.

No final de 2009 a Conrad, responsável por sua obra no Brasil, publicou GÊNESIS, versão que ele fez do livro inicial da Bíblia. A mesma editora já lançou por aqui a compilação da ZAP, os álbuns AMÉRICA, BLUES, MINHA VIDA, BOB & HARV, FRITZ THE CAT e dois MR.NATURAL. E a Desiderata aproveitou sua passagem no país p/ relançar KAFKA DE CRUMB, biografia do escritor tcheco publicada em 2006 pela Relume-Dumará.

A maior parte do tempo no Brasil passou dentro da pousada, fugindo da imprensa. A exceção foi um passeio de barco na ilha do Catimbau. Quando teve que falar em público, na coletiva e na mesa literária, ficou impaciente e irônico. “Viajei de classe executiva, foi legal. Estou me divertindo à beça”, disse ajeitando os óculos. “É algo economicamente viável, e é também por isso que estamos aqui.

Crumb não gosta da mídia porque “jornalistas perguntam sempre as mesmas coisas”. Sua participação na mesa da FLIP foi o que se pode chamar de anti-clímax – brasileiros atônitos c/ seu comportamento casual e decepcionados após 1h de conversa sem empolgação.

Eu não entendo porque as pessoas me colocam nessa situação. Sou uma pessoa entediante na vida real. Meu trabalho é interessante, mas minha personalidade não é nada demais. E todos esses fotógrafos, é muito desconfortável. É extremamente incômodo.

O que essa gente esperava? Um showman? Até eu me irritaria c/ as perguntas que fizeram... Um repórter quis saber se a cena dos quadrinhos underground dos anos 60 era muito competitiva: “Competitiva? Competitiva?! Está brincando? Havia tão poucos de nós, uns quatro, talvez cinco, não havia nada por que competir.

Outro perguntou como ele criou KAFKA...Como eu criei Kafka? Kafka já existia!

Sobre seu sobrenome judeu, respondeu: “Eles estão publicando meu GÊNESIS em Israel, vai sair em hebraico. E como é escrito da direita para a esquerda, eles estão colocando na posição inversa todas as ilustrações, para adaptar o texto. É louco. E foram os editores que me deram o menor adiantamento entre todos os que me publicaram.

Hahah! Crumb sempre foi arredio à cultura de massa. Ganhou US$ 600 p/ fazer a capa de Cheap Thrills, mas o desenho de Janis segurando um microfone foi censurado, e a arte da contracapa foi p/ a frente do disco. Odiou a versão p/ o cinema de Fritz The Cat e decidiu assassinar o personagem p/ não perder o controle sobre sua obra.

Por causa do temperamento misantropo do convidado principal do evento deste ano, chegou-se a cogitar não chamar mais cartunistas p/ a Feira Internacional, “que afinal é de livros”, comentou um espectador. Aos 66 anos, o cara que reinventou os quadrinhos de autor deve ter saído do Rio achando que ‘FLIP’ é sigla p/ Feira Literária dos Idiotas em Paraty...

Salvando-nos do embaraço total, o jornalista Bruno Dorigatti e o fotógrafo Tomás Rangel estiveram c/ Robert Crumb na pousada em que estava hospedado, e após presenteá-lo c/ discos de Pixinguinha, Noel Rosa, Altamiro Carrilho, Canhoto, Jacob do Bandolim e Época de Ouro, conseguiram uma entrevista exclusiva:

Extremamente educado, simpático e gentil, Robert Crumb fala baixo, é tímido e pouco olhou diretamente nos olhos quando conversamos por 40 minutos em uma pequena mesa, num espaço tranqüilo e vazio [...]. Crumb folheava o recém-lançado MEUS PROBLEMAS COM AS MULHERES. Ele ainda não havia visto a edição brasileira, e recordou de algumas amigas que retratou há muito tempo...

Robert Crumb - Lia, essa aqui era tão maluca! Que homem doente...

Bruno Dorigatti - Você se vê como um doente?
RC - Um cara maluco, claro, mas todos eram meio loucos.

BD - E como é fazer esses desenhos?
RC - É um prazer. É uma espécie de masturbação. Sempre tive muito prazer em colocar essas fantasias no papel. Era algo que tinha necessidade de fazer. Hoje nem tanto mais, estou muito velho agora. Isso é completamente real [apontando p/ a história É Isso Que Fica Na Memória]. E realmente terminou assim [c/ Crumb currando a garota]. (risos)

BD - Poderia falar de suas primeiras memórias musicais? Ouvia muita música quando criança?
RC - Claro, mas a maior parte da música que eu ouvia era ruim. Aquela música popular que minha mãe ouvia no rádio, dos anos 40 e começo dos 50. A pior música popular, de caras que vocês provavelmente não conheçam aqui, como Frank Sinatra. Você conhece Sinatra? 

BD - Ele é bem conhecido aqui...
RC - Tinha uns bem ruins. Doris Day, Perry Como, coisas horríveis. [...] Essas são minhas primeiras memórias musicais. E quando surgiu a televisão no começo dos anos 50, eu assistia aqueles velhos filmes de 1931, 32 e realmente gostava da música que tinha lá, por alguma razão que nem sei. Comecei a procurar aquela música no rádio, em discos, e não conseguia achá-la. Até que encontrei aqueles discos de 78 rotações bem velhos, quando tinha 16, 17 anos. Descobri que as músicas daqueles filmes estavam nestes discos e me tornei completamente viciado em procurar essas gravações.

BD - Por outro lado, você é associado com a música dos anos 60, o rock e a contracultura, mas odeia aquilo...
RC - Meus quadrinhos fizeram parte daquela cultura hippie: Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Doors, Jim Morrison. Então relacionavam minhas histórias com aquela música, mas não me interessava. Não convivia com eles. Janis Joplin me pediu para fazer a capa de CHEAP THRILLS. Mas não tinha conexão com eles. Estava fora daquilo, desenhando o tempo todo, era o que eu fazia – desenhava. 

BD - E você também desenhou histórias sobre aqueles músicos obscuros como Charley Patton...
RC - Fui fazer isso mais tarde, até porque quando era jovem e descobri aquilo não havia informação a respeito. Havia uns poucos livros sobre jazz, mas coisas como Patton você não encontrava. As pessoas estavam começando a pesquisar aquilo, tinha alguns amigos da minha idade que também curtiam, iam pro sul – Mississipi, Louisiana, Alabama e Kentucky – procurando os discos e pesquisando sobre as pessoas que faziam aquelas músicas.

BD - Tem uma história em BLUES, ‘É a Vida’, em que alguém vai batendo de porta em porta perguntando se as pessoas têm em casa os 78 rotações, e se gostariam de se desfazer daquilo. Você chegou a fazer isso?
RC - Sim, eu fiz aquilo e achei bons discos assim. Li um livro sobre jazz, de 1939, que tinha um capítulo, ‘Procurando Discos’, que falava sobre bater nas portas da vizinhança negra. Eu vou fazer isso, pensei. Tinha 18, 19 anos na primeira vez que saí batendo nestas portas, na vizinhança negra em Delaware, onde morava. E aqueles negros pobres ainda tinham aquilo, e na maioria das vezes eu conseguia. E como não tinha muito dinheiro, pagava $0,10 por cada um. E achei discos incríveis assim. Nomes desconhecidos ou esquecidos. Eu me perguntava quem eram Big Bill, Salty Dog Sam, Joe Evans, The Famous Hokum Boys. Eles não eram famosos, obviamente. Quem eram eles? Aquela música era incrível. Os discos geralmente eram muito detonados, furados de tanto usar, cheio de arranhões, mas era uma música fabulosa.

BD - Li que você está trabalhando nos retratos de músicos de blues, jazz e country que fez em formato de cartas de baralho. Retocando sombras e o fundo...
RC - É isso mesmo. Tem um cara que quer fazer silk screens, impressas em tamanho grande. Serão 25 imagens em formato maior. Ele tirou as cores, aumentou e me enviou. Eu as desenhei no começo dos anos 80. Tenho que aperfeiçoá-las, retrabalhar nelas, colocar cores novas. Aquelas cartas de blues venderam bem na época. Então fiz também retratos de músicos de jazz, mas não venderam tão bem quanto os de blues, não sei porquê. E fiz ainda os músicos de country, que venderam pior ainda que os de jazz. Quando me mudei para a França, nos anos 90, fiz uma série destas cartas de antigos músicos franceses de acordeom, que também não venderam nada. Mesmo na França, eles não estão interessados naqueles músicos que tocavam acordeom. (risos) E foi um trabalho duro, é muito difícil desenhar os acordeons, aqueles botõezinhos, a parte por onde sai o som é toda ornamentada...

BD - Poderia falar sobre a banda que teve, Cheap Suit Serenaders?
RC - Eram caras que também curtiam aquelas músicas antigas, nos encontramos na Califórnia em 1969, 70, 71... Eles tocavam bem, eu não era um músico tão bom assim, mas tocávamos de maneira muito simples, muito crua. Era um prazer, curtia muito aquilo. E então nós estávamos tocando em um bar e de repente alguém nos perguntou: ‘O que pensam de tocar por algum dinheiro?’ Dissemos: ‘Certo, claro, precisamos de dinheiro.’ Éramos pobres, quebrados. Tocamos em Aspen, no Colorado, uma cidade que tem um grande resort de esqui. As pessoas vão lá para esquiar nas montanhas. Tocamos lá e eles olhavam para nós como se perguntassem: ‘Quem são esses caras?’ Eram os patrulheiros de esqui, espécie de salva-vidas, caras durões. E eles odiaram a nossa música, odiaram a gente. (risos) E um destes caras veio e disse: ‘Queremos ouvir algum boogie woogie, queremos dançar! Vocês não podem tocar algum boogie?’ A gente respondeu: ‘Não tocamos boogie woogie.’ (risos)

BD - Voltando aos anos 60 e o momento em que você começou a publicar, você costuma dizer que o LSD foi muito importante para o seu desenho.
RC - Foi uma experiência muito visionária para mim. O LSD mudou toda minha opinião do que eu estava fazendo, uma mudança profunda. Claro, não desenhava enquanto estava chapado de LSD, era impossível. Apenas mudou a minha visão e percebi isso naquele momento. Mas não poderia analisar enquanto estava acontecendo. Foi um tempo muito louco. O LSD me deixou com aquela sensação ainda maior de irrealidade. Eu já era um sonhador, não tinha muito contato com a realidade quando era mais novo. O LSD realmente me deixou mais amistoso, creio eu, conseguia lidar melhor com a realidade. Produziu visões poderosas que afetaram meu trabalho artístico e toda minha visão de mundo profundamente. Me alterou em alguns aspectos. Para melhor ou pior, eu não sei. 

BD - Não tem uma opinião a respeito?
RC - Não sei, em alguns aspectos foi bom, em outros, não sei. Você sabe, algumas vezes você paga o preço por visões como essas, é uma situação muito clássica. Você tem que perder algo para ter uma visão poderosa como aquela. Faz você enxergar através dessas ilusões em que geralmente vivemos na maneira de ver o mundo. O LSD me ajudou a penetrar através daquilo, mas avariou meu cérebro, com certeza. (risos)

BD - Você falou que passava o tempo todo desenhando. Como era isso?
RC - Eu desenhava o tempo inteiro, sim. Comecei com esse ritmo aos 18 anos, estava me escondendo da realidade através do papel, das canetas. Passei meus anos enfiado no papel, basicamente. (risos) E quando fiquei conhecido em 68, 69, comecei a ter muito mais contato com outras pessoas. Eu era muito introspectivo, só desenhava. Casei e tudo, mas não estava no mundo, não participava, não era social. Aí fiquei conhecido e tudo mudou.

BD - O que mudou?
RC - As pessoas começaram a prestar atenção em mim, exigindo minha atenção. Se você é reconhecido por algo que fez, de repente as pessoas se interessam por você. Homens de negócio querem fazer dinheiro a partir de você. De repente, todas as pessoas queriam falar comigo, me procuravam. O telefone estava tocando, foi muito estranho. No início daquilo, eu era muito bajulado, estava impressionado com toda essa atenção. Depois fiquei muito confuso. Aquela merda pode te matar. Eu vi isso tudo matar as pessoas. Vi a fama matar Janis Joplin, ela não podia lidar com aquilo, foi demais. Aquelas pessoas o tempo todo em volta dela, não a deixavam sozinha, foi horrível, horrível o que aconteceu. Ela começou a tomar muitas drogas, bebia muito. O álcool e as drogas mataram Janis. Mas realmente foi a fama. Sou menos famoso que ela, felizmente. E ainda tenho algum tempo para mim mesmo, mas não como era antes. Quando se deixa de ser alguém obscuro e ignorado para ser conhecido, as pessoas querem sua atenção o dia inteiro, o tempo inteiro. Foi assim comigo em 1968. E foi ficando pior e pior, na verdade. (risos) Mas eu fiquei mais forte, mais resistente para lidar com aquilo. Comecei a dizer ‘não’ para as pessoas, ser capaz de identificar aqueles canalhas quando eles se aproximavam para fazer dinheiro em cima de você, tentando que você assine contratos, esse lixo todo.

BD - Essa foi uma das razões porque você se mudou para a França?
RC - Não, realmente não. Foi coisa da Aline mesmo. Ela estava altamente motivada em se mudar para a França. Confiei nela e não me arrependo. É bom morar na França. E os Estados Unidos, pfff...

BD - E você vai para lá algumas vezes?
RC - Sim, geralmente uma vez por ano. Tenho muitos amigos lá, meus irmãos, gosto de revê-los. Meu irmão Max, ele também é artista, um pintor muito bom. Muito estranho, muito louco, mas tem um trabalho artístico poderoso. Gosto de vê-lo, assim como os velhos amigos, como Terry Zwigoff e os outros músicos que tocavam no Cheap Suit Serenaders. A gente se encontra, toca essas músicas, mas não fazemos mais apresentações públicas. Parei de fazer isso.

BD - Não gosta mais?
RC - Eu nunca apreciei. Nunca gostei disso. (risos) Ficar sendo vigiado e observado. Gosto de tocar música. Agora aquelas multidões de pessoas me olhando sempre me deixaram muito nervoso. E me tratavam como músico, ficava tão nervoso que não conseguia tocar tão bem. Sempre toquei melhor quando estava sentado em um quarto com poucas pessoas. (risos)

BD - Você falou sobre seu irmão Max. Seu outro irmão, Charles, foi muito importante para que você começasse a desenhar quadrinhos, ainda criança. Gostaria que você falasse sobre esse momento, ainda criança, quando começou a fazer quadrinhos. O que desenhava, quais eram as inspirações?
RC - Meu irmão Charles era obcecado em quadrinhos...

[Neste momento um funcionário da pousada começa a fazer suco de laranja em uma máquina que emite um barulho alto e esquisito, semelhante às máquinas de cortar carne em açougues. Crumb não gosta de barulho, e começa a imitar o barulho do espremedor de suco.]

RC - Que barulho bizarro... Nhóóónn... Zuuurrrr... Uuuummrrrr... Então, estava dizendo... Ah, Charles era obcecado com quadrinhos e cartuns da Disney. Disney fascinava meu irmão e ele tinha uma imaginação muito vívida, muito mais vigorosa que a minha. Disney afetou-o profundamente quando era criança, ele ficou obcecado com aquele universo, vivia mais naquele mundo do que na realidade. Ele era mais velho que eu e foi uma grande influência para mim. Eu era uma criança muito vaga e passiva. (risos) E Charles desenhava o tempo todo e me fez desenhar também o tempo inteiro. E desenhar quadrinhos. Ele começou a desenhar quadrinhos com 6, 7 anos e me fez começar a desenhá-los também com 7, 8 anos. E era isso que fazíamos, desenhávamos quadrinhos, não estávamos interessados em mais nada. Vivíamos num mundo de quadrinhos e éramos inspirados pelo Pato Donald e outros quadrinhos populares na América naquele tempo – Luluzinha, The Funny Animal... Não estávamos interessados em super-heróis, esse tipo de coisa. Imitávamos aquilo, fazíamos centenas e centenas dos nossos próprios quadrinhos. Chegavam a formar pilhas e pilhas. E o que fazia quando criança, continuei a fazer quando me tornei adulto.

BD - Poderia falar sobre o livro do Gênesis, as dificuldades que teve para adaptá-lo e a maneira como aborda este texto sagrado?
RC - Foram quatro anos, um bocado de trabalho. E também um desafio para as minhas habilidades como desenhista. Eu realmente tive que melhorar minha habilidade, meu traço ao trabalhar nesta adaptação. E conforme minha destreza melhorava enquanto desenhava, as páginas iniciais começaram a parecer cruas, imperfeitas para mim. Então tive que voltar e fazer muitas correções nas primeiras páginas, melhorar a coisa toda. As roupas, as posições anatômicas dos corpos, tive que melhorar aquilo tudo. Nunca havia feito algo que demandasse tanta habilidade nessa área antes. Foi um bocado de trabalho.

BD - Pensou em desistir ou foi se interessando mais e mais por este trabalho?
RC - Acho que pensei em ambas as coisas. Algumas vezes ficava realmente cansado, mas não tinha como parar. Tinha que terminá-lo, uma vez que comecei não poderia parar no meio do caminho. E fui ficando interessado naquilo tudo, em todo o assunto, por muito tempo, anos e anos, profundamente interessado no começo da civilização, na Mesopotâmia, Babilônia, Suméria, Egito antigo, toda essa coisa. Estudei bastante aquilo. E especialmente interessado na primeira parte do Velho Testamento, a relação entre aqueles povoados da Mesopotâmia, os Hebreus, Gênesis, Êxodo. As histórias me encantaram, cheias de imagens que me seduziram e atraíram, que pediam para ser interpretadas como uma história em quadrinhos. Fui impelido a ilustrar aquelas histórias malucas. Mas entre essas histórias malucas havia muita coisa difícil de desenhar, como quando eles falam de todas as gerações e de quem elas descendiam. Aquilo foi difícil, fazer os rostos de todas aquelas gerações.

BD - E você ouviu críticas dos conservadores ou de gente que o acusou de ter profanado o texto sagrado?
RC - Nem tanto, não ouvi muitas críticas como esta. Ouvi, na verdade, mais críticas de fãs do meu trabalho, que falavam: ‘Crumb, por que você está fazendo isso? Você se vendeu, tornou-se religioso?’ Ouvi muito isso daqueles que amam aquelas coisas malucas e antigas, com muito sexo e drogas. Não entenderam por que eu estaria interessado em adaptar o Gênesis, que consideram chato. Eles não conseguem entender por que fiz isso. Essa tem sido a maior crítica que tenho recebido.

BD - Sério? Mas essas histórias são cheias de assassinatos, sexo...
RC - Mas eles não gostam da Bíblia, acham chato isso. (risos) Essa crítica veio bastante dos franceses e alemães, principalmente os alemães. Meu trabalho é bastante popular na Alemanha e eles curtem aquela coisa mais raivosa que fiz. Eles realmente não gostaram do GÊNESIS. E também alguns fãs da América do Norte. Você não pode agradar a todos. Mas está vendendo bem na França, Estados Unidos, Espanha...

BD - E você tem algum personagem que mais gosta?
RC - Eu gosto da Devil Girl, ela é engraçada, me diverti muito com ela. (risos)

BD - Está trabalhando em algo neste momento?
RC - Não, não estou com um grande projeto em andamento. Apenas coisas pequenas. Tem um grande projeto que quero fazer com Aline, um grande álbum em colaboração com ela. Mas apenas começamos a idealizá-lo.

BD - E sua filha também desenha quadrinhos...
RC - Sim, desenha. Ela desenhou quadrinhos quando era mais nova, mas parou agora.

BD - Por quê?
RC - Ela fez uns quadrinhos, publicou e teve muitas críticas na internet de fãs de quadrinhos que a acusaram de ter conseguido publicar por ser minha filha. E isso a desencorajou. Ela ainda desenha, mas não faz mais quadrinhos. Eu a entendo por ter largado os quadrinhos. Ela é uma artista muito boa, realmente boa, mas isso de ser minha filha, filha de alguém conhecido, é algo difícil de lidar.

BD - Posso imaginar. E que quadrinhos você gosta de ler hoje?
RC - Daniel Clowes lançou um álbum incrível, WILSON [Drawn & Quarterly, 2010]. É ótimo. Gosto do trabalho do Joe Sacco, é incrível. Você conhece o trabalho dele?

BD - Sim, muito bom.
RC - Você já viu aquele que Sacco publicou recentemente, FOOTNOTES FROM GAZA?

BD - Vai sair aqui c/ o título NOTAS DE GAZA, pelos Quadrinhos da Cia. [selo da Cia. das Letras, já lançado]...
RC - É um grande livro. É incrível o que ele faz, incrível. É muito político, engajado na defesa dos palestinos, e muitas pessoas não gostam disso, mas é um grande trabalho. E tem outros bons quadrinhos saindo. É um bom período para os quadrinhos, o que vivemos.

BD - E como você vê o seu trabalho contribuindo para isso, se é que vê?
RC - Claro. Os anos 60 nos Estados Unidos foram um período culturalmente muito significante. Grandes mudanças aconteceram e aquilo foi o começo dos quadrinhos profundamente e verdadeiramente pessoais. Quadrinhos não mais apenas como uma mídia popular, mas algo onde você podia ser tão personalista quanto desejava, e arranjar pequenas editoras que chamavam ‘underground’, mas que na verdade não eram realmente underground. Eram pequenas editoras, que editavam qualquer coisa em 1969, 70, 71, 72. Eles publicavam qualquer coisa, e a maioria dos quadrinhos eram muito ruim. Se você olha para eles agora, são ilegíveis, incoerentes. As pessoas totalmente chapadas não conseguiam contar uma história. Mas era um tempo muito solto e livre e que realmente mudou a coisa toda a respeito dos quadrinhos, até então algo estritamente comercial, apelativo, envolvido com essa mídia de massa. E nós estávamos interessados em algo profundamente pessoal, inventivo, onde as pessoas experimentavam todo tipo de coisa alucinada e usavam os quadrinhos como um meio de expressar isso. Depois veio um período entre os 70 e os 80 que tinha um público pequeno para isso. Mas as pessoas persistiram e agora tem um grande público interessado. Um dos grandes responsáveis por isso é Art spiegelman. Ele teve um enorme público quando publicou MAUS [lançado originalmente em duas partes – 1986 e 1991 – e vencedor do Prêmio Pulitzer de literatura; saiu no Brasil em 2005 pela Cia. Das Letras]. E Spiegelman é muito bom em autopromoção, promove a si mesmo e o seu trabalho. Então ele teve um monte de publicidade por aquilo, um monte de resenhas e comentários sobre MAUS. E também por conta da questão judaica, ele teve bastante atenção, e se criou uma atitude diferente, as pessoas começaram a olhar para os quadrinhos como algo mais sério, onde você podia fazer longas graphic novels. Você podia fazer um longo livro só com quadrinhos. E editores de verdade estavam lançando estes álbuns. É isso o que acontece agora, e eles vendem bem, então grandes editores estão prestando atenção nisso.

BD - Você desenha todos os dias?
RC - Não mais. Coloquei tanta tinta por debaixo da ponte... Acho que não tem mais nada de mim para botar pra fora [“I think I’ve drawn myself out”, disse Crumb]. (risos)”

ANTI-HERÓI AMERICANO

"Não estou aqui para ser educado!"
 “Sou um artista do séc.XIX. Gosto de papel e tinta.
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 Os Três Patetas são populares aqui? Isso me faz respeitar muito mais o Brasil!
 Gilbert Shelton - Quem você gostaria que te interpretasse num filme?
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GS - Eu queria ser interpretado pelo Clint Eastwood.
RC - Mel Gibson para mim, então.