segunda-feira, janeiro 24, 2011

UM BOM LUGAR
Viva a sabotage/ Viva a sabotage e o raciocínio/ Mesmo estando ausente/ haverá sempre alguém que critique/ Cerveja, whisky, um trago, um isqueiro/ Os manifestos maléficos/ O homem é o próprio fim/ A química é o demo e quer então nos destruir/ Vários da função/ são sangue bom que viciaram/ Do Brooklin ao Canão/ tem branca pura em Santo Amaro/ Muitos que estão com o pensamento ao contrário/ Quem não se aposentou/ só se tá preso ou é finado/ Alguns pedindo grana nos faróis desnorteados/ Tem química na fita contamina os brasileiros/ Criança de seis anos com um cigarro nos dedos/ Só no descabelo/ Como disse o Sem Cabelo eu creio/ que o poder é a atitude e o respeito/ Mas observe os pretos/ sendo tirados no Brasil inteiro/ Então prefiro assim, um fininho que me diz/ que a pedra no cachimbo e o pó no nariz/ Afinal é tipo assim/ Pretendo usufruir/ Já vi vários lugares e encontrei o vício/ Consegui, basta saber esperar/ Ligeiro, e não vacilar/ Na moralina, toda estrela sei que há de brilhar/ Há há há há”...

Mauro Mateus dos Santos não era negro e muito menos afrodescendente. Era preto mesmo. Nunca foi beneficiado c/ políticas de cota ou bolsas p/ estudar. Nascido na favela e favelado toda vida, teve todas as chances contra si mas soube aproveitar cada oportunidade a seu favor. Ex-interno da Febem, ex-traficante de drogas, indiciado duas vezes – por tráfico e porte ilegal de armas em 95 – Sabotage já era um sobrevivente das guerras entre facções da Vila da Paz e da Favela do Canão quando gravou seu 1º disco, em 2000, pelo selo Cosa Nostra dos Racionais MCs.

Lançado em 2001, RAP É COMPROMISSO tornou-se um marco p/ o hip-hop nacional. Quando todo rapper brasileiro queria ser [ou pelo menos PARECER] bicho solto, Sabota era sinistro mesmo, saído do crime, ao mesmo tempo em que sua veia poética ia muito além da precária educação que recebeu na infância. Canções como Cocaína, No Brooklin, Respeito É Pra Quem Tem, Na Zona Sul e País da Fome apresentavam relatos autobiográficos em métrica free-styler, e a produção esmerada dava um toque de classe ao lirismo bruto das letras – os samplers do DJ Cia, do grupo RZO de Pirituba, iam de piano e violinos à musiquinha do caminhão de gás.

Sabotage foi descoberto e resgatado do crime pelos caras do RZO. Gravou vocais de apoio p/ Sandrão & Helião no clássico disco TODOS SÃO MANOS, de 1999, e se apresentava c/ eles nos shows da banda. O processo é lento, mas bastou só seu disco-solo sair na praça p/ sua carreira deslanchar. E aí o barato foi louco.

O diretor Beto Brant estava produzindo O INVASOR quando viu uma apresentação sua, e o convidou p/ colaborar como ‘consultor da periferia’ na elaboração do personagem Anísio, interpretado pelo titã Paulo Miklos. Sabota compôs parte da trilha sonora e ainda participou das filmagens no papel dele mesmo, na melhor cena do filme, quando Anísio o apresenta a seus clientes, pede p/ ele cantar um rap e em seguida intima uma grana dos empresários p/ a gravação de um disco.

Essa pequena participação lhe valeu o convite de Hector Babenco p/ atuar em CARANDIRU, onde interpretou o personagem Fuinha e também participou da trilha. O detalhe irônico é que o irmão que lhe deu o apelido foi uma das vítimas do massacre no presídio em 92. O ponto alto de Sabotage neste filme é a cena do beijo na bunda de Rita Cadillac, durante um show da ‘cantora’ na prisão. “É bom para o moral”...

O ano de 2002 foi de consagração. Sua trilha p/ O INVASOR ganhou o Prêmio Candango no Festival de Brasília, e ele foi eleito o rapper revelação e a personalidade do ano no Prêmio Hutuz. Gravou cover de Black Steel in the Hour of Chaos, do Public Enemy, c/ o Sepultura no disco REVOLUSONGS, e um monte de inéditas c/ o pessoal do rap: Nem Tudo Está Perdido c/ Rappin Hood, Me Empresta o Microfone c/ Attack Versus, Segue Sua Rota c/ Quadrilátero, Enxame c/ SP Funk e Dorobo c/ o carioca B.Negão.

Gravou Mun-Rá e Cabeça de Nego p/ o Instituto, supergrupo dos produtores multiinstrumentistas Rica Amabis, Daniel Tejo e Ganjaman, c/ os quais se apresentou no festival de rock Upload. Juntos, vinham trabalhando em seu segundo disco, que lançaria em 2003 caso não tivesse a trajetória interrompida por 4 tiros no início da manhã de 24 de janeiro, num acerto de contas.

Segundo o inquérito da polícia, Mauro Mateus teria sido executado por Sirley Menezes da Silva como vingança pelo assassinato de Denivaldo Alves da Silva, o Vadão, a quem Sabotage teria matado no dia 9 de janeiro, num efeito-dominó que já rolava desde 1999, quando disputavam pontos de venda. Na época Sabota se mudou p/ a favela do Boqueirão fugindo das tretas, mas a morte de seu amigo Binho na cadeia em 2002 trouxe seu passado de volta como uma maldição. Duas semanas após o suposto crime cometido por ele, Sirley, acompanhado pelo capanga Bocão e o irmão de Vadão, vingou a morte do seu segurança alvejando o rapper c/ 2 tiros na cabeça e 2 no tórax. Mataram Bocão dias depois. Sirley foi condenado à pena de 14 anos de reclusão em julho de 2010.

Hoje se completam 8 anos do trágico fim de Sabotage. Mas ele continua sendo homenageado, desde a tattoo do rapper Cabal até os prêmios Hutuz de revelação da década e maior artista solo dos anos 2000. Tudo isso conquistado em 3 anos – que valeram por uma vida. Ainda lembro de uma conversa c/ 2 amigos rappers numa festinha em 2001 no dia seguinte ao prêmio VMB da Mtv, que naquele ano preteriu o clip de Um Bom Lugar, dirigido por Beto Brant, em favor de Us Mano & As Mina de Xis. Um desses amigos, o Paulista, comentava indignado: “Tinha que ser o clip do Sabotage, mano! Sabe por quê? Era o mais UNDERGROUND!

Mauro Mateus dos Santos – Sabotage [13/04/1973* - 24/01/2003+]

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