terça-feira, fevereiro 01, 2011

DIAS DA IRA

A EROSÃO DA ESFINGE
Há muitas lendas sobre como a Esfinge perdeu o nariz. A mais famosa culpa as tropas invasoras de Napoleão no séc.XVIII. Outra atribui a mutilação aos próprios egípcios, que teriam feito dela um alvo p/ treinos de artilharia no séc.XIX. No entanto, um desenho de 1758 do arquiteto inglês Frederick Lewis já mostrava a Esfinge de Gizé sem seu nariz, antes da invasão francesa. O mais provável é que este pedaço do monumento tenha simplesmente erodido c/ a ação do tempo– séculos de exposição às tempestades de areia do deserto.
O Egito é uma nação milenar, banhada pelo rio Nilo e pelos mares Vermelho e Mediterrâneo, c/ solo fértil e 6.000 anos de agricultura organizada, período em que começaram as construções de grandes edifícios que culminariam nas Pirâmides do Saara, no Templo de Karnak e no Vale dos Reis. Invadido ao longo de sua história por romanos pagãos e cristãos, árabes muçulmanos, turcos otomanos, tropas napoleônicas, mercenários albaneses e por fim o império britânico, tornou-se uma república militar em 1953.
Tantas vezes invadido e dominado, o país baseia sua economia no produto agrícola, nas exportações de petróleo, no turismo e, principalmente, no tráfego marítimo do Canal de Suez, passagem mundial de navios petroleiros e frotas de guerra. Dependente de ajuda externa, recebe dos Estados Unidos 2,2 milhões de dólares anualmente, desde 1979. A parceria entre os dois países colocou na presidência Mohamed Hosni Mubarak em 14 de outubro de 1981. Líder do Partido Democrático Nacional, Mubarak está há quase 30 anos no poder e é o principal aliado dos EUA no Oriente Médio.
A última eleição presidencial ocorreu em 2005. Apesar da prometida reforma na lei eleitoral, que favoreceria o multipartidarismo, o pleito foi marcado por fraudes, interferência governamental, violência policial e restrição à candidatura de políticos conhecidos. Somente 25% dos 32 milhões de eleitores compareceram às urnas e Mubarak foi reeleito. Novas eleições estão marcadas p/ setembro de 2011. Mas desta vez será diferente.
Há uma semana protestos violentos eclodem nas principais capitais do país: Cairo, Alexandria e Suez, além de mais 8 grandes cidades. Pequenos protestos já vinham acontecendo em pontos localizados nos últimos anos, mas a revolta popular que se insurgiu contra o atual governo a partir de 25 de janeiro, o ‘Dia da Ira’, não tem precedentes.
Algumas das cenas mais caóticas aconteceram em Suez: manifestantes venceram os cordões de segurança formados pela polícia de choque, invadiram uma delegacia, roubaram as armas, libertaram os presos e atearam fogo no lugar e em 20 viaturas. Em Alexandria, o prédio do governo local foi incendiado. Houve confrontos em Aswan, Mansoura, Minya, Assiut, Al-Arish e na península do Sinai.
Mas o epicentro do processo é a cidade do Cairo, onde mais de 15 mil pessoas estão praticamente morando na Praça Tahir. A sede do Partido Nacional foi queimada. O prêmio Nobel da Paz Mohamed ElBaradei, principal nome da oposição, teve a prisão domiciliar decretada e mesmo assim compareceu às manifestações do fim de semana. “Vocês reconquistaram seus direitos e o que começamos não pode ter volta. Temos uma demanda principal – o fim do regime e o começo de um novo estágio”, discursou, rodeado de populares que gritavam “O povo quer a queda do presidente!” e “Vamos sacrificar nossa alma e nosso sangue pelo país!”...
Essas cidades estão sendo chamadas de ‘Zonas de Guerra’: sem policiamento, internet ou telefonia, os moradores estão defendendo seus bairros armados c/ facas, paus e pedras; realizam blitzes nos carros que passam e vigílias à noite contra os saqueadores que vêm depredando bancos e lojas. Muitas áreas estão sem luz elétrica. Não há dinheiro nos caixas eletrônicos. E já começa a faltar comida. Uma brasileira radicada há 17 anos na capital do país falou ao programa de TV Fantástico: “Todo mundo está com medo porque há um monte de malandros entrando nos prédios e roubando quem passa pelas ruas.
Em Luxor, civis tiveram que defender o Templo de Karnak dos ladrões, que já destruíram duas múmias no Cairo em busca de ouro. “Estamos nos alternando em grupos para garantir nossa segurança”, diz um nativo que estuda na Universidade de São Paulo e voou p/ o Egito na quarta-feira p/ se juntar à rebelião: “Há muita violência da polícia também, que inclusive está sabotando prédios.
A reação do governo foi cortar os serviços de comunicação, prender jornalistas estrangeiros, jogar o exército nas ruas e estabelecer um toque de recolher – que começou às 18 horas, baixou p/ 16h e agora está em 15h, embora seja amplamente ignorado pela população. “Estamos isolados, sem internet, sem celular, apenas com telefone fixo”, diz o estudante da USP: “Eu fiz vários vídeos dos protestos nas ruas, mas não tenho como enviar para serem postados.
Os protestos teriam começado por inspiração da Revolução do Jasmim, que derrubou o ditador Zine El Abdine Ben Ali na Tunísia no dia 14 de janeiro – seguida por protestos no Iêmen e Jordânia. Três dias depois, um homem de 50 anos ateou fogo no próprio corpo em frente ao Parlamento no Cairo, numa provável reprodução do suicídio de um jovem tunisiano em dezembro que desencadeou a revolução.
Mas o egípcio que estuda no Brasil diz que o momento atual vem sendo articulado há 1 ano: “Começamos a nos organizar pela internet. A juventude está bem organizada nas ruas, nosso método de manifestação é pacífico. Cada grupo sabe bem o que fazer.
A revolta do povo se justifica pela corrupção, desemprego, inflação, falta de liberdade de expressão, leis de estado de exceção, más condições de vida e truculência do sistema. 2/3 da população egípcia tem menos de 30 anos, menos tempo de vida do que Mubarak tem no poder.
Igual a todo ditador, ele não quer largar o osso, e tentou apaziguar os ânimos anunciando uma mudança em seu gabinete após a renúncia do premiê Ahmed Nazif no sábado. O general Shafiq foi empossado em seu lugar, e outro general, Omar Suleiman, escolhido p/ vice-presidente – posto que nunca existiu durante a gestão atual.
EUA e Inglaterra, aliados e patrocinadores de seu governo, já começam a tirar o corpo fora. “Nós queremos ver uma transição ordenada para que não haja um vazio a ser preenchido, e sim que haja um plano bem pensado que trará um governo democrático e participativo”, declarou a chefe de Estado Hillary Clinton em pronunciamento na TV. O primeiro-ministro britânico David Cameron disse à BBC que “é importante que nem o presidente Obama nem eu digamos quem deve governar este ou aquele país”.
Quanto mais Mubarak resistir, mais fortalecidos ficarão os setores islâmicos mais radicais envolvidos na revolução egípcia. Quem está gostando disso são os teocratas do Irã, que vêem nesses protestos ecos da Revolução Islâmica de 1979. “Àqueles que não querem ver a realidade, vou esclarecer que um novo Oriente Médio está nascendo baseado no Islã, na religião e na democracia”, disse o aiatolá Ahmad Katami. Vale lembrar que há pouco mais de 1 ano o regime iraniano reprimiu c/ violência extrema a onda de protestos locais contra a reeleição de Ahmadinejad. Spray de pimenta nos olhos dos outros é refresco.
Israel já demonstrou publicamente sua preocupação c/ a eventual instalação de um Estado islâmico, tanto que reforçou sua fronteira de 250 km c/ o Egito e aprovou o destacamento de tropas oficiais egípcias p/ o Sinai, uma zona desmilitarizada desde 79. Ontem o barril de petróleo ultrapassou a marca dos $100 dólares e as principais bolsas de valores da Ásia terminaram o dia no vermelho.
Até agora os conflitos resultaram em 300 mortos, 1.500 presos e mais de 2.000 feridos. Neste momento, 1 milhão de pessoas estão reunidas na Praça Tahir e uma greve geral foi proclamada. De nada adiantou o exército fechar as vias de acesso à capital. Há rumores de que Mubarak e seu filho fugiram p/ Londres. Antes que lhe arranquem o nariz.
WALK LIKE AN EGYPTIAN












 
 

















 
FONTES: AL JAZEERA, AFP, BBC, EFE, ESTADÃO, FOLHA, G1, IG, ISNA, REUTERS
FOTOS: AMIR ABDALLAH DALSH, ASMAA WAGUIH, BEN CURTIS, GORAN TOMASEVIC, NAJWA SABRA, SAMAN AGHVAMI

3 comentários:

Viva La Brasa disse...

Egito, o novo Irã?
http://www1.folha.uol.com.br/mundo/867835-caos-no-egito-incita-tensoes-no-oriente-medio-entenda.shtml

Maíra Magno disse...

muito bom o post meus parabens

A wild blumen disse...

Espetacular. Vou aproveitar o espaço egípcio pra pedir que apoiem:
www.avaaz.org/apoieoegito