quinta-feira, fevereiro 17, 2011

SEXPLOITATION  
UMA SÓ QUERIA SER AMADA, A OUTRA GOSTAVA DE DAR PORRADA
A revolução feminina não é uma invenção do século XX, mas só nos últimos 100 anos ela aconteceu de verdade, na ressaca da revolução industrial c/ as sufragetes – proletárias da Europa e EUA que lutaram pelo sufrágio universal [voto] e por salários iguais aos dos homens. Foi o que as feministas Maggie Humm e Rebecca Walker chamam de “1ª Onda”. A segunda rolou nos anos 60 e 70, na esteira do movimento pelos direitos civis e da invenção da pílula anticoncepcional.

Mais do que mulheres como Simone de Beauvoir [filósofa existencialista que mantinha um casamento aberto c/ o marido Jean-Paul Sartre], Jane Fonda [atriz que interpretou Barbarella e saldou o público c/ o punho fechado no Oscar de 1969] e Annie Leibovitz [fotógrafa lésbica célebre pelo ensaio c/ John Lennon nu na cama c/ Yoko no último dia de vida do cantor], dois nomes daquela época personificam toda a amplitude da revolução sexual: “Varla” & “Jeanne”. Ou Tura & Maria, se preferirem.

Tura Satana nasceu no Japão em 1938, filha de um ator de cinema japonês c/ ascendência filipina e de uma americana descendente de índios Cheyenne. Durante a 2ª Guerra Mundial, seus pais fugiram p/ os EUA, onde foram enviados p/ o campo de internamento Manzanar, na Califórnia – uma prisão p/ refugiados japoneses onde Tura Luna Pascual Yamaguchi viveu seus primeiros anos. Ao fim do conflito, foram libertados e mudaram p/ Chicago.

Os seios de Tura se desenvolveram cedo demais, e sua figura asiática logo atrairia os olhares dos garotos da vizinhança. Era muito assediada, e aos 9 anos foi estuprada por cinco deles. Apesar das excelentes notas na escola, a Justiça americana fez ouvidos de mercador às queixas da menina imigrante, liberou os acusados e ainda a enviou a um reformatório juvenil. Desiludida c/ o sistema aos 10 anos, ela jurou a si mesma um dia vingar-se dos estupradores fazendo justiça c/ as próprias mãos.

No internato virou líder de gangue. “Nós usávamos jaquetas de couro estilo motoqueiro, jeans e botas, e a gente detonava!” Ao deixar o reformatório aos 13, fugiu p/ Los Angeles a fim de cantar blues. Tudo o que conseguiu foi posar como modelo de maiôs, e mesmo assim a alergia à maquiagem impediu sua tenra carreira de deslanchar. Voltou p/ a casa dos pais e começou a treinar artes marciais – aikidô & karatê. Aos 15, como num roteiro de filme, vingou-se dos 5 pivetes que a haviam estuprado enchendo-os de porrada. “Nunca saberiam quem eu era se eu não dissesse a eles!

Em Chicago, voltou a dançar e começou a posar nua. Tornou-se uma bem-sucedida dançarina exótica, fazendo US$ 1500 dólares por semana c/ apresentações nas boates Candy Barr, Club Rendevouz, Purple Lady, Rose La Rose, The Skyscraper Girl, etc. Apresentava-se como Galatea, a Estátua que Ganhou Vida“. Namorou Elvis Presley, que a pediu em casamento e ela recusou – “Guarde seu anel!”, disse Tura – , e foi eleita por Bill Hanna [dos estúdios Hanna-Barbera] uma das 10 Mais Bem Despidas do Século XX – um trocadilho c/ as votações de ‘mais bem-vestidas’.

Quando o diretor Russ Meyer a convidou p/ o papel principal em seu próximo filme, Tura Satana já era uma estrela do underground. Participara de programas de TV como The Greatest Show on Earth e The Man from U.N.C.L.E., interpretou uma dançarina em Who’s Been Sleeping in My Bed, filme estrelado pelo Dean Martin, e uma prostituta francesa em Irma La Douce, sucesso c/ Jack Lemmon e Shirley Maclaine.

Russ, por sua vez, era um enfánt-térrible do mundo softporn – o máximo da sacanagem naqueles tempos. Depois de uma carreira meteórica como fotógrafo de nus p/ a recém-lançada revista Playboy, estreou no cinema em 1959 dirigindo The Immoral Mr.Teas, película que custou $24 mil e rendeu mais de $1 milhão no circuito independente de exibições, c/ veiculação basicamente em ’drive-inns’.

Dizia que a mulher mais bonita que ele fotografou foi Anita Ekberg, a loira do banho noturno na Fontana di Trevi em La Dolce Vita, de Fellini. Meyer gostava de garotas de seios grandes, um arquétipo físico que permeou toda sua obra. Seus filmes se caracterizavam pelo humor ’camp’, crítica de costumes, uso de narração em off... e também pela alta voltagem de erotismo. P/ seu novo projeto não bastavam atrizes de peitos enormes – eles teriam que ser firmes, durinhos.

Antes que as mulheres se reunissem p/ queimar seus sutiãs em protesto contra a realização do concurso de Miss America em Atlantic City, Russ Meyer já abolira esse “símbolo da imposição do gosto machista” em seus filmes. O Bra-Burning, a grande Queima dos Sutiãs, aconteceu em 1968. FASTER, PUSSYCAT! KILL! KILL! foi filmado e lançado em 1965.

Peitos que desafiam a gravidade” era o que ele queria, e encontrou em Tura, que além de peituda preenchia outro requisito do papel: ela sabia brigar. “Ela é uma amazona”, celebrou Russ: “É extremamente capaz, sabe se virar bem sozinha. Não foda c/ ela! Mas se foder, faça direito! Porque ela virá p/ cima de você!

FASTER, PUSSYCAT!... conta a história de uma gangue feminina composta pelas ‘go-go dancers’ Billie [a loira Lori Williams], Rosie [a hindu Haji] e a líder Varla [Tura Satana]. Fazendo racha – sem trocadilho – em carrões esportivos pelo oeste americano, encontram na estrada um jovem casal. Varla mata o cara na mão – sem trocadilho de novo – e depois droga e seqüestra a namorada dele [Susan Bernard]. Ao parar p/ abastecer, conhecem um velho numa cadeira de rodas [Stuart Lancaster] e seu filho atleta, Vegetable [Dennis Busch]. No posto de gasolina, Varla fica sabendo que há uma pequena fortuna escondida no rancho do coroa e decide roubá-lo.

Soa subversivo até hoje. Apesar de visto como filme B, de baixo orçamento e pouca pretensão intelectual, FASTER PUSSY... antecipou muitos elementos usados no ‘cinema de autor’ da Nova Hollywood, movimento semelhante ao Cinema Novo no Brasil e à Nouvelle Vague francesa que renovou a maneira de fazer filmes nos EUA. Um roadie-movie protagonizado por foras-da-lei, feito 2 anos antes de Bonnie and Clyde [Uma Rajada de Balas, 1967], de Arthur Penn, e 4 anos antes Easy Rider [Sem Destino, 1969], de Dennis Hopper.

Um roteiro que não passava nenhuma mensagem construtiva, apenas sexo & caos. Violência gratuita, 6 anos antes da versão cinematográfica de A Laranja Mecânica, best-seller de Anthony Burgess – não é por acaso que o cadeirante do filme de Stanley Kubrick é auxiliado por um halterofilista. Anjos do inferno em Porshes no deserto de Mojave – filmar em locações também era raro e desafiador. Sonho hippie virando pesadelo, c/ Varla e suas comparsas agindo como uma espécie de família Manson – procurar e destruir“.

Satana, oriental naturalizada americana, já estrelava seu filme de luta quando Bruce Lee ainda era coadjuvante na série de TV Besouro Verde. Sagaz, ela adicionou vários elementos à sua personagem, desde a roupa e maquiagem até os diálogos e coreografias. E dispensava dublês nas cenas de ação. “Ela fez o filme junto comigo”, dava o crédito Russ Meyer. A carreira de ambos seria marcada por este trabalho.

Meyer tornou-se o Rei do Exploitation, gênero que explorava a sensualidade feminina praticamente inventado por ele, que escrevia, fotografava, dirigia, editava e distribuía seus próprios filmes – processo econômico que o tornou rico. Em 68 filmou Vixen!, mais um sucesso que lhe abriu as portas de Hollywood. Em 69, a 20th Century Fox contratou-o p/ dirigir Beyond the Valley of the Dolls, que custou $1 milhão e rendeu 6 vezes mais do que o valor da produção.

Depois de fazer mais um p/ a Fox – The Seven Minutes, 1971 – Russ voltou ao cinema independente c/ Black Snake, de 73, um dos primeiros ‘blacksploitation’. Em 75 obteve seu maior êxito comercial c/ Supervixens, um retorno ao Mojave que lhe valeu $17 milhões nas bilheterias americanas. Ele ainda faria Up! em 76, Who Killed Bambi? em 77 e Beneath the Valley of the Ultravixens em 79, mas, esperto que era, sabia que os tempos haviam mudado.

Os anos 70 foram o auge da revolução sexual. Suruba estava na moda e ninguém era de ninguém. Filmes como Deep Throath [Garganta Profunda, 1972], Emanuelle [74] e Sometime Sweet Susan [75] mostravam nu frontal, pelos pubianos e cenas quase explícitas. Perto de Linda Lovelace, Sylvia Kristel e Shawn Harris, o erotismo camp das gatas de Russ Meyer – Super Vixen, Margo Winchester, Lavonia Shed, entre outras – parecia quase pueril.

Período de transição do softporn dos 60 p/ o hardcore dos 80, os 70 quebraram tabus tanto do cinema quanto da sociedade. Paralelo à putaria, foi a época de O Poderoso Chefão, Taxi Driver, Star Wars, Tubarão. Nesse período tão fértil, nenhum filme erótico chocou tanto nem foi tão comentado quanto O ÚLTIMO TANGO EM PARIS, de Bernardo Bertolucci: a história de um americano de meia-idade em luto pela morte da esposa na França que encontra ao acaso uma jovem parisiense num apartamento p/ alugar; rola a química, eles transam e tornam-se amantes sem ao menos saber o nome um do outro.

Essa é a condição estipulada por Paul, interpretado por Marlon Brando. Ele aluga o apê, que se torna o ninho de amor do casal. Até o dia que Jeanne chega lá e não encontra mais nada – o gringo havia fugido c/ mala e tudo. Mas logo os dois se encontram na rua, ele a leva p/ uma casa de tango, onde diz que pretende começar uma nova relação c/ ela, e revela seu nome e conta sobre sua vida. A garota perde o tesão c/ o fim do anonimato e rompe o namoro. Inconformado, ele a segue até o prédio em que ela morava c/ a mãe e... bem, melhor você ver o filme, considerado uma obra-prima.

Nascido das fantasias do diretor italiano, ganhou ar de ‘cult’ c/ seus cuidadosos – e constantes – movimentos de câmera e trilha sonora jazz do argentino Gato Barbieri. A crítica especializada Pauline Kael escreveu na revista The New Yorker que Bertolucci havia “mudado a face de uma forma de arte, um filme pelo qual as pessoas esperam há muito, muito tempo, desde que filmes existem”. THE LAST TANGO...  ganhou capa da Time e da Newsweek. E foi proibido em 7 países do mundo livre.

Enquanto em Paris formavam-se filas de duas horas de espera nos quarteirões em volta dos cinemas, na Itália o filme só foi lançado 3 anos depois, e mesmo assim teve as cópias confiscadas c/ uma semana de exibição. Bertolucci foi processado por obcenidade e condenado a 4 meses de prisão, sentença substituída pela cassação de seus direitos civis e políticos por 5 anos.

O pomo da discórdia foram duas cenas de sexo anal. Em uma, Paul pede a Jeanne que lhe dê uma dedada e prometa “fazer sexo como um porco”; na outra, ele a sodomiza usando manteiga como lubrificante, enquanto diz: “Vou te contar segredos de família, essa sagrada instituição que pretende incutir virtude em selvagens. Repita o que vou dizer: Sagrada família, teto de bons cidadãos. Diga! As crianças são torturadas até mentirem. A vontade é esmagada pela repressão. A liberdade é assassinada pelo egoísmo. Família, porra de família!

Foi humilhante”, diria Maria Schneider anos depois. Ela é Jeanne. “Eu deveria ter chamado meu agente ou meu advogado ao set, porque não se pode forçar alguém a fazer algo que não esteja no roteiro, mas na época, eu não sabia disso. Marlon me disse: -Maria, não se preocupe, é só um filme! Mas durante a famosa cena, mesmo que ele não estivesse me possuindo realmente, eu me senti humilhada e as minhas lágrimas eram verdadeiras. Me senti estuprada, tanto por Brando quanto por Bertolucci. Após a cena, Marlon não me consolou nem se desculpou. Felizmente, gravamos só um take!

Maria tinha 19 anos quando estreou no cinema, protagonizando um filme de alcance mundial que abordava tão delicado tema. Ela ainda faria Profissão: Repórter, de Antonioni, em 75, A Mais Velha Profissão do Mundo em 79 e Merry-Go-Round em 81, mas Jeanne jamais a abandonou. P/ ela, O ÚLTIMO TANGO... havia arruinado sua vida e era seu único arrependimento. Chamava Bertolucci de “gangster e cafetão”. O próprio Brando também admitiria que se “sentia completamente e interiormente violado por ele” e que jamais faria “outro filme como aquele”.

Na década de 80, Schneider se afundou no pó e tentou o suicídio. Atuou em 50 filmes ao longo da carreira, mas sempre será lembrada pela cena da manteiga. Ganhou uma estrela na Calçada da Fama em 2004, no entanto passou os últimos anos deprimida e morreu sozinha, dia 03 de fevereiro, sem deixar filhos. Tinha 58 anos. No dia seguinte, 04/02, morreria Tura Satana, aos 72.

Estamos na 3ª Onda do feminismo, segundo Humm & Walker. As mulheres não só votam como são presidentes, apesar de ainda ganharem menos do que os homens no mercado de trabalho. Irônico que duas representantes tão icônicas dos anos 60 e 70 tenham ido embora praticamente juntas. O fim de uma era.

Maria Schneider, ainda ninfeta, interpretou uma mulher que se entregava aos seus desejos, e acabou morrendo traumatizada por uma encenação. Tura Satana teve uma vida digna de literatura ‘pulp’, mas nunca se abalou c/ as vicissitudes e deixou sua marca como uma garota sensual e dura na queda. “Sempre acreditei no trabalho e construí meu caminho neste mundo”, escreveu ela em seu site: “Fui enfermeira, assistente social, guarda-costas, dançarina, atriz e fêmea fatal. Hoje eu sou viúva e tenho filhas maravilhosas.

Em 1973, Tura foi baleada por um ex-namorado. Abandonou o cinema e tornou-se enfermeira no Firmin Deloos Hospital. Em 1981, fraturou a coluna em um acidente de carro. Durante 2 anos, passou por 17 operações. Arrumou emprego de despachante na polícia e casou c/ um oficial. Permaneceram juntos até a morte dele, no ano 2000. Seu amigo Russ Meyer morreria em 2004, aos 82 anos, de pneumonia, após uma aposentadoria tranqüila.

Tura teve tudo p/ um triste fim, e embora tenha ganho muitos quilos nas últimas décadas, sempre manteve o sorriso, tirando os problemas de letra. Em 94 ganhou o prêmio Lifetime Femme Fatale e seu legado permanece entre a nova geração, seja no clip de I Dig You da banda Boss Hog, da guitarrista Cristina Martinez [casada c/ Jon Spencer, que também toca c/ ela], inspirado em Faster, Pussycat! Kill! Kill!, ou batizando um grupo de heavy metal liderado por uma garota, Tairrie B. – que montou a My Ruin após o fim da Tura Satana, a banda.

Dizzy Queen, roqueira capixaba que acaba de vencer o concurso da Levi’s FM e vai cobrir o festival South by Southwest nos EUA, dá a dimensão da influência de Satana p/ as ‘riot grrrls’ atuais: “Ela é um ícone. Em 65 desempenhou um papel que mostrava que mulher também tem força, sexualidade, independência e maldade. Diria que filmes do Tarantino como Kill Bill e Death Proof têm essa vibe do FASTER, PUSSYCAT!... Na vida real também foi uma mulher c/ muita garra. Aceitou esse papel numa época muito mais machista que hoje. Ainda mais usando aquele decote todo!
  
BRA-BURNING
NO SÉC.XIX AS SUFRAGISTAS JÁ BOTAVAM P/ QUEBRAR
TURA, HAJI E LORI: ESSAS TRÊS LEVARAM A
EXPRESSÃO 'FEMME FATALE' A UM NOVO PATAMAR
MARIA QUESTIONA BERTOLUCCI EM 'ÚLTIMO TANGO':
-TEM CERTEZA QUE MANTEIGA É UMA BOA IDÉIA?
SCHNEIDER AOS 19 E AOS 58: DEPRIMIDA E ISOLADA
SATANA EM 65 E EM 2010: COMO DIRIA GASPAR NOE NO
FILME 'IRREVERSÍVEL', "O TEMPO DESTRÓI TUDO"
  






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