segunda-feira, fevereiro 21, 2011

ROOTSY HIP

FOTO: FERNANDO VIVAS [A TARDE]

Quando conheci Daniel Wildberger & Isabel Machado, ele tocava uma Flying V numa banda de rock e ela estudava História na universidade. Foi em 96, quando eu andava nas gigs em Salvador. Eles nem namoravam ainda, mas já estão juntos há 10 anos e radicados nos EUA há sete. Em 2009 fizeram o filme ROOTSY HIP, um inesperado sucesso.

Ressonante documentário que mapeia as fronteiras entre os sonhos idílicos e a desagradável realidade de uma coleção de rappers brancos de Mobile, Alabama, e Memphis, Tenessee”, escreveu Phil Maher do blog The Allmovie: “Sob obrigações financeiras, pressão da família, desdém social e até mesmo despejos, esses resistentes artistas agarram-se às virtudes do hip-hop como um laço e um código moral que os habilita não só a aguentar, mas a se desenvolverem espiritualmente face à adversidade.” Uau. 

Daniel, que sempre desenhou bem, formou-se designer gráfico e fez capas de discos, livros, revistas etc. Isabel está fazendo pós e produzindo seu próximo filme, Grand Fugue on The Art of GumboO casal esteve na Bahia durante algumas semanas de janeiro e fevereiro, onde concedeu entrevistas a jornais como A Tarde e blogs como o Rock Loco, que postou a melhor matéria sobre “a galera do Rootsy Hip”:

NERD CORE

Todo mundo já viu uma história mais ou menos parecida com esta em um filme: estrangeiros chegam em cidade pequena e são, em um primeiro momento, recebidos com certa indiferença. Os estrangeiros fazem amizade com os losers do lugar. Estrangeiros e losers se unem para fazer alguma coisa bacana juntos que chama a atenção da comunidade – e acabam por se tornar heróis locais.

A diferença é que, desta vez, não se trata de filme, e sim, de uma história real, vivida por um casal de soteropolitanos: a historiadora e cineasta Isabel Machado e o designer e professor Daniel Wildberger. Ela é irmã do cineasta Sérgio Machado (Quincas Berro D’Água). E ele, membro da família de imigrantes suíços radicados na Bahia.

Casados há cerca de dez anos, se conheceram no underground roqueiro de Salvador, quando ele tocava guitarra na banda Dinky-Dau e ela frequentava os shows.

Desde 2004, vivem nos Estados Unidos. Inicialmente moraram na gélida Iowa CityPassamos 4 anos lá para Bel concluir mestrado em cinema. Passei um ano procurando trabalho, conta Daniel.

Foi lá que ele vivenciou o emprego mais estressante de sua vida, dirigindo um ônibus escolar cheio de crianças, em pleno inverno. ‘O bicho deslizava no gelo o tempo todo’, ri.

Depois que Isabel concluiu seus estudos, Daniel, que acabou fazendo ele mesmo seu próprio mestrado em design, acabou arrumando trabalho de professor assistente na University of South Alabama, localizada na aprazível cidade de Mobile.

‘A gente se identificou logo com o lugar. Tem praia, uma cultura negra forte na música e na culinária, um clima melhor e fica perto de Memphis e Nova Orleans’, diz.

Devidamente instalados, Isabel se viu na situação inversa a que viveu no Iowa. Ele tinha o que fazer, mas ela, não. Depois de constatar que não arrumaria emprego na TV local sem um curso técnico, tratou de se matricular logo em um.

Uma das tarefas era preparar uma reportagem sobre algum assunto local. Não conhecia ninguém. Começamos a procurar no Google o que a cidade tinha, lembra Isabel. 

Logo ela se deparou com o MySpace de uma inusitada dupla de rappers locais. ‘O lance deles é nerd core, ou seja, os caras falam de Star Wars, séries de TV e histórias em quadrinhos. Fomos em um show, tinha três pessoas na plateia, mais eu e Daniel. Pensamos: pô, os caras são brancos, fazendo rap no Alabama. Estranho. Aí resolvi entrevistá-los. Entrei em contato com um deles, o Justin MC’, relata Isabel.

E foi Justin quem deu a ideia: em vez de falar só do trabalho deles, por que não mostrar a cena do hip hop underground de Mobile?

De início, Isabel não levou muita fé. ‘Eu disse: não me levem a mal, mas isso aqui é o movimento hip hop de Mobile e vocês são brancos? Eles ficaram super desconfortáveis. Porque existe a galera do hip hop negro de Mobile. Só que eles são completamente mainstream, só falam de bunda, carrões etc. E eles ainda sofrem com o estigma dos rappers brancos, de ser aquela coisa meio caricata, né?’, ri.

De qualquer jeito, Isabel, com a ajuda do maridão, responsável pela edição, concluiu o vídeo para o curso e presenteou seus entrevistados com uma versão ampliada e melhorada.

Poderia ter acabado aí. Só que no meio do caminho, havia um festival de cinema. ‘Naquela mesma semana, anunciaram as inscrições para o South Alabama Film Festival, que estava selecionando filmes com temática local. O problema é que o deadline era apertadíssimo e não deu para aproveitar quase nada do filme escolar’.

Logo, o casal começou a preparar uma versão para o festival. ‘Eu ficava ligando para os organizadores, pedindo mais prazo. Cheguei a mandar só os quarenta minutos iniciais’, lembra.

Qual não foi sua surpresa quando um belo dia o telefone toca e era o pessoal do festival, dizendo que não só haviam adorado a versão preliminar do documentário, como ele já estava selecionado e mais: seria o filme de abertura do evento, ocorrido em novembro de 2009.

‘Logo depois me liga um dos rappers do filme, o Afterschock, dizendo que estava sendo despejado. Lá vamos nós, pegar mais essa cena para incluir no documentário’, conta Bel.

Resumo dos fatos: Rootsy Hip, o documentário dirigido por Isabel e editado por Daniel, não ficou pronto a tempo. ‘Pensei: vai passar assim e depois eu reedito. No dia da estreia, a gente lá com várias mordomias de estrela do festival, tapete vermelho e tudo. E eu: como assim?’, ri.

O filme foi um sucesso local, com o público se levantando e cantando as músicas dentro da sala. ‘O dono do cinema deixou o filme em cartaz durante meses e ainda queria que a gente fizesse uma versão sing-a-long, com aquela bolinha pulando sobre as letras. Teve até sessões com os caras tocando antes do filme. Eu brinco com Daniel dizendo que viramos minicelebridades locais. Agora somos a galera do Rootsy Hip. Até dois dias antes de viajarmos para o Brasil, eu ainda dava entrevista’, jura.

No momento, Isabel se dedica a um novo documentário com temática local, desta vez sobre o gumbo, prato típico da culinária sulista afroamericana, em parceria com o cineasta Gideon Carson Kennedy.

Já Daniel prepara uma graphic novel de western, ambientada na Guerra da Secessão. Taí um casal que ainda vai dar muito o que falar, seja na América do Norte ou do Sul.

por Franchico ROCK LOCO

DE SSA A USA
CASAL 'ROOTSY' CHEGANDO À PREMIERE
ISABEL EM NOITE DE AUTÓGRAFOS
REAÇÃO DA PLATÉIA APÓS A EXIBIÇÃO
 


Todas as ilustrações neste post estão disponíveis no site WILD INC.

Nenhum comentário: