sábado, janeiro 01, 2011

QUINTETO IRREVERENTE  

TONY CURTIS CURTE MADONNA ENQUANTO MICK JAGGER SEGURA VELA

Todo ano nasce, todo ano morre gente. É o ciclo da vida. “Viver para sempre não é sonho assim tão distante. Já tem muito cientista ambicionando a imortalidade – e com resultados significativos”, escreveu a jornalista Paula Soares na SUPERINTERESSANTE de agosto de 2010. 

Morremos porque respiramos. “Ao respirar, produzimos radicais livres que danificam células e aceleram o envelhecimento”, diz outro jornalista da SUPER, Fernando Brito, na edição de setembro. Viver eternamente ainda é uma utopia, a não ser que você produza algo em vida que o faça ser lembrado p/ sempre – ou pelo menos por muito tempo depois da sua morte.

Em 2010, alguns caras que eu admiro deixaram a nossa convivência. Normal, a maioria de causa natural. Dois desses heróis eu homenageei na época de suas respectivas mortes – J.D.Salinger em janeiro e Dennis Hopper em maio. Outros, simplesmente não tive tempo pela própria correria do dia-a-dia.

Mas não seja por isso. P/ abrir as atividades do VIVA LA BRASA em 2011, rendo meu tributo a 5 velhos batutas que tornaram esse mundo mais divertido – ou menos escroto – em suas passagens sobre a Terra:

JOSÉ SARAMAGO [16/11/1922 – 18/06/2010]

Estamos afundados na merda do mundo e não se pode ser otimista. O otimista, ou é estúpido, ou insensível ou milionário.” Filho de analfabetos, Saramago nunca chegou a cursar uma faculdade. Estreou na literatura aos 25 anos c/ TERRA DO PECADO. Depois passou duas décadas sem publicar. Segundo ele, “não tinha nada a dizer”. Voltou à cena nos anos 60 c/ livros de poesia, aventurou-se em ensaios, memórias e até no teatro. Comunista, bateu de frente c/ a igreja católica por causa do romance O EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO, no qual JC perde a virgindade c/ Maria Madalena. Em 1995 torna-se o primeiro – e até hoje único – autor de língua portuguesa a ganhar o prêmio Nobel de literatura. Arredio a adaptações de sua obra, aprovou a versão do brasileiro Fernando Meirelles de ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA p/ o cinema. Casado c/ a jornalista Pilar Del Rio, vivia numa espécie de autoexílio na ilha de Lanzarote. Seu útlimo trabalho publicado foi CAIM, em 2009.

HARVEY PEKAR [08/10/1939 – 12/06/2010]

O autor do gibi AMERI- CAN SPLEN- DOR foi descoberto pelo amigo Robert Crumb nos anos 70 e tornou-se um ícone dos quadrinhos independentes. Ótimo roteirista e péssimo desenhista, contava c/ a colaboração de ases do traço p/ dar vida às suas histórias baseadas na vida real: Spain Rodriguez, Gilbert Hernandez, Chester Brown, Joe Sacco etc. Ficou famoso nos EUA por suas aparições no talkshow de David Letterman, que gostava de zoar seu mau-humor, ao que ele respondia c/ críticas ao corporativismo da CBS, rede de TV que veicula o programa. Em 94 lançou a graphic novel OUR CANCER YEAR, que descrevia sua luta contra um câncer linfático – que ele superou. Em 2003 sua vida virou filme, c/ o ator Paul Giamatti interpretando-o. Seus trabalhos mais recentes foram THE BEATS: A Graphical Story, sobre os beatnicks, e THE PEKAR PROJECT, uma série de webcomics. Sofria de asma, depressão, pressão alta e câncer de próstata. No Brasil, a Conrad lançou uma compilação de sua parceria c/ Crumb no álbum BOB & HARV – Dois Anti-Heróis Americanos.  

TONY CURTIS [03/06/1925 – 30/09/2010]

Outro anti-herói americano, este aqui fazia juz ao sobrenome artístico: um curtidor. Bernard Schwartz era um filho de imigrante húngaro que apanhou bastante da mãe esquizofrênica até ser internado aos 8 anos num orfanato de Nova York. Serviu a marinha americana durante a 2ª Guerra e estava na Baía de Tóquio durante a rendição do Japão. Nos anos 50 tornou-se um dos maiores galãs de Hollywood, e estrelou ao lado de Jack Lemmon a comédia QUANTO MAIS QUENTE MELHOR, de Billy Wilder – considerada a melhor de todos os tempos. Nem vestido de mulher Tony brincava em serviço. Mulherengo incorrigível, foi casado 6 vezes e teve affairs c/ algumas das mais belas atrizes de seu tempo, como a própria Janet Leigh, mãe de sua filha Jamie Lee Curtis, e Marilyn Monroe, que nas gravações de Q.M.Q.M. protagonizou uma clássica cena por sua causa. Ao ouvir do estilista do filme que Curtis tinha um traseiro mais bonito que o dela, Marilyn disse: “É, mas ele não tem isso!” E abriu a blusa e mostrou os seios.

WESLEY DUKE LEE [21/12/1931 – 12/09/2010]

Único brasi- leiro na minha lista, o Duke era um dândi moderno. Iniciou-se na arte no curso de desenho livre do Masp em 51, passou 4 anos em NY, onde conheceu a pop art convivendo c/ Cy Twombly, Jasper Johns e Robert Rauschenberg, viveu em Paris até 63, e voltou ao Brasil p/ realizar o primeiro ‘happening’ do país. Chamado de O GRANDE ESPETÁCULO DAS ARTES, consistia numa performance onde ele entregava lanternas aos clientes de um bar às escuras p/ que iluminassem gravuras eróticas e um show de strip-tease ao som de tiros. Explorou quase todas as possibilidades da arte: pintura pop e expressionista, desenhos de botânica, caligrafia oriental, cartografia, objetos tridimensionais, Polaroid, vídeo e Xerox, da qual foi pioneiro no uso artístico c/ os 400 originais da série PAPÉIS. Fundador do Grupo Rex ao lado de outros expoentes da vanguarda paulista, era um artista que criticava o sistema usando o humor. São dele os 2 painéis de 240 metros do metrô de São Paulo, intitulados OS TRABALHOS DE EROS. Também foi professor da University of Southern California.

MARIO MONICELLI [15/05/1915 – 29/11/2010]

Um dos meus diretores favoritos, Monicelli sozinho foi responsável por um subgênero do cinema: a “comédia à italiana”, onde as melhores situações cômicas surgem dos fatos cotidianos mais simples. Começou a filmar curtas-metragens c/ menos de 20 anos e ao longo da vida rodou 65 filmes, alguns deles clássicos como O INCRÍVEL EXÉRCITO DE BRANCALEONE, MEUS CAROS AMIGOS e O QUINTETO IRREVERENTE. Ganhou o Leão de Ouro do Festival de Veneza em 59 por A GRANDE GUERRA e foi indicado duas vezes ao Oscar. Mas o filme dele que eu mais gosto é PARENTE É SERPENTE, de 1992. Nessa pacata comédia, Mario conduz através de nuances a transformação das relações familiares durante um feriado de natal em que os pais idosos dão aos filhos a opção de escolher quem vai cuidar deles pelo resto da vida. Narrado por uma criança, PARENTI SERPENTI tem um final inesperado que marca o gênio desse italiano que morreu aos 95 anos se jogando da janela do 5º andar do hospital em que estava internado, após receber a notícia de que estava c/ câncer de próstata. Um grand-finale c/ uma piada de humor negro, bem ao seu estilo.

2 comentários:

Morrendo lentamente disse...

boa lista a qual eu ainda acresceria Captain Beefheart

Viva La Brasa disse...

pode crer, irmão.
eu esqueci, mas meu amigo júlio não:
http://julioadler.blogspot.com/2010/12/don-van-vliet-1501194117122010.html