domingo, fevereiro 06, 2011

NÁSSARA
Alá lá ô-ô-ô-ô-ô-ô! Mas que calor ô-ô-ô-ô-ô-ô!”...

Provavelmente você nunca ouviu falar em Antônio Nássara, mas já deve ter se divertido em pelo menos um carnaval ao som de Alá Lá Ô, marchinha desse carioca filho de imigrantes libaneses, composta em parceria c/ Haroldo Lobo e gravada por Carlos Galhardo p/ o verão de 1941: “Atravessamos o deserto do Saara, o sol estava quente e queimou a nossa cara! Alá lá ô-ô-ô-ô-ô-ô”...

A composição da dupla era naturalmente eufórica, mas o toque de Midas veio c/ o arranjo de Pixinguinha. Segundo Nássara, “Pixinguinha tinha dividido a melodia em compassos marcantes, saltitantes, brejeiros, originais, vestindo-a com roupagem da alma popular. E eu tive uma sorte danada porque Alá Lá Ô ficou sendo uma das músicas mais tocadas no carnaval. Das que fiz, foi a única que me rendeu alguma coisa.

Vizinho de infância de Noel Rosa, competiu contra ele, Ary Barroso e Lamartine Babo em concursos de marchinhas, e compôs músicas como Florisbela, Mundo de Zinco, Sereia de Copacabana e Formosa, sua primeira marcha a cair na boca do povo, em 1933: “Foi Deus quem te fez formosa, formosa, ô formosa! Porém este mundo te tornou presunçosa, presunçosa”...  

Um ano antes tornara-se sem saber o autor do 1º jingle do rádio brasileiro, ao compor a propaganda de uma padaria que anunciava no Programa Casé, na Rádio Philips. No mesmo ano de 1932, ajudou a organizar o 1º concurso de escolas de samba do Rio de Janeiro. É dele também o sucesso Balzaquiana, parceria c/ Wilson Batistaa expressão foi criada por Antônio p/ designar “as mulheres depois dos trinta anos”, inspirado em Honoré de Balzac.

Assim era Nássara: culto e popular ao mesmo tempo, capaz de definir uma idéia numa só sacada. Foi o que Modesto Brocos, seu professor de desenho na Escola Nacional de Belas Artes, percebeu ao vê-lo rabiscando o papel. Brocos aconselhou o então estudante de arquitetura  a desencanar do desenho acadêmico e técnico, e explorar seu talento p/ a caricatura. O ano era 1928.

No ano seguinte, o jornal O Globo publica 3 caricaturas suas. A essa altura ele participava de um grupo de samba c/ os colegas Barata Ribeiro [que hoje é nome de avenida em Copacabana], Jaci Rosas, Jota Rui, Luís Barbosa e Manuelito Xavier, e passava mais tempo nas mesas de bar do que nas salas de aula. C/ os cheques do jornal, abandonou de vez os estudos p/ seguir uma carreira de artista gráfico que duraria toda vida – e ele viveu 86 anos. 

Em 1930 é levado p/ a revista A Noite pelo caricaturista Fritz. Ao longo da década, colabora c/ as revistas Carioca, Crítica, Diretrizes e Vamos Ler. Nos anos 40 ganha duas páginas semanais em cores na revista O Cruzeiro, a maior em circulação da época. Os críticos consideram essa sua melhor fase, c/ charges que adotam uma postura antifascista desde o início da 2ª Guerra Mundial, quando o Brasil de Getúlio Vargas ainda simpatizava c/ o Eixo.

O traço de Nássara era econômico e certeiro, influenciado por J.Carlos e Guevara, 2 grandes caricaturistas brasileiros que o precederam, mas também pela vanguarda artística do período. As cores de Henri Matisse, o  cubismo de Pablo Picasso as garatujas de Juan Miró são evidentes em sua obra – que inclui charges de Getúlio, Pixinguinha, Napoleão, Portinari, Carmem Miranda, Jânio Quadros etc.

 É o Mondrian do portrait-charge”, diz Millôr Fernandes: “Corrige a natureza fazendo com que as personagens acabem se parecendo com a caricatura.” Ilustrou a capa o LP Polêmica c/ um combate entre Noel Rosa e Wilson Batista. Nos anos 50, ajudou o jornalista Samuel Wainer a fundar o Última Hora, no qual manteve sua página dupla colorida de crônicas do cotidiano carioca. Fica meio esquecido na década seguinte mas ressurge c/ tudo nos anos 70.

Em 1972, desenha 12 capas de disco p/ a série No Tempo dos Bons Tempos, do selo Fontana. A partir de 1974 passa a publicar no jornal de humor O Pasquim, editado por cartunistas que o tinham como herói. “Nássara faz logotipos das pessoas que retrata”, definiu Jaguar. Nessa nova fase, usou seu humor fino e traço geométrico p/ zoar o sistema e sair ileso – um de seus desenhos do período 74-83 mostra todos os presidentes militares andando de mãos dadas igual aos Sete Anões.

Nássara faleceu em 1996, ano em que foi lançado seu último trabalho, as ilustrações do livro infantil Moça Perfumosa Rapaz Pimpão. Seu acervo de desenhos e gravuras foi incorporado ao Museu Nacional de Belas Artes. Em 2010 completaram-se 100 anos de seu nascimento. Em comemoração à data, 200 originais estão expostos no Centro Cultural Justiça Federal, centro do Rio. Hoje é o último dia da exposição, em cartaz desde 15 de dezembro.

Ele nunca ganhou dinheiro c/ música, mas há uma boa história sobre Balzaquiana. O radialista Michel Simon, adido cultural da embaixada francesa no Brasil, traduziu a canção, que foi regravada na França em 1950, ano do centenário de morte do escritor. Hoje a versão francesa da marchinha está na Maison de Balzac, museu que guarda a memória do autor de A Mulher de Trinta Anos.

Se você mora ou está no Rio de Janeiro, confira a verve genial de Nássara e aproveite os protestos no Oriente Médio p/ entrar no clima do carnaval 2011: “Viemos do Egito, e muitas vezes nós tivemos que rezar... Alá! Alá! Alá, meu bom Alá!











2 comentários:

A wild blumen disse...

Sensacional! Excelente resgate cultural deste grande brasileiro, que, pra variar, só é valorizado fora. Só o rá-imundos estragou.

Anderson Ribeiro disse...

Como sempre tirando excelentes textos da cartola. Esse brasa pega fogo com qualquer assunto. Parabéns!