quinta-feira, dezembro 30, 2010

CONTAGEM PROGRESSIVA


Nada à sua volta/ sendo o tempo/ o que irá te levar/ sem saber/ onde quer chegar”...

Hoje à noite acontece a Festa da Antevéspera no Capitão Cook, o barzinho mais rock’n’roll de Aracaju. A balada terá 2 DJs e 2 dos melhores grupos já surgidos por essas bandas: Snooze e Plástico Lunar.

Snooze é a marca dos irmãos Fabinho Oliveira & Rafael Jr., respectivamente vocal/baixo e bateria – cozinha azeitada pela convivência de uma vida inteira e quase 20 anos na estrada. São 3 discos lançados, cada um c/ uma formação. Atualmente os irmãos Snoozers contam c/ Luiz Oliva na guitarra [da banda instrumental Perdeu a Língua] e um carinha da orquestra sinfônica nos teclados. Indie rock da melhor qualidade.

Plástico Lunar também é uma banda de família. No caso, os irmãos Daniel Torres, vocal e guitarra base, e Plástico Jr., vocal e contrabaixo. Completam o combo o lendário batera Marcos Odara [Crove Horrorshow], o tecladista Léo Airplane [Naurêa, Banda dos Corações Partidos etc.] e o guitarrista Júlio Andrade, o Julico da Baggios, responsável pelos insanos solos.

A noite vai ser boa, sou amigo dos 2 grupos. Há duas semanas gravei um programa de TV c/ Daniel, e de lá saímos p/ beber num boteco de esquina da zona oeste – eu, ele, Adelvan K. do Programa de Rock, Maicon Stooge da Swamp Beat Brothers, e Karl di Lyon da Mamutes.

Eu, particularmente, acho que a Plástico é uma banda c/ composições muito ricas, cada membro da banda compõe do seu jeito”, diz Julico: “Eu faço meus sons mais hendrixianos; o Júnior puxa mais pro progressivo; Daniel já é um cara mais baladeiro, que também explora muitos riffs e melodias psicodélicas sessentistas, e por aí vai. Cada música é uma história. Acho que isso torna um disco ou um show menos cansativo.

Conheço Fabinho e Rafael Jr. desde que éramos adolescentes – Rafael foi meu parceiro no zine Cabrunco – e Luiz é meu colega de trabalho na Aperipê. Da Plástico eu me aproximei depois de co-dirigir o clip de Gargantas do Deserto, do álbum Coleção de Viagens Espaciais, de 2009.

Lançado em dezembro do ano passado numa sessão de cinema, nosso clip foi muito criticado por algumas pessoas daqui por não contar uma história nem ter efeitos de transição. Mas essa era a idéia – som no talo sem frescura. Como disse meu amigo belga Damien Chemin, diretor dos filmes Rendez-Vouz e La Monique de Joseph:

Quem non gostar desse clípê é porque non gosta de rrrock!


quarta-feira, dezembro 29, 2010

FLORES 

É um sonho! Eu venho pro Hawaii há tanto tempo e este é meu lugar favorito no mundo, as ondas, as pessoas, tudo!

No dia 16 de dezembro o francês Jeremy Flores venceu o Billabong Pipeline Masters in Memory of Andy Irons, última etapa do reformulado circuito mundial de surf. Foi a 1ª vitória de um europeu no World Tour da ASP, e também a 1ª dele na divisão de elite.

Flores na verdade nasceu nas Ilhas Reunião, possessão francesa no continente africano. Venceu o circuito WQS em 2006 e estreou no WT no ano seguinte, quando fez uma das melhores temporadas de estréia de um novato e terminou em . Durante duas temporadas seguidas terminou entre os Top 10, mas nos últimos 2 anos não vinha arrumando nada.

Até o segundo semestre deste ano. Duas semifinais – Tahiti e Portugal – e a inédita vitória no Havaí o levaram ao 9º lugar no ranking final deste ano. “Tenho surfado em todo tipo de condições, onda pequena ou grande, competindo em 3 baterias por dia, e finalmente encontrei o ritmo certo”, disse no pódio em Pipe. 

Jeremy é muito jovem, 22 anos, faz parte da mesma geração de Adriano Mineirinho e Jordy Smith, e namora há alguns anos c/ a surfista brasileira Bruna Schmitz, 19. Seu surf é mais baseado em estilo do que agressividade, e no Masters deste ano soube usar seu porte franzino p/ se encaixar nas paredes apertadas do Backdoor.

Mais uma vez a esquerda de Pipe quase não bombou – o que tem sido uma constante nos últimos anos – favorecendo os regular footers, como o vicecampeão Kieran Perrow e os 3ºs colocados Dane Reynolds e Kelly Slater.

Aos 38, Slater continua dando no couro. Não bastasse garantir o absurdo 10º título mundial c/ uma etapa de antecedência, deu seu show particular, finalizando tubos c/ cutbacks emendando em batidas verticais de backside. O único a arrancar nota 10 dos juízes no último dia. Só parou no Jeremias.

O australiano Joel Parkinson, 29, definitivamente recuperado do rasgo no pé, sagrou-se tricampeão da Triple Crown. No feminino Stephanie Gilmore, 22, levou seu 4º título mundial consecutivo em 4 temporadas disputando o WT feminino – fenômeno.

Realizado pela 1ª vez em Pipeline, o Vans Duel for the Jewel, última etapa do circuito das mulheres, foi vencido pela revelação australiana Tyler Wright, de apenas 16 anos, que também ficou c/ o carro oferecido ao melhor novato na tríplice coroa. Ou, no caso, à melhor novata.

Eu nem sabia que estava na disputa desse título”, disse Tyler, que nem tem idade p/ dirigir ainda. “Legal demais! Eu já tinha surfado Pipe umas duas vezes e eu amo esse lugar, você pega uns tubos grandes. Foi muito divertido competir aqui e eu acho que é isso que importa.
STEPHANIE GILMORE, 4 TÍTULOS MUNDIAIS EM 4 ANOS
JEREMIAS BATE CORNER E AINDA CABECEIA PRO GOL
FALTOU POUCO P/ SLATER FAZER SUA 7ª FINAL NO ANO
DANE REYNOLDS NÃO SABE VENCER MAS SABE DAR SHOW
OWEN WRIGHT, ESTREANTE DO ANO NO CIRCUITO MUNDIAL
BANCADA DE PIPELINE: É AQUI QUE AS ONDAS QUEBRAM


Dusting Off Backdoor from MSW Six Weeks North Shore on Vimeo.

terça-feira, dezembro 28, 2010

ONDULANDO  
A MELHOR FOTO E A MAIOR ONDA DE SURFISTAS SERGIPANOS EM 2010 
Semana passada aconteceu a premiação dos Melhores do Ano no surf sergipano em 2010. Terça-feira, 21/12, no auditório do Sebrae, reunindo várias gerações. Apresentado por Saulo Morais, o maior campeão local dos anos 80 e shaper das pranchas World Lines, o evento inédito foi [mais] uma iniciativa do site Ondulação, de Leonardo Menezes.

C/ apenas 28 anos, Léo é o atual presidente da Federação Sergipana de Surf e o único videomaker nordestino no ramo. Seu site recebe uma média de 100.000 acessos mensais e oferece fotos, notícias, reportagens, vídeos e previsão das ondas. “Não sou de ficar parado”, diz, “escrevo, filmo, crio, desenvolvo, talvez por isso tenha escolhido a publicidade p/ me formar. Gosto da criatividade.

Seu caráter agregador conseguiu reunir desde surfistas como o master Edson Papagaio – há 2 anos invicto em sua categoria aqui no estado – e o longboarder Robson Fraga – vicecampeão brasileiro de pranchão – até skatistas como Armando Badá e JN Charles, e empresários como Bobô Cruz, meu ex-sócio no ROCK-SE, o 1º festival nacional de rock realizado em Aracaju, em 1998, c/ nomes como Eddie, Mechanics, Pin Ups, O Rappa e Marcelo D2.

Foram contempladas 16 categorias. As mais aguardadas pelo público eram, obviamente, as de foto e vídeo. A fotografia escolhida como a melhor foi de Carlos Coelho num tubo em Off-The-Wall, e a maior onda surfada foi em Sunset, por Bruno Leonel. Os veteranos Crisley Lima e Robério Pezão [foto ao lado] concorreram nas duas categorias, mas não por acaso as fotos vencedoras foram todas feitas no Havaí – lá as ondas têm outra proporção.

Robson Fraga, o Siri, foi o atleta do ano; Alexandre Mendonça, o melhor juiz; Cláudio Tady, da Seqüência, o melhor shaper; e por aí afora. Destaque p/ o prêmio especial dado a Thiago Bastos Cunha, das pranchas TBC. Sergipano radicado no Rio de Janeiro há duas décadas, Thiago criou um albergue p/ surfistas pobres nordestinos em sua fábrica e revelou os cearenses Pablo Paulino – bicampeão mundial jr. – e Silvana Lima – vicecampeã mundial no surf feminino.

Eu fui indicado em duas categorias: crônica – c/ Desenhando Ondas e Uma Onda, Uma Bunda – e texto jornalístico – c/ Adeus às Armas e O Punk Rock Não Morreu. Não levei nenhuma. A melhor reportagem foi Surfista Precisa Surfar e Pescador Precisa Pescar, de Cláudio Mecenas [à direita], sobre redes de pescas que vêm matando surfistas e banhistas na Atalaia. Merecido.

As melhores crônicas, empatadas em número de votos, foram A Derrota e Namorada de Surfista, ambas de Léo Menezes, organizador da festa e grande campeão da noite. Além de cronista, ele foi eleito a personalidade do surf sergipano em 2010 e ainda levou os 2 prêmios de vídeo. Nada mais justo p/ o pioneiro em filmes de surf no estado. Em 2007 Léo lançou seu 1º trabalho, Merrecas, no ano seguinte veio o Identidade e este ano foi a vez de 3D5, enfocando os talentos de Porto de Galinhas – Halley Batista, Júnior Lagosta, César Molusco etc.

O surf no estado estava muito parado, não tinha nada, muito na mesmice. Falo isso no cenário nordestino também. Foi quando Geraldo Cavalcante criou o Nordestino Pro e movimentou a região. Mas faltava algo. Via filmes nacionais do sul que só mostravam surfista de lá, desvalorizando os nordestinos, foi quando tive a idéia de fazer um filme sergipano e um filme destacando os nordestinos. Surgiu então o MERRECAS e o IDENTIDADE. Tem 2 anos que viajo bastante, passo quase a metade do ano viajando por diversas praias do litoral brasileiro. O Ondulação é conhecido no Brasil todo, faço a cobertura dos grandes eventos por isso tenho uma boa abertura nesse meio do surf, e sempre faço questão de levar o nome de Sergipe por onde vou. Faço um trabalho de treinamento e vídeo com alguns dos melhores surfistas profissionais do Brasil, sempre evoluindo e descobrindo novos horizontes, sempre aprendendo. Estive durante essas viagens no Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Alagoas, Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina.

Além de tudo que já foi dito, graças a ele foram realizadas pela 1ª vez em Sergipe etapas dos 
circuitos regionais amador e profissional. Não bastasse tamanho empreendedorismo, o cara ainda é generoso. Deu o troféu de melhor vídeo de free surf – que ele venceu c/ o perfil de Valmir Neto, o mais talentoso surfista que já surgiu por essas praias – p/ o amigo Diogo Lemos [foto], que concorreu c/ o clip Contra Ratos Não Existem Argumentos, realmente muito legal.

O de melhor vídeo competição, vejam só, fez questão de dividir comigo. Foi antes mesmo do Rato. Era o 3º prêmio que Léo ganhava aquela noite, e p/ minha surpresa ele começou a falar: “Agradeço a quem votou em mim, mas gostaria de dar esse troféu a um cara que eu acho que deveria ter ganho c/ a melhor crônica. Ele escreve muito e tem até uma coluna lá no site. Adolfo, sobe aqui!

Enquanto eu caminhava pro palco, o mestre de cerimônias Saulinho seguia apresentando c/ seu bom-humor habitual: “Cara, é você que escreve aqueles textos?! Juro que não liguei o nome à pessoa, achei que fosse um jornalista do Rio, São Paulo...” Heheh. Como eu sempre tive mais talento p/ a comédia do que pro surf, fui lá e contei umas piadas:

- Vou guardar o prêmio, mas ele é seu, Léo, pode pegar de volta quando quiser. [risos] ...Esse é o segundo troféu que ganho no surf. O outro foi no estadual de tag-team em 91, um campeonato por equipes. Eu tinha 16 anos e competi na categoria júnior. Eram apenas 2 times, e o nosso ficou em 2º lugar.

Platéia explode em gargalhadas.

Se uma das novas modas do surf é o stand-up paddle [onde o surfista fica o tempo todo de pé c/ um remo em uma prancha semelhante a um barco], eu já posso emplacar no stand-up comedy. Dediquei o prêmio ao meu irmão Nando, que teria feito 33 anos no dia anterior [20/12] caso vivo estivesse, e à minha esposa Gil, que estava lá me acompanhando.

Acho que sou o único cara que ganha quando perde.
 "CONHECEM AQUELA DO SURFISTA PORTUGUÊS?"
CRISLEY LIMA E ROBÉRIO PEZÃO FORAM OS ÚNICOS A
CONCORRER NAS DUAS CATEGORIAS DE FOTOGRAFIA


Leonardo Menezes - Identidade from Viva La Brasa on Vimeo.

sábado, dezembro 25, 2010

DEBUTANTE SONORA


Sou eu um transistor/ Recife é um circuito/ O país é um chip/ Se a Terra é um rádio/ Qual é a música?

Sábado, 17/12, rolou Mundo Livre S/A em Aracaju. O show fez parte da comemoração dos 15 anos da Aperipê FM, que aconteceu no Parque da Sementeira c/ 8 atrações diferentes em um evento gratuito a céu aberto.

A 104.9 é a FM que mais investe na música local, chegando a dedicar 1 dia inteiro a cada mês p/ tocar apenas artistas nativos – como a excelente banda instrumental Café Pequeno, que abriu a noite; a molecada da Cabedal, que tocou em seguida o seu samba rock; o veterano Edelson Pantera e sua MPB c/ influência de bossa nova [tocou acompanhado do filho, João Mário, baixista da Renegades of Punk]; a sanfona de Cobra Verde, que esteve recentemente na França mostrando seu forró pé-de-serra aos europeus; ou o rock cru [e extremamente bem tocado] do duo The Baggios.

Eu já vim ao aniversário como espectador, e agora estou como convidado”, disse Julico, que além de cantar e tocar na Baggios também é guitarrista da Plástico Lunar. Ele refere-se às edições anteriores da festa, que trouxeram à cidade DJ Dolores [2007] e Mutantes [2008]. “É uma grande oportunidade participar de uma festa assim, cheia de gente e em um lugar muito bonito. Sergipe é riquíssimo de bandas boas, e a idéia da Aperipê em reunir esses ritmos diferentes foi bem legal, até p/ atingir e agregar um público como esse, p/ que eles tenham conhecimento do que tem sido feito de música por aqui.

Quem também estava debutando era a cantora Patrícia Polayne. Revelada em 1995, quando venceu o festival de música da UFS, ela vem construindo uma carreira sólida ao longo desses 15 anos no underground. Em 2009 lançou seu aguardado 1º disco, O CIRCO SINGULAR, gravado em Pernambuco, e no final do ano venceu o festival nacional das rádios públicas [ARPUB] c/ a canção Arrastada. Há apenas 1 mês, apresentou-se no Itaú Cultural em São Paulo.

Atriz, compositora e dona de uma voz sutil que alcança notas altas, Patrícia conquistou a audiência c/ seu repertório refinado e forte presença cênica. “É sempre uma emoção muito grande comemorar junto c/ a Aperipê essas conquistas. São quinze anos lutando p/ manter viva uma identidade musical aqui em Sergipe. A festa está bem representada, c/ todos os ritmos dessa diversidade musical sergipana. Está sendo uma noite muito linda, muito mágica.

Os shows de sábado fizeram parte da extensa programação de aniversário da rádio. Palestras, oficinas e uma balada eletrônica na sexta-feira antecederam o evento – Global Beats, c/ os DJs Dolores, Kaska, Patrick Tor4 e o alemão Axe.l, do Globalibre World Club Culture. A TV também incluiu várias atrações vinculadas à FM p/ o fim de ano, como a exibição dos melhores momentos do Festival Aperipê de Música e do Aniversário de 15 anos. Além de uma estréia.

Diariamente no ar das 14 às 16h, o Sonora é uma revista musical que “divulga a música pop em todas as suas vertentes, dando destaque aos artistas que estão fora da mídia”, segundo a própria apresentadora do programa, Flávia Lins, radialista carioca radicada em Sergipe. Hoje, às 19h, será seu debut na TV, na versão do Sonora dirigida por mim c/ os clipes produzidos pela Aperipê em 2010. C/ seu cabelo afro estiloso e dicção de locutora, a Flávia ficou muito bem na tela e tem tudo p/ emplacar na grade de programação em 2011.

O especial c/ os shows de 15 anos da 104.9 irá ao ar na próxima sexta, dia 31. Quem não viu ao vivo terá a chance de conferir a passagem da seminal Mundo Livre S/A por Aracaju após um hiato de mais de 10 anos. “Fazia muito tempo que a gente não tocava aqui, e certamente esse foi o show em Aracaju que a gente teve a melhor estrutura”, elogia Fred Zero Quatro, líder da  banda e co-autor do manifesto Caranguejos com Cérebro ao lado de Chico Science e Renato L.

Mais bacana por ser aberto ao público e c/ essa divulgação de uma rede pública”, diz Fred sobre o festival. “Com certeza, a melhor visita que a gente já fez a Aracaju na história. Foi um público novo que a gente pegou, e foi uma oportunidade de atrair e diversificar ainda mais o nosso trabalho.” Os caras não tocavam aqui desde 1999, no Cultart. Já haviam tocado em 96 no Little Hell e em 95 no Batata Quente, quando Otto ainda estava na banda.

Da 1ª vez que estiveram na cidade, eu editava o Cabrunco e entrevistei Zero Quatro p/ a 4ª edição do zine. Bebendo cerveja num quiosque da praia de Atalaia, ele contou a mim e a Márcio de Dona Litinha como surgiu o movimento em Recife:

A gente teve a idéia de vender a cena contendo todo um conceito, com manifesto, vocabulário, visual próprio... [...] temas definidos, tentando vender um outro lado do Recife que não aparece na mídia, o lado da pobreza, da miséria, da quarta pior cidade do mundo, tudo fechado em torno de uma nova cena que a gente quis mostrar. A gente sabia que, como Recife não estava no circuito tradicional do pop, fora do eixo de produção, de difusão de informação, então pra se chegar num esquema de cavar espaço na mídia nacional tinha de ser uma coisa muito mais trabalhada, um movimento mesmo. Aí eu tirei essa onda de MangueBit. Eu fiz uma música inspirada em Manguetown, de Chico, que [...] era um hino do movimento, tinha um refrão bem legal, umas palavras-chave. ‘Mangueeetown!’, acho bem legal, assim... Aí eu: ‘pô, o Mundo Livre tem que ter seu hino também, relacionado ao mangue. Eu vim com essa de ‘Manguebit’, já tinha uma frase da música, tava precisando de um refrão, então eu encaixei isso, já sabendo que ia dar rolo [risos], dar esse mal-entendido, manguebit com beat, batida, e pá... Mas eu tava a fim de criar essa polêmica. O interessante é você saber lidar com a psicologia da mídia, pra poder tirar o máximo de proveito do que ela tem de mais perverso, desse lado meio escroto. E acho que a gente conseguiu chegar no objetivo. Banda de periferia, sem um puto no bolso, foi gravar um disco com cavaquinho e duas congas na mão, saca? Chegou pra gravar em São Paulo sem nada, mas conseguiu, sacou? Coisa que muita gente batalha a vida inteira, não consegue e acaba desistindo. E a partir daí as coisas estão ficando mais fáceis pra quem ta começando a batalhar.

Fica a dica p/ a cena local: “Não espere nada do centro/ se a periferia está morta/ pois o que era velho no norte/ se torna novo no sul”, como diz a letra de Destruindo a Camada de Ozônio.

Numa noite de Woodstock na Sementeira, c/ famílias & malucos em harmonia no gramado à beira do lago, Mundo Livre S/A brindou os ouvintes c/ as clássicas dos seus 2 primeiros discos, SAMBA ESQUEMA NOISE de 94 e GUENTANDO A ÔIA de 96. Sons como Livre Iniciativa, Musa da Ilha Grande, Free World S/A e a versão meio Kraftwerk p/ Eu Só Poderia Crer levantaram geral, mas nada comparado ao coro em Pastilhas Coloridas. O astral subia junto c/ o cheiro de mato queimado enquanto todo mundo chapado cantava junto:

...“Amigos nas farmácias/ e quando a erva faltava/ qualquer droga era boa/ qualquer droga era booooaaaa”...

15ANOS_APFM
 CABEDAL FOI UMA DAS BANDAS DE ABERTURA...
...NA NOITE EM QUE A SEMENTEIRA LEMBROU WOODSTOCK
DEON DO LACERTAE, BANDA PSICODÉLICA DE LAGARTO/SE
THE BAGGIOS EXPLODINDO OS AMPS C/ SEU BLUES ROCK
MUNDO LIVRE S/A DESTRUINDO A CAMADA DE OZÔNIO
SONORA: EDIÇÃO ESPECIAL VAI AO AR HOJE NA AP.TV
http://aperipe.swapi.uni5.net/

sexta-feira, dezembro 17, 2010

W DE VINGANÇA  

Inimigo público nº 1. O homem mais perigoso do mundo.

É o que o australiano Julian Assange se tornou desde que seu site WikiLeaks começou a divulgar 251.287 segredos de Estado, telegramas de embaixadas e demais documentos comprometedores, em 28 de novembro. Procurado na Suécia por supostos crimes sexuais, Assange foi preso na Inglaterra dia 07 de dezembro e libertado ontem sob fiança.

O WikiLeaks está há 4 anos no ar. Lançado durante o Fórum Social Mundial de 2007, no Quênia, c/ o objetivo de tornar públicos arquivos secretos de regimes opressores como China, Coréia do Norte e países da África Subsaariana e do Oriente Médio, “sem deixar à margem as condutas pouco éticas do Ocidente”, o site começou a receber colaborações de várias partes do mundo, tornando-se fonte segura p/ o tráfego de informação.

Já havia divulgado dados sigilosos da Guerra do Afeganistão e mensagens pessoais da ex-candidata a presidente dos EUA, Sarah Palin. No início deste ano, divulgou um vídeo de 39 minutos feito a partir de um helicóptero no Iraque em 2007, mostrando soldados americanos matando 12 pessoas, entre elas 2 jornalistas da Reuters. Foi aí que a chapa começou a esquentar p/ o lado de Assange.

Filho de artistas mambembe, o fundador do WL não recebeu educação formal e montou seu primeiro portal em 1987, aos 16 anos. Aos 20 tornou-se hacker, e durante a década de 90 invadiu os sistemas da Universidade Nacional da Austrália, do Royal Melbourne Institute of Technology e da empresa de telecomunicações canadense Nortel. Acusado de 20 delitos na Austrália, foi condenado a pagar multa de $2.100 dólares sob a condição de não voltar ao crime.

Lançou em parceria c/ a acadêmica Suelette Dreyfuss o livro Underground, um best-seller. Em 2006, aos 35, abandonou a faculdade de física p/ se dedicar ao seu mais ambicioso projeto. Como todo site hospedado dentro da plataforma Wiki, o Leaks é baseado na horizontalidade, ou seja, o serviço é gerenciado por colaboradores e mantido por doações. Assange é apenas a ponta do iceberg.

O WikiLeaks não é uma organização de hackers. É uma editora e uma empresa jornalística”, disse a advogada Jennifer Robinson, enquanto seu cliente esperava a decisão da Justiça inglesa. O processo contra Assange foi aberto em agosto por duas mulheres identificadas apenas por Miss A e Miss W. A primeira acusa-o de ter estourado a camisinha de propósito durante um encontro na cidade sueca de Enkoping. A outra afirma ter sido abusada enquanto dormia, após uma noite de amor na mesma cidade.

A Corte de Estocolmo expediu um mandato de prisão e extradição, a cargo da Interpol. Libertado provisoriamente, Assange disse que “se nem sempre se alcança a justiça, ao menos ela ainda não está morta”. Jornais respeitados como o inglês The Guardian, o alemão Der Spiegel, o francês Le Monde, o espanhol El País e até o americano New York Times continuaram a publicar novos documentos expostos pelo site, e alguns foram mais longe.
 
Segundo o Guardian e o Monde, a prisão por estupro não passa de uma manobra p/ extraditá-lo p/ a América, onde seria julgado por espionagem. Enquanto a lei inglesa não permite a extradição, EUA e Suécia têm um amplo acordo de colaboração internacional nessa área e, uma vez em território sueco, seria o fim de Julian Assange. “Há um rumor de que haveria uma acusação formal apresentada contra mim pelos americanos”, disse na coletiva de imprensa em Londres.

O vazamento de informações sigilosas até agora funcionou de forma iconoclasta – não poupou ninguém. Ditadores foram ridicularizados por embaixadores: Robert Mugabe, do Zimbabue, “perdeu o contato com a realidade”, o nortecoreano Kim Jong-Il é “uma criança mimada” e Hugo Chávezlate mais do que morde[palavras do ministro brasileiro Celso Amorim]. P/ a embaixada americana na Rússia, “Medvedev é o Robin do Batman Putin”. O rei Abdullah, da Arábia Saudita, pede que uma intervenção ocidental no Irã, que nos faz de escudo político em seu projeto atômico.

Em mensagem confidencial de 2005, o embaixador americano no Brasil acusa que a presidente eleita – então ministra da Casa Civil Dilma Rousseff de organizar 3 assaltos a bancos e planejar o roubo ao cofre do ex-governador de SP Adhemar de Barros. A operação, creditada à Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, teria rendido US$ 2 milhões.  O atual presidente Lula não vê problema no site. “A Dilma tem que falar pra os seus ministros que se não tiver o que escrever, não escreva nada. Não escreva bobagem. Daí aparece o tal do WikiLeaks e desnuda essa diplomacia”, falou bonito durante o balanço do PAC.

Se as revelações do WikiLeaks expuseram ao ridículo tantos governos autoritários – que nem por isso se manifestaram ou sequer ameaçaram o site ou seu fundador – por que despertaram tanta fúria nos EUA, onde a rede de TV americana Fox News chegou a sugerir que Assange só será detido “cortando-se a cabeça”, parafraseando o rei Abdullah?

O documentarista Michael Moore, cineasta mais incômodo da atualidade, foi uma das personalidades que se juntaram na vaquinha equivalente a $640.000 reais [240 mil euros] p/ libertá-lo, e tem uma resposta. Ou pelo menos uma hipótese: “O que eu peço é que não sejam ingênuos sobre como o governo trabalha quando decide ir atrás de sua presa. Por favor, jamais acreditem na ‘história oficial’. Franqueza, transparência, estas são as poucas armas que a cidadania tem para se proteger dos poderosos e corruptos.

Moore ofereceu seu site, servidores e domínios na internet p/ “ajudar a manter com vida e em desenvolvimento o WikiLeaks enquanto continuar com sua tarefa de expor os crimes que foram tramados em segredo e feitos em nosso nome e com o dinheiro de nossos impostos.” Crimes como o tráfico de armas c/ o Uzbequistão na ‘Guerra ao Terror’ ou a corrupção do governo implantado pelos EUA no Afeganistão.

A oferta de ajuda surgiu dos problemas que o WL vem enfrentando p/ manter-se no ar. Depois de ter seus serviços suspensos na Amazon.com, o site de Assange migrou p/ um servidor protegido num bunker subterrâneo sueco dos tempos da Guerra Fria e refugiou-se no domínio .ch do Partido Pirata da Suíça. As retaliações continuaram. O sistema de pagamentos PayPal e o PostFinance dos correios suíços suspenderam a conta do Leaks. Em seguida, Visa e Mastercard pararam de processar as doações financeiras sob o pretexto de que seus clientes não podem envolver-se em “operações ilegais”.

A resposta veio em forma de contra-ataques on-line e manifestações nas capitais. “Fire now” foi a deixa p/ o bombardeio de acessos que tirou do ar os sites da Amazon, Mastercard, Visa, PayPal, PostFinance e Moneybookers durante horas na última semana. A autoria é do grupo Anonymous, que tem em torno de 3 mil integrantes conectados em todo o globo.

A arma é o LOIC, sigla p/ “low orbit ion cannon” ou canhão de íons de órbita baixa, que nada mais é do que um programa que tenta repetidamente conectar-se ao servidor alvo. O efeito amplificado por milhares de internautas causa uma sobrecarga no sistema do serviço acessado. Sem querer, os Anonymous também ajudaram a criar um neologismo político-tecnológico: ‘hacktivista’, um hacker c/ ideais.

Eu acredito na liberdade de expressão, acho o WikiLeaks fantástico, e deve crescer muito mais, há coisas a serem reveladas”, diz um brasileiro que participou dos ataques. “Ele divulga informações anônimas concretas, tem o poder de mudar a geopolítica mundial. Me uni aos ataques por curiosidade e vi que funcionam. Não custa nada deixar o PC fazendo o trabalho.” Os perfis do grupo no Twitter, c/ mais de 20 mil seguidores, e no Facebook, c/ 10 mil fãs, foram cancelados.

Anonymous é uma legião”, diz Gregg Housh, um dos anônimos [já não tão ‘anônimo’ assim]. Eles são simpatizantes de causas como o Pirate Bay e o próprio WikiLeaks, e têm experiência de investidas bem-sucedidas contra a indústria fonográfica e a Igreja da Cientologia. “Se for possível chamar de guerra o conflito entre as iniciativas pró e anti WikiLeaks, que resultam em vários ataques de negação de serviço e, portanto, na queda de websites, o servidor de bate-papo IRC do grupo Anonymous pode ser considerado um quartel”, escreveu Altieres Rohr p/ o G1.

A revolução digital começa aqui”, gritavam os 50 manifestantes reunidos em Hyde Park , EUA. “Pela liberdade, não ao terrorismo de estado”, diziam os cartazes em Madri e Barcelona. Jovens de vários continentes saíram às ruas p/ protestar contra a prisão de Julian Assange. Lisboa, Amsterdã, São Paulo, Buenos Aires, Tóquio, Hong Kong. Todas as grandes cidades responderam à convocação do movimento Free WikiLeaks. Paralelo à guerrilha virtual, protestos violentos eclodiam na Inglaterra e na Itália contra o aumento nas taxas de empréstimo estudantil cobradas pelas universidades.

Pirata digital? Terrorista virtual? Anarquista cibernético? Espião internacional? Até Assange se tornar uma mistura de anti-herói e pop star, o americano Kevin Mitnick era o maior nome da cultura hacker. Pioneiro do ramo quando a internet era só um embrião, Mitnick invadiu computadores de empresas de tecnologia, operadoras de celular e provedores de rede; acabou preso em 1995, libertado em 2000 após pagar fiança de $64 mil dólares, passou mais 3 anos sem poder se conectar, e hoje tem uma empresa de consultoria de segurança na web, a Mitnick Security.

Julian Assange está numa propriedade rural inglesa – na verdade uma mansão vitoriana – sendo monitorado eletronicamente enquanto aguarda o julgamento. “Do you want to know a secret?”, seria a manchete da capa da Time em que apareceria c/ uma bandeira dos EUA amordaçando sua boca. Ele foi o mais votado pelos leitores americanos na tradicional escolha do “Man of the Year”. Num inédito gesto de autocensura, a revista preferiu premiar Mark Zuckerberg, o espertalhão dono do Facebook.

Zuckerberg recebeu 18 mil votos. Assange, 382 mil. A revolução digital já começou.

OPERATION: PAYBACK
 HACKERS FRANCESES PREPARAM O ATAQUE...
 ...USANDO O CANHÃO DE ÍONS DE ÓRBITA BAIXA...
...E LOGO SITES SAEM DO AR, COMO O DA MASTERCARD...
...ENQUANTO JOVENS PROTESTAM PACIFICAMENTE NA CHINA...
...E OS EUROPEUS QUEBRAM TUDO NA ITÁLIA E NA...
...INGLATERRA, FAZENDO VALER A MÁXIMA DE HAKIM BEY:
"A IDÉIA NÃO É MUDAR A CONSCIÊNCIA, É MUDAR O MUNDO"